                     Lara Adrian
               O beijo da meia-noite
                                     Kiss of Midnight




MIDNIGHT BREED 01

Ele a observa atravs da multido danando no clube, um sensual estranho de cabelos escuros que
   mexe com as mais profundas fantasias de Gabrielle Maxwell. Mas nada nessa noite  ou nesse
 homem   o que parece. Porque quando Gabrielle testemunha um assassinato na sada do clube a
  realidade se transforma em algo escuro e mortal. Naquele momento crucial ela  lanada em um
  reino que nunca pensou existir  um reino onde vampiros andam nas sombras e uma sangrenta
                                     guerra est para comear.
        Lucan Thorne despreza a violncia cometida pelos seus irmos sem leis. Ele mesmo  um
vampiro, Lucan  um guerreiro da Raa (Breed), que jurou proteger seu povo  e os humanos, que
nem tm conscincia da ameaa dos Rebeldes(Rogues). Lucan no pode se arriscar a se unir a uma
mortal, mas quando Gabrielle se torna alvo de seus inimigos, ele no tem escolha a no ser traz-la
para o escuro submundo que comanda. Aqui, nos braos do formidvel lder da Raa, Gabrielle se
              confrontar com um extraordinrio destino de perigo, seduo e desejos...
                                                                                     Midnight Breed 01




     Disponibilizao/Traduo /Formatao: Gisa
                  Reviso: Lu Avano
            Reviso Final: Karina Tonelly
           PROJETO REVISORAS TRADUES




     Gabrielle Maxwell, uma reconhecida artista de Boston, celebra o xito de sua ltima exposio
exclusiva aps o expediente da cidade. Entre a acalorada multido, sente a presena de um sensual
desconhecido que desperta nela as fantasias mais profundas. Mas nada relacionado com essa noite nem
com esse homem resulta ser o que parece.  sada, Gabrielle presencia um assassinato e, apartir desse
momento, a realidade se converte em algo escuro e mortfero, entrando em um submundo que nunca
soube que existia, habitado por vampiros urbanos.

     Lucan Thorne  um vampiro, um guerreiro da Raa, que nasceu para proteger aos seus, assim
como aos humanos existente em uma vida paralela  dele, da crescente ameaa dos vampiros renegados.
Lucan no pode arriscar-se a unir-se a uma humana, mas quando Gabrielle se converte no alvo de seus
inimigos, no tem mais opo que levar-lhe a esse outro mundo que ele lidera, no qual sero devorados
por um desejo selvagem e insacivel.




        Para o John, cuja f em mim nunca vacilou, e cujo amor, espero, nunca se desvanecer.
                                                                                 Lara Adrian




                                                                                                    2
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     Prlogo



     Vinte e sete anos atrs

     Sua menina no deixava de chorar. Tinha comeado a mostrar-se inquieta na ltima
estao, quando o nibus do Grayhound a Bangor se deteve no Portland para recolher a mais
passageiros. Agora, um pouco depois da uma da madrugada, quase tinham chegado  estao
de Boston e essas duas horas que levava tentando tranqilizar a sua garotinha a estavam, tal e
como diriam seus amigos da escola, tirando de suas casinhas.
       O homem que se encontrava no assento do lado provavelmente tampouco estava muito
contente.
       --Sinto muito --lhe disse ela, dirigindo-se para lhe falar pela primeira vez desde que
tinham subido ao nibus.
     -- Normalmente no tem to mau humor.  a primeira viagem que fazemos juntas.
Suponho que tem vontades de chegar ao seu destino.

       O homem fechou os olhos e os abriu lentamente, em um gesto de assentimento, e sorriu
sem mostrar os dentes.
     --Aonde se dirigem?
       --A Nova Iorque.
       --Ah. A Grande Ma --murmurou ele. Sua voz soava seca, quase afogada.
     -- Tem voc famlia ali ou algo?
       Ela negou com a cabea. A nica famlia que tinha se encontrava em um povo
provinciano perto do Rangeley, e lhe tinham deixado claro que tinha que arrumar-se por si
mesma.
       --Vou por trabalho. Quero dizer, que espero encontrar trabalho. Desejo ser bailarina.
Possivelmente na Broadway, ou ser uma das Rockette.
       --Bom, certamente voc  muito bonita.
       O homem a olhava fixamente agora. O nibus estava escuro, mas lhe pareceu que
havia algo estranho em seus olhos. Outra vez o mesmo sorriso tenso.
       --Com um corpo como o que tem, teria que ser voc uma grande estrela.
       Ela se ruborizou e baixou o olhar at o beb que chorava em seus braos. Seu
namorado do Maine tambm tinha por costume lhe dizer coisas como essa. Ele estava
acostumado a dizer muitas coisas para levar-lhe ao assento traseiro do carro. E j no era seu
namorado, tampouco. No do ltimo ano do instituto, quando ela comeou a engordar por
causa da gravidez.
       Se no o tivesse deixado para ter  menina, teria se graduado no vero.

       --Comeu algo hoje? --perguntou-lhe         o homem enquanto o nibus reduzia a
velocidade e entrava na estao de Boston.
     --A verdade  que no.



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         Apesar de que no servia de nada, ela balanava  menina entre os braos. O beb
tinha o rosto avermelhado, os pequenos punhos apertados e chorava como se acabasse o
mundo.
         --Que coincidncia --disse o desconhecido.
        -- Eu tampouco no comi nada. Iria bem tomar algo. Anima-se a me acompanhar?
      --No. Estou bem. Tenho umas bolachas salgadas na bolsa. E de todas maneiras,
acredito que este  o ltimo nibus para Nova Iorque esta noite, assim no vou ter tempo de
fazer grande coisa mais que trocar a menina e descansar. Obrigado, de toda forma.
         Ele no disse nada mais. Simplesmente a observou enquanto ela recolhia suas coisas
agora que o nibus j tinha parado em sua plataforma. Logo se apartou para deix-la passar e
dirigir-se para a estao.
         Quando saiu dos lavabos, o homem a estava esperando.
         Ela sentiu certa intranqilidade ao lhe ver ali em p. No lhe tinha parecido to alto
enquanto estava sentado ao seu lado. Agora que lhe via outra vez, deu-se conta de que
definitivamente havia algo muito estranho em seus olhos. Estaria um pouco colocado?
        --O que acontece?
     Ele soltou uma risada afogada.
       --J o disse. Preciso me alimentar.
        Essa era uma forma muito estranha de diz-lo.



        Ela se deu conta de que havia muito poucas pessoas na estao A essa hora tardia.
Tinha comeado a chover ligeiramente, o cho estava molhado e os ltimos atrasados se
puseram ao coberto. O nibus estava esperando na plataforma enquanto carregava aos novos
passageiros com suas bagagens. Mas para chegar at ele, tinha que passar primeiro por seu
lado.
        Encolheu-se de ombros, muito cansada e ansiosa para ter que encontrar-se com essa
tolice.
        --Bom, pois se tiver fome, v dizer-o no MacDonald'S. Chego tarde ao nibus.
      --Olhe, puta...
        Moveu-se com tanta rapidez que ela no soube com o que a tinha golpeado. Estava em
p a um metro dela e ao cabo de um segundo lhe tinha posto a mo no pescoo e lhe cortava a
respirao. Empurrou-a at as sombras do edifcio da estao, para um ponto onde ningum
se daria conta se ia ataca-la. Ou a lhe fazer algo pior. Aproximou-lhe tanto a boca que ela
notava o fedor de seu flego. Ele fez uma careta, ameaou em um sussurro terrorfico e ela viu
uns dentes afiados.
        --Se disser uma palavra mais ou move um s msculo, comerei seu suculento
coraozinho de menina mimada.
        Sua garotinha estava gemendo entre seus braos, mas ela no disse nenhuma palavra.
        Nem sequer se atrevia a pensar em mover-se.
        Quo nico importava era sua menina. Proteg-la. Por isso no se atreveu a fazer nada
nem sequer quando esses dentes se aproximaram dela e lhe cravaram no pescoo.
        Ficou em p gelada pelo terror, apertando com fora ao beb enquanto seu atacante
penetrava com fora na ferida sangrenta que lhe tinha feito no pescoo. Sujeitava-lhe a cabea
e o ombro com dedos fortes, suas unhas lhe cravavam como as garras de um demnio. Ele

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grunhia sem deixar de fincar cada vez com mais fora os afiados dentes. Apesar de que tinha
os olhos abertos pelo terror, sua viso comeava a obscurecer-se e as idias comeavam a
resultar confusas, como se rompessem em pedaos. Tudo ao seu redor comeava a nublar-se.

        Estava-a matando. O monstro a estava matando. E logo ia matar a sua menina,
tambm.
        --No. --Tentou inalar, mas somente tragou sangue.
       -- Maldito seja... No!
        Com um desesperado esforo de vontade, deu um cabeada contra o rosto de seu
atacante. Ele soltou um grunhido, apartou-se, surpreso, e ela conseguiu soltar-se. separou-se
dele, cambaleando, esteve a ponto de cair sobre suas pernas mas conseguiu endireitar-se. Com
um brao sujeitava a sua menina e com o outro se cobriu a ferida mida e quente da garganta
enquanto se afastava devagar dessa criatura, que levantava a cabea e a olhava, zombador,
com os olhos amarelados e brilhantes e os lbios manchados de sangue.
        --OH, Deus --gemeu, enjoada ante essa viso.
        Deu outro passo para trs. Deu a volta e se disps a correr, embora fora intil.
        E ento foi quando viu o outro.
        Um ferozes olhos de cor mbar a atravessaram, e por entre umas grandes e brilhantes
presas soou um assobio que anunciava a morte. Ela pensou que ia correr contra ela e terminar
o que o outro havia comeado, mas no o fez. Cuspiram uns sons guturais entre eles, e logo o
recm-chegado passou por seu lado com uma comprida faca na mo.
      Agarra  menina e vai.
        A ordem pareceu surgir de um nada e atravessar a neblina de sua mente. Voltou a
ouvi-la, esta vez mais urgente, empurrando-a  ao. Correu.

        Cega de pnico, atordoada pelo medo e a confuso, afastou-se Correndo da estao
atravessando uma das ruas mais prximas. Penetrou na cidade desconhecida, na noite. A
histeria a possua e cada rudo, inclusive o de seus ps contra o cho, parecia-lhe monstruoso
e mortfero.
        E sua menina no deixava de chorar.
        As iam descobrir se no conseguia que sua menina se tranqilizasse. Tinha que coloc-
la na cama, tinha que p-la no bero clida e acolhedora. Ento sua menina estaria contente.
Ento estariam a salvo. Sim, isso era o que tinha que fazer. Pr  menina na cama, onde os
monstros no poderiam encontr-la.
       Estava cansada, mas no podia descansar. Muito perigoso. Tinha que chegar a casa
antes de que sua me se desse conta de que outra vez tinha sado to tarde. Estava confusa,
desorientada, mas tinha que correr. E isso fez. Correu at que caiu, exausta e incapaz de dar
um passo mais.
       Ao despertar, ao cabo de um momento, sentiu que sua mente se partia como algum
quebrasse um ovo. A prudncia a estava abandonando, a realidade se deformava e se
convertia em um pouco cada vez mais escuro e escorregadio, afastava-se cada vez mais de
seu alcance.
       Ouviu um choro afogado que procedia de algum lugar, na distncia. Um som to
insignificante. Levou-se as mos aos ouvidos e os cobriu, mas continuava ouvindo esse
pequeno uivo de desvalia.

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      Shhh --murmurou, a ningum em especial, balanando-se para frente e para trs.
     -- Te cale agora, a menina est dormindo. Te cale, te cale, te cale...
      Mas o choro continuava. No cessava, no cessava. Rompia-lhe o corao, ali, sentada
na imunda rua enquanto olhava, sem ver nada, a luz do amanhecer.



     Captulo um

     Na atualidade
      --Impressionante. Note no uso da luz e das sombras...
        --V como esta imagem sugere a tristeza do lugar e como, apesar disso, consegue
oferecer uma promessa de esperana?
        --... uma das fotgrafas mais jovens que vo incluir na nova coleo de arte moderna
do museu.
        Gabrielle Maxwell estava separada do grupo de assistentes da exposio e sorvia uma
taa de champanha quente enquanto outro grupo de personagens importantes de rostos
annimos se mostrava entusiasmado pelas duas dzias de fotografias em preto e branco que
penduravam das paredes da galeria. Jogou uma olhada s fotografias do outro extremo da
habitao, divertida em certa maneira. Eram boas fotografias, um pouco inquietantes dado
que o tema eram moinhos abandonados e desolados estaleiros dos subrbios de Boston, mas
no conseguia ver o que todo mundo via nelas.
        Mas nunca o via. Gabrielle, simplesmente, fazia as fotografias, e deixava sua
interpretao e, ao fim, sua valorao aos outros. Introvertida por natureza, o fato de receber
tantos elogios e tanta ateno a incomodava... mas lhe permitia pagar as faturas. E muito bem,
de fato. Essa noite tambm pagava as faturas de seu amigo Jamie, o proprietrio da moderna e
pequena galeria de arte do Newbury Street que, agora que faltavam dez minutos para a hora
de fechamento, ainda estava repleta de possveis compradores.
        Atordoada depois de todo o processo de dar a bem-vinda e de saudar e de sorrir
educadamente a toda essa gente que, desde as enriquecidas esposas do Back Bay at os gticos
tatuados e carregados de piercings, tratava de impressionar mutuamente --a ela-- com as
anlise de seu trabalho, Gabrielle no podia esperar a que a inaugurao terminasse. Tinha
estado escondida entre as sombras durante a ltima hora, pensando em escorrer-se at a
comodidade da ducha quente e da amaciado travesseiro de seu apartamento ao leste da
cidade.

        Mas lhes tinha prometido a uns quantos amigos --Jamie, Kendra e Megan-- que iria
com eles para jantar e a tomar uma taa depois da inaugurao. Quando o ltimo casal de
visitantes teve feito sua compra e partiu, Gabrielle se encontrou com que a arrastavam fora e a
metiam em um txi antes de ter tido a oportunidade de pensar em uma desculpa.
        --Que noite to incrvel! --O cabelo loiro do andrgino do Jamie lhe caiu sobre o rosto
quando se inclinou por diante das duas mulheres para tomar a mo de Gabrielle.
      -- Nunca houve tanto trfico na galeria em um fim de semana... e as vendas desta noite
foram impressionantes ! Agradeo-te muito que me tenha permitido te exibir.
        Gabrielle sorriu ante a excitao de seu amigo.
        -- obvio. No faz falta que me d obrigado.

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       --No foi to mal, verdade?
       --Como poderia hav-lo passado mau, se a metade de Boston est aos seus ps? --
disse Kendra antes de que Gabrielle pudesse responder.
     -- Era o governador com quem te vi falar enquanto tomava uns canaps?
     Gabrielle assentiu com a cabea.
       --Ofereceu-se a encarregar alguns originais para sua casa de campo do Vineyard.
     --Que amvel!
       --Sim --reps Gabrielle sem muito entusiasmo. Tinha um monto de cartes de visita
no bolso, o qual representava pelo menos um ano de trabalho constante, se o queria. Ento,
por que sentia a tentao de abrir a janela do txi e lanar ao vento?

        Deixou vagar o olhar para a noite, fora do carro, e observou com estranha indiferena
as luzes e quo vistas este deixava atrs. As ruas estavam repletas de gente: casais que
caminhavam de mo, grupos de amigos que riam e conversavam, todos eles passavam um
bom momento. Acenavam nas mesas de fora dos restaurantes de moda e se detinham a
contemplar as vitrines das lojas. L onde olhasse, a cidade pulsava com toda sua cor e sua
vida. Gabrielle absorvia tudo com olhos de artista e, apesar disso, no sentia nada. Essa
exploso de vida, tambm da sua, parecia continuar rapidamente para frente sem ela.
Ultimamente, e cada vez mais, tinha a sensao de estar apanhada em uma roda que no
deixava de faz-la girar em um ciclo interminvel de tempo que passava sem um propsito
claro.
        --Passa algo, Gab? --perguntou-lhe Megan, ao seu lado, no assento traseiro do txi.
         -- Est muito calada.
     Gabrielle se encolheu de ombros.
        --Sinto muito. S... no sei. Estou cansada, suponho.
        --Que algum convide a esta mulher a uma taa... imediatamente!
        -- brincou Kendra, a enfermeira de cabelo escuro.
        --No --replicou Jamie, matreiro e felino.
     -- O que nossa Gab necessita de verdade  um homem.  muito sria, carinho. No 
bom que deixe que o trabalho te consuma desta maneira. Te divirta um pouco! Quando te
deitou com algum pela ltima vez?
        Fazia muito tempo, mas Gabrielle no levava a conta. Nunca lhe tinham faltado os
encontros quando as tinha desejado, e o sexo --nessas estranhas ocasies em que o tinha--
no era uma coisa que a obcecasse como a alguns de seus amigos. Por falta de prtica que
tivesse nesses momentos nessa rea, no acreditava que um orgasmo fosse a curar para aquilo
que, fosse o que fosse, provocava-lhe esse estado de inquietao.
       --Jamie tem razo, j sabe --estava dizendo Kendra.
        -- Tem que te soltar, fazer alguma loucura.

       --No h momento melhor que o presente --acrescentou Jamie.
     --OH, no acredito --disse Gabrielle, negando com a cabea.
     -- A verdade  que no tenho vontades de alargar muito a noite, meninos. As inau-
guraes sempre me tiram muita energia e...
       --Chefe. --Sem lhe fazer caso, Jamie se colocou no bordo do assento e deu uns
golpezinhos no vidro que separava ao taxista dos passageiros.

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     -- Mudana de planos. Decidimos que temos vontades de ir de celebrao, assim
cancelamos o restaurante. Queremos ir aonde vai a gente interessante e moderna.
       --Se gostarem das salas de baile, tm aberto uma nova no extremo norte da cidade --
disse o taxista, sem deixar de mascar o chiclete enquanto falava.
        -- Estive levando passageiros ali toda a semana. A verdade  que levei a duas esta
mesma noite... um moderno aps o expediente chamado A Notte.

        --OH, OH, a notte --brincou Jamie, olhando divertido por cima do ombro e
arqueando as elegantes retrocede.
      -- Sonha maravilhosamente vicioso, garotas. Vamos!
        A discoteca, A Notte, encontrava-se em um edifcio vitoriano que se conhecia fazia
muito tempo como a igreja do Saint John's Trinity Parish e que devido aos recentes escndalos
sexuais que salpicavam a alguns sacerdotes, a arquidiocese de Boston conseguiu que fosse
fechado, como que outros muitos lugares similares em toda a cidade. A hora, enquanto
Gabrielle e seus amigos se abriam passo pela sala abarrotada, essas vigas albergavam a msica
transe e tecno que soava, estridente, pelos alto-falantes enormes que rodeavam a cabine do dj,
no balco que se encontrava sobre o altar. Umas luzes estroboscpicas, brilhos contra as trs
vidraas com forma de arco. Os raios de luz atravessavam a densa nuvem de fumaa que
pendia no ar, e piscavam ao ritmo de um tema que parecia interminvel. Na pista de baile, e
quase em cada um dos metros quadrados do piso principal de A Notte e da galeria que o
rodeava, as pessoas se apertavam e se retorciam com uma sensualidade inconsciente.

        --A Santa festa! --gritou Kendra para fazer-se ouvir por cima da msica enquanto
levantava os braos e avanava danando por entre a densa multido.
        No tinham acabado de cruzar por onde se encontrava o primeiro grupo de gente
quando um menino magro abordou  valente morena e se inclinou para lhe dizer algo ao
ouvido. Kendra soltou uma profunda gargalhada e asentiu com a cabea com gesto
entusiasmado.
        --O menino quer danar---riu, dando a bolsa a Gabrielle.
        -- Quem sou eu para me negar!
        --Por aqui --disse Jamie, assinalando uma pequena mesa prxima a barra, enquanto
sua amiga se afastava com seu acompanhante.
        Os trs se sentaram e Jamie pediu uma rodada. Gabrielle escrutinou a pista de baile em
busca da Kendra, mas a nuvem de gente a tinha engolido. Apesar de que a sala estava
abarrotada de gente, Gabrielle no podia acalmar-se de cima uma repentina sensao de que
estavam sentados no centro de ateno. Como se estivessem de algum jeito de baixo de uma
estreita vigilncia pelo simples feito de encontrar-se na sala. Era absurdo pensar isso.
Possivelmente tinha estado trabalhando muito, ou tinha passado demasiado tempo s em
casa, j que encontrar-se em um lugar pblico a fazia sentir to consciente de si mesmo. To
paranica.
        --Pela Gab! --exclamou Jamie, fazendo-se ouvir pesar do estrondo da msica
enquanto levantava o copo de Martini em um gesto de brinde.
      Megan tambm levantou o seu e brindou com Gabrielle.
      --Felicidades pela grande inaugurao desta noite.
      --Obrigado, meninos.

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       Enquanto sorvia a mescla de uma cor amarela non, a sensao de ser observada
voltou. Ou, melhor dizendo, aumentou. Sentiu que a olhavam do outro extremo da escurido.
Levantou a vista por cima do bordo do copo do Martini e percebeu o brilho das luzes
estroboscpicas em uns escuros culos de sol.

        Uns culos que escondiam um olhar que, sem dvida, encontrava-se fixo nela do outro
extremo da multido.
        Os rpidos pulsos das luzes mostraram uns rasgos afiados entre as escuras sombras,
mas o olho de Gabrielle o captou ao segundo. O Cabelo lhe caa, solto, em mechas bicudas por
cima de uma frente ampla e inteligente e sobre uns mas do rosto angulosas. Uma mandbula
forte e de risco severo. E sua boca... sua boca era generosa e sensual, incluso apesar de que
desenhava um sorriso cnico, quase cruel.
        Gabrielle apartou a vista, nervosa, e sentiu uma onda de calor nas pernas. Seu rosto
ficou como gravado a fogo na mente durante um instante, como uma imagem se grava em um
filme. Deixou a taa em cima da mesa e se atreveu a olhar outra vez para onde se encontrava
ele. Mas j no estava.
        Ao outro extremo da barra se ouviu um forte estrondo e Gabrielle girou a cabea para
olhar por cima do ombro. Em uma das povoadas mesas, o lcool se precipitava ao cho de um
monto de cristais quebrados que cobriam a superfcie laqueada de negro. Cinco tipos
vestidos com couro negro tinham uma discusso com outro tipo que levava uma camiseta sem
mangas dos Dead Kennedys e um jeans gasto e rasgados. Um dos caras que vestia de couro
negro tinha um brao sobre os ombros de uma loira platinada que estava bbada e que parecia
conhecer punki. Seu namorado, ao parecer. Ele quis tomar  garota pelo brao, mas lhe
apartou com um golpe e inclinou a cabea a um lado para permitir que um dos caras detrs a
beijasse no pescoo. Ela olhava desafiante a seu namorado, furioso, sem deixar de brincar com
o cabelo castanho do tipo que parecia pego a sua garganta.
        --Isto se atou --disse Megan, voltando-se no momento em que a situao parecia
complicar-se mais.
        --Parece que sim --acrescentou Jamie enquanto terminava o Martini e fazia um gesto
a um garom para que lhes trouxesse outra rodada.
      --  bvio que a mame dessa idiota esqueceu de lhe dizer que no convm partir sem o
menino com quem veio.

       Gabrielle observou a situao um momento mais, o tempo suficiente para ver que
outro cara de couro se aproximava da garota e a beijava nos lbios, que lhe oferecia. Ela
aceitou a ambos ao mesmo tempo, enquanto acariciava o cabelo escuro do tipo que a beijava
no pescoo e o cabelo claro do tipo que lhe chupava os lbios como se fosse a comer-lhe viva.
O namorado punki lhe gritou uns insultos  garota, deu-se meia volta e se abriu passo a
empurres por entre a multido.
     --Este lugar me est enervando--confessou Gabrielle que, justo nesse momento,
acabava de ver alguns clientes da sala preparando-se sem dissimulao umas raias de coca em
um extremo da larga barra de mrmore.
       Seus amigos pareceram no ouvi-la por causa do constante estrondo da msica.
Tampouco pareciam compartilhar o desconforto de Gabrielle. Havia alguma coisa que no ia
bem ali dentro, e Gabrielle no podia tirar-se de cima a sensao de que, ao final, a noite ia

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ficar feia. Jamie e Megan comearam a conversar de grupos de msica locais e deixaram a
Gabrielle sozinha, sorvendo o copo de Martini e esperando, ao outro extremo da mesa,
encontrar a oportunidade de dar uma desculpa e partir.
        Sentindo-se basicamente sozinha, Gabrielle deixou vagar o olhar pela massa de cabeas
oscilantes e corpos ondulantes, procurando dissimuladamente esses olhos depois dos culos
de sol que a tinham observado antes. Estaria ele com esses tipos... seria um dos motoqueiros
que estavam provocando todo essa baderna? Ele ia vestido como eles, e tinha o mesmo aspec-
to perigoso que tinham eles.
      Fora quem fosse, Gabrielle no via nem rastro dele nesse momento .
        Recostou-se no respaldo da cadeira e, de repente, deu um coice ao sentir que umas
mos se posavam sobre seus ombros de detrs.
        --Aqui esto! Meninos, estive-lhes procurando por toda parte! -- exclamou Kendra,
quase sem flego mas animada ao mesmo tempo, enquanto se inclinava sobre a mesa.
      -- Vamos. consegui uma mesa para todos ao outro extremo da sala. Brent e alguns de
seus amigos querem vir de festa conosco.

     --Bom !
     Jamie j se ps em p, preparado para ir. Megan agarrou o novo copo do Martini com
uma mo e com a outra, a mo da Kendra. Ao ver que Gabrielle no se movia para lhes seguir,
Megan se deteve
       --Vem?
       --No. --Gabrielle ficou em p e se pendurou a bolsa do ombro.
     -- Vo vocs e divirtam-se. Eu estou esgotada. Acredito que vou procurar um txi e vou
direto para casa.
       Kendra a olhou fazendo uma cara infantil.
     --Gab, no pode ir!
       --Quer que te acompanhe a casa? --ofereceu-se Megan, Apesar de que Gabrielle se
dava conta de que desejava ficar com outros.
       --Estou bem. Desfrutem, mas vo com cuidado, de acordo?
       --Seguro que no te quer ficar? Outra taa, somente?
       --No. De verdade que preciso sair e tomar um pouco de ar.
       --Voc mesma, ento --lhe disse Kendra, fingindo brig-la. aproximou-se e lhe deu um
rpido beijo na bochecha. Quando se apartou, Gabrielle notou um ligeiro aroma de vodca e,
por debaixo deste, um aroma de alguma coisa menos evidente. Alguma coisa almiscarada, e
estranhamente metlica.
       --  uma desmancha-prazeres, Gab, mas te quero.
       Kendra lhe piscou um olho e passou os braos pelos ombros do Jamie e Megan. Com ar
brincalho atirou de ambos em direo  massa de gente que bulia na sala.
       --Me chame amanh --lhe disse Jamie por cima do ombro enquanto o trio era engolido
pela massa.

       Gabrielle iniciou imediatamente o caminho para a porta de sada, ansiosa por sair dali.
Quanto mais tempo passava ali dentro, mais parecia subir o volume da msica. Sentia-a
retumbar na cabea e o fazia difcil pensar com claridade. Custava-lhe fixar-se no que havia ao
seu redor. As pessoas a empurravam desde todos os lados enquanto ela tentava abrir-se passo,

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apertando-se contra a parede de corpos que se expremia e giravam sem deixar de danar.
Empurraram-na e a apertaram, tocaram-na e a manusearam mos invisveis na escurido, at
que, finalmente, chegou ao vestbulo, diante da entrada da sala e conseguiu sair atravessando
a pesada porta dupla.
        A noite era fria e escura. Inalou com fora, tentando limpar a cabea de todo o rudo e
a fumaa e o inquietante ambiente de La Notte. A msica ainda se ouvia a fora, e as luzes
estroboscpicas ainda cintilavam do outro lado das vidraas de cores, mas Gabrielle se relaxou
um pouco agora, ao sentir-se livre.
        Ningum lhe prestou ateno enquanto se apressava para a esquina e esperava
encontrar um txi. S havia umas quantas pessoas fora, algumas delas caminhavam pela outra
calada e outras subiam em fila pelos degraus de cimento que conduziam ao salo de baile.
Detectou um txi amarelo que se dirigia para ali e levantou a mo para cham-lo.
     --Txi!
     Enquanto o txi vazio atravessava o trfico noturno e se aproximava para ela, as portas
da discoteca se abriram com a fora de um furaco.
        --N, cara! Que merda faz! --Nas escadas, detrs de Gabrielle, a voz de um homem
soava atemorizada.
       -- Se voltar a me tocar, vou a...
        --Vai a que? --repreendeu outra voz em tom provocador, grave e ameaadora,
acompanhada de um coro de risadas.
        --Sim, venha, punki de merda. O que vais fazer?



        Gabrielle, que j tinha a mo no atirador da porta do txi, girou a cabea meio
alarmada e atemorizada pelo que ia ver. Tratava-se da turma do clube, os motoristas ou o
que fossem, vestidos com couro negro e culos de sol. Os seis rodeavam ao namorado punki
como se fossem uma manada de lobos e lhe davam empurres por turnos, jogando com ele
como se fosse sua presa.
        O menino tentou lhe dar um murro a um deles e falhou, e a situao piorou em um
abrir e fechar de olhos.
        De repente, a briga se aproximou aonde estava Gabrielle. A turma de idiotas empurrou
ao punki contra o cap do txi e comearam a dar lhe murros no rosto. Do nariz e a boca do
menino saram disparadas gotas de sangue e algumas delas mancharam a Gabrielle. Ela deu
um passo para trs, aniquilada e horrorizada. O menino se debatia para escapar, mas seus
atacantes lhe sujeitavam e lhe golpeavam com uma furia que a Gabrielle resultava difcil de
compreender.
        --Fora do fodido carro! --gritou o taxista pelo guich aberto.
      -- Deus santo! Vai a outra parte! Ouvem-me?
        Um dos assaltantes girou a cabea para o taxista, dirigiu-lhe uma horrivel sorriso e
propin um forte murro no pra-brisa, que se rompeu em mil pedaos. Gabrielle viu que o
taxista se benzia e que murmurava umas palavras inaudveis, dentro do carro. Ouviu-se a
mudana de marchas e logo o chiado agudo das rodas no mesmo momento em que o txi fez
marcha atrs para tirar-se de cima a carga do cap.
        --Espere! --gritou Gabrielle, mas era muito tarde.


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       O transporte a casa e a possibilidade de fugir dessa cena brutal hvia desaparecido.
Com o medo lhe apertando a garganta, observou ao taxi que se afastava a toda velocidade
pela rua e cujas luzes desapareceram na noite.
       Na esquina, os seis motoristas no mostravam nenhuma compaixo por sua vtima:
estavam to concentrados em deixar inconsciente ao punki a base de golpes que no
prestaram ateno a Gabrielle.

       Ela se deu a volta e subiu correndo as escadas at a entrada de La Notte enquanto
rebuscava o celular no bolso. Encontrou o magro aparelho e o abriu. Enquanto abria as portas
da sala e entrava correndo no vestbulo, marcou o 911, atendida pelo pnico. Por cima do
estrondo da msica, das vozes, alm do zumbido som de seu prprio corao, Gabrielle
somente ouviu o som de espera do outro lado do fio telefnico. Apartou-se o telefone do
ouvido...
     No h sinal.
       --Merda!
       Voltou a marcar o 911, sem sorte.
        Correu para a zona principal da sala, gritando, desesperada-se, no meio do rudo.
       --Por favor, que algum me ajude! Necessito ajuda!
        Ningum parecia ouvi-la. Golpeou s pessoas nos ombros, atirou das mangs e esteve
a ponto de lhe sacudir o brao a um tipo tatuado com pinta de militar, mas ningum lhe
prestou ateno. Nem sequer a olharam. Simplesmente continuaram danando e conversando
como se ela nem sequer se encontrasse ali.
     Era um sonho? tratava-se de alguma perverso pesadelo na qual ela era quo nica tinha
visto os atos de violncia que aconteciam ali fora?
        Gabrielle desistiu de tentar chamar a ateno dos desconhecidos e decidiu procurar a
seus amigos. Enquanto se abria passo atravs da escura sala, continuava marcando a tecla de
rechamada, rezando para conseguir cobertura. No conseguiu chamar e logo se deu conta de
que tampouco ia encontrar a Jamie e aos outros em meio dessa massa de gente.
        Frustrada e confundida, correu de volta  entrada do clube.



      Possivelmente pudesse deter um motorista, encontrar a um policial, algo!
       O ar gelado da noite a golpeou assim que abriu as pesadas portas e saiu fora de novo.
Baixou correndo o primeiro lance de escadas, resfolegando, insegura de com o que ia se
encontrar: uma mulher s contra seis membros de uma turma que possivelmente estivessem
drogados. Mas no lhes viu.
        Foram-se.
        Um grupo de clientes da sala subiam as escadas animadamente. Um deles fazia como
que tocava um violo e seus amigos falavam de ir a alguma outra festa rave mais tarde.
        --N --chamou Gabrielle, quase esperando que aconteceriam comprido. Mas se
detiveram e lhe sorriram Apesar de que, seus vinte e oito anos, era quase uma dcada mais
velha que eles.
        O menino que partia  frente do grupo a saudou com um gesto de cabea.
     -Sim?


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         --Algum de vocs...? --duvidou um momento, sem saber se deveria sentir-se aliviada
ao dar-se conta de que, depois de tudo, no se tratava de um sonho.
       -- Algum de vocs viu a briga que havia aqui faz uns minutos?
         --Havia uma briga? Impressionante! --disse o lder do grupo.
         --No, tia --reps outro--. Acabamos de chegar. No vimos nada.
         Passaram por seu lado e subiram o resto de escadas enquanto Gabrielle se perguntava
se estava comeando a perder a cabea. Caminhou at a esquina. Havia sangue no cho, mas o
punki e seus agressores hvam desaparecido.

        Gabrielle ficou em p debaixo de uma luz e se esfregou os braos para tirar o frio do
corpo. Deu-se a volta e olhou a ambos os lados da rua, procurando alguma sinal da violncia
da que tinha sido testemunha uns minutos antes.
      Nada.
        Mas ento... ouviu-o.
        O som provinha de um estreito beco A sua direita. Flanqueado por um muro de
cimento que chegava  altura do ombro de uma pessoa e que atuava como tela acstica, uns
grunhidos quase imperceptiveis chegavam at a rua do beco quase completamente escuro.
Gabrielle no pde identificar esses sons desagradveis que lhe gelaram o sangue nas veias,
despertaram seu alarme mais instintivo e profundo e lhe puseram em tenso todos os nervos
do corpo.
        Suas pernas continuaram movendo-se. No o faziam em direo contraria  fonte
desses inquietantes sons, a no ser em direo a eles. O telefone na mo lhe pesava como se
fosse um tijolo. Caminhava prendendo a respirao. No se deu conta de que no estava
respirando at que tinha penetrado um par de passos no beco e seu olhar se posou em um
grupo de figuras que se encontrava mais adiante.
        Os valentes vestidos de couro negro e com culos de sol.
        Estavam agachados, sobre os joelhos e as mos, manuseando algo, atirando de algo. A
tnue luz que chegava da rua, Gabrielle distinguiu um farrapo de tecido no cho, ao lado do
aougue. Era a camiseta do punki, destroada e manchada.
      O dedo que Gabrielle ainda tinha sobre o teclado do celular se moveu sigilosamente para
a tecla de rechamada. Ouviu-se um calado zumbido ao outro extremo da linha e logo a voz do
telefonista da polcia rtumbou na noite como a salva de canho.
        --Novecentos e onze. Qual  sua emergncia?



        Um dos motoristas girou a cabea ao notar a repentina interrupo. Uns olhos ferozes e
cheios de dio se cravaram em Gabrielle como adagas. Tinha o rosto completamente
ensangentado. E seus dentes! Eram afiados como os de um animal: no eram dentes, a no
ser presas que apontaram para ela no momento no qual ele abriu a boca e vaiou uma palavra
de som terrvel em um idioma estranho.
        --Novecentos e onze --voltou a dizer o telefonista.
      -- Por favor, relatrio de sua emergncia.
     Gabrielle no era capaz de falar. Estava to aturdida que quase no conseguiu nem
respirar. Aproximou-se o celular ao lbios, mas no conseguiu prnunciar nenhuma palavra.
        A chamada de socorro tinha sido intil.

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       Dando-se conta disso, e aterrorizada at os ossos, Gabrielle fez a nica coisa lgica que
lhe ocorreu. Com a mo tremente, dirigiu o aparelho para a turma de motoristas sdicos e
apertou o boto de capturar imagem. Um pequeno brilho de luz iluminou o beco.
       OH, Deus. Possivelmente ainda tivesse a oportunidade de escapar dessa noite infernal.
Gabrielle apertou o boto outra vez, e outra, e outra, enquanto se retirava para trs pelo beco
em direo  rua. Ouviu o murmurio de umas vozes, ouviu uns insultos, o som de ps no
beco, mas no se atreveu a olhar para trs. Nem sequer o fez para ouvir um agudo chiado de
ao a suas costas, seguido por uns chiados de agonia e de raiva que no eram deste mundo.
       Gabrielle correu na noite impulsionada pela adrenalina e o medo e no se deteve at
que encontrou um txi na Commercial Street. Subiu a ele e fechou a porta com um forte golpe.
Resfolegava, deslocada de medo.
     --Me leve a delegacia de polcia mais prxima!
       O taxista apoiou um brao no respaldo do assento do co-piloto e se voltou para ela.
Olhou-a com o cenho franzido.

       --Est bem, senhorita?
       --Sim --reps ela automaticamente. Depois acrescentou:
       -- No. Preciso informar de...
       Jesus. Do que tinha inteno de informar? Do frenesi canibal de uma turma de
motoristas raivosos? Ou da outra explicao possvel, a qual nem sequer era muito mais
acreditvel?
     Gabrielle olhou ao taxista espectador aos olhos.
       --Por favor, depressa. Acabo de presenciar um assassinato.



     Captulo dois

      Vampiros.
      A noite estava infestada deles. Tinha contado mais de uma dzia na discoteca, a maioria
deles rondavam s mulheres meio desnuda que rebolavam danando na pista de baile, e
selecionavam entre elas, seduzindo as mulheres que apagariam sua sede essa noite. Essa era
uma relao simbitica que tinha sido de utilidade a sua raa desde fazia mais de dois mil
anos, uma convivncia pacfica que dependia da habilidade do vampiro em apagar as
lembranas dos humanos de quem se alimentava. Antes de que sasse o sol se teria derramado
uma boa quantidade de sangue, mas todos os de sua raa se esconderiam no interior de seus
escuros refgios dos arredores da cidade, e os humanos de quem tinha desfrutado dessa noite
no recordariam nada.
       Mas esse no era o caso do que aconteceu no beco ao lado da sala de festas.
       Para os seis depredadores que se abarrotaram de sangue, essa morte ilcita seria a
ltima. No eram cuidadosos dirigindo seu apetite, no se tinham dado conta de que lhes
tinham visto. No se tinham dado conta de que ele lhes tinha estado observando na discoteca,
nem de que lhes viu sair fora da janela do segundo piso da igreja reconvertida em um clube
noturno de moda.
       Estavam cegados pelo animado desejo de sangue, esse vcio que uma vez tinha sido
como uma epidemia para essa raa e que havia provocado que tantos deles se voltassem uns

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renegados. Igual a esses, que se alimentavam aberta e indiscriminadamente de quo humanos
viviam entre eles.
       Lucan Thorne no sentia uma simpatia especial pela raa humana, mas o que sentia por
esses vampiros renegados era pior ainda. Ver um ou a dois vampiros assassinos em uma s
noite rastreando uma cidade do tamanho de Boston no era algo pouco freqente. Encontrar a
vrios deles trabalhando em equipe, alimentando-se a cu descoberto como haviam feito esses,
era mais que um pequeno problema. O nmero de assassinos aumentavam outra vez e se
faziam cada vez mais fortes.

       Terei que fazer algo a respeito.
       Para Lucan, igual que para muitos outros de sua raa, cada noite representava a
obrigao de realizar uma expedio de caa com a lente de aniquilar aqueles que punham
em perigo o que a raa de vampiros lhes havia lutado tanto conseguir. Essa noite, Lucan
perseguia a suas presas sozinho, sem lhe importar que lhe superassem em nmero. Havia
esperado que a oportunidade de atacar fosse tima: quando os renegados tivessem satisfeito
esse vcio que dirigia suas mentes.
       Bbados depois de ter tomado uma quantidade de sangue muito superior a que
podiam ingerir sem riscos, tinham contnuado destroando e golpeando o corpo desse homem
jovem da discoteca, grunhindo e mordendo como se fossem uma manada de ces selvagens.
Lucan se tinha preparado para executar uma justia rpida, e o teria feito a no ser pela
repentina apario dessa mulher ruiva no escuro beco. Em um instante, ela tinha arruinado
todo seus propsitos dessa noite ao seguir aos renegados at o beco e ter desviado a ateno
de sua presa.
       Enquanto o feixe luminoso de seu telefone celular cintilava na escurido a rede, Lucan
baixou do batente da janela oculto em sombras e aterrissou no cho sem fazer nem um som.
Ao igual que os renegados, os sensveis olhos de Lucan se encontraram parcialmente cegados
por esse repentino brilho de luz na escurido. A mulher tinha disparado uma serie de vezes
enquanto fugia do aougue e esses brilhos fruto do pnico foram quo nico a salvaram da ira
de seus selvagens parentes.
       Mas enquanto que os sentidos dos outros vampiros se encontravam aturdidos e
intumescidos por causa da sede de sangue, os de Lucan estavam completamente acordados.
Tirou sua arma debaixo do casaco --uma dupla folha de ao de fio de titnio que sobressaa
de uma nica empunhadura e agitou reclamando a cabea do valento que se encontrava mais
perto dele.
        A esta seguiram dois mais. Os corpos dos mortos se retorceram ao comear a rpida
decomposio celular que convertia a massa azeda que supurava de seus corpos em cinzas.
Uns chiados selvagens encheram o beco; Lucan cortou a cabea de outro deles e, dando-a
volta, empalou a outro dos renegados pelo torso. Este soltou um assobio atravs dos dentes e
presas que gotejavam sangue. Uns plidos olhos de cor urea se cravaram em Lucan com
expresso de desdm: as ris inchadas pela fome se tragavam umas pupilas que se esgotaram
at converter-se em duas estreitas ranhuras. A criatura sofreu um espasmo, alargou os braos
para ele com os lbios apertados desenhando um horrendo sorriso que no era deste mundo: o
ao forjado de forma especifica envenenou seu sangue assassino e reduziu ao vampiro a uma
mancha no cho da rua.


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       S ficava um. Lucan se voltou para enfrentar-se ao alto macho com as duas folhas
levantadas e preparadas para atirar o golpe.
       Mas o vampiro se foi: escapou-se em meio da noite antes de que pudesse lhe dar morte.
      Merda.
       Nunca antes tinha permitido que nenhum desses bastardo escapassem a sua justia.
No deveria hav-lo feito agora. Pensou em perseguir o valento, mas isso tivesse significado
abandonar a cena do ataque exposta, e esse era um risco maior ali: permitir que os humanos
conhece a dimenso exata do perigo no qual viviam.
       Por causa da ferocidade dos renegados, a raa de Lucan tinha sido perseguida pelos
seres humanos durante a velha era; os de sua raa no poderiam sobreviver a outra era de
castigo agora que os humanos tinham a tecnologia do seu lado.
       At que os renegados fossem sufocados melhor ainda: eliminados por completo a
humanidade no deveria saber que existiam vampiros que viviam entre eles.
       Enquanto se dispunha a limpar a zona de todo rastro da matana, os pensamentos de
Lucan no deixaram de dirigir-se para a mulher do cabelo aceso e dessa doce beleza de
alabastro.

       Como era possvel que ela tivesse encontrado aos renegados no beco?
      Apesar de que era uma crena geral entre os humanos, os vampiros podiam desaparecer
a vontade, a realidade era muito menos impactante. Tinham o dom de possuir uma grande
agilidade e uma grande velocidade e simplesmente se moviam com uma rapidez maior que a
que podia captar o olho humano. Essa habilidade, alm disso, via-se aumentada pelo grande
poder hipntico que tinham sobre as mentes dos seres inferiores. Mas, de forma estranha, essa
mulher parecia imune a ambas as coisas.
       Lucan a tinha visto mover-se pela discoteca, e se deu conta disso nesse momento. Seu
olhar se desviou de sua presa atrada por um par de comovedores olhos e por um esprito que
parecia to perdido como o seu. Tambm lhe tinha visto e lhe tinha olhado de onde se
encontrava sentada com seus amigos. Apesar da multido de gente e do aroma de ranoso que
enchia a sala, Lucan tinha detectado o aroma do perfume de sua pele: algo extico e estranho.
      Nesses momentos tambm o cheirava. Era uma delicada nota aromtica que pendia da
noite, que incitava seus sentidos e que despertava algo muito primitivo nele. As gengivas lhe
doeram A causa do repentino alongamento das presas: uma reao fsica ante a necessidade
de tipo carnal ou de qualquer outro tipo que ele no conseguia controlar. Cheirava-a e a
desejava, e no de uma forma mais elevada que a de seus irmos renegados.
       Lucan jogou a cabea para trs e inalou com fora o aroma da mulher para seguir seu
rastro cheiroso pela cidade. Ao ser a nica testemunha do ataque dos renegados, no era
inteligente permitir que ela conservasse a lembrana do que tinha visto. Lucan encontraria a
essa mulher e tomaria as medidas que fossem necessrias para assegurar o amparo de sua
raa.
       E, desde algum recndito lugar de sua mente, uma antiga conscincia lhe sussurrava
que, fora ela quem fosse, j lhe pertencia.
       --Eu estou dizendo. Vi-o tudo. Havia seis, e estavam destroando a esse menino com as
mos e os dentes... como animais. Mataram-lhe!



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        --Senhorita Maxwell, passamos por isso muitas vezes j esta noite. Agora estamos
todos cansados, e a noite se est fazendo muito larga.
      Gabrielle levava na delegacia de polcia mais de trs horas tentando explicar o horror de
que tinha sido testemunha na rua prxima A Notte. Os dois agentes com quem tinha falado se
mostraram cticos ao princpio, mas agora j se estavam impacientando e quase tinham uma
atitude acusatria para ela. Ao cabo de muito pouco tempo de que ela havia chegado 
delegacia de polcia, tinham enviado um carro patrulha  zona da discoteca para comprovar
qual era a situao e para recuperar o corpo que Gabrielle havia dito ver. Mas haviam
retornado com as mos vazias. No havia nenhuma notcia de nenhuma briga com nenhum
grupo e no encontraram provas de nenhuma classe de que algum tivesse sofrido algum ato
delitivo. Era como se tudo isso no tivesse acontecido nunca, ou como se os rastros tivessem
sido apagados de forma milagrosa.
        --Se me escutassem... se queriam olhar as fotos que tenho feito...
        --Vimo-las, senhorita Maxwell. Vrias vezes, j. Francamente, tudo do que nos contou
esta noite se comprovou... sua declarao, essas fotos imprecisas e escuras de seu telefone
celular.
        --Sinto muito que lhes falte qualidade --replicou Gabrielle em tom cido.
      -- A prxima vez que me encontre com uma turma de psicopatas que levo a cabo uma
matana sangrenta, tentarei recordar que devo ir buscar minha Leica e um par de lentes extra.
        --Possivelmente voc queira refazer sua declarao --sugeriu o mais velho dos dois
oficiais cujo acento bostoniano estava tingido com o deixe irlands que lhe tinha dado a
juventude no Southie. Levou-se uma mo gorda as sobrancelhas e as esfregou , ato seguido,
passou- o celular a Gabrielle por cima da mesa.
        -- Voc deve saber que assinar uma declarao falsa  um delito, senhorita Maxwell.
          --Esta no  uma declarao falsa --insistiu ela, frustrada e no pouco zangada de
que a tratassem como a uma criminosa.
        -- Mantenho tudo o que hei dito esta noite. Por que teria que haver inventado isso?
          --Isso somente o pode saber voc, senhorita Maxwell.

        --Isto  incrvel. Tm minha chamada ao 911.
        --Sim--assentiu o agente.
        -- Voc realizou, efetivamente, uma chamada a Emergncias. Desgraadamente, quo
nico temos gravado  o soninho de interferncias. Voc no disse nada, e no respondeu a
petio que a telefonista lhe fez de que informasse do que aconteceu.
        --Sim, bom,  difcil encontrar as palavras para descrever como lhe esto cortando o
pescoo de algum.
        Ele a olhou outra vez com expresso dbia.
        --Essa discoteca... A Notte,  um lugar desenfreado, pelo que sei. Muito popular entre
os gticos, os raveros...
     --O que quer dizer?
     O policial se encolheu de ombros.
        --Muitos meninos se metem em confuses estranhas hoje em dia. Possivelmente o
nico que voc viu foi como uma festa ia um pouco das mos.
     Gabrielle soltou uma maldio e alargou a mo at o telefone celular.
        --Parece-lhe com voc que isto  uma festa que vai um pouco das mos ?

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        Apertou a tecla de mostrar imagem e voltou a observar as imagens que tinha
capturado. Apesar de que as fotos instantneas eram imprecisas e de que o brilho de luz tinha
esfumado a cena, ainda se via claramente a um grupo de homens que rodeava a outro no
cho. Apertou o boto para passar a outra imagem e viu o brilho de vrios olhos que olhavam
a cmara, e uns rostos cujos vagos rasgos faciais se deformavam e adotavam uma expresso
de fria selvagem.
        Por que os agentes no viam o que via ela?

         --Senhorita Maxwell --interrompeu o agente de polcia mais jovem. Caminhou at o
outro lado do escritrio e se sentou na esquina do mesmo, diante dela. Tinha sido o que, dos
dois, tinha permanecido mais tempo em silncio, que tinha estado escutando com ateno
enquanto seu companheiro comunicava dvidas e suspeitas.
       --  evidente que voc cr ter presenciado algo terrvel esta noite, nessa discoteca. O
agente Carrigan e eu queremos ajud-la, mas para que possamos fazer-lo, temos que nos
assegurar de que estamos falando do mesmo.
     Ela assentiu com a cabea.
       --De acordo.
       --Agora temos sua declarao e vimos suas fotos. Voc me d a sensao de ser uma
pessoa sensata. Antes de que aprofundemos mais nisto, preciso saber se estaria voc disposta
a submeter-se a uma anlise de controle de drogas.
       --Uma anlise de drogas. --Gabrielle se levantou. repentinamente da cadeira. Agora
estava mais que zangada
     -- Isto  ridculo. Eu no sou uma cabea oca colocada, e me desgosta que me tratem
como se o fosse. Estou tentando informar de um assassinato!
     --Gab? Gabby!
       Desde algum ponto, a suas costas, na delegacia de polcia, Gabrielle ouviu a voz de
Jamie. Tinha chamado a seu amigo ao cabo de muito pouco tempo de ter chegado ali porque
necessitava o apoio de ter um rosto familiar por perto depois de tudo o que tinha presenciado.
     --Gabrielle! --Jamie correu para ela e lhe deu um quente abrao.
       -- Sinto no ter podido chegar antes, mas j estava em casa quando recebi sua
mensagem no celular. Que horror, carinho! Est bem?
     Gabrielle assentiu com a cabea.
       --Acredito que sim. Obrigado por vir.

       --Senhorita Maxwell, por que no deixa que seu amigo a leve a casa? --disse-lhe o
agente--. Podemos continuar com isto em algum outro momento. Possivelmente poder
pensar com maior claridade depois de ter dormido um pouco.
       Os dois policiais se levantaram e fizeram um gesto  Gabrielle para que fizesse o
mesmo. Ela no discutiu. Estava cansada, esgotada por completo, e no acreditava que
embora ficasse na delegacia de polcia toda a noite conseguisse convencer aos polis do que
tinha presenciado fora de La Notte. Um pouco atordoada, deixou que Jamie e que os dois
agentes a acompanhasse fora da delegacia de polcia. J se encontrava a metade das escadas
em direo ao estacionamento quando o mais jovem dos dois a chamou
     por seu nome.
       --Senhorita Maxwell.

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       Ela se deteve e olhou para trs por cima do ombro, em direo aonde se encontravam
os dois policiais em p, sob a luz que saa da delegacia de polcia.
       --Se isso a ajuda a descansar com maior tranqilidade, enviaremos a algum para que
vigie sua casa, e que possivelmente possa falar com voc um pouco mais quando tiver tido
tempo de pensar um pouco em sua declarao.
       A Gabrielle no gostou do tom de mmico com que o disse, mas tampouco encontrou
as foras necessrias para rechaar essa oferta. Depois do que tinha presenciado essa noite,
Gabrielle aceitaria a segurana que lhe oferecia o ter a um policial perto, inclusive embora
fosse um policial prepotente. Assentiu com a cabea e seguiu a Jamie at o carro.
     Em um escritrio de um tranqilo rinco da delegacia de polcia, um arquivista apertou o
boto de impresso do computador. Uma impressora laser zumbiu e ficou em funcionamento
a suas costas, e tirou um relatrio de uma s pgina. O arquivista se tragou o ltimo sorvo de
caf frio que ficava em sua xcara descascada do Rede Sox e se levantou da desvencilhada
cadeira para recolher, com gesto indiferente, o documento que acabava de sair da impressora.

       A Central se encontrava em silncio, vazia, depois da mudana de volta de meia-noite.
Mas inclusive embora tivesse estado bulindo de atividade, ningum tivesse emprestado
nenhuma ateno ao reservado e extranho interno em prticas que se mostrava to fechado
em si mesmo.
     Essa era a beleza de seu papel.
       Por isso o tinham eleito.
       Ele no era o nico membro do corpo a quem podiam recrutar. Sabia que havia outros,
embora suas identidades se mantinham em segredo. Dessa forma era mais seguro, mais limpo.
Por sua parte, no recordava quanto tempo fazia que tinha conhecido a seu Professor.
Somente sabia que agora vivia para servir.
       Com o relatrio firmemente sujeito em uma mo, o arquivista caminhou devagar pelo
corredor procurando um lugar tranqilo e privado. A habitao de descanso, que nunca se
encontrava vazia fosse a hora do dia que fosse, encontrava-se ocupada nesses momentos por
um casal de secretrias e pelo Carrigan, um policial gordo e bocudo que se retirava a final de
semana. Estava fanfarroneando a respeito de um fantstico negcio que tinha feito com algum
apartamento de Flrida enquanto as mulheres, basicamente, ignoravam-lhe e se dedicavam a
desfrutar de um bolo amarelo feito no dia anterior e acompanha-lo com uma Coca-cola de
baixa calorias.
       O arquivista se passou os dedos por entre o cabelo de uma cor castanho claro e
atravessou as portas abertas em direo aos servios, que se encontravam ao final do
corredor. Deteve-se fora do servio de cavalheiro com a mo em cima do pomo de metal e
jogou uma olhada a suas costas. Ao dar-se conta de que ningum lhe via, dirigiu-se a
habitao do lado, ao quarto de fornecimentos de zeladoria. Supunha-se que devia manter-se
sempre fechado, mas poucas vezes o estava. De todas formas, no havia grande coisa que
valesse a pena roubar ali dentro, a no ser que a gente tivesse debilidade pelo papel higinico
industrial, a amnia ou as toalhas de papel marrom.
       Girou o bracelete da porta e empurrou o velho painel de ao para dentro. Quando se
encontrou no interior do escuro quarto, pressionou o fechamento de dentro e tirou o telefone
celular do bolso da cala. Apertou o boto de marcao rpida e chamou o nico nmero que
tinha armazenado nessa unidade indetectavel e descartvel. O tom de chamada soou duas

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vezes e logo se imps um silncio ameaador, a inconfundivel presena de seu Professor
espreitava do outro extremo da linha.

       --Senhor --disse o arquivista em um sussurro reverente.
      -- Tenho informaes para voc.
       Falou depressa e em voz baixa, lhe contando todos os detalhes a respeito da mulher
chamada Maxwell que tinha ido a delegacia de polcia e da declarao que tinha realizado a
respeito de um assassinato por parte de um grupo no centro da cidade. O arquivista ouviu um
grunhido e o suave vaio da respirao do outro extremo da linha. Seu professor escutava a
informao em silncio. Notou a fria contida nessas lentas e compassadas respiraes, e lhe
gelou todo o sangue.
       --Reuni toda a informao pessoal para voc, senhor, toda --lhe disse, e, servindo do
suave resplendor da janela do celular, leu a direo de Gabrielle, seu telefone privado e
demais detalhe. O servil subordinado estava ansioso por agradar a seu temvel e poderoso
senhor.



     Captulo trs

     Tinham passado dois dias inteiros.
       Gabrielle tentou tirar-se da cabea todo o horror do que tinha visto no beco de La
Notte. Que importncia tinha, de todas as maneiras? Ningum a tinha acreditado. No a tinha
acreditado a polcia, que ainda no tinha mandado a ningum para v-la tal e como tinham
prometido, e tampouco a tinham acreditado seus amigos.
       Jamie e Megan, que tinham visto os valentes de jaqueta de couro repreendendo ao
punki dentro da sala, disseram que o grupo se havia marchado sem ter provocado nenhum
outro incidente em nenhum momento da noite. Kendra tinha estado muito absorta com o Ken
--o menino a quem tinha conhecido na pista de baile da sala-- e no se deu conta de que tinha
havido uma briga na sala. Segundo os policiais que se encontravam na delegacia de polcia na
sbado de noite, todo mundo a quem o carro patrulha tinha interrogado em La Notte tinha
dado a mesma histria: uma breve escaramua no bar, mas no havia nenhuma testemunha
que tivesse presenciado sinais de violncia nem dentro nem fora da sala.
       Ningum tinha visto o ataque do que ela tinha informado. No havia nenhuma
admisso em nenhum hospital nem em nenhum depsito de cadveres. Nem sequer havia
uma denncia de danos do taxista que se encontrou na esquina.
     Nada.
       Como era possvel? Estaria realmente delirando?
       Era como se os olhos de Gabrielle fossem os nicos que se houvessem encontrado
abertos essa noite. Ou ela era a nica havia presenciado algo inexplicvel ou estava perdendo
a cabea.
       Possivelmente um pouco de ambas as coisas.



      Gabrielle no podia enfrentar-se ao que essa idia implicava, assim procurou consolo
no nico que lhe oferecia um pouco de alegria. Depois da porta fechada de seu quarto escuro

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construdo a medida, no poro da casa, Gabrielle inundou uma folha de papel fotogrfico em
uma bandeja com lquido de revelao. Da plida nada, uma imagem comeou a cobrar forma
debaixo da superfcie do lquido. Observou-a cobrar vida: a ironica beleza de uns tentculos
de marfim que se expandiam por cima de um antigo e abandonado hospital psiquitrico de
tijolos velhos e cimento, de estilo gtico, que fazia pouco que tinha descoberto nos subrbios
da cidade. Saiu melhor do que esperava, e tentou a sua imaginao de artista com a
possibilidade de realizar uma srie inteira dedicada a esse lugar desolado e inquietante.
Deixou a um lado e revelou outra foto, esta de um primeiro plano de um pinheiro jovem que
crescia de uma greta aberta no pavimento de um ptio traseiro durante muito tempo
abandonado.
        Essas imagens a fizeram sorrir enquanto as tirava do lquido e as pendurava na corda
de secagem. Tinha quase doze mais como essas acima, sobre sua mesa de trabalho, cr
testemunhos da obstinao da natureza e da loucura da cobia e a arrogncia do homem.
       Gabrielle sempre se havia sentido um pouco como uma estrangeira, como uma
silenciosa observadora, desde que era uma menina. Ela o atribua ao feito de que no tinha
pais; no tinha famlia absolutamente, exceto o casal que a tinha adotado quando ela era uma
problemtica menina de doze anos que passou a vida de orfanato em orfanato. Os Maxwell,
um casal de classe mdia alta que no tinha filhos prprios, compadeceram-se bondosamente
dela, mas inclusive sua aceitao tinha sido distante. Gabrielle foi mandada imediatamente ao
internato , a acampamentos de vero e, finalmente, a uma universidade fora do estado. Seus
pais, os que tinham exercido como tais, morreram juntos em um acidente de carro enquanto
ela estava longe na universidade.
        Gabrielle no assistiu ao funeral, mas a primeira fotografia de verdade que fez era de
duas lpides que se encontravam sob a sombra de um arce no cemitrio da cidade, no Mount
Auburn. Aps, no tinha deixado de fazer fotos.
        A Gabrielle no gostava de lamentar-se por seu passado, assim apagou a luz da
habitao escura e se dirigiu para cima para pensar no que fazer para o jantar. No levava
nem dois minutos na cozinha quando soou o timbre da porta.

       Jamie se tinha ficado, generosamente, com ela as duas ltimas noites para assegurar-se
de que Gabrielle estava bem. Ele estava preocupado por ela e se mostrava protetor como o
irmo que no tinha tido. Essa manh, ao partir, ofereceu-se para voltar outra vez, mas
Gabrielle lhe tinha insistido em que podia ficar sozinha. A verdade era que necessitava um
pouco de solido e, agora que o timbre da porta voltava a soar, notou certa irritao ante a
possibilidade de que no pudesse ficar s tampouco essa noite.
       --Vou em seguida --disse em voz alta do vestbulo do apartamento.
       Olhou, por puro costume, pela mira da porta mas em vez de encontrar-se com a
ondulado arbusto de cabelo loiro do Jamie, Gabrielle viu uma escura cabea com rasgos
impactantes que pertenciam a um homem desconhecido que esperava na entrada. No patamar
em frente, justo diante de sua escada de entrada, havia uma luz que reproduzia um antigo
abajur de gs e seu suave brilho alaranjado envolvia ao homem como com uma capa dourada,
como se envolvesse a mesma noite. Esse homem tinha algo que resultava de mau agouro e ao
mesmo tempo cativador em seus plidos olhos cinzas, que agora olhavam diretamente ao
crculo de cristal, como se pudesse ver a ela ao outro lado da mira.


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        Gabrielle abriu a porta, mas pensou que era melhor no tirar a correia de segurana. O
homem se aproximou da abertura e observou a tirante correia que se esticava entre ambos.
Quando a olhou aos olhos de novo, sorriu-lhe um pouco, como se lhe parecesse divertido que
ela acreditasse poder impedir o passo com tanta facilidade no caso de que ele quizesse entrar
de verdade.
      --A senhorita Maxwell?
        Sua voz resultou uma carcia para todos seus sentidos, como se fora de um rico veludo
negro.
      -Sim?

         --Meu nome  Lucan Thorne. --Essas palavras saram por entre seus labios com um
timbre suave e moderado que, por um momento, acalmou parte da ansiedade que ela sentia.
Ao dar-se conta de que ela no dizia nada, ele continuou:
       -- Soube que voc teve algumas dificuldades faz um par de noites na delegacia de
polcia. Somente queria passar por aqui para me assegurar de que estava bem.
         Ela assentiu com a cabea.
         Era evidente que a polcia no a tinha descartado por completo, depois de tudo.
Como j fazia dois dias que no tinha notcias deles, Gabrielle no esperava ver ningum do
departamento, apesar da promessa de lhe mandar a algum para que vigiasse. Tampouco
podia estar segura de que esse tipo, de um escuro cabelo liso e brilhante e de faces
marcadas, fosse um policial.
         Mas tinha um aspecto bastante srio para ser um policial, pensou, e a parte desse
aspecto escuro e perigoso, no parecia ter inteno de lhe fazer nenhum dano. Mas, depois de
tudo pelo que tinha passado, Gabrielle pensou que seria inteligente exceder-se em cautela.
     --Voc tem alguma identificao?
         -- obvio.
         Com um gesto deliberado e quase sensual, ele desdobrou uma fina carteira de pele e a
levantou ante a abertura da porta. Fora estava quase completamente escuro e provavelmente
foi por isso que Gabrielle necessitou uns segundos para enfocar a vista na brilhante placa de
polcia e na foto identificativa que se encontrava a seu lado e que mostrava seu nome.
       --De acordo. Entre, detetive.
       Soltou a correia da porta e logo abriu a porta e lhe deixou entrar. Os ombros dele quase
abrangiam a totalidade da entrada. De fato, sua presena pareceu encher todo o saguo. Era
um homem grande, alto e de corpo forte, envolto em um comprido abrigo negro; a roupa
escura e o cabelo negro e sedoso absorviam a suave luz do abajur que pendurava do teto.
Tinha um porte seguro, quase real, e uma expresso grave, como se estivesse mais dotado
para dirigir a uma legio de cavalheiros armados que para arrastar-se at o Beacon Hill para
dar consolo a uma mulher que sofria alucinaes.

       --No acreditei que viesse ningum. Depois do recebimento que me ofereceram na
delegacia de polcia este fim de semana, acreditei que a inteligncia de Boston me teria
catalogado como a um caso perdido.
       Ele nem o reconheceu nem o negou, simplesmente entrou com passo seguro e tranqilo
na sala de estar e, em silncio, passeou o olhar por todo o espao. Deteve-se ante a mesa de
trabalho, onde se encontravam as ltimas imagens que ela tinha colocado em fileiras. Gabrielle

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atravessou a habitao detrs dele e observou a reao dele ante seu trabalho. Ele tinha
levantado uma sobrancelha escura enquanto estudava as fotografias.
       -- So suas ? --lhe perguntou, dirigindo seus plidos e agudos olhos para ela.
       --Sim --respondeu Gabrielle--. Formam parte de uma srie que vou a intitular a
Renovao urbana.
       --Interessante.
       Ele voltou a olhar as fotos e Gabrielle se sentiu sbitamente incmoda ante essa
resposta indiferente e medida.
       --Somente estou trabalhando com isto agora mesmo... no  nada que possa ser
mostrado ainda.
       Ele soltou um grunhido de assentimento sem deixar de observar as fotografias em
silncio.
     Gabrielle se aproximou, em um intento de captar melhor a reao dele ou sua ausncia
de reao.

       --Fao muito trabalho por encarrgo na cidade. De fato,  provvel que faa umas fotos
da casa do governador no Vineyard no fim de ms.
       te cale, disse a si mesmo. Por que estava tentando impressionar a esse tipo?
       O detetive Thorne no parecia muito impressionado. Sem dizer nada, alargou uma mo
e, com dedos muito elegantes para sua profisso, com gesto elegante recolocou duas das
imagens em cima da mesa. Inexplicavelmente, Gabrielle imaginou esses compridos e hbeis
dedos sobre sua pele nua, enredados entre seu cabelo, seguindo a forma de sua nuca...
Obrigando-a a jogar a cabea para trs at que esta descansa-se sobre o forte brao dele e esses
frios olhos cinzas a tragassem.
       --Bom --disse ela, voltando para a realidade.
       -- Suponho que preferir voc ver as fotos que fiz fora do clube na sbado de noite.
       Sem esperar nenhuma resposta, foi at a cozinha e tomou o celular que se encontrava
em cima do mrmore. Ativou-o, abriu uma das fotos em tela e ofereceu o aparelho ao detetive
Thorne.
       --Esta  a primeira foto instantnea que fiz. Tremiam-me as mos, por isso est um
pouco tremida. E a luz do flash esfumou muito os detalhes. Mas se a observa com ateno,
ver que h seis figuras escuras agachadas no cho. So eles, os assassinos.
      Sua vtima  esse vulto que esto maltratando, diante deles.
      Estavam-lhe... mordendo. Como animais.
       Os olhos de Thorne se mantiveram fixos na imagem; sua expresso continuou
mostrando-se sria, imperturbvel. Gabrielle abriu a seguinte fotografia.
       --O flash lhes sobressaltou. No sei, acredito que deveu lhes cegar ou algo. Quando fiz
as seguintes fotos instantneas, alguns deles se detiveram e me olharam. No posso distinguir
os rasgos de tudo, mas este  o rosto de um deles. Essas estranhas raias de luz so o reflexo de
seus olhos. -- estremeceu-se ao recordar o brilho amarelado desses olhos malignos e
desumanos.
       -- Me estavam olhando diretamente.

      Mais silencio por parte do detetive. Tomou o celular dos dedos de Gabrielle e abriu as
seguintes imagens.

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       --O que pensa voc? --perguntou ela, esperando obter uma comfirmao.
     -- Voc tambm pode v-lo, verdade?
       --Vejo... algo, sim.
       --Graas a Deus. Seus colegas de delegacia de polcia tentaram me fazer acreditar que
estava louca, ou que eu era uma espcie de perdedora drogada que no sabia do que estava
falando. Nem sequer meus amigos me acreditaram quando lhes contei o que tinha visto essa
noite.
       --Seus amigos --disse ele, com uma expresso deliberadamente meditativa.
     -- Quer dizer algum alm do homem com quem voc estava na delegacia de polcia...
Seu amante?
       --Meu amante? --riu ao ouvi-lo.
       -- Jamie no  meu amante.
       Thorne levantou a cabea e apartou o olhar da tela do telefone celular para olh-la aos
olhos.
       --Passou as duas ltimas noites com voc a ss, aqui, neste apartamento.
       Como sabia? Gabrielle sentiu uma pontada de irritao ante a idia de que estava sendo
espiada por algum, embora fosse a polcia, e que provavelmente o tivessem feito mais por
suspeitar dela que com inteno de proteg-la. Mas ali, em p ao lado do detetive Lucan Thor-
ne, na sala de estar, parte dessa irritao desapareceu e se viu substitudo por um sentimento
de tranqila aceitao, de uma sutil e lnguida cooperao. Estranho, pensou, mas se sentia
bastante indiferente ante essa deia.

        --Jamie ficou comigo um par de noites porque estava preocupado por mim depois do
que aconteceu este fim de semana.  meu amigo, isso  tudo.
        Bem.
        Os lbios de Thorne no se moveram, mas Gabrielle estava segura de ter ouvido sua
resposta. Sua voz inaudvel, sua complacncia ao saber que no se tratava de seu amante,
parecia ressonar em algum lugar dentro dela. Possivelmente era seu desejo, pensou. Fazia
muito tempo que no tinha nada parecido a um namorado, e somente estar ao lado de Lucan
Thorne lhe provocava coisas estranhas na mente. Ou, melhor dizendo, em seu corpo.
        Ele a olhava, e Gabrielle sentiu um agradvel foco de calor no ventre. Seu olhar a
penetrou como penetra o calor, de forma tangvel e ntima. De repente, uma imagem se
formou em sua mente: ela e ele, nus e embolados a rede um com o outro sob a luz da lua, em
seu dormitrio. Uma foto instantnea quebra de onda de calor a encheu. Sentia os msculos
duros dele na ponta dos dedos, o firme corpo dele movendo-se em cima do dela... seu grosso
pnis enchendo-a, abrindo-a, explorando dentro dela.
        OH, sim, pensou, quase retorcendo-se sem mover-se de lugar. Jamie tinha razo.
Verdadeiramente levava muito tempo de celibato.
        Thorne piscou lentamente; as densas e negras pestanas ocultaram uns tormentosos
olhos chapeados. Como a brisa fria acaricia a pele dele, Gabrielle sentiu que parte da tenso de
suas pernas se dissipava. O corao lhe pulsava com fora; a habitao parecia extranhamente
clida.
        Ele apartou o olhar e girou a cabea e os olhos de Gabrielle se encontraram com sua
nuca, no ponto em que esta se encontrava com o pescoo de sua camisa de alfaiate. Tinha uma
tatuagem no pescoo, ou, pelo menos, parecia-lhe que era uma tatuagem. Uns redemoinhos

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intrincados e uns smbolos que pareciam geomtricos, feitos com tinta em um tom s
ligeiramente mais escuro que o de sua pele, desapareciam por debaixo do denso arbusto de
cabelo. Ela se perguntou como seria o resto da tatuagem e se esse bonito desenho tinha algum
significado especial.
        Sentiu quase uma urgncia irrefrevel por continuar essas interessantes linhas com os
dedos. Possivelmente com a lngua.

        --Me conte o que disse aos seus amigos sobre o ataque que viu voc nessa sala.
        Ela tragou saliva e sentiu que a garganta lhe secava. Maneou a cabea para voltar a
concentrar-se na conversao.
      --Sim, de acordo.
        Deus, o que lhe estava passando? Gabrielle ignorou o estranho ritmo que tinha
cobrado seu pulso e se concentrou nos sucessos da outra noite. Voltou a contar a histria para
o detetive, igual ao tinha feito para os dois agentes e, logo, para seus amigos. Contou-lhe todos
os detalhes horrveis e ele escutou atentamente, permitindo que ela o contasse tudo sem ser
interrompida. Ante a fria aceitao que encontrou em seus olhos, a lembrana que Gabrielle
tinha do assassinato, parecia fazer-se mais preciso, como se a lente de sua memria se ajustou
e tivesse aumentado os detalhes.
        Ao terminar, viu que Thorne estava voltando a abrir as fotos de seu telefone celular. A
expresso de sua boca tinha passado de ser sria a grave.
        --O que voc cr que mostram estas imagens exatamente, senhorita Maxwell?
        Ela levantou a vista e se encontrou com o olhar dele, com esses inteligente e
penetrantes olhos que se cravavam nos seus. Em um instante uma palavra se formou na
mente de Gabrielle: uma palavra incrvel, ridcula e terrorficamente clara.
        Vampiros.
        --No sei --disse com pouca convico, levantando a voz por cima do sussurro que
sentia em sua prpria cabea.
       -- Quero dizer, no estou segura do que pensar.

       Se o detetive ainda no tinha acreditado que estava louca, acreditaria se pronunciava o
nome que no ia da mente e a deixava gelada de terror. Essa era a nica explicao que podia
encontrar para essa horripilante matana que tinha presenciado a outra noite.
     Vampiros?
       Jesus. Tornou-se louca de verdade.
       --Tenho que levar este aparelho, senhorita Maxwell.
       --Gabrielle --lhe disse ela. Sorriu-lhe e se sentiu estranha ao fazer.
     -- Voc cr que os forenses, ou quem faa este tipo de coisas, sero capazes de limpar as
imagens?
       Ele fez uma ligeira inclinao com a cabea, sem chegar a assentir, e logo se meteu o
celular dela no bolso.
       --O devolverei amanh ao final da tarde. Estar voc em casa?
       --Claro.
        Como era possvel que ele fora capaz de fazer que uma simples pergunta parecesse
uma ordem?
       --Agradeo-lhe que tenha vindo, detetive Thorne. Foram dias difceis.

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       --Lucan --disse ele, observando o rosto dela um momento.
       -- Me chame Lucan.
       Parecia que o calor que emanava de seus olhos chegavam at ela, ao mesmo tempo que
via neles uma estica compreenso, como se esse homem tivesse visto horrores maiores dos
que ela poderia comprender nunca. No podia encontrar uma palavra para definir a emoo
que a embargava nesse momento, mas lhe tinha acelerado o pulso e sentiu que a habitao se
esvaziou de todo ar. Ele continuava olhando, esperando, como se esperava que ela satisfizesse
imediatamente sua petio de que pronunciasse seu nome.

       --De acordo..., Lucan.
       --Gabrielle --respondeu ele, e ouvir o som de seu nome nos lbios dele a fez tremer e
sentir uma aguda conscincia de si mesmo.
       Algo que havia na parede, detrs dela, chamou a ateno dele e davagar a vista para o
ponto onde uma das fotografias mais celebradas de Gabrielle estava pendurada. Apertou os
lbios ligeiramente em um gesto sensual que delatava diverso e possivelmente certa
surpresa. Gabrielle se deu a volta para olhar a imagem de um parque do interior da cidade
que estava gelado e se via desolado, cobeto por uma grosa capa de neve tpica do ms de
dezembro.
       --No gosta de meu trabalho --disse ela.
       Ele meneou um pouco a cabea.
       --Encontro-o... intrigante.
     Ela sentiu curiosidade agora.
       --Por que?
       --Porque voc encontra beleza nos lugares mais inslitos --disse ao cabo de um
comprido momento, com a ateno agora dirigida para ela.
       -- Suas fotos esto cheias de paixo.
        --Mas?
       Para sua perplexidade, ele alargou a mo e lhe passou um dedo pela linha da
mandbula.
       --No h pessoas nelas, Gabrielle.

       -- obvio que...
       Ela tinha comeado a neg-lo, mas antes de que as palavras lhe saissem dos lbios,
deu-se conta de que ele tinha razo. Dirigiu o olhar a cada uma das fotos que tinha
emolduradas em seu apartamento e repasou mentalmente todas as que se encontravam
penduradas em galerias de arte, museus e colees privadas de toda a cidade.
       Ele tinha razo. As imagens, fosse qual fosse o tema, sempre eram lugares vazios,
lugares solitrios.
       Nenhuma delas continha nem um s rosto, nem sequer a sombra de vida humana.
       --OH, Meu deus --sussurrou, aniquilada ao dar-se conta disso.
     Em uns poucos instantes, esse homem tinha definido seu trabalho como nunca ningum
o tinha feito antes. Nem sequer ela se deu conta da verdade to evidente de sua arte, mas
Lucan Thorne, de forma inexplicavel, tinha-lhe aberto os olhos. Era como se tivesse olhado
diretamente em sua alma.
      --Tenho que ir agora --disse ele, dirigindo-se j para a porta.

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     Gabrielle lhe seguiu, desejando que ficasse mais tempo. Possivelmente voltasse mais
tarde. Esteve a ponto de lhe pedir que o fizesse, mas se obrigou a si mesmo a manter um
mnimo de compostura. Thorne j quase tinha cruzado a porta quando, de repente, deteve-se
no pequeno espao do saguo. Seu corpo grande se encontrava muito perto do dela, mas a
Gabrielle no importou. Nem sequer se atreveu a respirar.
     --Acontece algo?
       As magras fossas nasais dele se alargaram quase imperceptivelmente.
       --Que tipo de perfume leva voc?

       Essa pergunta a ps nervosa. Tinha sido to inesperada, to ntima. Notou que lhe
ruborizavam as bochechas, apesar de que no tinha nem idia de por que.
       --No levo perfume. No posso faz-lo. Sou alrgica.
       --De verdade?
       Os lbios dele desenharam um sorriso forado, como se seus dentes se incharam muito
dentro de sua boca. Inclinou-se para ela, lentamente, e inclinou a cabea at que ficou muito
perto do pescoo dela. Gabrielle ouviu o spero som da respirao dele --e notou a carcia
desta sobre sua pele, fria primeiro e quente logo-- enquanto ele se enchia os pulmes com seu
aroma e o soltava pelos lbios. Sentiu o pescoo muito quente e tivesse jurado que notava o
rpido roce de seus lbios sobre a veia de seu pescoo, que se alargava em um descompassado
pulso sob a influncia dessa cabea que se aproximava to ntimamente a ela. Ouviu um
grunhido muito baixo perto de seu ouvido e algo que parecia uma maldio.
       Thorne se afastou imediatamente, sem olh-la aos olhos. Tampouco ofereceu nenhuma
desculpa nem nenhuma desculpa pelo estranho comportamento.
      --Voc cheira como o jasmim --foi o nico que lhe disse.
       E logo, sem olh-la, atravessou a porta e penetrou na escurido da rua.
       Era um engano procurar a essa mulher.
       Lucan sabia, sabia inclusive enquanto esperava nos degraus do apartamento de
Gabrielle Maxwell essa mesma tarde e lhe mostrava uma placa de detetive e a foto do carto
de identificao. No era dele. A verdade era que se tratava somente de uma manipulao
hipntica que obrigou a acreditar nessa mente humana que ele era quem dizia ser.
       Era um truque muito singelo para os mais velhos de sua raa, como ele, era um truque
que poucas vezes se rebaixava a utilizar.

        E Apesar disso, ali estava ele outra vez, um pouco mais tarde que meia noite,
comprometendo seu cdigo de honra um pouco mais enquanto intentava abrir a correia de
segurana da porta de entrada. Encontrou que no estava posta. Sabia que no o estaria: ele a
tinha sugestionado quando falava com ela essa tarde, ao lhe demonstrar o que desejava fazer
com ela e ao encontrar-se com sua resposta de surpresa, embora receptiva, em seus lnguidos
olhos marrons.
     Tivesse podido tom-la nesse momento. Lhe teria acolhido de bom grau, estava seguro
disso, e o fato de estar seguro do intenso prazer que tivessem compartilhado nesse processo
quase tinha sido sua perdio. Mas a obrigao de Lucan se devia, em primeiro lugar, a sua
raa e aos guerreiros que se uniram a ele para combater o crescente problema dos renegados.
        Era uma pena que Gabrielle tivesse presenciado a matana da discoteca e tivesse
informado isso a polcia e a seus amigos antes de que tivesse podido apagar sua memria,

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mas alm disso tinha conseguido tomar umas fotografias. Eram umas fotografias com gro e
quase ilegveis, mas resultavam igual a ervas daninhas. Tinha que proteger essas imagens
antes de que ela pudesse mostra-las a algum mais. Ele o tinha feito bem nesse aspecto, pelo
menos. De fato, teria que encontrar-se no laboratrio com o Gideon para identificar ao
valento que tinha escapado,
     ou teria que estar registrando a cidade, armado, com Dante, Rio, Conlan e outros,  caa
de outros irmos de raa doentes. E isso era o que estaria fazendo quando tivesse terminado
com a ltima parte do assunto relacionado com a encantada Gabrielle Maxwell.
       Lucan penetrou no interior do velho edifcio de tijolo no Willow Street e fechou a porta
detrs dele. O incitante aroma de Gabrielle lhe alagava o olfato e lhe atraa para ela igual ao
tinha feito essa noite fora da discoteca e na delegacia de polcia , no centro da cidade.
Percorreu seu apartamento em silncio, atravessou o piso principal e subiu as escadas at a
habitao do piso de acima. As clarabias que havia no teto abovedado deixavam entrar a
plida luz da lua que caa com suavidade sobre as elegantes curva do corpo de Gabrielle.
Dormia nua, como se esperasse sua chegada. Tinha as largas pernas enredadas nos lenis e o
cabelo lhe pulverizava, ao redor da cabea, por cima do travesseiro e formava umas
luxuriosas ondas de bronze.

       Seu aroma lhe envolveu, doce e sedutor, lhe provocando dor nos dentes.
       Jasmim, pensou, com expresso sardnica: uma flor extica que abre suas fragrantes
ptalas somente sob a influncia da noite.
       te abra para mim agora, Gabrielle.
       Mas decidiu que no ia seduzi-la, no o faria dessa maneira. Essa noite somente queria
provar um bocado, o justo para satisfazer sua curiosidade. Isso era quo nico ia permitir se.
Quando houvesse terminado, Gabrielle no recordaria lhe haver conhecido, tampouco
recordaria o horror que tinha presenciado no beco fazia umas noites.
       Seu prprio desejo tinha que esperar.
       Lucan se aproximou dela e deixou descansar o quadril no colcho, ao seu lado.
Acariciou a suavidade acesa do cabelo dela. Passou os dedos pela esbelta linha de um de seus
braos.
       Ela se moveu, gemeu com doura, reagindo ao seu ligeiro contato.
       --Lucan --murmurou, dormitada, no de tudo acordada, mas inconscientemente
segura de que ele se encontrava na habitao com ela.
       -- s um sonho --sussurrou ele, assombrado por ouvir seu nome nos lbios dela
apesar de que no tinha utilizado nenhuma artimanha vampirica para fazer que o
pronunciasse.
        Ela suspirou profundamente e se apertou contra ele.
        --Sabia que voltaria.
        --Sabia?



       --Sim. --Foi somente um ronrono que lhe saiu da garganta, rouco e ertico. Mantinha
os olhos fechados e sua mente ainda estava apanhada no labirinto dos sonhos.
     -- Queria que voltasse.
        Lucan sorriu por ouvir isso e lhe acariciou uma sobrancelha com a ponta dos dedos.

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       --No me tem medo, preciosa?
         Ela fez um rpido movimento negativo com a cabea e apertou a face contra a palma
da mo dele. Tinha os lbios ligeiramente entreabertos e os pequenos dentes alvos brilhavam
sob a luz que caa enviesada do teto. Seu pescoo era elegante, de linha orgulhosa, como uma
coluna real de alabastro que se levantasse dos frgeis ossos dos ombros. Que sabor to doce
devia ter, que suave tinha que ser sob sua lngua.
         E seus peitos... Lucan no pde resistir a esse escuro mamilo , que aparecia desde
debaixo do lenol que lhe envolvia o torso de forma caprichosa. Jogou um pouco com o
pequeno casulo entre os ddos, atirou dele brandamente e quase grunhiu de desejo ao notar
que se endureciam sob seu tato.
      Ele tambm se havia posto duro. Lambeu-se os lbios, sentindo um desejo crescente,
ansioso por possu-la.
        Gabrielle se retorceu com um gesto lnguido, enredada entre as cobertas. Lucan
apartou com suavidade o lenol de algodo e a deixou completamente nua ante ele. Era
deliciosa, tal e como sabia que seria. Pequena, mas forte, seu corpo era gil e jovem, flexvel e
formoso. Uns firmes msculos davam forma a suas elegantes pernas; suas mos de artista
eram largas e expressivas, e se moveram com um gesto inconsciente momentos atrs Lucan
lhe passou um dedo por cima do esterno para a cavidade do ventre. Ali sua pele era como o
veludo e estava clida, muito tentadora para resistir.
      Lucan se colocou em cima dela na cama, e lhe passou as mos por debaixo do corpo.
Levantou-a, fazendo que se arqueasse para ele em cima do colcho. Beijou a suave curva de
seu quadril e logo jogou com a lngua por cima do pequeno vale de sua entre pernas. Ela
agentou a respirao e ele penetrou nessa pequena concavidade: a fragrncia do desejo lhe
alagou os sentidos.

       --Jasmim --disse ele com voz rouca contra a pele clida dela. A acariciou com os
dentes e descendeu um pouco mais.
       O gemido de prazer que ela deixou escapar quando a boca dele invadiu seu sexo
despertou uma violenta corrente de luxria por todo o corpo. J estava duro e ereto; o pnis
lhe pulsava contra a barreira de suas roupas. Notava a umidade dela em seus lbios e sua
fenda lhe envolvia e lhe queimava a lngua. Lucan a sorveu igual a tivesse sorvido um nctar,
at que o corpo dela se convulsionou com a chegada do orgasmo. E continuou lambendo-a e
voltou a conduzi-la at o climax, e logo outra vez.
       Ela ficou inerte em seus braos, relaxada e tremente. Lucan tambm tremia, igual as
suas mos enquanto voltava a deposit-la com suavidade em cima do colcho. Nunca tinha
desejado tanto a uma mulher. Deu-se conta de que queria algo mais ao notar, divertido, que
lhe surgia o impulsou de proteg-la. Gabrielle respirava agitadamente e com suavidade
momentos depois do ltimo orgasmo remetia, e se enroscou tombada sobre um flanco,
inocente como uma criana.
       Lucan baixou o olhar para ela e a observou com fria silenciosa, lutando contra a fora
de seu desejo. A dor surda das presas alargando-se das gengivas o fazia apertar os lbios.
Tinha a lngua seca e o desejo formava um n em seu ventre. A lascvia de sangue e o desejo
do encher-se agonizou a vista e lhe envolveu como uns tentculos sedutores. As pupilas lhe
dilataram como as de um gato em seus plidos olhos.
        Toma-a, incitou-lhe essa parte dele que era desumana, de outro mundo.

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      tua. Toma-a.
       Somente a provaria: isso era o que se prometeu. No lhe faria mal, somente aumentaria
o prazer dela e se daria um pouco a si mesmo. Ela nem sequer recordaria esse momento
quando chegasse o amanhecer. Como sua anfitri de sangue, lhe ofereceria um substancioso
gole de vida e quando despertasse, mais tarde, sonolenta e saciada, faria-o felizmente
ignorante da causa.

       Esse era um pequeno ato de misericrdia, disse a si mesmo, apesar de que todo seu
corpo se esticava pelo desejo de alimentar-se.
       Lucan se inclinou em cima do corpo lnguido de Gabrielle e com ternura lhe apartou
as ondas de cabelo que lhe cobriam o pescoo. Sentia seu prprio corao que pulsava com
fora no peito e que lhe urgia a satisfazer a sede que lhe queimava. Somente a provaria, nada
mais. S por prazer. Aproximou-se com a boca aberta, os sentidos alagados pelo penetrante
aroma de fmea. Pressionou os lbios contra a calidez dela, colocou a lngua no ponto no qual
seu delicado pulso pulsava. Suas presas arranharam a suavidade de veludo do pescoo dela e
tambm lhe pulsavam, como outra parte exigente de sua anatomia.
       E no instante mesmo em que suas presas afiadas foram penetrar a frgil pele dela, sua
aguda vista reparou em uma pequena marca de nascimento que tinha justo detrs da orelha.
       Quase invisvel, a diminuta marca de uma lgrima caindo na concha de uma lua
crescente fez que Lucan se apartasse surpreso. Esse smbolo, to estranho entre as mulheres
humanas, somente significava uma coisa...
       Companheira de raa.
       Separou-se da cama como tocado por um raio e emitiu uma sibilante maldio na
escurido. O desejo pela Gabrielle ainda pulsava dentro dele apesar de que tentava resolver
as conseqncias do que havia estado fazendo podia provocar em ambos.
       Gabrielle Maxwell era uma companheira de raa, uma humana que tinha umas
caractersticas de sangue e de DNA nicas e complementares com os de sua raa. Ela e as
poucas que havia como ela eram as rainhas entre as fmeas humanas. Para a raa de Lucan,
uma raa formada somente por homens, esta mulher era adorada como uma deusa, como uma
doadora de vida, destinada a vincular-se por sangue e a levar a semente de uma nova gerao
de vampiros.

       E em sua imparavel luxria por sabore-la, Lucan tinha estado a ponto de tom-la para
si.



      Captulo quatro

     Gabrielle podia contar com uma s mo os sonhos ertico que tinha tido durante toda
sua vida, mas nunca tinha experiente nada to quente --por no dizer real-- como a fantasia
de orgia sexual que tinha desfrutado da noite anterior, cortesia de um Lucan Thorne virtual.
Seu flego tinha sido a brisa noturna que penetrava pela janela aberta de seu dormitrio do
piso de acima. Seu cabelo era a escurido de obsidiana que enchia as clarabias, sobre sua
cama. Seus olhos chapeados, o brilho plido da lua. Suas mos eram as ligaduras de seda de


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sua colcha, que enredavam seus pulsos e tornozelos, abriam seu corpo debaixo do dele e a
sujeitavam com fora.
       Sua boca era puro fogo que lhe queimava cada centmetro da pele e a consumia como
uma chama invisvel. Jasmim, tinha-a chamado ele, e o suave som dessa palavra vibrava
contra a umidade de sua pele, o quente flego dele formava redemoinhos os suaves cachos de
plo de sua entre perna.
       Ela se tinha retorcido e tinha gemido dominada pela habilidade da lngua dele, que a
tinha submetido a uma tortura que ela desejava que fosse infinito. Mas tinha terminado, e
muito logo. Gabrielle se tinha despertado em sua cama, s na escurido, pronunciando quase
sem flego o nome de Lucan, com o corpo esgotado e inerte, dolorido pelo desejo.
       Ainda lhe doa o desejo e o que mais lhe preocupava era o fato de que o misterioso
detetive Thorne lhe tivesse dado planto.
        No era que seu oferecimento de passar por seu apartamento essa noite fosse nada que
se parecesse com um encontro, mas ela tinha estado esperando voltar a lhe ver. Tinha interesse
em saber mais a respeito dele dado que se havia mostrado to inclinado a decifr-la com um
simples olhar. Alm de conseguir algumas respostas mais sobre o que tinha presenciado essa
noite fora da discoteca, Gabrielle tinha desejado conversar de algo mais com Lucan,
possivelmente tomar um pouco de vinho e algo para jantar. O fato de que se depilou as pernas
duas vezes e de que se ps uma roupa interior negra e atrativa sob a camisa de seda de manga
larga e dos escuros jeans era puramente acidental.

         Gabrielle lhe tinha esperado at bem passadas as nove e ento abandonou a idia e
chamou Jamie para ver se ele queria jantar com ela no centro da cidade.
         Agora, sentado diante dela, ao outro lado da mesa, nessa sala cheia de janelas do
bistro Ciao Bela, Jamie deixou na mesa a taa de pinot noire e olhou o prato de frutos do mar
que ela quase no havia tocado.
         --Estiveste enjoando a mesma parte da comida pelo prato durante os ltimos dez
minutos, carinho. Voc no gosta?
         --Sim,  genial. A comida sempre  incrvel aqui.
         --Ento,  a companhia o que te desagrada?
         Ela levantou o olhar para ele e negou com a cabea.
         --Absolutamente. Voc  meu melhor amigo, j sabe.
         --Certo --assentiu ele.
       -- Mas no me posso comparar com seu sonho ertico.
         Gabrielle se ruborizou ao dar-se conta de que um dos clientes que se encontrava na
mesa do lado olhava para eles.
         --s vezes  horrvel, sabe? --disse a Jamie em um sussurro.
         -- No deveria haver lhe contado isso.
         --OH, carinho. No se sinta incmoda. Se me tivessem dado uma moeda cada vez que
me despertei excitado, chiando o nome de algum cara sexy...
         --Eu no chiei seu nome. --No, tinha-o pronunciado com o folego entrecortado e em
um gemido, to enquanto estava na cama como enquanto estava na ducha ao cabo de pouco
tempo, ainda incapaz de tirar do corpo a sensao de Lucan Thorne.
         -- Era como se ele estivesse ali, Jamie. Justo ali, em minha cama, to real que eu podia
lhe tocar.

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       Jamie suspirou.
       --Algumas garotas tm toda a sorte do mundo. A prxima vez que te encontre com seu
amante em sonhos, seja generosa e me manda isso quando tenha terminado.
       Gabrielle sorriu, sabendo que seu amigo no andava escasso no apartado romntico.
Durante os ltimos quatro anos tinha tido uma feliz relao mongama com o David, um
vendedor de antiguidades que se encontrava nesses momentos fora da cidade por motivos de
trabalho.
       --Quer saber o que  o mais estranho disso tudo , Jamie? Aos levantar, esta manh, a
porta de entrada no estava fechada com chave.
       -- E?
        --E voc me conhece, nunca a deixo aberta.
        As cuidadas e depiladas sobrancelhas do Jamie se juntaram, franzindo o cenho.
        --O que quer dizer, que cre que esse cara forou a porta de sua casa enquanto dormia?
        --Parece uma loucura, sei. Um detetive da polcia que vem a minha casa a meia-noite
para me seduzir. Devo estar perdendo a cabea.
        Disse-o com tom despreocupado, mas no era a primeira vez que se questionava em
silncio sua prpria prudncia. No era a primeira vez nem muito menos. Com gesto ausente,
brincou um momento com a manga da blusa enquanto Jamie a observava. Ele se sentia
preocupado nesse momento, o qual somente aumentava a inquietao que Gabrielle sentia
sobre o tema de sua possvel instabilidade mental.

     --Olhe, carinho. Passaste muita tenso do fim de semana. Isso pode provocar coisas
estranhas na cabea. Estiveste preocupada e confundida. Possivelmente se esqueceu de fechar
a porta.
     --E o sonho?
         --Somente isso... Um sonho. Somente se trata de sua mente curvada que tenta
tranqilizar-se, relaxar-se.
         Gabrielle baixou a cabea em um gesto automtico de afirmao.
         --Exato. Estou segura de que s  isso.
         Se pudesse aceitar que a explicao de tudo era to simples como seu amigo fazia que
parecesse... Mas uma sensao na boca do estmago rechaava a idia de que ela tivesse
esquecido de fechar a porta. Ela nunca faria uma coisa assim, simplesmente, por estressada e
confundida que estivesse.
         --N. --Jamie alargou o brao por cima da mesa para tomar a mo.
       -- Vais estar bem, Gab. J sabe que pode me chamar a qualquer hora, verdade? Estarei
contigo, sempre o estarei.
       --Obrigado.
         Lhe soltou a mo, tomou o garfo e fez um gesto em direo a seu fruto do mar.
         --Bom, vais comer um pouco mais ou posso comear a limpar seu prato agora?
         Gabrielle trocou seu prato meio cheio pelo dele, completamente vaziu.
     --Tudo para ti.

      Enquanto Jamie se concentrava na comida fria, Gabrielle apoiou o queixo em uma mo
e tomou um comprido gole de sua taa de vinho. Enquanto bebia, brincou com os dedos em
cima das ligeiras marcas que descobriu no pescoo essa mesma manh depois de tomar

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banho. A porta aberta no era o mais estranho que se encontrou essa manh: as duas marca
idnticas que se viu debaixo da orelha se levaram o prmio, sem dvida nenhuma.
        Essas pequenas perfuraes no tinham sido o bastante profundas para lhe transpassar
a pele, mas a estavam. Havia duas, a uma distncia equitativa, no ponto onde o pulso lhe
pulsava com mais fora quando o apalpava com os dedos. Ao princpio se disse que
possivelmente havia se arranado a si mesmo enquanto dormia, possivelmente a causa do
sonho estranho que tinha tido.
        Mas, entretanto, essas marcas no pareciam arranhes. Pareciam... outra coisa.
       Como se algum, ou algo, tivesse estado a ponto de lhe morder a cartida.
       Uma loucura.
       Isso era, e tinha que deixar de pensar dessa maneira antes de fazer-se mais mal a si
mesmo. Viu-se obrigada a centrar-se e a deixar de recrear-se em fantasias delirantes sobre
visitantes a meia-noite e monstros de filme de terror que no era possvel que existissem na
vida real. Se no tomava cuidado, acabaria como sua me biolgica.
       --OH, Meu deus, me d uma bofetada agora mesmo porque sou um completo e
profundo imbecil --exclamou Jamie de repente, interrompendo seus pensamentos.
       -- Continuo esquecendo-me de lhe dizer isso ontem recebi uma chamada na galeria
sobre suas fotografias. Um peixe gordo do centro da cidade est interessado em uma amostra
privada.
        --Srio? De quem se trata?
      Ele se encolheu de ombros.

        --No sei, carinho. A verdade  que no falei com o possvel comprador, mas a partir
da atitude estirada do ajudante do tipo, diria que seja quem  seu admirador, ele ou ela--
nada na abundncia do dinheiro. Tenho uma entrevista em um dos edifcios do distrito
financeiro amanh de noite. Falo-te de um escritrio em uma cobertura, querida.
        --OH, Meu deus --exclamou ela com incredulidade.
      --Acredita. Super bom, amiga. Muito em breve ser muito para um pequeno vendedor
de arte como eu --brincou ele, compartilhando a excitao com ela.
        Era difcil no sentir-se intrigada, especialmente depois de tudo o que lhe tinha
passado durante os ltimos dias. Gabrielle tinha conseguido uns fiis e respeitveis
admiradores e ganhou uns quantos bons elogios por seu novo trabalho, mas uma amostra
privada para um comprador desconhecido era o mximo.
      --Que peas te pediu que levasse?
        Jamie levantou a taa de vinho e brindou com a dela com um gesto burlesco de
saudao.
        --Todas, senhorita Importante. Cada uma das peas da coleo.
        No telhado do um velho edifcio de tijolos do ocupado distrito dos teatros da cidade, a
lua se refletia na risada letal de um vampiro embelezado de negro. Agachado em sua posio
perto da beirada, o guerreiro da raa girou a escura cabea e levantou uma mo para fazer um
sinal.
         Quatro renegados. Uma presa humana se dirige diretamente para eles.
         Lucan lhe dirigiu um gesto afirmativo com a cabea a Dante e se afastou da sada de
emergncia do quinto piso, que tinha sido sua posio de vigilncia durante a ltima meia
hora. Baixou at a rua de abaixo com um gil movimento, aterrissando em silncio, como um

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gato. Levava uma dupla folha de combate nas costas que lhe sobressaa pelos ombros como os
ossos das asas de um demnio. Lucan desencapou a arma de titnio quase sem emitir nenhum
som e penetrou nas sombras da estreita rua lateral para esperar os acontecimentos dessa noite.

        Eram ao redor das onze, vrias mais tarde que a hora em que deveria ter passado pelo
apartamento de Gabrielle Maxwell para lhe devolver o telefone celular, tal e como lhe disse
que o faria. O aparelho ainda estava em posse de Gideon, no laboratrio tcnico, que estava
processando as imagens para as contrastar com a Base de dados de Identificao Internacional
da Raa.
        Quanto a Lucan, no tinha nenhuma inteno de devolver o telefone celular a
Gabrielle, nem em pessoa nem de nenhuma outra maneira. As imagens do ataque dos
renegados no tinham que estar em mos de nenhum ser humano, e depois da decepo que
se levou no dormitrio dela, quanto mais longe estivesse dessa mulher, melhor.
        Uma maldita companheira de raa.
       Deveria hav-lo sabido. Agora que o pensava, ela tinha certas caractersticas que
deveriam lhe haver dado a pista disso desde o comeo. Como sua habilidade de ver atravs do
vu do controle mental vamprico que enchia essa noite a sala de baile da discoteca. Ela tinha
visto os renegados --vidos de sangue no beco, e nas imagens indecifrveis do telefone
celular-- quando outros seres humanos no os havia podido ver. Logo, em seu apartamento,
tinha demonstrado que tinha resistncia ante a sugesto mental de Lucan para dirigir seus
pensamentos, e ele suspeitava que se tinha sucumbido, tinha-o feito mais por causa de um
desejo consciente do prazer que ele supunha para ela que por nenhuma outra coisa.
       No era nenhum secredo que as fmeas humanas com o cdigo gentico nico de
companheiras de raa possuam uma inteligncia aguda e uma sade perfeita. Muitas delas
tinham uns assombrosos talento paranormal que aumentariam quando a companheira de raa
se unisse por sangue com um macho vampiro.
        Quanto a Gabrielle Maxwell, parecia possuir o dom de ter uma vista especial que lhe
permitia ver o que o resto de seres humanos no podia ver, mas at onde chegava essa
capacidade de viso era algo que ele no podia adivinhar. Lucan queria sab-lo. Seu instinto
de guerreiro exigia chegar ao fundo do assunto sem nenhuma demora.

        Mas envolver-se com essa mulher, da forma que fosse, era o ltimo que ele necessitava.
        Ento, por que no podia tirar-se de cima seu doce aroma, a suavidade de sua pele...
sua provocadora sensualidade? Odiava o fato de que essa mulher tivesse despertado nele tal
fragilidade, e seu estado de nimo atual dificilmente melhorava pelo fato de que todo seu
corpo doa pela necessidade de alimentar-se.
        O nico ponto claro essa noite era o constante ritmo dos saltos das botas dos renegados
no pavimento, em algum lugar perto da entrada da rua lateral, que se dirigiam para ele.
        O ser humano girou a esquina: encontrava-se a vrios passos a frente deles, e era um
homem. Jovem, saudvel, vestia uma cala negra e alvo e uma tnica branca manchada que
cheirava a cozinha de restaurante e a um suor repentino de ansiedade. O cozinheiro olhou
por cima do ombro e viu que os quatro vampiros foram ganhando terreno. Um palavro
pronunciado em tom nervoso e atravessou a escurido.



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     O humano voltou a girar a cabea e caminhou mais depressa, com os punhos apertados
e ambos grudado no corpo e os olhos muito abertos e cravados na estreita greta do asfalto que
havia sob seus ps.
        --No faz falta que corra, homenzinho --lhe provocou um dos Renegados em um tom
rouco como o som da areia fina contra o cho.
        Outro deles emitiu um chiado agudo e se colocou a cabea de seus trs companheiros.
        --Sim, no te escape agora. Tampouco  que vs chegar muito longe.

          As risadas dos renegados ressonaram nos edifcios que flanqueavam a estreita rua.
          --Merda --sussurrou o ser humano quase sem respirao. No se voltou somente
continuou para frente a passo rpido, a ponto quase de lanar-se a uma frentica, mas intil,
carreira.
           medida que o aterrorizado ser humano lhe aproximava, Lucan saiu da escurido
dando um passo e ficou em p com as pernas abertas com os braos abertos a ambos os lados
de seu corpo, bloqueou a rua com seu corpo ameaador e suas espadas as gema. Dirigiu um
frio sorriso aos renegados com as presas ameaadoras, antecipando a luta que se morava.
        --Boa tarde, senhoritas.
          --OH, Jesus! --exclamou o ser humano. Deteve-se de forma brusca e olhou a Lucan o
rosto com expresso de horror. Os joelhos cederam e caiu no cho,
        -- Merda!
        --Te levante. --Lucan lhe dirigiu um breve olhar enquanto o jovem se esforava por
ficar em p.
      -- Vai daqui.
        Esfregou uma das afiadas folhas contra a outra diante dele e encheu a rua em sombras
com o spero som metlico do ao endurecido e letal. Detrs dos quatro renegados, Dante
caiu ao asfalto e se agachou antes de levantar seu metro noventa e oito de altura. No levava
nenhuma espada, mas ao redor da cintura levava um cinturo de pele no qual levava sujeitas
uma srie de armas de mo letais, entre elas um par de folhas curvadas e afiadas como folhas
de barbear que se convertiam em uma extenso infernal de suas mos, incrivelmente rpidas.
Malebranche ou prolongaes diablicas as chamava, e efetivamente eram umas garras do
diabo. Dante as teve colocadas nas mos em um momento: era um vampiro que sempre estava
a ponto para entrar em um combate corpo a corpo.
        --OH, Meu deus --gritou o ser humano com voz trmula ao dar-se conta do perigo que
lhe rodeava. Olhou a Lucan com a boca aberta e, com mos trementes, rebuscou entre suas
roupas tirou uma carteira do bolso traseiro da cala e a atirou ao cho.
      -- Toma-a, cara! Pode ficar mas no me mate, suplico-lhe isso!

       Lucan manteve os olhos fixos nos quatro renegados, que nesses momentos estavam
tomando posies e preparavam as armas.
       --Te largue daqui. Agora.
       -- nosso --vaiou um dos renegados. Uns olhos amarelos se cravaram fixamente em
Lucan com puro dio, as pupilas se reduziram a duas famintas ranhuras verticais. De suas
largas presas lhe gotejava a saliva, outra prova do grande vcio do vampiro pelo sangue.
       Ao igual que os seres humanos podiam acabar dependendo de um poderoso narctico,
a sede de sangue tambm era destrutivo para a raa. A fronteira entre a necessidade de

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satisfazer a fome e a constante overdose de sangue se cruzava com facilidade. Alguns
vampiros entravam nesse abismo de forma voluntria, enquanto que outros sucumbiam a essa
enfermidade por inexperincia ou por falta de disciplina pessoal. Se chegava muito longe, e
durante muito tempo, um vampiro se convertia na categoria de renegado, igual a esses ferozes
monstros que grunhiam frente a Lucan nesses momentos.
        Ansioso por convert-los em cinzas, Lucan juntou com um golpe seco as duas folhas e
cheirou a fasca de fogo que se criou quando os dois aos se encontraram.
        O ser humano ainda se encontrava ali, atordoado pelo medo, dirigindo primeiro a
cabea para os renegados, que avanavam para ele, e agora para Lucan, que lhes esperava
com atitude inquebrvel. Esse momento de dvida ia custar lhe a vida, mas Lucan apartou
esse pensamento com frieza. O ser humano no era assunto dele. Quo nico importava era
eliminar a esses chupadores aditivos de sangue e ao resto dos doentes de sua raa.
        Um dos renegados se passou uma mo suja por cima dos lbios babantes.
      --Te aparte, idiota. Deixa que nos alimentemos.

      --Esta noite no --grunhiu Lucan.
      -- No em minha cidade.



       --Sua cidade? --O resto deles se burlou e o renegado que ia em cabea cuspiu no cho,
Aos ps de Lucan.
       -- Esta cidade nos pertenece . Dentro de muito pouco, possuiremo-la por completo.
       --Exato --acrescentou outro dos quatro.
       -- Assim parece que  voc quem entrou em um territrio alheio.
       Finalmente, o ser humano recuperou certa inteligncia e comeou a retirar-se, mas no
chegou muito longe. Com uma velocidade incrvel, um dos renegados alargou uma mo e
agarrou ao homem pela garganta. Ele levantou do cho e lhe segurou no ar: as botas altas do
homem ficaram a dois centmetros do cho. O ser humano grunhiu e suplicou, lutando com
ferocidade enquanto o renegado lhe apertava o pescoo com mais fora, lhe estrangulando
lentamente com a mo nua. Lucan o observou, imperturbvel, inclusive quando o vampiro
deixou cair sua retorcida presa e lhe fez um buraco no pescoo com os dentes.
       Pela extremidade do olho, Lucan viu que Dante se aproximava sigilosamente aos
renegados por detrs. Com as presas estendidas, o guerreiro se lambeu os lbios, ansioso por
entrar na tarefa. No ia sentir se defraudado. Lucan atacou primeiro, e logo a rua explodiu
com um estrondo de metal e de ossos quebrados.
       Enquanto Dante lutava como um demnio sado do inferno --com as diablicas
folhas extensveis cintilando a cada movimento, soltando gritos de guerra que rasgavam a
noite--, Lucan manteve um frio controle e uma preciso letal. Um a um, os quatro renegados
sucumbiram sob os golpes de castigo dos guerreiros. O beijo das folhas de titnio se expandia
como um veneno a toda velocidade pelo corrompido sistema sangneo dos renegados,
acelerando sua morte e provocando as rpidas mudanas nos estados de decomposio
caractersticos da morte dos renegados.
       Quando tiveram terminado com seus inimigos, quando seus corpos se reduziram de
carne a osso e de osso a cinza fumegante, Lucan e Dante foram ver os restos do outro aougue
da rua.

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      O ser humano estava imovel e sangrava profundamente por uma ferida que tinha na
garganta.

       Dante se agachou ao lado do homem e cheirou seu destroado corpo.

       --Est morto. Ou o vai estar dentro de um minuto.
        O aroma do sangue derramado encheu as fossas nasais de Lucan com a fora de um
murro no ventre. Suas presas, estendidas j por causa da ira, agora pulsavam pelo desejo de
alimentar-se. Baixou a vista e observou com desgosto ao humano moribundo. Apesar de que
tomar o sangue era necessrio para ele, Lucan desprezava a idia de aceitar os refugos dos
renegados, tivessem a forma que tivessem. Preferia conseguir o seu sustento dos serviais
anfitries que ele mesmo elegia ali onde podia, apesar de que esses escassos bocados somente
conseguiam despertar uma fome mais profunda.
        Antes ou depois, todo vampiro tinha que matar.
        Lucan no tentava negar sua natureza, mas nas ocasies em que matava, o fazia
seguindo sua prpria eleio, seguindo sua prprias regras. Quando procurava uma presa,
elegia principalmente criminosos, traficantes de droga, assassinos e outra gente de m vida.
Era judicioso e eficiente e nunca matava pelo prazer de faz-lo. Todos os da raa seguiam um
cdigo de honra similar; isso era o que lhes distinguia de seus irmos os renegados, que se
tinha separado deles ao rebelar-se a essa lei.
        Sentiu que lhe esticava o ventre: o aroma do sangue voltou a fazer-se presente em suas
fossas nasais. A saliva lhe comeou a gotejar da boca ressecada.
        Quando se tinha alimentado pela ltima vez?
        No podia record-lo: fazia bastante tempo. Vrios dias, pelo menos, e no o suficiente
para que lhe durasse. Tinha pensado acalmar parte da fome --to carnal como de sangue--
com a Gabrielle Maxwell a outra noite, mas essa idia tinha tomado um giro repentino. Agora
tremia por causa da necessidade de alimento, e essa necessidade era muito forte para pensar
em algo exceto em cobrir as necessidades bsicas de seu corpo.

      --Lucan. -- Dante apertou os dedos no pescoo do homem, procurando o pulso. As
presas do vampiro estavam estendidos, afiados depois da batalha e por causa da reao
fisiolgica ante o forte aroma desse lquido escarlate que emanava do homem.
       -- Se esperarmos muito mais, o sangue ter morrido tambm.
         E no lhes serviria de nada, posto que somente o sangue fresco que emanava das veias
dos seres humanos podia saciar a fome de um vampiro. Dante esperou, inclusive apesar de
que era bvio que quo nico desejava era baixar a cabea e tomar sua parte desse homem,
que tinha sido muito idiota para escapar quando tinha tido a oportunidade de faz-lo.
         Mas Dante esperaria, inclusive embora tivesse que deixar esbanjar esse sangue, dado
que era um protocolo no escrito que as geraes mais jovens de vampiros no se
alimentavam na presena dos mais velhos, especialmente se esse vampiro mais velho
pertencia a categoria de primeira gerao da raa e estava faminto.
         A diferencia de Dante, o pai de Lucan era um dos Antigos, um dos oito guerreiros
extraterrestres que tinham chegado de um planeta escuro e distante e se estrelaram milhares
de anos atrs contra a superfcie inspita e implacvel do planeta Terra. Para sobreviver,
alimentaram-se do sangue dos seres humanos e tinham dizimado populaes inteiras por

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causa de sua fome e de sua bestialidade. Em alguns estranhos casos, esses conquistadores
estrangeiros se haviam emparelhado com xito com fmeas humanas, as primeiras
companheiras de raa, que tinham gerado uma nova gerao da raa dos vampiros.
       Esses selvagens antepassados de outro mundo tinham desaparecido por completo, mas
sua origem ainda continuava vivendo, como Lucan e uns quantos mais disseminados pelo
mundo. Representavam o estdo mais prximo a realeza na sociedade dos vampiros: eram
respeitados e no pouco temidos. A grande maioria dos da raa eram jovens, nascidos de uma
segunda, terceira e, alguns, de uma dcima gerao.
        A fome era mais urgente nos de primeira gerao. Tambm o era a propenso a
ceder ante a sede de sangue e a converter-se em um renegado. A raa tinha aprendido a viver
com esse perigo. A maioria deles tinha aprendido a dirigi-lo: tomavam sangue somente
quando o necessitavam e nas mnimas quantidades necessrias para a sustentao. Tinham
que faz-lo assim, porque uma vez apanhados pela sede de sangue, no havia maneira de
voltar atrs.

       Os olhos afiados de Lucan caram sobre a retorcida figura humana que ainda
respirava ligeiramente, tombada no pavimento do cho. Ouviu um grunhido animal que
provinha de sua prpria garganta. Quando Lucan se aproximou com compridos passados em
direo ao aroma do sangue vivo vertido no cho, Dante fez uma ligeira saudao com a
cabea e se apartou para permitir a seu superior que se alimentasse.



     Captulo cinco
     Ele nem sequer se preocupou de cham-la e lhe deixar uma mensagem a outra noite.
     Tpico.
        Provavelmente tinha um encontro muito importante com seu mando  distancia e seu
programa de poderes paranormais. Ou possivelmente, quando se houve marchado de seu
apartamento a outra tarde, tinha conhecido a algum mais e tinha recebido uma oferta mais
interessante que devolver o telefone celular a Gabrielle no Beacon Hill.
     Diabos, inclusive era possvel que estivesse casado, ou que tivesse alguma relao com
algum. No o tinha perguntado, e se o houvesse preguntado, isso no tivesse garantido que
lhe houvesse dito a verdade. Lucan Throne, certamente, no era distinto a nenhum homem.
Exceto pelo fato de que era... diferente.
        Pareceu-lhe que era muito diferente a qualquer a quem houvesse conhecido at esse
momento. Um homem muito reservado, quase fechado, que dava uma sensao
extranhamente perigosa. Ela no podia imaginar sentado em uma poltrona diante do televisor,
igual que tampouco lhe podia imaginar junto em uma relao sria de namoro, por no falar
de uma esposa e uma famlia. O qual voltava a recordar a idia de que seguramente ele teria
recebido uma oferta mais interessante e tinha decidido desprezar a ela. E essa idia lhe doa
muito mais do que deveria.
        te esquea dele, repreendeu-se Gabrielle quase sem flego enquanto aproximava o
Cooper Mini negro  uma lateral da tranqila rua local e desligava o motor. A bolsa com sua
cmara e seu equipamento fotogrfico se encontrava no assento do co-piloto. Agarrou-a, e
tomou tambem uma pequena lanterna do porta-luvas, guardou as chaves na jaqueta e saiu do
carro.

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       Fechou a porta sem fazer rudo e jogou uma rpida olhada ao seu redor. No havia
nem uma alma a vista, o qual no era surpreendente dado que eram quase as seis da manh e
que o edifcio, no qual estava a ponto de entrar de forma ilegal e de fotografar, fazia vinte anos
que estava fechado. Andou seguindo o caminho de pavimento gretado e girou a direita,
cruzou uma sarjeta e subiu at um terreno cheio de carvalhos que formavam como uma densa
cortina ao redor do velho hospital psiquitrico.
       O amanhecer comeava a elevar-se pelo horizonte. A luz era fantasmagrica e etrea,
como uma neblina mida rosada e azulada que amortalhava essa estrutura gtica com um
brilho de outro mundo. Apesar de estar pintado em tons claros, esse lugar tinha um ar
ameaador.
        O contraste era o que a tinha atrado at essa localizao essa manh. Tomar as
imagens ao anoitecer tivesse sido a eleio mais natural para concentrar-se na qualidade
ameaadora dessa estrutura abandonada. Mas era a justaposio da clida luz do amanhecer
com o tema frio e sinistro o que atraa a Gabrielle enquanto se detinha para tirar a cmara da
bolsa que tinha pendurada do ombro. Tirou umas seis fotos e logo voltou a pr a tampa a
lente para continuar a caminhada em direo ao fantasmagrico edifcio.
        Uma alta cerca de arame apareceu diante dela, impedindo que os exploradores
curiosos como ela entrassem na propriedade. Mas Gabrielle sabia que tinha um ponto dbil
escondido. Tinha-o descoberto a primeira vez que tinha vindo ao lugar para tirar umas fotos
de exterior. Se apressou seguindo a linha da cerca at que chegou ao extremo sudoeste da
mesma, onde se agachou at o cho. Ali, algum tinha talhado discretamente o arame e tinha
formado uma abertura o bastante grande para que um adolescente curioso pudesse abrir-se
passo, ou para que uma fotgrafa decidida, e que tinha tendncia a interpretar os sinais de
No passar e S pessoal autorizado como sugestes amistosas em lugar de leis
inquebrveis, penetrasse por ela.
        Gabrielle abriu a parte de arame talhado, lanou o equipamento para o outro lado e se
arrastou como uma aranha, sobre o ventre, Atravs da baixa abertura. Quando ficou em p, ao
outro lado da cerca, sentiu que as pernas lhe tremiam por causa de uma repentina apreenso.
Deveria estar acostumada a este tipo de operaes encobertas, de exploraes em solitrio:
muito freqentemente, sua arte dependia de sua coragem para encontrar lugares desolados,
que alguns qualificariam de perigosos. Esse arrepiante psiquitrico podia, certamente,
qualificar-se como perigoso,
       pensou enquanto deixava vagar o olhar por um grafite pintado com aerosol ao lado da
porta de entrada que dizia ms vibraes.
        --J pode diz-lo --sussurrou em voz muito baixa. Enquanto se sacudia as agulhas de
pinheiro e a terra da roupa, com gesto automtico levou uma mo at o bolso dianteiro de seu
jeans em busca do celular. No estava ali,  obvio, j que ainda estava em poder do detetive
Thorne. Outra razo para sentir-se aborrecida com ele por hav-la feito esperar a outra noite.
        Possivelmente no deveria ser to dura com o menino, pensou, repentinamente
desejosa de concentrar-se em algo distinto ao mau pressentimento que a atendia agora que se
encontrava dentro do terreno do psiquitrico. Possivelmente Thorne no se apresentou porque
algo lhe tinha acontecido no trabalho.
        E se tinha sido ferido em cumprimento do dever e no acudiu tal e como tinha
prometido porque se encontrava de alguma forma encapacitado de chamar ? Possivelmente

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no tinha chamado para desculpar-se nem para explicar sua ausncia porque no podia faz-
lo fisicamente.
        Exato. E possivelmente ela tinha comprovado seu prprio crebro com as bra-gs do
mesmo segundo em que tinha posto os olhos nesse homem.
      Burlando-se de si mesmo, Gabrielle recolheu suas coisas e caminhou em direo a
imponente arquitetura do edifcio principal. Uma plida pedra calcria se elevava para o cu
em uma levantada torre central, remota em uns picos e agulhas dignos da melhor catedral
gtica. Ao seu redor havia um extenso recinto de paredes de tijolo vermelho, cujo teto estava
composto por telhas ordenadas em um desenho como de asas de morcego, comunicado entre
eles por passarelas e arcos que formavam um claustro coberto.
        Mas por impressionante que fosse essa estrutura, no havia forma de tirar-se de cima a
sensao de uma ameaa latente, como se mil pecados e mil segredos se apertassem detrs
dessas descascadas paredes e janelas com parte de cristais quebrados. Gabrielle caminhou at
o ponto onde a luz era melhor e tomou umas quantas fotos. No havia nenhuma maneira de
entrar por a: a porta principal estava fechada com ferrolho e com travessas de madeira. Se
queria entrar para realizar algumas fotos do interior --e, definitivamente, sim queria--, tinha
que dar a volta at a parte traseira e provar sorte com alguma janela que estivesse a p de rua
ou com alguma porta do poro.
        Baixou deslizando-se por um aterro em pendente para a parte posterior do edifcio e
encontrou o que estava procurando: umas portinhas de madeira ocultavam trs janelas que
era muito provvel que se abrissem a uma zona de servio ou a um armazm. Os ferrolhos
estavam oxidados, mas no estavam fechados e se abriram com facilidade quando se serve de
ajuda de uma pedra que encontrou ali ao lado. Atirou da coberta de madera das janelas,
levantou o pesado painel de cristal e o escorou, aberto, com os ferrolhos.
        Fez uma varredura geral iluminando-se com a lanterna para assegurar-se de que o
lugar estava vazio e de que no ia desabar sobre sua cabea imediatamente, e penetrou
atravs da abertura. Ao saltar do marco da janela, o solado de suas botas pisaram em cristais
quebrados e p e lixo acumulados durante anos. Esse poro de blocos de concreto tinha uns
trs metros e meio de comprimento e desaparecia na escura zona que ficava sem iluminar.
Gabrielle dirigiu o magro feixe de luz de sua lanterna para as sombras do outro extremo do
espao. Percorreu com ele a parede e o deteve sobre uma velha porta de servio em cuja
superfcie se podia ler o seguinte pster: acesso restringido.
        --O que te aposta? --sussurrou enquanto se aproximava da porta. Efetivamente, no
estava fechada com chave.
      Abriu-a e projetou a luz para o outro lado da porta, onde se abria um comprido corredor
parecido a um tnel. Uns suportes de fluorescente quebrados penduravam do teto; alguns dos
painis que os haviam coberto tinham caido sobre o cho de qualidade industrial, onde jaziam
quebrados e cobertos de p. Gabrielle entrou nesse espao escuro, insegura do que estava
procurando e com certo temor do que poderia encontrar nas desertas tripas desse psiquitrico.
         Passou por diante de uma porta aberta do corredor e a luz do flash iluminu uma
cadeira de dentista de vinil vermelho, um pouco gasta, que se encontrava colocada no centro
da habitao, como se esperasse ao prximo paciente. Gabrielle tirou a cmara de sua capa e
tomou um par de rpidas fotos. Logo continuou para diante e passou ante uma srie de
habitaes de reviso e de tratamento. Devia encontrar-se na ala mdica do edifcio.


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      Encontrou uma escada e subiu dois lances at que chegou, para sua complacencia, a
torre central onde umas grandes janelas deixavam entrar a luz da manh em generosas
quantidades.
       Atravs da lente da cmara olhou por cima de amplos terrenos e ptios flanqueados
por elegantes edifcios de tijolo e de pedra calcria. Realizou umas quantas fotos do lugar,
apreciando tanto sua arquitetura como o quente jogo que a luz do sol fazia contra tantas
sombras fantasmagricas. Resultava estranho olhar para fora do confinamento de um edifcio
que antigamente tinha albergado a tantas almas perturbadas. Nesse inquietante silncio,
Gabrielle quase podia ouvir as vozes dos pacientes, de gente que, simplesmente, no tinha a
possibilidade de marchar-se caminhando dali como ela faria ento.
       Gente como sua me biolgica, uma mulher a quem Gabrielle no tinha conhecido
nunca e da qual no sabia nada mais que o que tinha ouvido de menina nas conversaes
apagadas que os trabalhadores sociais e as famlias de acolhida mantiveram e que ao final,
uma por uma, devolveram ao sistema como se fosse um animal domstico que houvesse
demonstrado ser mais problemtico do que se podia suportar. Tinha perdido a conta do
nmero de lugares aonde a tinham enviado a viver, mas as queixa contra ela quando a
devolviam sempre eram as mesmas: inquieta e introvertida, fechada e desconfiada,
socialmente disfuncional com tendncia a atitudes autodestrutivas. Tinha ouvido os mesmos
qualificativos dirigidos para sua me, aos quais acrescentavam as categorias de paranica e
delirante.
       Quando os Maxwell apareceram em sua vida, Gabrielle tinha passado dezenove dias
em uma casa de acolhida sob a superviso de um psiclogo designado pelo Estado. No tinha
nenhuma expectativa e ainda menos esperanas de que fora capaz de conseguir que outra
situao de acolhida funcionasse. Francamente, j no lhe importava. Mas seus tutores tinham
sido pacientes e bondosos. Acreditando que possivelmente a ajudasse a dirigir a confuso
emocional, tinham-na ajudado a conseguir um punhado de documentos judiciais que tinham
que ver com sua me.
       Essa mulher tinha sido uma adolescente annima, acreditava-se que era uma sem teto,
que no tinha identificao, no lhe conhecia famlia nem conhecidos exceto pela menina
recm-nascida que tinha abandonado, chorando e angustiada, em um continer de lixo da
cidade em uma noite de agosto. A me de Gabrielle tinha sido maltratada, e sangrava por
umas profundas feridas no pescoo que ela mesma se piorou rasgando-a, vtima da histeria e
do pnico.

       Em lugar de persegui-la pelo crime de haver abandonado seu beb, o tribunal a tinha
considerado incapacitada e a tinham enviado a umas instalaes que certamente no eram
muito diferentes a esta em que se encontrava ela agora. Quando ainda no levava nem um
ms no centro institucional, pendurou-se com um lenol deixando detrs dela inumerveis
pergunta que nunca teriam resposta.
       Gabrielle tentou tirar-se de cima o peso dessas velhas feridas, mas enquanto estava ali
em p e olhava atravs dos brumosos cristais das janelas, todo seu passado apareceu em
primeiro plano em sua mente. No queria pensar em sua me, nem na desgraada
circunstncia de seu nascimento, nem nos escuros e solitrios anos que lhe seguiram.
Precisava concentrar-se em seu trabalho. Isso era o que lhe tinha permitido continuar para


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diante, depois de tudo. Era o nico constante em sua vida, e as vezes tinha sido quo nico de
verdade tinha neste mundo.
        E era suficiente.
        Durante a maior parte do tempo, era suficiente.
        Toma umas quantas fotos e te largue daqui, disse a si mesmo, como brigando-se.
        Levantou a cmara e tomou um par de fotos mais atravs do delicado trabalho de
metal que se entrelaava entre as duas janelas de cristal.
     Pensou em partir pelo mesmo caminho por onde tinha entrado, mas se perguntou se
possivelmente poderia encontrar outra sada em algum ponto do piso de abaixo do edifcio
central. Voltar a baixar ao escuro poro no lhe resultava especialmente atrativo.
     Estava inquietando a si mesmo pensando em coisas sobre a loucura de sua me, e quanto
mais momento se entretivera nesse velho psiquitrico, mais lhe foram pr os cabelos de ponta.
Abriu a porta da escada e se sentiu um pouco melhor ao ver a tnue luz que se filtrava para
dentro pelas janelas em algumas das habitaes e nos corredores adjacentes.

       Era bvio que o artista do grafite de ms vibraes tinha chegado at ali tambm. Em
cada uma das quatro janelas havia uns extranhos smbolos realizados com pintura negra.
Provavelmente eram os marcos de alguma turma, ou as assinaturas estilizadas dos meninos
que tinham estado ali antes que ela. Em uma esquina havia uma lata de aerosol atirada, ao
lado de umas bitucas de cigarros, de umas garrafas de cerveja quebrada e outros restos.
       Gabrielle tomou a cmara e procurou um ngulo adequado para a fotografia que tinha
em mente. A luz no era muito boa, mas com um lente diferente possivelmente resultasse
interessante. Rebuscou na bolsa  procura das lentes e nesse momento ficou gelada ao ouvir
um zumbido distante que procedia de algum ponto por debaixo de seus ps. Era muito
frouxo, mas soava como o de um elevador, o qual era impossvel. Gabrielle voltou a introduzir
o equipamento na bolsa sem deixar de prestar ateno aos vagos sons que sentia ao seu redor.
Todos os nervos de seu corpo se haviam esticado com uma gelada sensao de apreenso.
       No se encontrava sozinha ali dentro.
       Agora que o pensava, notou que uns olhos a olhavam desde algum ponto prximo.
Essa inquietante tira de conscincia lhe ps os cabelos de ponta na nuca e nos braos. Devagar,
girou a cabea e olhou para trs. Foi ento quando o viu: uma pequena cmara de vdeo de
circuito fechado montada em uma sombria esquina elevada do corredor, e que vigiava a porta
da escada que ela tinha atravessado fazia somente uns minutos.
     Possivelmente no estivesse em funcionamento e fosse somente algo que tinha ficado ali
dos dias em que o psiquitrico estava ainda em funcionamento. Essa teria sido uma idia
consoladora se a cmara no tivesse um aspecto to cuidado e compacto, to de tecnologia de
vanguarda em segurana. Para comprov-lo, Gabrielle se aproximou dela e se colocou quase
diretamente diante da cmara. Sem fazer nenhum rudo, a base da cmara girou e colocou a
lente no ngulo adequado at que ficou enfocado no rosto de Gabrielle.

       Merda -- disse, olhando esse olhos negro que no piscava.
     --Pega.
       Das profundidades do edifcio vazio, ouviu um rangido metlico e o estrondo de uma
porta pesada. Era evidente que esse psiquitrico abandonado no estava to abandonado


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depois de tudo. Pelo menos tinham sistema de segurana, e a polcia de Boston poderia
aprender algo dessa lio sobre o rpido tempo de reao dessa gente.
       Soaram uns passos a um ritmo compassado: algum que se encontrava vigiando tinha
comeado a dirigir-se para ela. Gabrielle se dirigiu para a escada e saiu disparada escada
abaixo enquanto a bolsa a golpeava no quadril.  medida que baixava, a luz diminua. Tomou
a lanterna com a mo, mas no queria utiliz-la por medo de que funcionasse como um aviso
de onde estava e o segurana pudesse segui-la. Chegou ao final da escada, empurrou a porta
de metal e se precipitou para a escurido do corredor do piso inferior.
        Ouviu que a porta monitorada da escada se abria com um rangido e que seu
perseguidor se precipitava para baixo, detrs dela, correndo com rapidez e ganhando terreno
rapidamente.
        Finalmente, chegou a porta de servio do final do corredor. Lanou-se contra o ao frio
e correu pelo escuro poro at a pequena janela que se encontrava aberta em uma das laterais.
A corrente de ar frio lhe deu fora: apoiou as mos no marco da janela e se elevou. Deixou-se
cair ao outro lado da janela, aterrissando fora na terra cheia de pedras.
         Agora no podia ouvir seu perseguidor. Possivelmente lhe tinha avoado nos escuros
de labirnticos corredores. Deus, isso esperava.
      Gabrielle ficou em p ao momento e correu em direo a abertura da cerca de arame.
Encontrou-a rapidamente. colocou-se engatinhando e se introduziu pela fenda no arame com
o corao desbocado e a adrenalina lhe correndo pelas veias.

      Tinha muito pnico: em sua precipitao por escapar, arranhou-se um lado do rosto com
um arame afiado da cerca. O corte lhe queimava na bochecha e sentiu o rastro quente de
sangue que lhe baixava ao lado da orelha. Mas no fez caso da abrasadora ardncia nem do
golpe que se deu com a bolsa da equipamento fotogrfica enquanto se inclinava sobre seu
ventre para sair, atravs da cerca, para a liberdade.
       Quando a teve atravessado, Gabrielle ficou em p e correu enlouquecida pelo largo e
escarpado terreno dos subrbios. Somente se permitiu jogar uma rpida olhada para trs: o
suficiente para ver que o enorme guarda de segurana ainda estava ali. Teria sado por algum
lugar do piso principal e agora corria detrs dela como uma besta recm sada do inferno.
Gabrielle tragou saliva de puro pnico ao lhe ver. O tipo parecia um tanque, facilmente pesava
cento e dez quilogramas de puro msculo, e tinha uma cabea grande e quadrada com o
cabelo talhado ao estilo militar. Esse tipo enorme correu at a alta cerca e se deteve ao chegar a
ela: golpeou-a com os punhos enquanto Gabrielle entrava correndo pela densa cortina de
rvores que separava a propriedade da estrada.
       O carro se encontrava a um lado do tranqilo asfalto, justo onde o tinha deixado. Com
mos trementes, Gabrielle se esforou por abrir a porta. sentia-se petrificada de pensar que
esse tipo carregado de esteroides pudesse apanh-la. Seu medo parecia irracional, mas isso
no impedia que a adrenalina lhe corresse por todo o corpo. Afundou-se no acento de pele do
Mini, ps a chave no contato e ligou o motor. Com o corao acelerado, ps em marcha o
pequeno carro, apertou a fundo o pedal de acelerao e se precipitou para a estrada, esca-
pando com um chiado de pneumticos sobre o asfalto e o conseguinte aroma de queimado dos
mesmos.



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      Captulo seis
      A metade da semana, em plena temporada turstica, os parques e avenidas de Boston
estavam coalhados de humanidade. Os trens traziam as pessoas a toda velocidade dos
subrbios, a seus lugares de trabalho ou aos museus, ou aos inumerveis pontos histricos
que se encontravam por toda a cidade. Olheiros carregados com cmeras subiam aos nibus
que lhes levavam de excurso ou se colocavam em fila para subir as Ferris sobrecarregados
que lhes levariam mais  frente do cabo.
        No muito longe da agitao do dia, oculto a uns nove metros sob uma manso dos
subrbios da cidade, Lucan Thorne se inclinou sobre um monitor de tela plaina, no edifcio
dos guerreiros da raa, e pronunciou uma maldio. Os registros de identificao dos
vampiros apareciam em tela a velocidade vertiginosa enquanto o programa de computador
realizava uma busca na enorme base de dados internacional procurando coincidncias com as
fotos que Gabrielle Maxwell tinha tomado.
        --Ainda nada? --perguntou, olhando de soslaio e com expresso impaciente a Gideon,
o operador informtico.
        --Nada at o momento. Mas ainda se est realizando a busca. A Base de dados de
Identificao Internacional tem uns quantos milhes de registros para comprovar. --Os
agudos olhos azuis do Gideon cintilaram por cima da arreios dos elegantes culos de sol--
Lhes jogarei o lao a esses burros, no se preocupe.
        --No me preocupo nunca --reps Lucan, e o disse de verdade. Gideon tinha um
coeficiente intelectual que rompia todas as estatsticas e ao que se acrescentava uma
tenacidade enorme. Esse vampiro era tanto um caador incansavel como um gnio e Lucan se
alegrava de lhe ter ao seu lado.
      _Se voc no for capaz de tir-los a luz, Gideon, ningum pode faz-lo.
        O gur informtico da raa, com sua coroa de cabelo curto e encrespado, dirigiu-lhe
um sorriso fanfarro e confiado.
      -- por isso que levo os verdes grandes.

        --Sim, um pouco parecido --disse Lucan enquanto se separava da tela, onde os dados
no deixavam de aparecer sem parar.
        Nenhum dos guerreiros da raa que se comprometeram a proteger a estirpe frente ao
aoite dos renegados o fazia por nenhuma compensao. Nunca a tinham tido, desde que se
organizaram pela primeira vez nessa aliana durante o que para os humanos foi a idade
medieval. Cada um dos guerreiros tinha seus prprios motivos para ter eleito esse perigoso
modo de vida, e alguns deles eram, tinha-se que admitir, mais nobres que outros. Como
Gideon, que tinha trabalhado nesse campo de forma independente at que seus dois irmos,
que eram pouco mais que uns meninos, foram assassinados pelos renegados aos subrbios do
Refgio Escuro de Londres. Ento Gideon procurou a Lucan. Disso fazia trs sculos, umas
dcadas mais ou menos. Incluso ento a habilidade do Gideon com a espada somente
encontrava rival na afiada estocada de sua mente. Tinha matado a muitos renegados em seus
tempos, mas mais tarde, a devoo e a promessa ntima que fez a sua companheira de raa,
Savannah, tinham-lhe feito abandonar o combate e empunhar a arma da tecnologia ao servio
da raa.
        Cada um dos seis guerreiros que lutavam ao lado de Lucan tinha seu talento pessoal.
Tambm tinham seus demnios pessoais, mas nenhum deles era do tipo muito sensvel que

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permitiria que um louco lhes colocasse uma lanterna pelo traseiro. Algumas costumes
estavam melhor se deixavam na escurido e, provavelmente, o nico que estava mais
convencido disso que o prprio Lucan era um guerreiro da raa conhecido como Dante.
        Lucan saudou o jovem vampiro quando este entrou no laboratrio tcnico de uma das
numerosas habitaes do edifcio. Dante, ataviado com sua habitual vestimenta negra, levava
umas calas de ciclista e uma camiseta ajustada que mostrava tanto as tatuagens a tinta como
suas intrincadas marcas de pertener a raa. Seus avultados bceps mostravam uns sinais
afiligranados que a olhos de qualquer humano pareciam smbolos e desenhos geomtricos
realizados em profundas tonalidades terra. Mas os olhos de um vampiro distinguiam esses
smbolos claramente: eram dermoglifos, umas marcas naturais herdadas dos antepasados da
raa, cuja pele sem cabelo se havia recoberto de uma pigmentao cambiante e de
camuflagem.

        Normalmente, esses glifos eram motivo de orgulho para a raa e eram seus nicos
sinais de linhagem e de fila social. Os membros da primera gerao, como Lucan, luziam essas
marca em maior nmero e seus tons eram mais saturados. Os dermoglifos de Lucan lhe
cobriam o torso, por diante e por detrs, descendiam at suas coxas e se extendam pela parte
superior dos braos, alm de subir pela nuca e lhe cobrir o crnio. Como tatuagens viventes, os
glifos trocavam de tom segundo o estado emocional de um vampiro.
        Os glifos de Dante, nesse momento, tinham um tom bronze, avermelhado, que
indicava que se alimentou recentemente e que se sentia saciado. Sem dvida, depois de que
ele e Lucan se separaram ao cabo de ter dado caa aos renegados a noite anterior, Dante tinha
ido em busca da cama e da amadurecida e suculenta veia da ndega de uma fmea anfitri.
        --Que tal vai? --perguntou enquanto se deixava cair em cima de uma cadeira e
colocava um p embainhado em uma bota em cima do escritrio, diante dele.
        --Acreditei que j teria caado e classificado a esses bastardos, Gid.
        O acento de Dante tinha restos da musicalidade de seus ancestrais Italianos ate do
sculo XVIII, mas essa noite, o educado tom de voz de Dante delatava um timbre afiado que
indicava que o vampiro se sentia inquieto e ansioso por entrar em ao. Para sublinhar esse
fato, tirou uma de suas tpicas facas de folha curvada da cilha que levava no quadril e
comeou a jogar com o gentil ao.
        Chamava a essas folhas curvadas Malebranche ou prolongaes diablicas, em
referncia Aos demnios que habitam um dos nove nveis do inferno, embora as vezes Dante
adotava esse nome como pseudnimo para si mesmo quando se encontrava entre os humanos.
Essa era quase toda a poesia que esse vampiro tinha em sua alma. Em todo o resto era
impenitente, frio e escuramente ameaador.
         Lucan admirava isso dele, e tinha que admitir que observar a Dante durante o
combate, com essas folhas inclementes, era algo belo, o bastante formoso para deixar em
ridculo a qualquer artista.

       --Bom trabalho o da noite passada --disse Lucan, consciente de que uma adulao
emitida por ele era algo estranho, inclusive embora estivesse merecendo.
      -- Me salvou o pescoo a.
     No falava da confrontao que tinham tido com os renegados, mas sim do que tinha
acontecido depois disso. Lucan tinha passado demasiado tempo sem alimentar-se e a fome era

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quase to perigosa para os seus como o vcio que aoitava aos renegados. O olhar de Dante
denotava que compreendia o que lhe estava dizendo, mas deixou acontecer o tema com sua
habitual e fria elegncia.
         --Merda --reps, com uma sonora e profunda gargalhada.
      --.Depois de todas as vezes que voc me h coberto as costas? Esquece-o, cara. S te
devolvia um favor.
         Nesse momento, as portas de cristal da entrada do laboratrio se abriram com um
zumbido surdo e dois mais dos irmos de Lucan entraram. Eram um bom par. Nikolai, alto e
atltico, de cabelo loiro como a areia, uns rasgos angulares e impactantes e uns olhos
penetrantes e azuis como o gelo, que s eram um tom mais frios que o cu de sua Siberia natal.
O mais jovem do grupo e com diferena, Niko, havia-se feito homem durante o que os
humanos chamavam a Guerra Fria. Do bero tinha sido imparavel e agora se converteu em
um buscador de sensaes de alta voltagem e se encontrava em primeira fila da raa no que
tinha que ver com armas, aparelhos, e tudo o que ficava no meio.
        Conlan, pelo contrrio, falava com suavidade e era srio: era um perito em ttica. Ao
lado da excessiva fanfarronice do Niko, resultava elegante como um gato grande. Seu corpo
era como um muro de msculos, e o cabelo loiro, de cor areia, brilhava por debaixo do
triangulo de seda negra com que se envolvia a cabea. Esse vampiro pertencia a uma das
ltimas geraes da raa, era um jovem segundo o critrio de Lucan, e sua me era uma
humana filha de um capito escocs. O guerreiro se movia com um porte quase de realeza.
        Inclusive sua amada companheira de raa, Danika, dirigia-se a esse habitante das terras
altas afetuosamente lhe chamando, com freqncia, meu senhor e essa fmea no era
precisamente servil.

        --Rio est de caminho --anunciou Nikolai com um amplo sorriso que lhe formava
duas covinhas nas bochechas. Olhou a Lucan e assentiu com a cabea.
      -- Eva me h dito que te diga que poderemos dispor de seu homem somente quando ela
tenha terminado com ele.
      --Se  que fica algo --disse D, arrastando as palavras enquanto levantava uma mo
para saudar outros com um suave roce das palmas prvio a um choque de ndulos.
        Lucan saudou Niko e a Conlan da mesma maneira, mas se sentiu algo molesto pelo
atraso de Rio. No invejava a nenhum dos vampiros pela companheira de raa que tinham
eleito, mas, pessoalmente, Lucan no encontrava nenhum sentido atar-se as demandas e
responsabilidades de um vnculo de sangue com uma fmea. Esperava-se que, em geral, a
populao da raa aceitasse a uma mulher para aparear-se e dar nascimento a seguinte
gerao, mas para a classe dos guerreros --para esses escassos machos que, de forma
voluntria, haviam abandonado o santurio dos Refgios Escuros para levar uma vida de luta
processo de vincular-se por sangue era, para Lucan, uma frescura no melhor dos casos.
        E no pior, era um convite ao desastre quando um guerreiro sentia a tentao de
antepor os sentimentos para sua companheira por cima de seu dever para a raa.
        --Onde est Tegan? --perguntou, ao dirigir seus pensamentos de forma natural para
o ltimo deles que faltava no edifcio.
      --Ainda no retornou --respondeu Conlan.
        --Chamou de onde se encontra?
        Conlan e Niko intercambiaram um olhar, e Conlan negou rapidamente com a cabea:

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       --Nenhuma palavra.

      --Esta  a vez que esteve mais tempo desaparecido em ao -- assinalou D sem dirigir-
se a ningum em especial enquanto passava o dedo polegar pelo fio da folha curvada de sua
faca.
       --Quanto faz? Trs, quatro dias?
      Quatro dias, quase cinco.
         Quem deles levava a conta?
         Resposta: todos eles a levavam, mas ningum pronunciou em voz alta a preocupao
que se estendeu ultimamente em suas filas. Tal como estava o tema, Lucan tinha que esforar-
se para controlar a raiva que despertava nele cada vez que pensava no membro mais
introvertido dos membros de seu quadro.
        Tegan sempre preferia caar em solitrio, mas seu carter afastado comeava a resultar
uma carga para outros. Era como um curinga, adquiria um valor diferente em funo de cada
ao e, ultimamente, cada vez mais. E Lucan, tinha que ser franco, encontrava difcil confiar
nesse menino, embora a desconfiana no fosse nada novo no que concernia a Tegan. Havia
uma m relao entre ambos, sem dvida, mas essa era uma histria antiga.
       Tinha que ser assim. A guerra em que ambos se comprometeram desde fazia tanto
tempo era mais importante que qualquer averso que pudesse sentir um para o outro.
        Apesar disso, o vampiro levava a cabo uma vigilncia estreita. Lucan conhecia as
debilidades de Tegan melhor que nenhum de outros e no duvidaria em responder se esse
macho punha embora fosse o dedo gordo do p no outro extremo da linha.
        Por fim, as portas do laboratrio se abriram e Rio entrou na hbitao enquanto se
colocava as abas de sua elegante camisa branca de desenho dentro da cala negra feita a
medida. Faltavam alguns botes na camisa de seda, mas Rio levava a m compostura depois
do sexo com a mesma elegncia desenvolvida com que se movia em todas as demais
circunstncias. Sob a densa franja de cabelo escuro que lhe pendurava por cima das
sobrancelhas, os olhos de cor topzio do espanhol parecia que danavam. Quando sorria,
brilhavam-lhe as pontas das presas que, nesses momentos, ainda no se haviam retratados
depois de que a paixo por sua dama os tivesse desdobrado.

       --Espero que me tenham guardado alguns renegados, meus amigos. -- esfregou-se as
mos:--Me sinto bem e tenho vontades de festa.
       -- Sente-se disse Lucan-- e tenta no manchar de sangue os computadores do Gideon.
       Gideon se levou os largos dedos da mo at a marca vermelha que Eva tinha feito na
garganta, evidentemente ao lhe morder com seus dentes romos de humana para lhe chupar a
veia. Apesar de que era uma companheira de raa, continuava sendo geneticamente Homo
sapiens. Embora fazia muitos anos que ela e outras como ela mantinham vnculos de sangue
com seus companheiros, nenhuma delas teria presas nem adquirira as demais caractersticas
dos machos vampiro. Era uma prtica ampliamente aceita que um vampiro alimentasse a sua
companheira atravs de uma ferida que ele mesmo se infligia no pulso ou no antebrao, mas
as paixes eram selvagens nas filas dos guerreiros da raa. E tambm o eram com as mulheres
que escolhiam. O sexo e o sangue era uma combinao muito potente: s vezes, muito
potente.


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        Com um sorriso impenitente, Rio se moveu na cadeira giratria com gesto alegre e
desenvolvido e se recostou no respaldo para colocar os ps nus em cima do console . Ele e os
outros guerreiros comearam a recordar os fatos da noite anterior e riram sem deixar de
mostrar-se superiores uns com os outros enquanto discutiam as tcnicas de sua profisso.
        Caar a seus inimigos era motivo de prazer para alguns membros da raa, mas a
motivao ntima de Lucan era o dio, puro e simples. No tentava ocult-lo. Desprezava tudo
aquilo que os renegados representavam e tinha jurado, fazia muito tempo, que os aniquilaria
ou que morreria no intento. Havia dias nos que no lhe importava qual das duas coisas
pudesse acontecer.
        --A est --disse Gideon por fim ao ver que os registros que apareciam em tela se
detinham.
      -- Parece que encontramos um filo.

        --O que obtiveste?
        Lucan e outros dirigiram a ateno para a tela plaina extra grande que se encontrava
em cima da mesa dos microprocessadores do laboratrio. Os rostos dos quatro renegados a
quem Lucan matou apareceram ao lado dos das fotos do celular de Gabrielle: eram os
mesmos indivduos.
        --Os registros da Base de dados de Identificao Internacional os tm qualificados
como desaparecidos. Dois desapareceram do Refgio Escuro de Connecticut o ms passado, e
outro do Fall River, e este ltimo  daqui. Todos so da gerao atual, e o mais jovem nem
sequer tem trinta anos.
        --Merda --exclamou Rio antes de assobiar com suavidade.
      -- Meninos estpidos.
        Lucan no disse nada, no sentia nada, pela perda dessas vidas jovens ao converter-se
em renegados. No eram os primeiros, e seguro que no seriam os ltimos. Viver nos Refgios
Escuros podia resultar bastante aborrecido para um macho imaturo que tivesse alguma coisa
que demostrar. O atrativo do sangue e da conquista se encontrava profunda-mente enraizado
inclusive entre as ltimas geraes, que eram as que se encontravam mais distantes de seus
selvagens antepassados. Se um vampiro ia em busca de problemas, especialmente em uma
cidade do tamanho da de Boston, normalmente os encontrava em abundncia.
        Gideon introduziu uma rpida srie de ordens atravs do teclado do computador e
abriu mais fotos procedentes da base de dados.
        --Aqui esto os ltimos dois registros. Este primeiro indivduo  um renegado
conhecido, um agressor reincidente em Boston, apesar de que parece que se manteve um tanto
 margem durante os ltimos trs meses. Quer dizer, tem-no feito at que Lucan o reduziu a
cinzas no beco este fim de semana.
        --E o que sabemos deste? --perguntou Lucan, olhando a ltima imagem que ficava, a
do nico renegado que tinha conseguido escapar depois do ataque fora da discoteca. Sua foto
no registro era uma imagem tomada de um fotograma de um vdeo que, presumivelmente,
fez-se durante uma espcie de sesso de interrogatrio conforme se deduzia pelas ataduras e
os eletrodos que levava em cima.

      --Quanto tempo tem esta imagem?


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        --Uns seis meses --respondeu Gideon, abrindo a data da imagem-- Sai de uma das
operaes na Costa Oeste.
        --Los Angeles?
        --Seattle. Mas segundo o relatrio, em Los Angeles tem uma ordem de arresto tambm.
        --Ordens de arresto --disse D em tom zombador.
       -- Uma fodida perda de tempo.
        Lucan no podia no estar de acordo com ele. Para quase toda a nao de vampiros nos
Estados Unidos e no estrangeiro, o cumprimento da lei e a deteno dos indivduos que se
converteram em renegados se governavam por umas regras e procedimentos especficos.
Redigiam-se ordens de arresto, realizavam-se as detenes, realizavam-se os enterrogatorios e
se transmitiam as condenaes. Tudo era muito civilizado e estranhamente resultava efetivo.
        Enquanto que a raa e a populao dos Refgios Escuros estavam organizados,
motivados e envoltos por capas de burocracia, seus inimigos eram imprevisveis e
impetuosos. E, a no ser que a intuio de Lucan fora errnea, os renegados, depois de sculos
de anarquia e de caos geral, estavam comeando a organizar-se.
        Se  que no levavam j meses nesse processo.
        Lucan observou a imagem que tinha aparecido em tela. Na imagen de vdeo, o
renegado a quem tinham capturado se encontrava preso em uma prancha de metal colocada
em vertical, nu e com a cabea barbeada por completo, provavelmente para que as descargas
eltricas que lhe enviavam lhe chegassem com maior facilidade enquanto lhe interrogavam.
Lucan no sentia nenhuma compaixo pela tortura que o renegado tinha suportado.
Freqentemente era necessrio realizar interrogatrios desse tipo, e igual que acontece com
um ser humano enganchado a herona, um vampiro que sofria de sede de sangue podia
suportar dez vezes mais e sem fraquejar a dor que outro de seus irmos de raa podia
agentar.

         Esse renegado era grande, com umas sobrancelhas densas e uns rasgos fortes e
primitivos. Nessa imagem lhe via rir com ironia. Os largos dentes brilhavam e tinha uma
expresso selvagem nos olhos da cor do mbar e de pupilas alargadas e verticais. Encontrava-
se envolto por cabos da cabea enorme at o musculoso peito e os braos firmes como
martelos.
      --Dando por entendido que ser feio no  um crime, por que motivo lhe pilharam em
Seattle?
      --Vamos ver o que temos. --Gideon voltou a colocar-se ante os computadores e abriu
um registro em outra das telas.
       --Lhe ho arrestado por trfico: armas, explosivos, substncias qumicas. V, este tipo 
um encanto. Colocou-se em uma merda verdadeiramente feia.
        --Alguma idia sobre de quem eram as armas que levava?
        --Aqui no diz nada. No conseguiram grande coisa com ele,  evidente. O registro
informa que escapou justo depois de que tomassem estas imagens. Matou a dois dos guardas
durante a fuga.
        E agora havia tornado a escapar, pensou Lucan, desalentado e desejando ferventemente
ter decapitado ao filho de puta quando o tinha diante. No suportava o fracasso com
facilidade, e muito menos quando se tratava do seu prprio.
        Lucan olhou a Niko.

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      --Cruzaste-te alguma vez com este tipo?
      --No --reps o russo--, mas consultarei com meus contatos, a ver o que posso
averiguar.

        --Ponha nisso.
      Nikolai assentiu com a cabea com gesto rpido e se dirigiu para a saida do laboratrio
tcnico enquanto j marcava o nmero de telefone de algum no celular.
        --Estas fotos so uma merda --disse Conlan, olhando por cima do ombro do Gideon
em direo as fotos que Gabrielle tinha tomado durante o assassinato, fora da discoteca. O
guerreiro pronunciou uma maldio.
      -- J  bastante mau que os humanos tenham presenciado alguns dos assassinatos dos
renegados durante os ltimos anos, mas agora se dedicam a deter-se e a tomar fotos?
          Dante deixou cair os ps ao cho com um rudo surdo, ficou em p e comeou a
caminhar pela habitao, como se comeasse a sentir-se cada vez mais inquieto pela falta de
atividade nessa reunio.
        --Todo mundo acredita que so uns fodidos paparazzi.
        --O tipo que fez essas fotos deveu cagar-se de medo ao encontrar-se com noventa
quilogramas de guerreiro salivando por ele --acrescentou Rio. E, olhou a Lucan--. Lhe
apagou primeiro a memria, ou simplesmente o eliminou ali mesmo?
        --O humano que presenciou o ataque essa noite era uma mulher. --Lucan olhou
fixamente os rostos de seus irmos sem mostrar o que sentia em relao a informao que
estava a ponto de lhes dar.
        -- Resulta que  uma companheira de raa.
        --Me de Deus --exclamou Rio, passando a mo pelo cabelo--. Uma companheira de
raa. Est seguro?
        --Leva o sinal. Vi-a com meus prprios olhos.
      --O que fez com ela? Transou, no...?

       --No --reps com secura Lucan, inquieto pelo que o espanhol havia insinuado com o
tom de voz.
       --No fiz nenhum mal a essa mulher. Existe uma linha que nunca vou cruzar.
       Tampouco tinha reclamado a Gabrielle para si, embora tinha estado muito perto de
faz-lo essa noite no apartamento dela. Lucan apertou a mandbula: uma onda de escuro
desejo lhe invadiu ao pensar em quo tentadora Gabrielle estava, enroscada e dormida na
cama. No malditamente doce que era seu sabor em sua lngua...
       --O que vais fazer com ela, Lucan? --Esta vez, a expresso de preocupao proveio de
onde se encontrava Gideon.
       -- No podemos deixar que os renegados a encontrem. Seguro que ela chamou a
ateno deles quando realizou essas fotos.
       --E se os renegados se do conta de que  uma companheira de raa... --acrescentou
D, interrompendo-se A metade da frase. Outros assentiram com a cabea.
       --Ela estar mais segura aqui --disse Gideon--, sob o amparo da raa. Melhor ainda:
deveria ser oficialmente admitida em um dos Refgios Escuros.
       --Conheo o protocolo --reps Lucan, pronunciando cada palavra com lentido. Sentia
muita raiva ao pensar em que Gabrielle pudesse acabar nas mos dos renegados, ou nas de

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outro membro da raa se fazia o que era devido e a mandava a um dos Refgios Escuros da
nao. Nenhuma das duas opes lhe parecia aceitvel nesse momento a causa do sentimento
possessivo que lhe bulia nas veias, irreprimivel embora no desejado.
       Olhou a seus irmos guerreiros com frieza.
     --Essa mulher  responsabilidade minha a partir de agora mesmo. Decidirei qual  a
melhor atuao neste tema.
       Nenhum dos guerreiros lhe contradisse. Lucan no esperava que o fizessem. Em
qualidade de membro de primeira gerao, ele era mais antigo; em qualidade de guerreiro
fundador dos de sua classe na raa, era quem mais coisas tinha demonstrado, com sangue e
tambm com o ao. Sua palavra era lei, e todos os que se encontravam nessa habitao o respe-
itavam.

          Dante ficou em p, brincou com a Malebranche entre seus compridos e hbeis dedos e
a embainhou com um gil gesto.
     --Faltam quatro horas para que caia o sol. Vou. --Olhou de soslaio a Rio e a Conlan.
      -- Algum tem vontades de treinar antes de que as coisas fiquem interessantes?
        Os dois machos se levantaram rapidamente, animados pela idia, e detrs dirigir uma
respeitosa saudao a Lucan, os trs grandes guerreiros sairam do laboratrio tcnico e
percorreram o corredor em direo a zona de treinamento do edifcio.
        --Tem algo mais sobre esse renegado de Seattle? --perguntou- Lucan a Gideon
enquanto as portas de cristal se fechavam, quando ambos ficaram sozinhos no laboratrio.
      -- Agora mesmo estou realizando uma comparao cruzada de todas as bases de
registros. S demorar um minuto em dar algum resultado. -- Teclou umas ordens no
computador.
     -- Bingo. Tenho uma coincidncia procedente de uma informao GPS da Costa Oeste.
Parece informao reunida anteriormente ao arresto. Joga uma olhada.
        A tela do monitor se encheu com uma srie de imagens noturnas por satlite de uma
embarcao de pesca comercial aos subrbios de Puget Sound. A imagem se centrava em um
Sedan comprido e negro que se encontrava detrs de um maltratado edifcio situado ao final
do dique. Apoiado contra a porta posterior se encontrava o renegado que tinha conseguido
escapar de Lucan fazia uns dias. Gideon passou rapidamente uma srie de imagens que lhe
mostravam conversando longamente, ou isso parecia, com algum que se encontrava oculto
detrs dos cristais negros dos guichs.  medida que as imagens avanavam, viram que a
porta traseira do carro se abria e o renegado entrava no carro.
        --Detenha --disse Lucan, fixando o olhar na mo do passageiro oculto.
      -- Pode deter todo este fotograma? Aumenta a zona da porta aberta do carro.

      --Vou tentar .
      A imagem aumentou de tamanho, mas Lucan quase no necessitava um aumento da
imagem para confirmar o que via. Quase no se distinguia, mas a estava. Na parte de pele
exposta entre a grande mo do passageiro e o punho francs da camisa de manga larga se
viam uns impressionantes dermoglifos que lhe delatavam como um membro de primeira
gerao.
      Gideon tambm os tinha visto nesse momento.


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       --Maldio, olhe isso --disse, cravando a vista no monitor--. Nosso imbcil de Seattle
desfrutava de uma companhia interessante.
       --Possivelmente ainda o est fazendo --reps Lucan.
       No havia nada pior que um renegado que tivesse sangue de primeira gerao nas
veias. Os membros de primeira gerao caam vitima da sede de sangue com maior rapidez
que as ltimas gerao da raa, e eram uns temveis inimigos. Se algum deles tinha inteno
de liderar aos renegados e lhes conduzir a um levantamento, isso significaria o princpio de
uma guerra infernal. Lucan j havia lutado em uma batalha assim uma vez, fazia muito
tempo. No desejava voltar a faz-lo.
       --Imprime tudo o que conseguiste, includos as ampliaes de eroglifos.
     --J esto.
       --Qualquer outra coisa que encontre sobre esses dois indivduos, passa-me
diretamente. Encarregarei-me disto pessoalmente.
       Gideon assentiu com a cabea, mas o olhar que lhe dirigiu por cima da arreios dos
culos expressava dvida.

        --No pode pretender te encarregar de tudo isto voc sozinho, j sabe.
      Lucan lhe cravou um olhar escuro.
        --Quem o diz?
        Sem dvida, o vampiro tinha em sua cabea de gnio todo um discurso aberto da
probabilidade e da lei da estatstica, mas Lucan no se sentia de humor para lhe escutar. A
noite se aproximava, e com ela se aproximava outra oportunidade de caar a seus inimigos.
Precisava empregar as horas que ficavam para esclarecer a cabea, preparar as armas e decidir
onde era melhor atacar. O depredador que havia nele se sentia impaciente e faminto, mas no
por causa da batalha contra os Renegados.
        Em lugar disso, Lucan se deu conta de que seus pensamentos se desviavam para um
tranqilo apartamento do Beacon Hill, para uma visita que nunca deveria ter realizado. Ao
igual que o aroma de jasmim, o recordava da suavidade e a calidez da pele de Gabrielle,
enredava-se com seus sentidos. Ficou tenso e seu sexo ficou em ereo somente pensando
nela.
      Foder.
        Essa era a razo pela qual no a tinha posto sob o amparo da raa, aqui, no edifcio. A
certa distancia, ela era uma distrao. Mas se encontrava em uma habitao prxima, seria um
maldito desastre.
        --Est bem? --perguntou-lhe Gideon, dando-a volta com a cadeira e ficando de cara a
Lucan.
      --  uma fria muito grande a que tem em topo, amigo.
        Lucan se arrancou da cabea esses escuros pensamentos e se deu conta de que as presas
lhe tinham alargado e que a viso lhe havia agudizado com o fechamento das pupilas. Mas
no era a fria o que lhe transformava. Era a luxria, e tinha que saci-la, antes ou depois.
Com essa idia lhe pulsando nas tmporas, Lucan tomou o telefone celular de Gabrielle, que
se encontrava em cima de uma das mesas, e saiu do laboratrio.



     Captulo sete

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     --D uns minutos mais e o cu --disse Gabrielle, olhando dentro do forno da cozinha e
permitindo que o rico aroma dos manicotti Calhes se pulverizasse pelo apartamento.
       Fechou a porta do forno, voltou a programar o relgio digital, serviu-se outra taa de
vinho tinto e a levou a sala de estar. No sistema de udio soava com suavidade um velho cd
da Sara McLahlan. Passavam uns minutos das sete da tarde, e Gabrielle tinha comeado, por
fim, a relaxar-se depois da pequena aventura da manh no asilo abandonado. Tinha
conseguido um par de fotos decentes que possivelmente dessem para algo, mas o melhor de
tudo era que tinha conseguido escapar do sistema de segurana do edifcio.
       Somente isso j era digno de celebrao.
       Gabrielle se acomodou em um fofo rinco do sof, quente dentro das calas cinzas de
ioga e da camiseta rosa de manga larga. Acabava-se de dar um banho e ainda tinha o cabelo
mido; umas mechas lhe desprendiam da pregadeira em que se recolheu o cabelo despreo-
cupadamente, na nuca. Agora se sentia limpa e comeava a relaxar-se por fim, e se sentia mais
que contente de ficar em casa para passar a noite desfrutando de sua solido.
       Por isso, quando soou o timbre da porta ao cabo de um minuto, soltou uma maldio
em voz baixa e pensou em fazer caso omisso dessa interrupo indesejada. O timbre soou pela
segunda vez, insistente, seguido por uns rpidos golpes na porta jogo de dados com fora e
que no soavam como que foram aceitar um no por resposta.
       --Gabrielle.
         Gabrielle j se ps em p e se dirigia cautelosamente para a porta, quando reconheceu
essa voz imediatamente. No deveria hav-la reconhecido com tanta certeza, mas assim era. A
profunda voz de bartono de Lucan Thorne atravessou a porta e lhe meteu no corpo como se
fosse um som que tivesse ouvido milhares de vezes antes e que a tranquilizava tanto como lhe
disparava o pulso, enchendo a de expectativas.
         Surpreendida e mais agradada do que queria admitir, Gabrielle abriu os mltiplos
ferrolhos e lhe abriu a porta.
     --Ol.
     --Ol, Gabrielle.
         Ele a saudou com uma inquietante familiaridade: seus olhos eram intensos baixo essas
escuras sobrancelhas de linha decidida. Esse penetrante olhar percorreu lentamente o corpo de
Gabrielle, desde sua cabea despenteada, passando pelo sinal da paz costurado em seda na
camiseta que cobria o peito sem sutiens, at os dedos dos ps que apareciam nus por debaixo
das pernas das calas boca de sino.
         --No esperava a visita de ningum. --Disse-o como desculpa por seu aspecto, mas
no pareceu que a Thorne importasse. Em realidade, quando ele voltou a dirigir sua ateno
ao rosto dela, Gabrielle sentiu que se ruborisava repentinamente por causa da forma em que a
estava olhando.
         Como se queria devor-la ali mesmo.
       --OH, trouxe-me o telefone celular --disse ela, sem poder evitar dizer uma
obviosidade, ao ver o brilho metlico na mo dele.
     O alargou a mo, oferecendo-lhe,
       --Mais tarde que o que deveria. Peo-lhe desculpas.
       Tinha sido sua imaginao, ou os dedos dele tinham roado os seus de forma
deliberada quando ela tomava o celular de sua mo?

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         --Obrigado por devolver-me disse isso ela, ainda apanhada no olhar dele--. pde...
isto... pde fazer algo com as imagens?
       --Sim. Foram de grande ajuda.

       Ela suspirou, aliviada de que a polcia estivesse, por fim, de sua parte nesse assunto.
       --voc cr que poder apanhar aos tipos das fotos?
       --Estou seguro disso.
       O tom da voz dele tinha sido to ameaador que Gabrielle no o duvidou nem um
instante. A verdade era que comeava a ter a sensao de que o detetive Thorne era um
menino travesso no pior de seus pesadelos.
       --Bom, essa  uma notcia fantstica. Tenho que admitir que todo esse assunto me
deixou um pouco intranqila. Suponho que presenciar um assassinato brutal tem esse efeito
em uma pessoa, verdade?
       Ele se limitou a responder com um direto assentimento de cabea. Era um homem de
poucas palavras, isso era evidente, mas quem necessitava palavras quando se tinham uns
olhos como esses que eram capazes de desnudar a alma?
       Nesse momento, a suas costas, o alarme do forno da cozinha comeou a soar. Gabrielle
se sentiu aborrecida e aliviada ao mesmo tempo.
       --Merda. Isso... isto...  meu jantar. Ser melhor que o apague antes de que se dispare o
alarme contra incndios. Espere aqui um segundo... quero dizer, quer...? --Respirou fundo
para tranqilizar-se; no estava acostumada a sentir-se to insegura com ningum.
        -- Entre, por favor. Volto em seguida.
       Sem duvidar nem um momento, Lucan Thorne entrou no apartamento atrs dela,
Gabrielle se dava a volta para deixar o telefone celular e dirigir-se a cozinha para tirar os
manicotti do forno.
       --Interrompi algo?



       Gabrielle se surpreendeu para ouvir que lhe falava desde dentro da cozinha, como se a
tivesse seguido imediatamente e em silencio do mesmo instante em que lhe tinha convidado a
entrar. Gabrielle tirou a bandeja com a massa fumegante do forno e a deixou em cima da mesa
para que se esfriasse. Tirou-se as luvas de cozinha, quentes, e se deu a volta para lhe dedicar
ao detetive um sorriso orgulhoso.
     --Estou de celebrao.
       Ele inclinou a cabea e jogou uma olhada ao silencioso ambiente que lhes rodeava.
       --Sozinha?
     Ela se encolheu de ombros.
       --A no ser que voc queira me acompanhar.
       O leve gesto de cabea que ele fez parecia mostrar reticncia, mas imediatamente se
tirou o casaco escuro e o deixou, dobrado, em cima do respaldo de um dos tamboretes que
havia na cozinha. Sua presena era peculiar e lhe impedia de concentrar-se, especialmente
nesses momentos em que ele se encontrava dentro da pequena cozinha: esse homem
desconhecido e musculoso de olhar cativante e de um atrativo ligeiramente sinistro.
     Ele se apoiou no mrmore da cozinha e a observou enquanto ela se ocupava da bandeja
de massa.

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      --O que celebramos, Gabrielle?
      --Que hoje vendi algumas fotografias, em uma amostra privada, em um escritrio
brega do centro da cidade. Meu amigo Jamie me chamou faz uma hora aproximadamente e
me deu a notcia.
      Thorne sorriu levemente.

        --Felicidades.
        --Obrigado. --Ela tirou outra taa do armrio da cozinha e levantou a garrafa aberta
do Chianti.
      -- Quer um pouco?
     O negou lentamente com a cabea.
        --Infelizmente, no posso.
        --OH, sinto-o --reps ela, recordando qual era sua profisso.
     -- De servio, verdade?
        Ele apertou a mandbula.
     --Sempre.
        Gabrielle sorriu, levou-se uma mo at uma mecha que lhe tinha desprendido da cauda
e o colocou detrs da orelha. Thorne seguiu com o olhar o movimento de sua mo, e seus
olhos se detiveram no arranho que Gabrielle tinha na bochecha.
        --O que lhe aconteceu?
        --OH, nada --respondeu ela, pensando que no era uma boa idia contar a um policial
que se passou parte da manh dentro de um velho psiquitrico no qual tinha entrado de
maneira ilegal.
     -- somente um arranho: ossos do ofcio, de vez em quando. Estou segura de que sabe
do que lhe falo.
        Gabrielle riu, um pouco nervosa, porque de repente ele se estava acercando a ela com
uma expresso muito sria no rosto. Com apenas uns quantos passos se colocou justo diante
dela. Seu tamanho, sua fora --que resultava evidente--, era entristecedora. A essa curta
distncia, Gabrielle pde ver os msculos bem desenhados que se marcavam e se moviam de-
sde sua camisa negra. Essa malha de qualidade lhe caa nos ombros, no peito e nos braos
como se o tivessem feito a medida para que lhe sentasse perfeitamente.

        E seu aroma era incrvel. No notou que levasse colnia, somente notou um ligeiro
aroma a memora e a pele, e a um pouco mais denso, como uma especiaria extica que no
conhecia. Fossr o que fosse, esse aroma invadiu todos seus sentidos como algo elementar e
primitivo e fez que se aproximasse ainda mais a ele em um momento no qual o que deveria ter
feito era apartar-se.
        Ele alargou a mo e Gabrielle agentou a respirao ao notar que a acariciava a linha da
mandbula com a ponta dos dedos. A nudez desse contato irradiou calor sobre sua pele, que se
estendeu para seu pescoo enquanto lhe acariciava com a mo a sensvel pele debaixo da
orelha e da nuca. Acariciou-lhe o arranho da bochecha com o dedo polegar. A ferida lhe tinha
ardido antes, quando a tinha limpo, mas nesse momento, essa tenra e inesperada carcia no a
incomodou absolutamente.
      No sentia nada mais que uma clida frouxido e uma lenta dor que lhe formava
redemoinhos no mais profundo de seu corpo.

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       Para sua surpresa, ele se inclinou para diante e lhe deu um beijo no arranho. Os lbios
dele se entretiveram nesse ponto um instante, o tempo suficiente para que ela compreendesse
que esse gesto era um preldio a algo mais. Gabrielle fechou os olhos: sentia o corao
acelerado. No se moveu e quase nem respirou enquanto notava o contato dos lbios de Lucan
que se dirigiam para os seus. Os beijou com intensidade, e notou a chicotada do desejo apesar
da suavidade e a calidez dos lbios dele. Gabrielle abriu os olhos e viu que ele a estava
olhando. Os olhos dele tinham uma expresso selvagem e animal que lhe provocou uma
corrente de ansiedade que lhe percorreu todas as costas.
       Quando finalmente foi capaz de falar, a voz lhe saiu dbil e quase sem flego.
       --Tem que fazer isto?
       Esse olhar penetrante permaneceu cravado em seus olhos.
     --OH, sim.



        Ele se inclinou para ela outra vez e lhe acariciou as bochechas, o queixo e o pescoo com
os lbios. Ela suspirou e ele apanhou esse ar com um profundo beijo, lhe penetrando a boca
com a lngua. Gabrielle lhe recebeu, vagamente consciente de que as mos dele se
encontravam sobre suas costas agora e que se deslizavam por debaixo da camiseta. E lhe
acariciou, percorrendo a coluna com as pontas dos dedos. Essa carcia se deslocou com um
movimento preguioso para baixo, e continuou por cima da malha da cala. Essas mos fortes
se acoplaram a curva de suas ndegas e as apertaram ligeiramente. Ela no resistiu. Ele voltou
a beij-la, mais profundamente, e a atraiu devagar para si at que a plvis dela entrou em
contato com o duro msculo de sua entre perna.
        Que diabos estava fazendo? Estava utilizando a cabea?
        --No --disse ela, tentando recuperar o sentido comum.
     -- No, um momento. Pare. --Deus, detestou como tinha divulgado essa palavra, agora
que a sensao dos lbios dele sobre os sua era to agradvel.
      -- Est... Lucan... est com algum?
        --Olhe a seu redor, Gabrielle. --Passou-lhe os lbios por cima dos dela enquanto o
dizia e ela se sentiu enjoada de desejo.
     -- Estamos somente voc e eu.
        --Tem namorada --gaguejou ela entre beijo e beijo. Possivelmente j era um pouco
tarde para pergunt-lo, mas tinha que sab-lo, inclusive apesar de que no estava segura de
como reagiria ante uma resposta que no fosse a que queria ouvir.
     -- Tem casal? Est casado? Por favor, no me diga que est casado...
        --No h ningum mais.
        Somente voc.
        Ela estava bastante segura de que ele no tinha pronunciado essas duas ltimas
palavras, mas Gabrielle as ouvia em sua cabea, ouvia seu eco quente e provocador,
vencendo todas suas resistncias.

      OH, ele resulta muito agradvel. Ou possivelmente era que ela estava to deses-
perada por ele, que esse simples e nico sinal que lhe oferecia era suficiente. Essa e a que
combinava essas mos suaves e esses quentes e famintos lbios. Apesar de tudo, lhe acreditou


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sem sombra de dvida. Sentiu como se todos e cada um dos sentidos dele estivessem sozinho
concentrados nela.
     Como se somente existisse ela, somente ele, e essa coisa quente que havia entre eles.
         E que, inegavelmente, tinha existido entre eles do mesmo momento em que ele tinha
subido as escadas de sua casa pela primeira vez.
         --OH --exclamou ela enquanto exalava todo o ar dos pulmes com um comprido
suspiro. Ela se apertou contra ele desfrutando da sensao de notar essas mos sobre sua pele,
lhe acariciando a garganta, o ombro, o arco das costas.
       -- O que estamos fazendo, Lucan?
       Ele emitiu um grunhido divertido que ela sentiu no ouvido, grave e prfundo como a
noite.
         --Acredito que j sabe.
         --Eu no sei nada, nada quando faz isso. OH... Deus.
         Ele deixou de beij-la um instante e a olhou aos olhos com intensidade enquanto se
apertava contra ela com um gesto lento e deliberado. O sexo dele se apertou, rgido, contra o
estmago dela. Ela notava a solidez e a dimenso de seu membro, sentia a pura fora e
tamanho de seu pnis, inclusive atravs da barreira da roupa. Sentiu a umidade entre as per-
nas no mesmo instante em que a idia de lhe receber dentro de si passou pela cabea.
         -- por isso que vim esta noite. --A voz de Lucan soou rouca contra seu ouvido.
       --O compreende, Gabrielle? Desejo-te.
         Esse sentimento era mais que mtuo. Gabrielle gemeu e esfregou seu corpo contra o
dele com um desejo que no podia, nem queria, controlar.

       Isso no estava acontecendo. No estava acontecendo, realmente. Tinha que tratar-se de
outro sonho louco, como o que tinha tido depois da primera vez que lhe tinha visto. Ela no
estava em p na cozinha com Lucan Thorne, nem estava permitindo que esse homem ao que
quase no conhecia a seduzisse. Estava sonhando, tinha que estar sonhando, e ao cabo de
pouco tempo despertaria no sof, sozinha, como sempre, com a taa de vinho atirada no
tapete e seu jantar no forno, queimado.
       Mas ainda no.
       OH, Deus, por favor, ainda no.
     Sentir como lhe acariciava a pele, como bulia de desejo sua lngua, era melhor que
qualquer sonho, inclusive melhor que esse delicioso sonho que tinha tido antes, se  que isso
era possvel.
       --Gabrielle --sussurrou ele.
       -- Me diga que voc tambm quer isto.
       --Sim.
       Gabrielle notou que ele introduzia uma mo entre os corpos de ambos, urgente, e
sentiu o flego quente dele em sua garganta.
       --Me sinta, Gabrielle. Date conta de at que ponto te necessito.
     Ela sentiu os dedos dele ligeiros ao entrar em contato com os seus. Conduziu-lhe a mo
at a tensa ereo, liberada agora de seu confinamento. Gabrielle lhe rodeou o pnis com a
mo e acariciou sua pele aveludada lentamente, lhe medindo. Essa parte de seu corpo era to
grande como o resto, e tinha uma fora brutal apesar de que era muito suave. Sentir o peso do


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sexo dele na mo a transtornou como se tivesse tomado uma droga. Apertou a mo ao redor
do pnis e atirou para cima, acariciando com a ponta dos dedos o grosso glande.
       Enquanto Gabrielle subia e baixava com a mo ao longo de seu membro, Lucan se
retorcia. Notou que as mos dele tremiam enquanto se deslocavam dos quadris dela at a
parte dianteira da pantalona para desabotoar-lhe, atirou do n do cordo e soltou um
juramento em algum idioma estranho com os lbios quentes contra seu cabelo. Gabrielle
sentiu uma corrente de ar frio sobre o ventre e, imediatamente, o calor repentino da mo de
Lucan, que acabava de introduzir-lhe dentro da cala.

        Ela estava mida por ele, tinha perdido a cabea e sentia que o desejo lhe queimava.
        Ele introduziu os dedos com facilidade por entre os cachos de sua entre perna e em seu
sexo empapado, provocando-a com a brincadeira de sua mo contra sua carne. Ela gritou ao
sentir que o desejo a invadia em uma quebra de onda que a deixou tremendo.
        --Necessito-te --lhe confessou em um fio de voz, nua pelo desejo. Por resposta, lhe
introduziu um comprido dedo dentro da vagina e logo outro. Gabrielle se retorceu ao sentir
essa carcia tentadora que ainda no a enchia.
        --Mais --disse, quase sem flego--. Lucan, por favor... necessito... mais.
        Um escuro grunhido de paixo soou na garganta dele enquanto voltava a atacar seus
lbios com outro beijo faminto. A cala dela se escorregou at o cho. Detrs, seguiram-lhe as
calcinhas, a fina malha se rompeu com a fora e a impacincia da mo de Lucan. Gabrielle
sentiu que o ar frio lhe acariciava a pele, mas ento Lucan ficou de joelhos diante dela e ela se
acendeu antes de ter tempo de voltar a respirar. Ele a beijou e a lambeu, lhe sujeitando com
fora a parte interior das coxas com as mos e lhe fazendo abrir as pernas para satisfazer seu
desejo carnal. Sentiu a lngua dele que a penetrava, sentiu que os lbios dele a chupavam com
fora, e no pde evitar sentir que as pernas lhe fraquejavam.
        Gozou rapidamente, com mais fora da que teria imaginado. Lucan a sujeitava com
firmeza com as mos, apertando seu mido sexo contra ele, sem lhe dar trgua Apesar de que
o corpo dela tremia e se retorcia e que seu flego era agitado e entrecortado enquanto ele a
conduzia para o orgasmo outra vez. Gabrielle fechou os olhos e jogou a cabea para trs,
rendendo-se a ele, e a loucura desse inesperado encontro. Cravou-lhe as unhas nos ombros
para sujeitar-se, porque sentia que as pernas lhe falhavam.

       Sentiu, de novo, o alvio do orgasmo em todo o corpo. Primeiro a possuiu com uma
fora frrea, arrastando-a a um pas de uma sensualidade de sonho, e logo a soltou e ela se
sentiu cair e cair...
       No, estava-a levantando, pensou, aturdida por essa neblina sexual. Os braos de
Lucan a sujeitavam com ternura por debaixo das costas e dos joelhos. Agora ele estava nu, e
ela tambm, Apesar de que no podia recordar quando se tirou a camiseta. Lhe rodeou o
pescoo com os braos e ele a tirou da cozinha para a sala de estar, onde soava pelos alto-
falantes a voz do Sarah McLahlan em um tema que falava de abraar a algum e de lhe beijar
at lhe deixar sem respirao.
       A suavidade do sof a recebeu assim que Lucan a teve depositado no sof para colocar-
se em cima dela. No foi at esse momento que ela pde lhe ver por completo, e o que viu era
magnfico. Um metro noventa e oito de slida musculatura e de pura fora masculina que a
apanhava por cima, e esses slidos braos a cada lado de seu corpo.

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       Como se a pura beleza do corpo dele no fosse suficiente, a impressionante pele de
Lucan mostrava umas intrincadas tatuagens que a deixaram boquiaberta. O complicado
desenho de linhas curvas e formas entrecruzadas se desdobrava por cima de seus peitorais e
de seu forte abdomen, subia-lhe pelos largos ombros e lhe rodeava os grossos bceps. A cor era
confusa, variava de um verde mar, a um siena, um vermelho bordo que parecia tomar um
tom mais intenso quando ela o olhava.
       Ele baixou a cabea para concentrar-se em seus peitos, e Gabrielle viu que a tatuagem
lhe cobria as costas e desaparecia sob o cabelo da nuca. A primeira vez que lhe viu, sentiu o
desejo de percorrer com os dedo essa marca. Agora sucumbiu a ele, abandonando-se,
deixando que suas mos percorressem todo o corpo dele, maravilhada tanto por esse homem
misterioso como por essa estranha arte que sua pele mostrava.
       --Me beije --lhe suplicou, lhe sujeitando os ombros tatuados com ambas as mos.
       Ele comeou a levantar a cabea e Gabrielle arqueou as costas debaixo dele, sentindo-se
enfebrecida pelo desejo, precisando lhe sentir dentro de seu corpo. Sua ereo era dura como o
ao e quente contra suas coxas. Gabrielle deslizou as mos para baixo e lhe acariciou enquanto
levantava os quadris para lhe receber.

        --Tome --sussurrou ela--. Me encha, Lucan. Agora. Por favor.
      Ele no o negou.
        O grosso glande de seu membro pulsava, duro e sensvel, na entrada de sua vagina.
Ele estava tremendo e ela se deu conta de uma forma um tanto confusa. Esses impressionantes
ombros tremiam sob o contato de suas mos, como se ele se esteve contendo todo esse tempo e
estivesse a ponto de explodir. Ela queria que ele gozasse com a mesma fora com que o tinha
feito ela. Precisava lhe ter dentro dela ou ia morrer. Ele emitiu um grunhido afogado, os lbios
lhe roando a sensibilidade da pele do pescoo.
        --Sim --lhe animou ela, movendo-se debaixo dele para que seu pnis se crava-se at o
centro de seu corpo.
       -- No seja suave. No vou romper.
        Ele levantou a cabea finalmente e, por um instante, olhou-a aos olhos. Gabrielle lhe
olhou, com as plpebras pesadas, assustada pelo fogo indmito que viu nele: seus olhos
brilhavam com umas chamas gmeas de uma cor prateado plido que lhe alagava as pupilas e
penetrava nos olhos dela com um calor sobrenatural. Os rasgos do rosto dele pareciam mais
afiados, sua pele parecia estirar-se sobre suas mas do rosto e suas fortes mandbulas.
         Era verdadeiramente peculiar como a tnue luz da habitao jogava sobre esses
rasgos.
         Esse pensamento ainda no lhe tinha terminado de formar por completo quando as
luzes da sala de estar se apagaram de uma vez. Tivesse-lhe parecido estranho se Lucan, nesse
momento, quando a escurido caiu sobre eles, no a tivesse penetrado com uma forte e
profunda investida. Gabrielle no pde reprimir um gemido de prazer ao notar que ele a
enchia, abria-a, empalava-a at o centro de seu corpo.

      --OH, Meu deus --exclamou ela quase em um soluo, aceitando toda a dureza e
dimenso dele.
     --  to prazeiroso.


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         Ele baixou a cabea at o ombro dela e soltou um grunhido enquanto saa de sua
vagina. Logo investiu com mais fora que antes. Gabrielle se sujeitou as costas dele, lhe
atraindo para si, enquanto levantava as cadeiras para receber suas fortes investidas. Ele soltou
um juramento, quase sem respirao, que pareceu um som escuro e animal. Seu pnis se des-
lizava dentro dela e parecia inchar-se mais a cada movimento de seus quadris.
       --Necessito foderte, Gabrielle. Precisava estar dentro de ti do primeiro momento em
que te vi.
       A franqueza dessas palavras, o fato de que admitisse que a tinha desejado tanto como
lhe tinha desejado a ele somente serviu para que ela se inflamasse mais. Enredou os dedos no
cabelo dele, e gritou, sem respirao,  medida que o ritmo dele se incrementava. Agora ele
entrava e saa, incansvel, entre suas pernas. Gabrielle sentiu a corrente do orgasmo no mais
profundo de seu ventre.
       --Poderia estar fazendo isto toda a noite --disse ele com voz rouca, seu flego quente
contra o pescoo dela.
       -- Acredito que no posso parar.
       --No o faa, Lucan. OH, Deus... no o faa.
       Gabrielle se agarrou a ele enquanto ele bombeava dentro de seu corpo. Era o nico que
pde fazer enquanto um grito lhe rompia a garganta e gozava e gozava e gozava uma vez
detrs de outra, imparavel.
       Lucan saiu do apartamento de Gabrielle e percorreu a escura e silenciosa rua a p.
Tinha-a deixado dormindo no dormitrio de seu apartamento, com a respirao compassada e
tranqila, o delicioso corpo esgotado depois de trs horas de paixo sem parar. Nunca havia
transado com tanta fria, durante tanto tempo, nem to completamente com ningum.
       E ainda desejava mais.

       Mais dela.
       O fato de que tivesse conseguido lhe ocultar o alongamento das presas e o brilho de
selvagem desejo de seus olhos era um milagre.
       O fato de que no tivesse cedido  necessidade invencvel e urgente de lhe cravar as
afiadas presas na garganta e beber at ficar embriagado era ainda mais impressionante.
       Mas no confiava em si mesmo o suficiente para ficar perto dela enquanto cada uma
das enfebrecidas clulas de seu corpo lhe doa pelo desejo de faz-lo.
       Provavelmente, a ter ido ver essa noite tinha sido um monstruoso engano. Tinha
pensado que ter sexo com ela apagaria o fogo que lhe acendia, mas nunca se equivocou tanto.
Ter tomado a Gabrielle, ter estado dentro dela, somente tinha servido para pr em evidncia a
debilidade que sentia por ela. Tinha-a desejado com uma necessidade animal e a tinha
aoitado como o depredador que era. No estava seguro de ter sido capaz de aceitar um no
como resposta. No acreditava que tivesse sido capaz de controlar o desejo que sentia por ela.
     Mas no lhe tinha rechaado.
       No o tinha feito, no.
       Em retrospectiva, tivesse sido um ato de misericrdia que ela o ouvesse feito, mas em
lugar disso, Gabrielle tinha aceito por completo sua fria sexual e tinha exigido que no lhe
desse nada inferior a isso .
       Se nesse mesmo momento, desse meia volta e voltasse para seu apartamento para
despert-la, poderia passar umas quantas horas mais entre suas impressionantes e

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acolhedoras coxas. Isso, pelo menos, satisfaria parte de sua necessidade. E se no podia saciar
a outra parte, esse tortura que crescia cada vez mais em seu interior, podia esperar a que se
levantasse o sol e deixar que seus mortais raios o abrasassem at a destruio.

        Se o dever que tinha para a raa no lhe tivesse to comprometido, consideraria essa
opo como uma possibilidade atrativa.
        Lucan pronunciou um juramento em voz baixa. Saiu do bairro de Gabrielle e se
internou na paisagem noturna da cidade. Tremiam-lhe as mos. Lhe havia agudizado a vista,
e seus pensamentos comeavam a ser selvagens. O corpo lhe picava; sentia-se ansioso. Soltou
um grunhido de frustrao: conhecia esses sintomas muito bem.
      Precisava voltar a alimentar-se.
        Fazia muito pouco tempo que tinha tomado a quantidade suficiente de sangue para
manter-se durante uma semana, possivelmente mais. Isso havia sido umas quantas noites
atrs e, apesar disso, lhe retorcia o estmago como se estivesse desfalecido de fome. Fazia
muito tempo que sua necessidade de alimentar-se tinha piorado e j quase resultava
insuportavel quando tentava reprimir-lhe.
        Isso era o que lhe tinha permitido chegar to longe.
        Em um momento ou outro ia chegar ao final da corda. E ento o que?
        De verdade acreditava que era to distinto de seu pai?
        Seus irmos no tinham sido distintos de seu pai, e eles eram maiores e mais fortes que
ele. A sede de sangue os tinha levado aos dois: um deles se tirou a vida quando o vcio foi
demasado forte; o outro foi mais  frente ainda, converteu-se em um renegado e perdeu a
cabea sob a folha mortal de um guerreiro da raa.
        Ter nascido na primeira gerao lhe tinha dado a Lucan uma grande fora e um
grande poder --e lhe tinha permitido gozar de um imediato respeito que ele sabia que no
merecia--, mas isso era tanto um dom como uma maldio. Perguntava-se quanto tempo mais
poderia continuar lutando contra a escurido de sua prpria natureza selvagem. Algumas
noites se sentia muito cansado de ter que faz-lo.

       Enquanto caminhava entre a gente que povoava as ruas noturnas Lucan deixou vagar
o olhar. Embora estava preparado para entrar em batalha se tinha que faz-lo, alegrou-se de
que no houvesse nenhum renegado a vista. Somente viu uns quantos vampiros da ltima
gerao que pertenciam ao Refgio Escuro dessa zona: um grupo de jovens machos que se
mesclaram com um animado grupo de seres humanos que tinham sado de festa e que
procuravam dissimuladamente, igual a ele, um anfitrio de sangue. Enquanto se dirigia para
eles por essa parte da calada, viu que os jovens se davam cotoveladas uns aos outros e lhes
ouviu sussurrar as palavras guerreiro e primeira gerao. A admirao que mostravam
abertamente e sua curiosidade resultavam aborrecida, embora no era algo pouco habitual.
Os vampiros que nasciam e cresciam nos Refgios Escuros raramente tinham a oportunidade
de ver um membro da classe dos guerreiros, por no falar do fundador da antiga e orgulhosa e
agora j antiquada Ordem.
        A maioria deles conheciam as histrias que contavam que fazia varios sculos, oito dos
mais ferozes e letais machos da raa se uniram em um grupo para assassinar aos ltimos
antigos selvagens e ao exrcito de renegados que lhes serviam. Esses guerreiros se
converteram lenda e desde esse momento, a Ordem tinha sofrido muitas mudanas, havia

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crescido em nmero e suas localizaes tinham aumentado nos perodos em que tinha havido
conflito com os renegados e tinham detido sua atividade durante os largos perodos de paz.
        Agora, a classe dos vampiros estava formada somente por um punhado de indivduos
em todo o planeta que operava de forma encoberta e muitas vezes independente e com no
pouco desprezo da sociedade. Nesta poca ilustrada de trato justo e de processos legais em
que se encontrava a nao dos vampiros, as tticas dos guerreiros se consideravam renegadas
e quase do outro lado da lei.
        Como se Lucan, ou a qualquer dos guerreiros que se encontravam em primeira fila da
luta com ele, importassem-lhes o mais mnimo as relaes pblicas.
        Lucan grunhiu em direo aos jovens boquiabertos e dirigiu uma convite mental as
fmeas humanas com quem os vampiros tinham estado conversando na rua. Todos os olhos
femininos ficaram cravados no puro poder que ele --e ele sabia-- emanava em todas as
direes. Duas das garotas --uma loira de peito abundante e uma ruiva de cabelo somente um
pouco mais claro que o do Gabrielle-- se separaram imediatamente do grupo e se
aproximaram dele, esquecendo a seus amigos e aos outros machos imediatamente.

       Mas Lucan somente necessitava a uma, e a eleio era fcil. Rechaou a loira com um
gesto de cabea. Sua companheira se colocou sob o brao dele e comeou alhe manusear
enquanto ele a conduzia para um discreto e escuro rinco de um edifcio prximo.
       Se pos a tarefa sem duvidar nem um momento.
       Apartou o cabelo da garota, impregnado do aroma de tabaco e a cerveja, de seu
pescoo, lambeu-se os lbios e lhe cravou as presas estendidas na garganta. Ela sofreu um
espasmo ao notar a dentada e levantou as mos em um gesto instintivo no momento no qual
ele comeou a chupar com fora o sangue de suas veias. Chupou durante um bom momento,
no queria desperdiar nada. A fmea gemeu, no por causa do alarme nem da dor, a no ser
a causa do prazer nico que produzia sentir sair o sangue sob o domnio de um vampiro.
     O sangue encheu a boca de Lucan, quente e denso.
       Contra sua vontade, em sua mente se formou a imagem de Gabrielle em seus braos, e
Lucan imaginou, por um muito breve instante, que era de seu pescoo de que chupava nesses
momentos.
       Que era o sangue dela a que lhe descia pela garganta e lhe entrava no corpo.
       Deus, o que era pensar como seria chupar a veia de Gabrielle enquanto seu pnis se
cravava no quente e mido centro de seu corpo.
     Que prazer s pens-lo.
       Apartou essa fantasia de sua mente com um grunhido feroz.

        Isso no vai acontecer nunca, disse a si mesmo, com dureza. A realidade era outra
coisa, e era melhor que no a perdesse de vista.
        A verdade era que no se tratava de Gabrielle, mas sim de uma estranha sem nome,
justo tal e como ele o preferia. O sangue que tomava nesse momento no tinha a doura de
jasmim que ele tanto desejava, a no ser uma acidez amarga viciada por algum suave
narctico que sua anfitri tinha ingerido recentemente.
        No lhe importava o sabor que tivesse. Quo nico precisava era apaziguar a urgncia
da sede, e para isso servia qualquer. Continuou chupando e tragando com ansiedade, de
forma expedita, como o fazia sempre quando se alimentava.

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        Quando teve terminado, passou a lngua pelos dois orifcios para fecha-los. A jovem
estava respirando agitadamente, tinha os lbios entre abertos e seu corpo estava lnguido
como se tivesse acabado de ter um orgasmo.
        Lucan ps a palma da mo sobre a frente dela e a desceu para seu rosto para lhe fechar
os olhos, vazios de expresso e sonolentos. Esse contato apagava qualquer lembrana do que
acabava de acontecer entre eles.
        --Seus amigos lhe esto procurando -- disse a garota enquanto apartava a mo de seu
rosto e lhe olhava, confundida, piscando.
      -- Deveria ir a casa. A noite est cheia de depredadores.
        --De acordo --disse ela, assentindo com a cabea.
        Lucan esperou entre as sombras enquanto ela dava a volta a esquina do edifcio e se
dirigia para seus companheiros. Ele inalou com fora atravs dos dentes e das presas: sentia
todos os msculos do corpo tensos, duros e vivos. O corao lhe pulsava com fora no peito.
Somente pensar no sabor que devia ter o sangue de Gabrielle lhe tinha provocado uma ereo.

       Seu apetite fsico deveria haver-se apaziguado agora que j se havia alimentado, mas
no se sentia satisfeito.
     Ainda... desejava-a.
       Emitiu um grunhido baixo e voltou a sair de caa a rua, mais mal humorado que nunca.
Ps o olhar na parte mais conflitiva da cidade com a esperana de encontrasse com um ou
dois renegados antes de que comeasse a sair o sol. De repente, precisava meter-se em uma
briga desesperadamente. Precisava fazer mal a algum, inclusive embora esse algum
acabasse sendo ele mesmo.
       Tinha que fazer o que fosse necessrio para manter-se afastado de Gabrielle Maxwell.



     Captulo oito
     Ao princpio, Gabrielle pensou que se tratou somente de outro sonho ertico. Mas a
manh seguinte, ao despertar, tarde, nua na cama, com o corpo esgotado e dolorido nos
lugares adequados, soube que, definitivamente, Lucan Thorne tinha estado ali, em carne e
osso. E Deus, que carne to impressionante. Tinha perdido a conta de quantas vezes a tinha
levado at o climax. Se somava todos os orgasmos que tinha tido durante os ltimos dois anos,
provavelmente nem se aproximaria do que tinha experiente com ele a passada noite.
       E apesar disso, no momento em que abriu os olhos e se deu conta, decepcionada, de
que Lucan no se ficou ali, ainda desejava ter outro orgasmo mais. A cama estava vazia, o
apartamento se encontrava em silncio. Era evidente que ele se partiu em algum momento
durante a noite.
       Gabrielle estava to esgotada que tivesse podido dormir o dia inteiro, mas tinha uma
entrevista para com o Jamie e com as garotas, assim saiu da casa e se dirigiu por volta do
centro da cidade vinte minutos depois do meio-dia. Quando entrou no restaurante de
Chinatown se deu conta de que umas quantas cabeas se giravam a seu passo: notou as
olhadas apreciativas de um grupo de tipos que pareciam modelos de publicidade e que se
encontravam ante a barra de sushi e as de meia dzia de executivos trajados que a seguiram
enquanto ela se dirigia para a
     mesa de seus amigos, ao fundo do restaurante.

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       Sentia-se sexy e segura de si mesmo, vestida com seu suter de pescoo de pico de cor
vermelha escuro e sua saia negra, e no lhe importava que fora evidente para todo mundo que
se encontrava ali que tinha desfrutado da noite de sexo mais incrvel de toda sua vida.
       --Finalmente, honra-nos com sua presena! --exclamou Jamie assim que Gabrielle
chegou a mesa e saudou seus amigos com uns abraos.
       Megan lhe acariciou uma bochecha.

         --Tem um aspecto fantstico.
         Jamie assentiu com a cabea.
         --Sim,  verdade, carinho. Eu adoro o que tem posto.  novo? --No esperou a que lhe
respondesse. Voltou a sentar-se imediatamente ante a mesa e se meteu na boca um rollito
frito.
       -- Morria de fome, assim j pedimos um aperitivo. Mas onde estiveste? Estava a ponto
de mandar a um esquadro para te buscar.
         --Sinto muito. Hoje dormi um pouco.
       --Sorriu e se sentou ao lado do Jamie, no banco de vinil de cor verde.
       -- Kendra no vem?
         --Desaparecida em combate outra vez. --Megan tomou um sorvo de ch e se encolheu
de ombros.
       -- No importa. Ultimamente, somente fala de seu novo namorado, j sabe, esse menino
que encontrou em La Notte o passado fim de semana.
         --Brent --disse Gabrielle, controlando a pontada de desconforto que sentiu pela
meno dessa terrvel noite.
       --Sim, ele. Ela inclusive conseguiu trocar seu turno pelo de dia no hospital para passar
todas as noites com ele. Parece que ele tem que viajar muito para ir ao trabalho ou o que seja e
normalmente no est disponivel durante o dia. No me posso acreditar que Kendra permita
que algum lhe dirija a vida desta maneira. Ray e eu levamos trs meses saindo, eu ainda
tenho tempo para meus amigos.
          Gabrielle arqueou as sobrancelhas. Dos quatro, Kendra era a mais livre de esprito,
inclusive de forma impenitente. Preferia manter uns quantos amantes e tinha inteno de
permanecer solteira pelo menos at que cumprisse os trinta.
          --Cr que se apaixonou?
          --Lascvia, carinho. --Jamie colheu com os palitos o ltimo sushi.
       -- s vezes te faz fazer coisas piores que o amor. Me acredite, passou-me.

       Enquanto mastigava, Jamie cravou os olhos nos do Gabrielle durante um comprido
momento. Logo se fixou no cabelo desordenado e em que ela, de repente, ruborizou-se.
Gabrielle tentou sorrir com expresso despreocupada, mas no pde evitar que seu segredo a
trasse no brilho de felicidade de seus olhos. Jamie deixou os palitos no prato, inclinou a
cabea para ela e o cabelo loiro lhe caiu sobre a bochecha.
       --OH, Meu deus. --Sorriu--. O tem feito.
       --Fiz o que? --Mas lhe escapou uma suave gargalhada.
       --Tem-no feito. Deitaste-te com algum, verdade?
       A gargalhada de Gabrielle se reduziu a uma tmida risadinha.


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        --OH, carinho. Pois te sinta bem, devo dizer. --Jamie lhe deu umas palmadinhas na
mo e Riu com ela.
      -- A ver se o adivinho:  o escuro e sexy detetive do Departamento de Polcia de Boston.
        Ela levantou os olhos ao cu para ouvir como lhe tinha qualificado, mas assentiu com a
cabea.
        --Quando foi?
        --Esta noite. Virtualmente toda a noite.
        A expresso de entusiasmo do Jamie atraiu a ateno de algumas mesas prximas. Ele
se acalmou um pouco, mas sorria a Gabrielle como uma orgulhosa mame ganso.
     --Ele  bom, n?
     --Incrvel.
          --De acordo. E como  possvel que eu no saiba nada deste homem misterioso? --
interrompeu Megan nesses momentos--. E  um policial? Possivelmente Ray lhe conhea.
Posso-lhe perguntar...

        --No. --Gabrielle negou com a cabea--. Por favor, no digam nada disto aningum,
meninos. No estou saindo com Lucan. Veio ontem pela noite para me devolver o telefone
celular e as coisas ficaram... bom... fora de controle. Nem sequer sei se vou voltar a lhe ver.
        A verdade era que no tinha nem idia disso mas, Deus, desejava que assim fosse.
        Uma parte dela sabia que o que tinha ocorrido entre eles era algo insensato, uma
loucura. Era-o. A verdade  que no podia neg-lo. Era de loucos. Ela sempre se teve por uma
pessoa sensata, prudente: a pessoa que acautelava a seus amigos dos impulsos imprudentes
como o que se permitiu a noite passada.
        Tola, tola, tola.
        E no somente por ter permitido que esse momento a apanhasse por completo at o
ponto de ter esquecido tomar nenhum amparo. Ter relao ntimas com algum que 
virtualmente um desconhecido raramente era uma boa idia, mas Gabrielle tinha a terrvel
sensao de que resultaria muito fcil perder o corao por um homem como Lucan Thorne.
        Mas como, estava segura, no era menos que de idiotas.
        Apesar de tudo, o sexo como o que tinha tido com ele no se dava freqentemente. Pelo
menos, no para ela. Somente pensar em Lucan Thorne fazia que tudo dentro de seu corpo se
retorcesse de desejo. Se ele entrasse no restaurante justo nesse momento, provavelmente
saltaria por sobre as mesas e se tornaria em cima dele.
        --Ontem passamos juntos uma noite incrvel, mas agora mesmo, isso  quo nico h.
No quero tirar nenhuma concluso disso.
        --Ok! --Jamie apoiou um cotovelo na mesa e se apoiou nele com expresso
conspiradora.
      -- Ento, por que est a todo o momento?

      --Onde diabos estiveste?
      Lucan cheirou a Tegan antes de ver o vampiro dar a volta  esquina do corredor da
zona de residncia do complexo. O macho tinha estado caando fazia pouco. Ainda arrastava
o aroma metlico e adocicado do sangue, tanto de humano como de algum renegado.
      Quando viu que Lucan lhe estava esperando fora de um dos apartamentos se deteve,
com as mos apertadas em punhos dentro dos bolsos da cala texana de cintura baixa. A

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camiseta cinza que levava posta estava desfiada em alguns pontos e suja de p e de sangue.
Tinha as plpebras cansadas sobre os plidos olhos verdes e se viam umas escuras olheiras. O
cabelo, avermelhado, descuidado e comprido, caa-lhe sobre o rosto.
        --Tem um aspecto de merda, Tegan.
        Ele levantou os olhos por debaixo da franja de seu cabelo e se mostrou burln, como
sempre.
        Seus fortes bceps e antebraos estavam cobertos de dermoglifos. Essas elegantes e
afiligranadas marca tinham somente um tom mais escuro que o de sua pele dourada e sua cor
no desvelava o estado de nimo do vampiro. Lucan no sabia se era por pura vontade que
esse macho se encerrava em uma atitude permanente de apatia ou se era a escurido de seu
passado que verdadeiramente tinha apagado qualquer sentimento que pudesse ter.
        Deus era testemunha de que tinha passado por algo que tivesse podido vencer a uma
equipe inteira de guerreiros.
        Mas os demnios pessoais que Tegan tivesse eram coisa dele. O nico que lhe
importava a Lucan era assegurar-se de que a Ordem se mantinha forte e a ponto. No havia
lugar para que essa correia tivesse enganos dbeis.
        --Faz cinco dias que estiveste fora de contato, Tegan. Lhe vou perguntar isso outra vez:
onde merda estiveste?

       O sorriu, zombador.
       --Foda-se, cara. No  minha me.
       Comeou a afastar-se, mas Lucan lhe fechou o passo com uma velocidade assombrosa.
Levantou Tegan pelo pescoo e o empurrou contra a parede do corredor para captar sua
ateno.
       A fria de Lucan estava em seu ponto mximo: em parte pela desconsiderao que, em
geral, Tegan mostrava por volta de outros na Ordem durante os ltimos tempos, mas ainda o
estava mais pela falta de sensatez que lhe tinha feito pensar que poderia passar uma noite com
a Gabrielle Maxwell e tirar-lhe logo depois da cabea.
       Nem o sangue nem a extrema violncia que tinha exercido com dois Renegados
durante as horas prvias ao amanhecer tinham sido suficientes para apagar a lascvia pelo
Gabrielle que ainda lhe pulsava por todo o corpo. Lucan tinha percorrido a cidade como um
espectro durante toda a noite e tinha voltado para o complexo com um humor furioso e
negro.
       Esse sentimento persistia nele enquanto apertava os dedos ao redor da garganta de seu
irmo. Necessitava uma desculpa para tirar a agresividade, e Tegan, com esse aspecto animal
e com seu secretismo, era um candidato mais que bom para fazer esse papel.
       --Estou cansado de suas tolices, Tegan. Precisa te controlar, ou eu o farei em seu lugar.
--Apertou a laringe do vampiro com mais fora, mas Tegan nem sequer se alterou pela dor.
     -- Agora me diga onde estiveste durante todo este tempo ou voc e eu vamos ter srios
problemas.
       Os dois machos tinham mais ou menos o mesmo tamanho e estavam mais que
igualados em questo de fora. Tegan pde ter apresentado batalha, mas no o fez. No
demonstrou nem a mais mnima emoo, simplesmente olhou A Lucan com olhos frios e
indiferentes.
       No sentia nada, e inclusive isso tirava de gonzo a Lucan.

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       Lucan, com um grunhido, tirou a mo da garganta do guerreiro e tentou controlar a
raiva. No era prprio dele comportar-se dessa maneira. Isso estava por debaixo dele.
     Merda.
       E era ele quem dizia a Tegan que tinha que controlar-se?
     Bom conselho. Possivelmente tinha que aplicar-lhe a si mesmo.
       O olhar inexpressivo do Tegan dizia mais ou menos o mesmo, embora o vampiro
manteve, de forma inteligente, a boca fechada.
       Enquanto os dois difceis aliados se olhavam um ao outro em meio de um escuro
silncio, detrs deles e a certa distancia no corredor, uma porta de cristal se abriu com um
zumbido. Ouviu-se o chiado das sapatilhas esportivas do Gideon no gentil cho enquanto este
saa de seus aposentos privados e percorria o corredor.
       --N, Tegan, bom trabalho de reconhecimento, cara. Vigiei um pouco depois do que
falamos o outro dia. Esse pressentimento que teve de que devamos manter vigiados Aos
renegados no Green Line parece bom.
       Lucan nem sequer piscou. Tegan lhe agentou o olhar, sem fazer caso s felicitaes de
Gideon. Tampouco tentou defender-se dessas suspeitas infundadas. Simplesmente ficou ali
durante um comprido minuto sem dizer nada. Logo passou ao lado de Lucan e continuou seu
caminho pelo corredor do complexo.
       --Acredito que querer comprovar isto, Lucan --disse Gideon enquanto se dirigia para
o laboratrio.
       -- Parece que algo est a ponto de ficar feio.



     Captulo nove

      Com a taa quente entre as mos, Gabrielle tomou um sorvo do suave ch enquanto
Jamie comia o resto de seu prato. Tambm ia comer seu biscoitinho da sorte de sobremesa,
como fazia sempre, mas no importava. Era agradvel estar, simplesmente, com os amigos, e
sentir que a vida voltava a adquirir certo ar de normalidade depois do que lhe tinha
acontecido o fim de semana passado.
        --Tenho uma coisa para ti --disse Jamie, interrompendo os pensamentos de Gabrielle.
Rebuscou um momento na bolsa que levava de cor nata que estava no banco em meio de
ambos e tirou um envelope alvo.
      -- Procede da amostra privada.
        Gabrielle o abriu e tirou um cheque da galeria. Era mais do que hvia esperado. Uns
par de notas grandes demais.
      --Vai.
      --Surpresa --cantarolou Jamie com um amplo sorriso--. Subi o preo. Pensei que diabos
e eles o aceitaram sem regatear em nenhum momento. Cr que deveria ter pedido mais?
        --No --reps Gabrielle--. No, isto ... isto... uuuff. Obrigado.
        --No  nada. --Assinalou a barra de chocolate.
      --Vais comer?
        Ela empurrou o prato por cima da mesa para ele.
        --Bom, e quem  o comprador?

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       --Ah, isso continua sendo um grande mistrio --disse ele, enquanto rompia a bolacha
dentro de seu pacote de plstico.
     -- Pagaram em dinheiro, assim  evidente que so srios sobre o carter annimo da
venda. E mandaram um txi para me buscar para levar a coleo.

        --Do que esto falando, meninos? --perguntou Megan. Olhou aos dois com o cenho
franzido e uma expresso de confuso.
        -- Lhes juro que sou a ltima que se inteira de tudo.
        --Nossa pequena e talentosa artista tem um admirador secreto -- informou Jamie,
dramaticamente. Tirou a nota da sorte do biscoitinho, leu-a, levantou os olhos ao cu e atirou
o trocito de papel no prato vazio.
      -- Onde ficaram os dias em que este tipo de coisas significavam algo? Bom, faz umas
quantas noites me pediram que apresentasse a coleo completa de fotografias da Gabby ante
um comprador annimo do centro da cidade. Compraram-nas todas: at a ltima.
        Megan olhou a Gabrielle com os olhos muito abertos.
        --Isso  maravilhoso! Me alegro tanto por ti, carinho!
        --Seja quem  quem as comprou, a verdade  que tem uma seria mania com o
secretismo.
        Gabrielle olhou a seu amigo enquanto se guardava o cheque na bolsa.
        --O que quer dizer?
        Jamie terminou de mastigar o ltimo pedao de biscoitinho da sorte e se limpou os
dedos dos miolos.
        --Bom, quando cheguei a direo que me deram, em um desses luxuosos edifcios de
escritrios com vrios inquilinos, recebeu-me uma espcie de guarda-costas no vestbulo. No
me disse nada, somente murmurou algo a um microfone sem fio e logo me acompanhou at
um elevador que nos levou a piso mais alto do edifcio.
        Megan arqueou as sobrancelhas.
      --Ao apartamento de cobertura?

       --Sim. E a est a coisa. O lugar estava vazio. Todas as luzes estavam acesas, mas no
havia ningum dentro. No havia mveis, no havia nenhuma equipe, nada. Somente paredes
e janelas que davam a cidade.
       --Isso  muito estranho. No te parece, Gabby?
       Ela assentiu com a cabea e uma sensao de intranqilidade foi invadindo enquanto
Jamie continuava.
       --Ento o guarda-costas me disse que tirasse a primeira fotografia da pasta e que
caminhasse com ela e me dirigisse para as janelas da parede norte. Ao outro lado estava
escuro, e eu lhe estava dando as costas a ele, mas ele me disse que devia sujeitar cada uma das
fotos ante essa janela at que me desse instrues das deixar a um lado e tomar outra.
       Megan riu.
       --De costas a ele? Por que queria que fizesse isso?
       --Porque o comprador estava observando desde outro lugar --respondeu Gabrielle em
voz baixa.
       -- Em algum lugar de onde via as janelas do apartamento de cobertura.
       Jamie assentiu com a cabea.

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      --Isso parece. No consegui ouvir nada, mas estou seguro de que o guarda-costas, ou o
que fora, estava recebendo instrues pelos auriculares. Para te dizer a verdade, estava-me
pondo um pouco nervoso com tudo isso, mas foi bem. Ao final no passou nada mau. Quo
nico queriam eram suas fotografias. Somente tinha chegado a quarta quando disseram que
pedisse um preo para todas elas. Assim, que tal e como te hei dito, pus alto e o aceitaram.
      --Estranho --comentou Megan--. N, Gab, possivelmente chamaste a ateno de um
milionrio mortalmente atrativo mas retrado. Possivelmente o ano que vem, por estas datas,
estaremos danando em suas luxuosas bodas no Mikonos.

        --Uf, por favor --exclamou Jamie sem flego--. Mikonos  do ano passado. A gente
bonita est na Marbella, querida.
      Gabrielle tentou tirar-se de cima a estranha sensao de inquietao que lhe estava
produzindo a estranha histria do Jamie. Tal e como ele havia dito, tudo tinha ido bem e ela
tinha um cheque por uma importncia muito alta na bolsa. Possivelmente podia convidar para
jantar a Lucan, dado que a comida que tinha preparado a outra noite para a celebrao ficou
no balco da cozinha.
        Embora no sentia nem o mais mnimo remorso pela perda de seus manicotti.
        Sim, uma romntica sada para jantar com Lucan soava fantstico. Com um pouco de
sorte, possivelmente tomassem as sobremesas em... e o caf da manh tambm .
      Gabrielle ficou de bom humor imediatamente e riu com seus amigos enquanto estes
continuavam intercambiando idias extravagantes a respeito de quem podia ser esse
misterioso colecionador e o que podia significar para seu futuro e, por extenso, para o de
todos eles. Ainda estavam falando do mesmo quando a mesafoi retirada e a conta paga, e os
trs saram a rua ensolarada.
        --Tenho que ir correndo --disse Megan, dando um rpido abrao a Gabrielle e a Jamie.
       -- Nos veremos logo, meninos?
        --Sim --responderam os dois ao unssono e a saudaram com a mo, atrs da Megan
caminhava rua acima, para o edifcio de escritrios onde trabalhava.
        Jamie levantou uma mo para chamar um txi.
      --Vai diretamente a casa, Gabby?

        --No, ainda no. --Deu uns golpezinhos a cmera que levava sobre o ombro.
        -- Pensava dar um passeio at o parque e possivelmente gastar um pouco de filme. E
voc?
      --David vai chegar de Atlanta dentro de uma hora --lhe disse .
      -- Vou tirar o resto do dia. Possivelmente amanh tambm.
     Gabrielle riu.
      --D- lhe lembranas de minha parte.
      --Farei-o. --aproximou-se dela e lhe deu um beijo na bochecha.
      -- Eu gosto de verte sorrir outra vez. Estava realmente preocupado por ti depois do
ltimo fim de semana. Nunca te tinha visto to afetada. Est bem, verdade?
      --Sim, estou bem, de verdade.
      --E agora tem ao escuro e sexy detetive para te cuidar, o qual no est nada mal.
      --No, no est nada mal --admitiu ela, e notou uma sensao de calidez pelo s feito
de pensar nele.

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     Jamie lhe deu um abrao afetuoso.
       --Bom, cu, se necessitar algo que ele no te possa dar, o qual duvido muito, me
chame, de acordo? Quero-te, carinho.
       --Eu tambm te quero. --Um txi se deteve na esquina e se saudaram.
     -- Te divirta com o David. --E levantou a mo para lhe dizer adeus enquanto Jamie
entrava no txi e este se internava no matizado trfico da hora de comer.
       Somente se demorava uns quantos minutos em percorrer as quadras que separavam
Chinatown do parque Boston Common. Gabrielle passeou pelos amplos espaos e tirou umas
quantas fotografias. Logo se deteve para observar a uns meninos que jogavam a galinha cega
na grama da zona de recreio. Observou a uma menina que se encontrava no centro do grupo
com os olhos tampados com uma atadura e que girava a um lado e a outro com os braos
estendidos tentando apanharar seus esquivos amigos.

        Gabrielle levantou a cmera e enfocou aos meninos, que no paravam de correr e de
rir. Aproximou a imagem com o zoom e seguiu a menina de cabelo loiro e olhos enfaixados
com a lente enquanto as risadas e os gritos dos meninos enchiam o parque. No fez nenhuma
fotografia, simplesmente olhou esse despreocupado jogo desde detrs da cmera e tentou re-
cordar uma poca em que ela se houvesse sentido assim contente e segura.
        Deus, havia-se sentido assim alguma vez?
        Um de quo adultos estava vigiando aos meninos de perto lhes chamou para que
fossem comer, interrompendo seu estridente jogo. Os meninos correram at o lenol estendido
no cho para comer e Gabrielle percorreu o parque ao seu redor com a lente da cmera. Na
imagem desfocada a causa do movimento, percebeu a figura de algum que a olhava desde
debaixo da sombra de uma rvore grande.
        Gabrielle apartou a cmera de seu rosto e olhou nessa direo: havia um homem jovem
em p, parcialmente escondido pelo tronco de um velho carvalho.
        Sua presena era quase imperceptvel nesse parque cheio de atividade, mas lhe
resultava vagamente familiar. Gabrielle viu que tinha o cabelo abundante e de uma cor
castanha cinzenta, que levava uma camisa solta e uma cala cqui. Era a classe de pessoa que
desaparecia com facilidade entre a multido, mas estava segura de que lhe tinha visto em
algum lugar fazia pouco tempo.
        No lhe tinha visto na delegacia de polcia de polcia a semana passada quando foi
fazer a declarao?
        Fosse quem fosse, deveu dar-se conta de que lhe tinha visto, porque imediatamente
retrocedeu, escondeu-se atrs do tronco da rvore e comeou a afastar-se dali em direo a
Charles Street. Enquanto caminhava a passo rpido em direo a essa rua, tirou-se um
telefone celular do bolso da cala e jogou uma rpida olhada para trs por cima do ombro, em
direo a Gabrielle.

       Gabrielle sentiu que lhe arrepiavam os cabelos da nuca com uma repentina sensao de
suspeita e de alarme.
       Ele a tinha estado observando, mas por que?
       Que diabos estava acontecendo? Algo acontecia, definitivamente, e ela no tinha
inteno de tratar de adivinh-lo por mais tempo.


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       Com o olhar cravado no menino da cala cqui, Gabrielle comeou a caminhar detrs
dele enquanto se guardava a cmera na capa e se ajustava a tira da bolsa protetora no ombro.
Quando saiu do amplo terreno do parque e entrou no Charles Street, o menino lhe levava uma
quadra de vantagem.
     --N! --chamou ela, comeando a correr.
       O,menino que continuava falando por telefone, girou a cabea e a olhou. Disse algo ao
aparelho com gesto apressado, apagou o aparelho e o conservou na mo. Apartou o olhar
dela e comeou a correr.
       --Para! --gritou Gabrielle. Chamou a ateno das pessoas na rua, o menino continuou
sem lhe fazer caso.
       -- Te hei dito que te detenha, merda! Quem ? Por que me est espiando?
       Ele subiu a toda velocidade pelo Charles Street mergulhando-se na mar de pedestres.
Gabrielle lhe seguiu, esquivando a turistas e empregados de escritrio que saam durante o
descanso para a comida, sem apartar a vista da mochila delgada que o menino levava nas
costas. Ele torceu por uma rua, logo por outra, internando-se cada vez mais na cidade,
afastando-se das lojas e os escritrios do Charles Street e voltando para a matizada zona de
Chinatown.
       Sem saber quanto tempo levava perseguindo a esse menino nem onde havia chegado
exatamente, Gabrielle se deu conta de repente de que lhe tinha perdido.

       Girou por uma esquina cheia de gente e se sentiu profundamente sozinha: esse
ambiente pouco familiar se fechou ao redor dela. Os lojistas a observavam desde debaixo dos
toldos e desde detrs das portas abertas para deixar entrar o ar do vero. Os pedestres a
olhavam, aborrecidos, porque se tinha detido de repente em meio da calada e interrompia o
passo.
       Foi nesse momento quando sentiu uma presena ameaadora detrs dela, na rua.
       Gabrielle olhou por cima do ombro e viu um Sedam negro de vidros escuro que se
deslocava devagar entre outros carros. Movia-se com elegncia, deliberadamente, como um
tubaro que atravessasse um banco de peixes pequenos em busca de uma presa melhor.
     Estava-se dirigindo para ela?
       Talvez o menino que a tinha estado espiando se encontrava dentro do carro.
Possivelmente sua apario, e a do carro de aspecto ameaador, tinham algo que ver com
quem tinha comprado suas fotografias.
       Ou possivelmente se tratasse de algo pior.
      Possivelmente um pouco relacionado com o espantoso ataque que tinha presenciado na
semana anterior e tendo informado disso a polcia. Possvelmente se tropeou com uma rixa
entre bandas, depois de tudo. Possivelmente essas criaturas malignas --j que no podia
acabar de convencer-se de que eram homens-- tinham decidido que ela era seu prximo alvo.
       O veculo se aproximou por um sulco lateral at a calada onde ela se encontrava em p
e Gabrielle sentiu que um medo gelado a atravessa.
     Comeou a caminhar. Acelerou o ritmo para avanar mais depressa.
       A suas costas ouviu o som do carro que acelerava.
       OH, Deus.

     Ia por ela!

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       Gabrielle no esperou para ouvir o som dos pneumticos das rodas no pavimento a
suas costas. Gritou e saiu disparada em uma carreira , movendo as pernas to depressa como
era capaz.
       Havia muita gente ao seu redor. Muitos obstculos para tomar um caminho reto.
Esquivou aos pedestres, muito nervosa para oferecer nenhuma desculpa antes seus estalos de
lngua e exclamaes de irritao.
       No lhe importava: estava segura de que era um assunto de vida ou morte.
       Olhar para trs seria um grave engano. Ainda ouvia o rudo do motor do carro no
meio do trfico, que a seguia de perto. Gabrielle baixou a cabea e se esforou em correr mais
rpido enquanto rezava por ser capaz de sair dessa rua antes de que o carro a apanhasse.
       De repente, nessa enlouquecida carreira, falhou-lhe um tornozelo.
       Cambaleou-se e perdeu o equilbrio. O cho pareceu elevar-se para ela e caiu com fora
contra o duro pavimento. Parou o golpe forte da queda com os joelhos e as palmas das mos,
destroando-lhe a dor da carne rasgada, lhe fez saltar as lgrimas, mas no fez conta. Gabrielle
voltou a ficar em p. Quase ainda no tinha recuperado o equilbrio quando notou a mo de
um estranho que a sujeitava com fora pelo cotovelo.
       Gabrielle reprimiu um grito. Tinha os olhos enlouquecidos de pnico.
       --Encontra-se bem, senhorita? --O rosto cinza de um trabalhador municipal apareceu
em seu ngulo de viso e seus olhos azuis rodeados de rugas se fixaram nas feridas.
     --Uf, v, olhe isso, est sangrando.
     --Solte-me!

        -- que no viu esses reservatrios de gua da? --Assinalou com o polegar por cima
do ombro, a suas costas, para os cones de cor laranja com os quais Gabrielle tinha se chocado
ao passar--Esta parte da calada est levantada.
        --Por favor, no passa nada. Estou bem.
       Apanhada pela mo dele, que tentava ajud-la mas que a desafiava, Gabrielle levantou o
olhar bem a tempo para ver que o Sedam escuro aparecia na esquina por onde ela tinha
passado fazia um instante. O carro se deteve abruptamente, a porta do condutor se abriu e
um homem enorme e muito alto saiu  rua.
        --OH, Deus. Me solte! --Gabrielle deu uma sacudida com o brao para soltar do
homem que tentava ajud-la sem apartar o olhar desse monstruoso carro negro e no perigo
que supunha--.  que no comprende que me esto perseguindo?
        --Quem? --O tom de voz do trabalhador municipal foi de incredualidade. Levou a
vista em direo aonde ela estava olhando e soltou uma gargalhada.
      -- Se refere a esse tipo? Senhora,  o maldito prefeito do Bostom.
      -O que...?
        Era verdade. Olhou enlouquecida toda a atividade que se desenvolvia nessa esquina e
o compreendeu. O Sedam negro no a perseguia, depois de tudo. Tinha estacionado na
esquina e o condutor, agora, estava esperando com a porta traseira aberta. O prefeito em
pessoa saiu de um restaurante acompanhado por dois guarda-costas e os trs subiram ao
assento traseiro do veculo.
        Gabrielle fechou os olhos. As palmas das mos lhe queimavam de dor. Os joelhos,
tambm. Tinha o pulso acelerado, mas parecia que o sangue lhe tinha descido da cabea.
        Sentiu-se como uma completa idiota.

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     --Acreditei... --murmurou, enquanto o condutor fechava a porta, e se colocava no
assento dianteiro e arrancava o carro em direo ao trfico da rua.

       O trabalhador lhe soltou o brao. Afastou-se dela para voltar a ocupar-se da bolsa com
sua comida e seu caf enquanto meneava a cabea.
       --O que lhe acontece?  que se tornou louca ou algo?
      Merda.
       Supunha-se que ela no tinha que lhe haver visto. Tinha ordens de observar a mulher
Maxwell, de tomar nota de suas atividades, de estabelecer quais eram seus costumes. Tinha
que informar de tudo isso a seu Professor. Por cima de tudo, tinha que evitar ser visto. O
subordinado soltou outra maldio do mesmo lugar onde estava escondido, as costas pega
contra uma andina porta de um edifcio, um desses tantos lugares que se apinhavam entre os
restaurantes e mercados do Chinatown. Com cuidado, abriu a porta e tirou a cabea para ver
se podia detectar a mulher em algum lugar da rua.
       Ali estava, justo ao outro lado da rua abarrotada de gente.
       E se alegrou de ver que ela estava abandonando a zona. Quo ltimo perdeu de vista
foi seu cabelo acobreado por entre a multido da calada, a cabea encurvada e o passo
acelerado.
     Esperou ali, observou-a at que teve desaparecido de sua vista por completo. Ento
voltou a sair a rua e se dirigiu em direo contraria. Tinha passado mais de uma hora de seu
descanso para comer. Era melhor que voltasse para a delegacia de polcia antes de que lhe
sentissem falta.



     Captulo dez

      Gabrielle ps outra toalha de papel sob o jorro de gua fria na pia da cozinha. Havia
vrias toalhas mais atiradas j, empapadas de gua e manchadas de sangue, alm de sujas do
p da rua que se limpou das palmas das mos e dos joelhos. Em p, de sutiens e calcinhas,
jogou um pouco de sabo lquido na toalha de papel empapada de gua e se esfregou com
energia as feridas das palmas das mos.
        --Ai! --exclamou, e franziu o cenho. Encontrou-se uma pequena e afiada lasca cravada
na ferida. A tirou e a atirou  pia ao lado de todo o cascalho que se limpou das feridas.
        Deus, parecia um desastre.
        A saia nova estava rota e destroada. A prega do suter se danificou ao cair contra o
spero pavimento. E parecia que as mos e os joelhos pertencessem a uma menina selvagem e
torpe.
      E alm de tudo isso, mostrou-se como uma completa estpida em pblico.
        Que demnios lhe estava acontecendo para ficar histrica dessa maneira?
        O prefeito, pelo amor de Deus. E ela tinha fugido desse carro como se temesse que se
tratasse de...
      Do que? De alguma espcie de monstro?
      Vampiro.
      As mos do Gabrielle ficaram imveis.


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     Ouviu a palavra mentalmente, apesar de que se negou a pronunci-la em voz alta. Essa
era a palavra que tinha na soleira da conscincia do momento em que foi testemunha desse
assassinato. Era uma palavra que no queria reconhecer, nem sequer quando se encontrava
sozinha no selncio de seu apartamento vazio.
       Os vampiros eram a obsesso da louca de sua me biolgica, no a sua.
       Essa adolescente annima se encontrava em um estado completamente delirante
quando a polcia a tirou das ruas, fazia tantos anos. Dizia que a tinham aoitado uns demnios
que queriam beber seu sangue, que, de fato, tinham-no tentado, e essa tinha sido a explicao
que tinha dado pelas estranhas feridas que tinha na garganta. Os documentos judiciais que lhe
tinham dado estavam salpicados de loucas referencias a espectros sedentos de sangue que
percorriam a cidade em completa liberdade.
       Impossvel.
       Isso era uma loucura, e Gabrielle sabia.
       Estava permitindo que sua imaginao e que o medo que tinha de converter-se em uma
perturbada como sua me algum dia acabassem com ela. Mas ela era muito inteligente para
permiti-lo. Era mais s, pelo menos...
       Deus, tinha que s-lo.
       Ter visto esse menino da delegacia de polcia esse mesmo dia --para somar-se a tudo
pelo que tinha passado durante os ltimos dias-- lhe havia disparado seus medos. Apesar de
tudo, agora que o pensava, nem sequer estava segura de que esse tipo a quem tinha visto no
parque fora de verdade o administrativo que tinha visto na delegacia de polcia.
       Mas e o que se o era? Possivelmente se encontrava no parque para tomar sua comida e
para desfrutar do tempo igual ao estava fazendo ela. Isso no era nenhum crime.
Possivelmente, a estava olhando era porque tambm lhe tinha parecido que lhe resultava
familiar. Possivelmente ele se aproximou para saud-la se ela no tivesse carregado contra ele
como uma psicopata paranoica, lhe acusando de estar espiando-a.

     OH, e no seria perfeito que ele fosse a delegacia de polcia e contasse a todos que lhe
tinha aoitado por vrias quadras no Chinatown?
       Se Lucan se inteirava disso, ela ia morrer da humilhao.
       Gabrielle terminou de limpar as feridas das palmas das mos e tentou apartar tudo o
que tinha ocorrido esse dia de sua cabea. Ainda tinha a ansiedade no ponto mximo e o
corao lhe pulsava com fora. Limpou-se os golpes do rosto e observou um magro rastro de
sangue que lhe descia pelo pulso.
       Ver seu sangue sempre a tranqilizava, por alguma estranha razo. Sempre tinha sido
assim.
       Quando era mais jovem e as emoes e as presses internas eram to fortes que j no
sabia o que fazer com elas, quo nico tinha que fazer para se acalmar era fazer um pequeno
corte.
       O primeiro tinha sido por acidente. Gabrielle se encontrava cortando uma ma em um
de seus lares de acolhida quando a faca resvalou e lhe fez um corte na base do dedo polegar.
Doeu-lhe um pouco, mas Gabrielle no sentiu nem medo nem pnico ao observar como o
sangue saa e desenhava um reluzente redemoinho escarlate.
       Havia-se sentido fascinada.

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       Havia sentido uma incrvel espcie de... paz.
       Ao cabo de uns quantos meses desse surpreendente descobrimento, Gabrielle voltou a
cortar-se. F-lo de forma deliberada e em segredo, sem inteno de fazer-se mal de verdade. 
medida que o tempo transcorreu, f-lo mais freqentemente, sempre que precisava sentir essa
profunda sensao de calma.

       E agora o necessitava porque estava ansiosa e nervosa como um gato atento a qualquer
pequeno rudo que ouvisse no apartamento ou fora dele. Doa-lhe a cabea. Tinha a respirao
agitada e apertava as mandbulas.
      Seus pensamentos saltavam do brilho do flash ante a cena da noite fora da discoteca ao
inquietante psiquitrico onde tinha estado fazendo fotos a manh anterior e ao medo
irracional, profundo e perturbador que havia sentido essa tarde.
       Necessitava um pouco de paz depois de tudo isso.
       S embora fossem uns quantos minutos de calma.
       Gabrielle dirigiu o olhar para o continer de facas de madeira que se encontrava, ali
perto, sobre o mrmore. Alargou a mo e tomou um deles. Fazia anos que no o fazia.
esforou-se tanto em controlar essa compulso estranha e vergonhoza.
       Mas a tinha feito desaparecer de verdade?
       Os psiclogos que a administrao lhe tinha posto e os trabalhadores sociais, ao final,
convenceram-se de que assim era. Tambm os Maxwell.
       Agora, enquanto se aproximava a faca  pele do brao e sentia como uma escura
emoo despertava dentro dela, Gabrielle o duvidou. Aperto a ponta da folha contra a pele do
antebrao, embora ainda sem a fora suficiente para cortar-se.
       Esse era seu demnio privado, e era uma coisa que nunca havia comprartilhado
abertamente com ningum, nem sequer com o Jamie, seu amigo mais querido.
      Ningum o compreenderia.
      Quase nem ela mesma o compreendia.

       Gabrielle jogou a cabea para trs e respirou profundamente. Enquanto voltava a baixar
a cabea e exalava lentamente, viu seu prprio reflexo no cristal da janela de cima da pia. O
rosto que lhe devolveu o olhar tinha uma expresso esgotada e triste, seus olhos estavam
apagados e angustiados.
       --Quem ? --sussurrou a essa imagem fantasmal que via no cristal. Teve que reprimir
um soluo.
      -- O que  que vai mal contigo?
       Abatida consigo mesma, atirou a faca na pia e se apartou dali enquanto o som do ao
ressonava na cozinha.
       O constante som dos sinais de multiplicao de um helicptero atravessava o cu da
noite no velho psiquitrico. Da camuflagem de uma nuvem, um Colibri EC120 negro
descendeu e se posou com suavidade em uma zona plaina do telhado.
       --Desliga o motor --ordenou o lder dos renegados a seu subordinado piloto quando o
aparelho se posou no improvisado heliporto.
      -- Espere-me aqui at que volte.
       Saltou fora da cabine e recebeu a imediata saudao de seu tenente, um indivduo
bastante desagradvel a quem tinha recrutado na Costa Oeste.

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        --Tudo est em ordem, senhor.
        As espessas sobrancelhas marrons do renegado se afundaram em cima de seus ferozes
olhos amarelos. Na enorme cabea calva ainda se viam as cicatrizes das queimaduras de
eletricidade que lhe tinham infligido os da raa durante um interrogatrio pelo que tinha
passado fazia meio ano. Mas, entre o resto dos repugnantes rasgos de seu rosto, essas
numerosas marcas de queimaduras eram somente um detalhe. O renegado sorriu, deixando
ver umas enormes presas.
        --Seus presentes foram muito bem recebidos esta noite, senhor. Todo o mundo espera
com nsia sua chegada.

        O lder dos renegados, com os olhos escondidos detrs de uns culos de sol, assentiu
com a cabea brevemente e, com passo depravado, deixou-se conduzir at o piso de acima do
edifcio e logo at um elevador que lhe levaria ao corao das instalaes. Afundaram-se por
debaixo do nvel do piso do cho, saram do elevador e se internaram por uma rede de tneis
que rodeavam uma parte da fortaleza da guarida dos renegados.
        Quanto ao lder, este tinha estado instalado em seu quartel privado em algum ponto de
Boston durante o ltimo ms, fiscalizando em privado algumas operaes, determinando
obstculos e estabelecendo as principais vantagens que tinham no novo territrio que queriam
controlar. Esta era sua primeira apario em pblico: era todo um evento, e essa era
exatamente sua inteno.
        No era algo freqente que ele se aventurasse a sair em meio da porqueira da
populao geral; os vampiros que se convertiam em renegados eram uma gente arruda,
indiscriminada, e ele tinha aprendido apreciar coisas melhores durante seus muitos anos de
existncia. Tinha que lhes recordar a essas bestas quem era e a quem serviam e por isso lhes
tinha devotado uma amostra do bota de cano longo que lhes esperava ao final de sua ltima
misso. No todos eles sobreviveriam,  obvio. As vtimas acostumavam a acumular-se em
meio de uma guerra.
        E uma guerra era o que ia vender a essa noite.
        J no haveria mais conflitos insignificantes no terreno. No haveria mais luta internas
entre os renegados, nem mais atos absurdos de vingana individual. Foram unir-se e passar a
pgina de uma forma que ainda ningum tinha imaginado nessa antiga batalha que tinha
dividido para sempre a nao dos vampiros em dois. A raa tinha mandado durante muito
tempo e tinha chegado a um acordo no falado com os humano inferiores ao tempo que
ansiavam eliminar a seus irmos os renegados.
        As duas faces da estirpe dos vampiros no eram to diferentes uma da outra,
somente lhes separava uma questo de grau. Quo nico diferenciava a um vampiro da raa
que saciava sua fome de vida e a um vampiro constantemente sedento de sangue e viciado era
uma questo de litros. As linhas sangneas da estirpe se apagaram com o tempo da poca dos
antigos e os novos vampiros se convertiam em adultos e se apareavam com as companheiras
de raa humanas.

       Mas no havia forma de que a contaminao de gens humanos destruisse por completo
os gens dos vampiros, mais fortes. A sede de sangue era um espectro que perseguiria a raa
para sempre.


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       Do ponto de vista do lder dessa guerra que se aproximava, a gente tanto podia lutar
contra o impulso inato prprio de sua estirpe ou utiliza-lo para benefcio prprio.
       Nesse momento, ele e seu tenente tinham chegado ao final do corredor e a vibrao de
uma msica estridente reverberava nas paredes e no cho, sob seus ps. Estava-se levando a
cabo uma festa detrs de uma dupla porta de ao amassada e maltratada. Ante ela, um
vampiro Renegado que se encontrava de guarda se fincou de joelhos pesadamente assim que
suas rasgadas pupilas registraram quem estava esperando diante dele.
       --Senhor. --O tom de sua spera voz foi reverente e mostrou deferencia ao no
levantar a vista para encontrar-se com os olhos que se ocultavam detrs desses culos escuros.
      -- Meu senhor, sua presena nos honra.
       De fato, sim lhes honrava. O lder fez um rpido movimento afirmativo com a cabea
assim que o vigilante ficou em p de novo. Com uma mo imunda, que estava de guarda
empurrou as portas para permitir a entrada a seu superior a estridente reunio que se levava a
cabo ao outro lado das mesmas. O lder se despediu de seu acompanhante e ficou livre para
observar em privado o lugar.
       Tratava-se de uma orgia de sangue, sexo e msica. Em todos os rinces onde olhasse
via machos renegados que manuseavam, perseguiam e se alimentavam de um variado sortido
de seres humanos, tanto homens como mulheres. Sentiam pouca dor, tanto se encontravam
nesse evento de forma voluntria como se no. A maioria tinham sofrido, pelo menos, uma
dentada, e lhes tinham extrado tanto sangue que se sentiam como em uma nuvem de
sensualidade e ligeireza. Alguns deles fazia muito momento que se foram, e seus corpos se
encontravam inertes como os de uns bonitos bonecos de roupa em cima do regao de seus
depredadores

      Olhos selvagens, que no cessavam de alimentar-se at que no ficava nada mais que
devorar.
        Mas isso era o que algum devia esperar se lanava uns tenros cordeiros a um poo
cheio de bestas vorazes.
        Enquanto se dirigia para a parte mais matizada dessa reunio, comearam-lhe a suar as
mos. O pnis lhe endureceu baixo a cuidada queda da cala confeccionada a medida. As
gengivas comearam a lhe doer e a lhe pulsar, e teve que morder a lngua para evitar que as
presas lhe alargassem de fome, ao igual que tinha feito seu sexo, em resposta a chuva de
estmulos erticos e sensoriais que lhe golpeiavan desde todos os ngulos.
        A mescla do aroma de sexo e sangue derramada lhe chamava como o canto de uma
sereia. Esse era um canto que ele conhecia bem, embora isso tinha sido em seu passado, agora
muito distante. OH, ainda desfrutava com um bom sexo e com uma suculenta veia aberta, mas
essas necessidades j no lhe governavam. Tinha tido que percorrer um caminho muito difcil
do ponto em que se encontrava antigamente, mas, ao final, tinha vencido.
        Agora era senhor de si mesmo e logo o seria de muito, muito mais.
        Uma nova guerra ia comear e ele estava preparado para oferecer a ltima batalha.
Estava educando a seu exrcito, aperfeioando seus mtodos, recrutando aliados que mais
tarde seriam sacrificados sem duvid-lo nem um momento no altar de seu capricho pessoal. Ia
infligir uma sangrenta vingana a nao dos vampiros e ao mundo de quo humanos somente
existia para servir aos seus.


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        Quando a grande batalha tivesse terminado e as cinzas e o p houvessem sido
finalmente varridos, no haveria ningum que pudesse interpor em seu caminho.
       Ele seria um maldito rei. Esse era seu direito de nascimento.
       --Mmmm... n, bonito... vem aqui e joga comigo.
       Esse convite realizado em voz rouca lhe alcanou por cima do barulho da sala. De um
montculo de corpos retorcidos, nus e midos tinha aparecido a mo de uma mulher que lhe
sujeitou pela coxa no momento em que ele passava por seu lado. Ele se deteve, baixou o olhar
at ela com uma clara expresso de impacincia. Percebeu uma beleza oculta sob a escura e
destroado maquiagem, mas ela tinha a mente completamente perdida nesse profundo delrio
da orgia.

     Um par de rastro de sangue lhe desciam pelo bonito pescoo e chegavam at as pontas de
seus peitos perfeitamente formados. Tinha outras mordidas em outros pontos do corpo: no
ombro, no ventre, e na parte interior de uma das coxas, justo debaixo da estreita banda de plo
que lhe ocultava o sexo.
        --Te una lhe suplicou ela, levantando-se de entre a selva enredada de braos e pernas
dos vampiros renegados em zelo. A essa mulher quase tinham extrado todo o sangue,
somente ficavam uns litros antes de morrer. Tinha os olhos frgeis, perdidos. Seus
movimentos eram lnguidos, como se seus ossos se tornaram de borracha.
       -- Tenho o que desejas. Sangrarei para ti, tambm. Vem, me prove.
        Ele no disse nada; simplesmente apartou os plidos dedos manchados de sangue que
atiravam da fina malha de suas caras calas de seda.
     Verdadeiramente, no estava de humor.
        E, ao igual que todo lder com xito, nunca tocava sua prpria mercadoria.
        Ps-lhe a mo plaina em cima do peito e a empurrou. Ela chiou: um dos renegados a
tinha apanhado sem contemplao e, com rudeza, deu-lhe a volta em cima de seu brao,
colocou-a debaixo dele e a penetrou por detrs. Ela gemeu assim que ele a atravessou, mas
ficou em silencio ao cabo de um instante enquanto o vampiro sedento de sangue lhe cravava
as enormes presas no pescoo e lhe chupava a ltima gota de vida de seu corpo consumido.
        --Desfrutem destes restos --disse o que ia ser rei com uma voz profunda que se
elevava em tom magnnimo por cima dos rugidos animais e o estrondo ensurdecedor da
msica.
      -- A noite se est levantando e logo conhecero as recompensas que tenho a lhes
oferecer.




     Captulo onze

     Lucan bateu na porta do apartamento de Gabrielle outra vez.
      Ainda, nenhuma resposta.
      Fazia cinco minutos que se encontrava em p na entrada, na escuridao, esperando a
que ou ela abrisse a porta e convidasse a entrar, ou lhe amaldioar e lhe chamasse bastardo do
outro lado dos numerosos ferrolhos de segurana e lhe dissesse que se perdesse.


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        Depois do comportamento pornogrfico que tinha tido com ela a noite anterior, no
estava seguro de qual era a reao que se merecia encontrar. Provavelmente, uma irada
despedida.
        Golpeou a porta com os ndulos outra vez com tanta fora que era provvel que os
vizinhos lhe tivessem ouvido, mas no se ouviu nenhum movimento dentro do apartamento
de Gabrielle. Somente silencio. Havia muita quietude ao outro lado da porta.
        Mas ela estava ali dentro. Notava-a ao outro lado das capas de madeira e tijolo que lhes
separavam. E cheirava a sangue, tambm. No muito sangue, mas certa quantidade em algum
ponto prximo a porta.
      Filho da puta.
      Ela estava dentro, e estava ferida.
      --Gabrielle!
      A preocupao lhe corria pelas veias como se fosse um cido. Tentou se tranquiliza o
suficiente para poder concentrar seus poderes mentais no ferrolho de correia e nas duas
fechaduras que estavam colocadas ao outro lado da porta. Com um esforo, abriu um ferrolho
e logo o outro. A correia se soltou e caiu contra o gonzo da porta com um som metlico.

       Lucan abriu a porta com um empurro e suas botas soaram com fora sobre o cho de
ladrilhos do vestbulo. A bolsa das cmeras de Gabrielle se encontrava justo em seu caminho,
provavelmente onde ela a tinha deixado cair com a pressa. O doce aroma ajazminado de seu
sangue lhe encheu as fossas nasais justo um instante antes de que sua vista tropeasse com um
caminho de pequenas manchas de cor carmesim.
       O ambiente do apartamento tinha certo ar amargo de medo cujo aroma, que j tinha
umas horas, apagou-se mas permanecia como uma neblina.
       Atravessou a sala de estar com inteno de entrar na cozinha, para onde se dirigiam as
gotas de sangue. Enquanto cruzava a sala, tropeou com um monto de fotografias que havia
na mesa do sof.
       Eram umas tomadas rpidas, uma estranha variedade de imagens. Reconheceu
algumas delas, que formavam parte do trabalho que Gabrielle estava levando a cabo e que
titulava Renovao urbana. Mas havia umas quo imagens que no tinha visto antes. Ou
possivelmente no tinha emprestado a ateno suficiente para dar-se conta.
       Agora sim que se deu conta.
       Merda, v que sim.
       Um velho armazm perto do dique. Um velho moinho papeleiro abandonado justo aos
subrbios da cidade. Vrias estruturas diferentes que proibiam a entrada onde nenhum
humano --por no falar de uma mulher confiada como Gabrielle-- devia aproximar-se de
nenhuma forma.
      Guaridas de renegados.
      Algumas delas j tinham sido erradicadas, estavam-no graas a Lucan e a seus
guerreiros, mas umas quantas mais ainda eram clulas ativas. Viu umas quantas que se
encontravam nesses momentos vigiadas pelo Gideon. Enquanto passava rapidamente as fotos,
perguntou-se quantas localizaes de guaridas de renegados teria Gabrielle fotografadas e o
que ainda no se encontravam no radar da raa.

      --Merda --sussurrou, tenso, olhando um par de imagens mais.

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       Inclusive tinha algumas fotos exteriores de uns Refgios Escuros da cidade, umas
entradas escuras e umas sinalizaes dissimuladas cuja funo era evitar que esses santurios
dos vampiros fossem facilmente localizados tanto pelos curiosos seres humanos como por
seus inimigos os renegados.
       E Apesar de tudo, Gabrielle tinha encontrado esses lugares. Como?
        obvio, no podia ter sido por acaso. O extraordinrio sentido visual de Gabrielle
devia hav-la conduzido at esses lugar de gado. Ela j tinha demonstrado que era
completamente imune aos truques habituais dos vampiros: iluses hipnticas, controle
mental... E agora isto.
       Lucan soltou uma maldio e se meteu umas quantas fotografias no bolso da jaqueta de
couro. Deixou o resto das imagens em cima da mesa.
     --Gabrielle?
       Dirigiu-se at a cozinha, onde algo ainda mais inquietante lhe estava esperando.
       O aroma de Gabrielle era mais forte ali, e lhe conduziu at a pia. Ficou imovel diante
dele e sentiu uma sensao gelada no teto assim que fixou o olhar no mesmo.
       Parecia que algum tivesse tentado limpar uma cena do crime, e que o tivesse feito
muito mal. Na pia havia um monto de toalhas de papel empapadas de gua e manchadas de
sangue, ao lado de uma faca que tinham tirado do estojo de madeira que se encontrava no
mrmore da cozinha.
       Tomou a afiada faca e o inspecionou rapidamente. No tinha sido utilizada, mas todo o
sangue que havia na pia e que tinha cado ao cho do vestbulo at a cozinha pertencia
unicamente a Gabrielle.
       E a parte de roupa que se encontrava atirado no cho ao lado de seus ps tambm tinha
seu aroma.
       Deus, se algum lhe tinha posto a mo em cima...
     Se lhe tivesse acontecido algo...
     --Gabrielle!
      Lucan seguiu seus instintos, que lhe levaram at o poro do apartamento. No se
incomodou em acender as luzes: sua viso era mais aguda na escurido. Baixou as escadas e
gritou seu nome em meio desse silencio .
       Em um rinco, ao outro extremo do poro, o aroma de Gabrielle se fazia mais forte.
Lucan se encontrou em p diante de outra porta fechada, uma porta rodeada de uns
vedadores para que no penetrasse a luz exterior. Tentou abri-la pelo pomo, mas estava
fechada e sacudiu a porta com fora.
       --Gabrielle. Ouve-me? Menina, abre a porta.
       No esperou a receber resposta. No tinha a pacincia para isso, nem a concentrao
mental para abrir o ferrolho que fechava a porta do outro lado. Soltou um grunhido de fria,
golpeou a porta com o ombro e entrou.
       Imediatamente, seus olhos, na escurido dessa sala, deram com ela. Seu corpo se
encontrava enroscado no cho da desordenada habitao escura e estava nua exceto por um
sutiens e umas calcinhas de traje de banho. Ela despertou imediatamente com o repentino
estrondo da porta.
       Levantou a cabea rapidamente. Tinha as plpebras pesadas e inchadas por ter chorado
fazia pouco. Tinha estado ali soluando, e Lucan houvesse dito que o tinha feito durante


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bastante momento. Seu corpo pareca exalar quebras de onda de cansao: a via to pequena,
to vulnervel.

        --OH, no, Gabrielle --sussurrou ele, deixando cair no cho ao lado dela.
      -- Que demnios est fazendo aqui dentro? Algum te tem feito mal?
      Ela negou com a cabea, mas no respondeu imediatamente. Com um gesto hesitante,
levou-se as mos at o rosto e se apartou o cabelo do rosto, tentando lhe ver em meio dessa
escurido.
        --S... cansada. Necessitava silncio... paz.
        --E por isso te encerraste aqui embaixo? --Ele deixou escapar um forte suspiro de
alvio, mas no corpo dela viu umas feridas que tinham deixado de sangrar fazia muito pouco
tempo.
      -- De verdade que est bem?
        Ela assentiu com a cabea e se aproximou para ele na escurido.
        Lucan franziu o cenho e alargou a mo at ela. Acariciou-lhe a cabea e ela pareceu
entender esse contato como um convite. Colocou-se entre seus braos como uma menina que
necessitasse consolo e calor. No era bom o natural que lhe pareceu abra-la, quo forte
sentiu a necessidade de tranqiliz-la para que se sentisse segura com ele. Para que sentisse
que ele a protegeria como se fosse dele.
      Dele.
        Impossvel, disse a si mesmo. Mais que impossvel: era ridculo.
        Baixou a vista e em silncio observou a suavidade e o calor do corpo dessa mulher que
se enredava com o seu em sua deliciosa e quase completa nudez. Ela no tinha nem idia do
perigoso mundo no qual se colocou, e muito menos de que era um mortfero macho vampiro
quem a estava abraando nesses momentos.
        Ele era o ltimo que podia oferecer amparo contra o perigo a uma companheira de raa.
No caso de Gabrielle, somente notar a mais ligeira fragrncia dela elevava sua sede de sangue
at a zona de perigo. Acariciou-lhe o pescoo e o ombro e tentou ignorar o constante ritmo do
pulso de suas veias sob as pontas dos dedos. Tinha que lutar de maneira infernal para no
fazer caso da lembrana da ltima vez que tinha estado com ela, tanto que precisava t-la
outra vez.

       --Mmmm, seu tato  muito agradvel --murmurou ela, sonolenta, contra seu peito.
Sua voz foi como um ronrono escuro e dormitado que lhe provocou uma descarga de calor na
coluna vertebral  outro sonho?
       Lucan gemeu, incapaz de responder. No era um sonho, e ele, pessoalmente, no se
sentia bem absolutamente. A maneira em que ela se enredava entre seus braos, com uma
tenra confiana e inocncia, o fazia sentir dentro dele a besta, antiga e gasta.
       Procurando uma distrao, encontrou-a muito logo. Jogou um vista para cima, por
cima das cabeas de ambos, e todos os msculos de seu corpo se endureceram por causa de
outro tipo de tenso.
       Fixou os olhos em umas fotografias que Gabrielle tinha pendurado para que secassem
na habitao escura. Pendurando, sobre outras imagens sem importncia, havia umas imagens
de umas quantas localizaes mais de vampiros.


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       Por Deus, inclusive tinha fotografado o complexo de edifcios dos guerreiros. Essa foto
de dia tinha sido tomada da estrada, ao outro lado da cerca. No havia maneira de confundir a
enorme porta de ferro cheia de inscries que fechava o comprido caminho e a manso de alta
segurana que se encontrava ao final do mesmo, oculta perfeitamente dos olhos curiosos.
       Gabrielle deveu haver ficado justo ao subrbios da propriedade para ter tomado essa
fotografia. Pela folhagem de vero das rvores que rodeavam a cena, a imagem no podia ter
mais de trs semanas. Ela tinha estado ali, somente A umas centenas de metros de onde ele
vivia.

        Ele nunca tinha tido tendncia a acreditar na idia do destino, mas parecia bastante
claro que, de uma ou outra forma, essa mulher estava destinada a cruzar-se em seu caminho.
        OH, sim. A cruzar-se como um gato negro.
        Era muito prprio de sua sorte que, depois de sculos de esquivar balas csmicas e
confuses emocionais, retorcidas irms do destino e a realidade tivessem decidido lhe incluir
em suas listas de merda ao mesmo tempo.
        --Est bem --disse a Gabrielle, embora as coisas estavam tomando uma m direo
rapidamente.
      -- Vou subir te  habitao para que se vista e logo falaremos. --antes de que a viso
continuada de seu corpo envolto nessas finas capas de roupa interior acabassem com ele.
        Lucan a tomou nos braos, tirou-a da habitao escura e a subiu pelas escadas at o piso
principal. Agora que a sujeitava perto dele, seus agudos sentidos perceberam os detalhes das
diversas feridas que tinha: uns grandes arranhes nas mos e nos joelhos, prova de uma
queda bastante m.
        Ela tinha tentado escapar de algo --ou de algum-- presa do terror e caido. A Lucan
lhe bulia o sangue de desejos de saber quem lhe tinha provocado esse dano, mas j haveria
tempo para isso logo. A acomodao e o bem-estar de Gabrielle eram sua preocupao
principal nesse momento.
        Lucan atravessou com ela em braos a sala de estar e subiu as escadas at o piso de
acima, onde se encontrava a habitao. Sua inteno era ajud-la a colocar um pouco de roupa,
mas quando passou por diante do banho que se encontrava ao lado do dormitrio, pensou na
gua. Os dois         precisavam falar, verdadeiramente, mas tendo em conta a situao
provavelmente se relaxassem com maior facilidade depois de que ela houvesse tomado um
banho quente.
        Com Gabrielle lhe abraando por cima dos ombros, Lucan entrou no banheiro. Um
pequeno abajur de noite oferecia uma tnue iluminao de ambiente, o justo para que se
sentisse a gosto. Levou a sua lnguida carga at a banheira e se sentou no bordo da mesma,
com a Gabrielle no regao.

       Desabotoou o fechamento da parte da frente da pequena pea de cetim e despiu seus
peitos ante seus olhos, repentinamente enfebrecidos. Doam-lhe as mos de desejo de toc-la,
assim que o fez, e acariciou as generosas curva com as pontas dos dedos enquanto passava o
polegar pelos mamilos rosados.
       Que Deus lhe ajudasse. O suave ronrono que ouviu na garganta dela endureceu o pnis
at que lhe doeu.


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       Passou-lhe a mo pelo torso, at a parte de tecido que lhe cobria o sexo. Suas mos
eram muito grandes e torpes para o suave e fino cetim, mas de algum jeito conseguiu lhe tirar
as calcinhas e acariciar a parte interna das largas pernas de Gabrielle.
       Ante a viso dessa bela mulher, nua outra vez diante dele, o sangue lhe corria pelas
veias como a lava.
       Possivelmente deveria sentir-se culpado por encontr-la to incrivelmente desejavel
incluso em seu atual estado de vulnerabilidade, mas ele no tinha mais tendncia a aceitar a
culpa da que tinha a fazer a cuidar. E j se demonstrou a si mesmo que tentar ter o mnimo
controle ao lado dessa mulher em particular era uma batalha que nunca ia ganhar.
       Ao lado da banheira havia uma garrafa de sabo lquido. Lucan jogou uma generosa
quantidade sob o jorro de gua que caa na banheira. Enquanto a espuma se formava,
depositou a Gabrielle com cuidado na gua quente. Ela gemeu, claramente de gosto, ao entrar
na gua espumosa. Suas pernas se relaxaram de forma evidente e apoiou os ombros na toalha
que Lucan tinha colocado rapidamente para lhe oferecer uma almofada e para que no tivesse
que apoiar as costas contra a frieza dos ladrilhos e a porcelana.
       O pequeno lavabo estava alagado pelo vapor e pelo ligeiro aroma de jasmim de
Gabrielle.

       --Cmoda? --perguntou-lhe ele, enquanto se tirava a jaqueta e a tirava ao cho.
       --Sim --murmurou ela.
       Ele no pde evitar lhe pr as mos em cima. Acariciou-lhe o ombro com suavidade e
lhe disse:
       --Te deslize para diante e te molhe o cabelo. Eu lhe lavarei isso.
       Ela obedeceu, permitindo que lhe conduzisse a cabea sob a gua e logo para fora outra
vez. As largas mechas se obscureceram e adquiriram um tom escuro e brilhante. Ela ficou em
silencio durante um comprido momento. Logo, levantou lentamente as plpebras e lhe sorriu
como se acabasse de recuperar a conscincia e se surpreendesse de lhe encontrar ali.
     --Ol.
     --Ol.
       --Que horas so? --perguntou-lhe ela com um comprido e amplo bocejo.
       Lucan se encolheu de ombros.
       --As oito, mais ou menos, suponho.
       Gabrielle se afundou na banheira e fechou os olhos com um gemido.
       --Um mau dia?
       --No um dos melhores.
       --Isso imaginei. Suas mos e seus joelhos se vem um pouco maltratadas.
     --Lucan alargou uma mo e fechou a gua. Tomou uma garrafa de xampu do lado e
colocou um pouco nas mos.
     --Quer me contar o que te passou?

       --Prefiro no faz-lo. --Entre suas finas sobrancelhas se formou uma ruga.
       -- Esta tarde fiz uma coisa muito tola. J se inteirar bastante logo, estou segura.
       --Mas como? --perguntou Lucan, esfregando-as mos com o xampu.
       Enquanto lhe massageava a cabea com a densa nata do xampu, Gabrielle abriu um
olho e lhe dirigiu um olhar de receio.

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        --O menino de delegacia de polcia no lhe h dito nada a ningum?
        --Que menino?
        --que se encarrega dos arquivos na delegacia de polcia. Alto, desajeitado, de um
aspecto normal. No sei como se chama, mas estou bastante segura de que se encontrava ali a
noite em que fiz minha declarao sobre o assassinato. Hoje lhe vi no parque. Acreditei que
me estava espiando, a verdade, e eu... --interrompeu-se e meneou a cabea.
      -- Corri detrs dele como uma louca, lhe acusando de estar me espiando.
        As mos de Lucan ficaram imveis sobre sua cabea. Seu instinto de guerreiro se
alertou completamente.
        --Que fez o que?
        --J sei --disse ela, evidentemente interpretando mal sua reao. Apartou um monto
de borbulhas com uma mo.
        -- J te disse que tinha sido idiota. Bom, pois persegui o pobre menino at Chinatown.
        Embora no o disse, Lucan sabia que o instinto inicial de Gabrielle tinha sido acertado
sobre o desconhecido que a observava no parque. Dado que o incidente tinha acontecido a
plena luz do dia, no podia tratar-se dos renegados --uma pequena sorte--, mas os humanos
que lhes serviam podiam ser igual de perigosos. Os renegados utilizavam subordinados em
todos os lugares do mundo, humanos escravizados por uma potente dentada infligida por um
vampiro poderoso que lhes desprovia de conscincia e livre-arbtrio, e lhes deixava em um
estado de obedincia completa quando despertavam.
        Lucan no tinha nenhuma dvida de que o homem que havia estado observando a
Gabrielle o fazia como servio ao renegado que o tinha ordenado.
        --Essa pessoa te fez mal? Foi assim como te fez estas feridas?
        --No, no. Isso foi minha coisa. Pus-me nervosa por nada.
      Depois de ter perdido a pista do menino no Chinatown, perdi-me. Acreditei que um
carro vinha por mim, mas no era assim.
        --Como sabe?
        Lhe olhou com exasperao para si mesmo.
        --Porque se tratava do prefeito, Lucan. Acreditei que seu carro, conduzido por sua
chofer, estava-me perseguindo e comecei a correr. Para culminar um dia perfeitamente
horroroso, ca-me de focinhos em meio de uma calada repleta de gente e logo tive que ir
coxeando at casa com os joelhos e as mos cheias de sangue.
      Lucan soltou uma maldio em voz baixa ao dar-se conta de at que ponto ela tinha
estado perto do perigo. Pelo amor de Deus, ela mesma em pessoa tinha aoitado a um
servente dos renegados. Essa idia deixou gelado a Lucan, mais assustado do que queria
admitir.
        --Tem que me prometer que ter mais cuidado --lhe disse ele, dando-se conta de que a
estava arreganhando, mas sem nimo de incomodar-se a comportar-se com educao ao saber
que esse mesmo dia a houvessem podido matar.
      -- Se voltar a acontecer algo assim, tem que me dizer isso imediatamente.
        --Isso no vai acontecer outra vez, porque foi meu equvoco. E no ia chamar te, nem a
ti nem a ningum da delegacia de polcia, para isto. No se divertiram muito se eu chamasse
para lhes dizer que um de seus administrativos me estava perseguindo sem nenhuma razo
aparente?


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       Merda. A mentira que lhe tinha contado de que era um policial lhe estava resultando
um maldito estorvo agora. Inclusive pior, isso a tivesse posto em perigo em caso de que ela
tivesse chamado a delegacia de polcia perguntando pelo detetive Thorne, porque, ao faz-lo,
tivesse chamado a ateno de um subordinado infiltrado.
       --Vou te dar o nmero de meu celular. Encontrar-me a sempre. Quero que o utilize a
qualquer hora, compreendido?
       Ela assentiu com a cabea enquanto ele voltava a abrir o grifo da gua, lavava-se as
mos e lhe enxaguava o cabelo sedoso e ondulado.
       Frustrado consigo mesmo, Lucan alcanou uma esponja que se encontrava em uma
prateleira superior e a lanou  gua.
       --Agora, me deixe que lhe jogue uma olhada ao joelho.
       Ela levantou a perna desde debaixo da capa de borbulhas. Lucan lhe sujeitou o p com
a palma da mo e lhe lavou com cuidado o feio rasgo. Era somente um arranho, mas estava
sangrando outra vez por causa de que a gua quente tinha abrandado a ferida. Lucan apertou
a mandbula com fora: os fragrantes fios de sangue escarlate tinham um delicado caminho
por sua pele e se introduziam na antiga espuma do banho.
        Terminou de lhe limpar os dois joelhos feridos e logo lhe fez um sinal para que lhe
permitisse limpar as palmas das mos. No se atrevia a falar agora que o corpo nu de
Gabrielle se combinava com o odor de seu sangue fresco. A sensao era como se acabassem
de lhe dar um golpe no crnio com um martelo.
       Concentrando-se em no desviar sua ateno, dedicou-se a lhe limpar as feridas das
palmas das mos, sabendo perfeitamente que seus profundos e escuros olhos seguiam cada
um de seus movimentos e notando dolorosamente o pulso nas veias das mos, rpido, sob a
presso das pontas de seus dedos.

     Lhe desejava, tambm.
       Lucan se disps a solt-la e, justo quando comeava a dobrar o brao para retir-lo, viu
algo que lhe inquietou. Seus olhos tropearam com uma srie de marcas tnues que
manchavam a impecvel pele aveludada. Essas marcas eram cicatrizes, uns magros cortes na
parte interior dos antebraos. E tinha mais nas coxas.
     Cortes de folhas de barbear.
       Como se tivesse suportado uma tortura infernal de forma repetida quando no era mais
que uma menina.
       --Deus Santo. --Levantou a cabea para olh-la, com expresso de fria, aos olhos.
       -- Quem te fez isto?
       --No  o que cr.
       Agora ele estava aceso de ira, e no pensava deix-lo passar.
       --Conta-me .
       --No  nada, de verdade. Esquece-o...
       --Me d um nome, porra, e te juro que matarei a esse filho da puta com minhas
prprias mos.
       --Eu o fiz --lhe interrompeu repentinamente ela em voz baixa.
       -- Fui eu. Ningum me fez isso, eu mesma me fiz isso.



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       --O que? --Enquanto lhe apertava o frgil pulso com uma mo, voltou a lhe dar a volta
ao brao para poder observar a tnue rede de cicatrizes de cor prpura que se entrelaava em
seu brao.
       -- Voc te fez isto? Por que?

     Ela se soltou de sua mo e introduziu os dois braos sob a gua, como se queria ocultar
os de seu olhar.
       Lucan soltou um juramento em voz baixa e em um idioma que j no falava mais que
muito raramente.
       --Quantas vezes, Gabrielle?
       --No sei. --Ela se encolheu de ombros, evitando seu olhar.
       -- No o fiz durante muito tempo. Superei-o.
       -- por isso que h uma faca na pia, l em baixo?
       O olhar que lhe dirigiu expressava dor e uma atitude defensiva. No gostava que ele se
intrometesse, tanto como no lhe tivesse gostado dele, mas Lucan queria compreend-lo. No
era capaz de imaginar o que podia hav-la levado a cravar uma faca na prpria carne.
       Uma e outra e outra vez.
       Ela franziu o cenho com o olhar cravado na espuma que comeava a dissolver-se a seu
redor.
       --Oua, no podemos deixar o tema? De verdade que no quero falar de...
       --Possivelmente deveria falar disso.
       --OH, claro. --ela riu em um tom que delatava um fio de ironia--. Agora chega a parte
em que me aconselha que v ver um psiquiatra, detetive Thorne? Possivelmente que v a
algum lugar onde me possam deixar em um estado de estupor pelos medicamentos e onde
um doutor possa me vigiar por meu prprio bem?
       --Isso te aconteceu?

       --As pessoas no me compreendem. Nunca o tem feito. s vezes nem eu me
compreendo.
       --O que  o que no compreende? Que precisa machucar a si mesma?
       --No. No  isso. No  esse o motivo pelo que o fiz.
       --Ento, por que? Deus santo, Gabrielle, deve haver mais de cem cicatrizes...
       --No o fiz porque queria sentir dor. No me resultava doloroso faz-lo. --Inalou com
fora e soltou o ar devagar por entre os lbios. Demorou um segundo em falar, e quando o fez
Lucan ficou olhando-a em um silncio pasmado.
       -- Nunca tive a intenso de provocar dano a nada. No estava tentando enterrar umas
lembranas traumticas nem intentava escapar de nenhum tipo de mau trato, apesar das
opinies de quem se define como peritos e que me foram atribudos pela administrao.
Cortei-me porque... tranqilizava-me. Sangrar me acalmava.
     Quando sangrava, tudo aquilo que estava desconjurado e era estranho em mim, de
repente me parecia... normal.
         Ela manteve o olhar sem titubear, em uma expresso nova como de desafio, como se
uma porta se abrisse em algum ponto dentro dela e acabasse de soltar uma pesada carga. De
alguma forma imprecisa, Lucan se deu conta de que isso era o que ele tinha visto. S que a ela


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todavia faltava uma pea de informao crucial, que faria que as coisas encaixassem em seu
lugar para ela.
        Ela no sabia que era uma companheira de raa.
        Ela no podia saber que, um dia, um membro de sua estirpe tomaria em qualidade de
eterna amada e lhe mostraria um mundo muito distinto ao que ela tivesse podido sonhar
nunca. Ela abriria os olhos a um prazer que somente existia entre casais que tinham um
vnculo de sangue.
        Lucan se deu conta de que j odiava a esse macho desconhecido que teria a honra de
am-la.

       --No estou louca, se  isso o que est pensando.

         Lucan negou com a cabea devagar.
         --No estou pensando isso absolutamente.
         --Desgosta-me que me tenham pena.
         --A mim tambm --disse, percebendo a advertncia que encerravam essas palavras.
       _Voc no necessita compaixo, Gabrielle. E eu no necessito-medicina nem doutores,
tampouco.
      Ela se tinha retrado no momento em que ele tinha descoberto as cicatrizes, mas agora
Lucan se deu conta de que ela duvidava, de que uma dbia confiana voltava a aparecer
lentamente.
         --Voc no pertence a este mundo --disse ele, em um tom nada sentimental, a no ser
constatando os fatos. Alargou a mo e tomou o queixo com a palma.
       -- Voc  muito extraordinria para a vida que estiveste vivendo, Gabrielle. Acredito
que o soubeste sempre. Um dia, tudo cobrar sentido para ti, prometo-lhe isso. Ento o
compreender, e encontrars seu verdadeiro destino. Possivelmente eu possa te ajudar a
encontr-lo.
      O tivesse querido acabar de ajud-la a banhar-se, mas a ateno com que lhe olhava lhe
obrigou a manter as mos quietas. Ela, por toda resposta, sorriu, e a calidez de seu sorriso lhe
provocou uma pontada de dor no peito. Apanhado no tenro olhar dela, sentiu que a garganta
lhe fechava de uma forma estranha.
        --O que acontece?
      Ela negou com a cabea brevemente.
        --Estou surpreendida, s  isso. No esperava que um policial duro como voc falasse
de forma to romntica sobre a vida e o destino.

      O recordar que ele se aproximou dela, e continuava fazendo-o, sob uma aparncia falsa,
permitiu-lhe recuperar parte do sentido comum. Voltou a afundar a esponja na gua
ensaboada e a deixou flutuar em meio da espuma.
      --Possivelmente tudo isto so tolices.
      --No acredito.
      --No me tenha to em conta --lhe disse ele, forando um tom de despreocupao.
      -- No me conhece, Gabrielle. No de verdade.
      --Eu gostaria de te conhecer. De verdade. --Ela se sentou dentro da banheira. As
mornas pequenas ondas da gua lhe lambiam o corpo nu igual a Lucan lhe tivesse gostado de

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faz-lo com a lngua. As pontas dos peitos ficavam justo por cima da superfcie da gua, os
mamilos rosados duros como ptalas fechadas e rodeados por uma densa espuma branca.
       -- Me Diga, Lucan. De onde ?
       --De nenhuma parte. --A resposta soou entre seus lbios como um grunhido, e era
uma confisso que se aproximava mais a verdade do que gostava de admitir. Ao igual que ela,
desgostava-lhe a compaixo assim que se sentiu aliviado de que lhe olhasse mais com
curiosidade que com pena. Com o dedo, acariciou-lhe o nariz arrebitado e salpicado de sardas.
       --Eu sou o inadaptado original. Nunca pertenci verdadeiramente a nenhum lugar.
       --Isso no  certo.
         Gabrielle lhe rodeou os ombros com os braos. Seus quentes olhos enormes lhe
olharam com ternura e expressavam o mesmo cuidado que lhe havia devotado ao tira-la da
habitao escura e traz-la at o quente banho. Gabrielle lhe beijou e, ao notar a lngua dela
entre seus lbios, os sentidos de Lucan se alagaram do embriagador perfume de seu desejo e
de seu doce e feminino afeto.

        --Cuidaste-me tanto esta noite. Me deixe que te cuide agora, Lucan.
        --Lhe beijou outra vez. O beijo foi to profundo que a pequena e mida lngua lhe
arrancou um grunhido de puro prazer masculino do mais fundo dele. Quando ela finalmente
interrompeu o contato, respirava com agitao e seus olhos estavam acesos de desejo carnal.
        --Leva muita roupa em cima. Tire-lhe isso quero que esteja aqui dentro, nu, comigo.
        Lucan obedeceu e atirou as botas, as meias trs-quartos, a cala e a camisa ao cho.
No levava nada mais e ficou em p diante de Gabrielle completamente nu.
        Completamente ereto e desejoso dela.
        Lucan tomou cuidado de manter os olhos separados dos dela, porque agora as
pupilas lhe tinham esgotado a causa do desejo, e era consciente da presso e a pulsao de
suas presas, que se haviam alargadas detrs dos lbios. Se no tivesse sido porque a luz que
chegava do abajur de noite que se encontrava ao lado da pia era muito tnue, sem dvida lhe
teria visto em toda sua voraz gloria.
        E isso tivesse estragado esse momento prometedor.
        Lucan se concentrou e emitiu uma ordem mental que rompeu a pequena lmpada
dentro do biombo de plstico do abajur de noite. Gabrielle se sobressaltou ao ouvir o
repentino estalo, mas ao notar-se rodeada pela escurido, suspirou, feliz. Movia-se dentro da
gua e esse movimento de seu corpo ao deslizar-se dentro da gua emitia uns sons deliciosos.
        --Acende outra luz, se quiser.
        --Encontrarei-te sem luz --lhe prometeu ele. Falar era um pequeno truque agora,
quando a lascvia lhe dominava por completo.
        --Ento vem --lhe pediu sua sereia da calidez do banho.
        Ele se introduziu na banheira e se colocou diante dela, s escuras. Somente desejava
atrai-la at si, arrast-la at seu regao para afundar-se at o punho com uma larga investida.
Mas pelo momento pensava deixar que fosse ela quem marcasse o ritmo.

     A noite passada, ele tinha vindo faminto e tomou o que desejava. Esta noite ia ser ele
quem oferecesse.
     Apesar de que o ter que refrear-se o matasse.


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       Gabrielle se deslizou para ele entre as magras nuvens de espuma. Passou-lhe os ps por
ambos os lados dos quadris e os juntou agradavelmente em seu traseiro. Inclinou-se para
frente e seus dedos encontraram os musculos dele por debaixo da superfcie da gua.
Acariciou e apertou seus fortes msculos, massageou-os e passou as mos ao longo de suas
coxas em uma carcia que era um tortura lenta e deliciosa.
       --Tem que saber que no me comporto assim normalmente.
       Ele emitiu um grunhido que pretendia mostrar interesse mas que soou forado.
       --Quer dizer que normalmente no est to quente como para fazer que um homem se
derreta a seus ps?
      Ela soltou uma gargalhada.
       -- isso o que te estou fazendo?
       Ele lhe conduziu as mos at a dureza de seu pnis.
       --A voc o que te parece?
       --Acredito que  incrvel. --Ele lhe soltou as mos mas ela no as apartou. Acariciou-
lhe o membro e os testculos e, com gesto preguioso, acariciou-lhe com os dedos a ponta
torcida que se sobressaa por cima da superfcie da gua da banheira.

      --No te parece com ningum que tenha conhecido nunca. E o que queria dizer era que
habitualmente no sou to... quero dizer, agressiva. No tenho muitos encontros.
      --No traz para um monto de homens a sua cama?
      Inclusive na escurido, Lucan se deu conta de que ela se havia ruborizado .
      --No. Faz muito tempo.
      Nesse momento, ele no desejava que ela levasse a nenhum outro macho, nem humano
nem vampiro, a sua cama.
      No queria que ela transasse com ningum nunca mais.
      E, que Deus lhe ajudasse, mas ia perseguir e estripar ao bastardo servente de quo
renegados tinha podido mat-la hoje.
      Essa idia lhe surgiu em um repentino ataque de posse. Lhe acariciava o sexo e a ponta
lhe umedeceu. Seus dedos, seus lbios, sua lngua, seu flego contra seu abdmen nu
enquanto tomava at o fundo de sua clida boca: tudo isso lhe estava conduzindo ao limite de
uma extraordinria loucura. No conseguia ter o bastante. Quando lhe soltou, ele pronunciou
um juramento de frustrao por perder a doura dessa suco.
       --Necessito-te dentro de mim --disse ela, com a respirao agitada.
       --Sim --assentiu ele--, claro que sim.
       --Mas...
       V-la duvidar lhe confundiu. Zangou a essa parte dele que se parecia mais a um
renegado selvagem que a um amante considerado.
       -- O que acontece ? --Soou mais parecido a uma ordem do que tivesse querido.

       --No teramos... ? A outra noite, as coisas nos foram das mos antes de que lhe
pudesse dizer isso mas no deveramos, j sabe, utilizar algo esta vez? --O desconforto dela
lhe cravou como o fio de uma faca. Ficou imovel, e ela se separou dele como se fosse sair da
banheira.
       -- Tenho camisinhas na outra habitao.


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        Ele a sujeitou pela cintura com ambas as mos antes de que ela tivesse tempo de
levantar-se.
        --No posso te deixar grvida. --Por que lhe soava isso to duro nesse momento? Era a
pura verdade. Somente os casais que tinham um vnculo..., as companheiras de raa e os
machos vampiros que intercambiavam o sangue de suas veias, podiam ter descendncia com
xito.
        -- E quanto ao resto, no tem que preocupar-se por te proteger. Estou so, e nada do
que nos faamos pode fazer mal a nenhum dos dois.
        --OH, eu tambm. E espero que no ache que sou uma dissimulada por dize-lo..
        Ele a atraiu para si e silenciou sua expresso de desconforto com um beijo. Quando
seus lbios se separaram, disse-lhe:
        --O que acredito, Gabrielle Maxwell,  que  uma mulher inteligente que respeita seu
corpo e a si mesmo. Eu te respeito por ter o valor de tomar cuidado.
      Ela sorriu com os lbios junto aos dele.
        --No quero tomar cuidado quando estou perto de ti. Volta-me louca. Faz-me desejar
gritar.
        P-lhe as mos plainas sobre o peito e lhe empurrou at que ele caiu apoiado de costas
contra a parede da banheira. Ento ela se levantou por cima de seu pesado pnis e passou seu
sexo mido por toda sua longitude, deslizando-se para cima e para baixo.
      --Mas, transar, no de tudo-- lhe embainhando com seu calor.

     --Quero te fazer gemer --lhe sussurrou ela ao ouvido.
        Lucan grunhiu de pura agonia provocada por essa dana sensual. Apertou as mos em
punhos a ambos lado de seu corpo, por debaixo da gua, para no agarr-la e empal-la com
sua ereo que estava a ponto de explodir. Ela continuou com esse perverso jogo at que ele
sentiu seu orgasmo contra seu pnis. Ele estava a ponto de derramar-se, e ela continuava lhe
provocando sem piedade.
      --Foda --exclamou ele com os dentes e as presas apertadas, jogando a cabea para trs.
      -- Por Deus, Gabrielle, est-me matando.
      --Isso  o que quero ouvir --lhe animou ela.
        E ento, Lucan sentiu que o suculento sexo dela rodeava centmetro a centmetro a
cabea de seu pnis.
        Devagar.
        To vertiginosamente devagar.
        Sua semente se derramou e ele tremeu enquanto o quente lquido penetrava no corpo
dela. Gemeu, e nunca tinha estado to perto de perder-se como nesse momento. E a turgidez
do sexo de Gabrielle o envolveu ainda mais. Sentiu que os pequenos msculos lhe apertavam
enquanto se cravava mais em seu pnis.
       J quase no podia suport-lo mais.
        O aroma de Gabrielle lhe rodeava, mesclava-se com o vapor do banho e se sentia
embargado pela mescla do perfume de seus corpos unidos. Os peitos dela flutuavam perto de
seus lbios como uns frutos amadurecidos a ponto de ser tomados, mas ele no se atreveu a
toc-los nesse momento em que estava a ponto de perder o controle. Desejava sentir esses
maravilhosos peitos na boca, mas as presas lhe pulsavam da necessidade de chupar sangue.
Essa necessidade se via incrementada no momento do climax sexual.

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      Girou a cabea e deixou escapar um uivo de angstia; sentia-se desgarrado em muitos
impulsos tentadores, e o menor deles no era a tenso por gozar dentro de Gabrielle, de
ench-la com cada uma das gotas de sua paixo. Soltou um juramento em voz alta e ento
gritou de verdade, pronunciou um profundo juramento que se fez mais forte quando ela se
cravou com major fora em seu pnis ansiosa e obrigou a derramar-se antes de que seu
prprio orgasmo seguisse ao dele.
         Quando a cabea lhe deixou de dar voltas e sentiu que suas pernas voltavam a ter a
fora necessria para lhe aguentar, Lucan rodeou a Gabrielle com os braos e comeou a
levantar-se com ela, evitando que Gabrielle se separasse de seu pnis que voltava a entrar em
ereo.
       --O que est fazendo?
       --Voc se divertiu j. Agora te levo a cama.
         O agudo timbre do telefone celular arrancou de um sobressalto a Lucan de seu pesado
sono. Encontrava-se na cama com Gabrielle, os dois estavam esgotados. Ela estava enroscada
a seu lado, o corpo nu dela rodeava maravilhosamente suas pernas e seu torso.
         --Merda, quanto tempo levava fora? Possivelmente tivessem acontecido umas quantas
horas j, o qual era incrvel, tendo em conta seu habitual estado de insnia.
        O telefone voltou a soar e ele ficou em p e se dirigiu ao lavabo, onde tinha deixado
sua jaqueta. Tirou o telefone de um dos bolsos e respondeu.
       --Sim.
       --N. Era Gideon, e sua voz tinha um tom estranho.
       -- Lucan, com quanta rapidez pode vir ao complexo?
        Ele olhou por cima do ombro para o dormitrio adjacente. Gabrielle estava sentada
nesse momento, sonolenta. Seus quadris nus estavam envoltos nos lenis e seu cabelo era
uma confuso selvagem em sua cabea. Ele nunca tinha visto nada to terrivelmente tentador.
Possivelmente fosse melhor que partisse logo, enquanto ainda tinha a oportunidade de
afastar-se antes de que o sol se levantasse.

       Apartou os olhos da excitante viso de Gabrielle e Lucan respondeu a pergunta com
um grunhido.
       --No estou longe. O que acontece?
       Fez-se um comprido silencio ao outro lado do telefone.
       --Passou uma coisa, Lucan.  m. --Mais silncio. Ento, a tranqilidade habitual do
Gideon se quebrou:
     -- Ah, merda, no h forma boa de diz-lo. Esta noite perdemos a um, Lucan. Um dos
guerreiros est morto.



     Captulo doze
     Os lamentos do luto das fmeas chegaram at os ouvidos de Lucan assim que este saiu
do elevador que lhe tinha conduzido at as profundidades subterrneas do complexo. Eram
uns prantos de angstia que rompiam o corao. Os gemidos de uma das companheiras de
raa expressavam uma dor crua e evidente. Era o nico que se ouvia no silncio que invadia o
comprido corredor.

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        O contundente peso da perda lhe cravou no corao.
        Ainda no sabia qual dos guerreiros da raa era o que havia falecido essa noite. No
tinha inteno de esforar-se em adivinh-lo. Caminhava a passo rpido, quase corria para as
habitaes da enfermaria de onde Gideon lhe tinha chamado fazia uns minutos. Girou pela
esquina do corredor bem a tempo de encontrar-se com Savannah que conduzia a Danika,
destroada pela dor e soluando, fora de uma das habitaes.
        Uma nova comoo lhe golpeou.
        Assim era Conlan quem se partiu. O grandalho escocs de risada fcil e com esse
profundo e inquebrvel sentido de honra... estava morto agora. Logo se teria convertido em
cinzas.
        Jesus, quase no podia compreender o alcance dessa dura verdade.
         Lucan se deteve e saudou com uma respeitosa inclinao de cabea a viva quando
esta passava por seu lado. Danika se apoiava pesadamente em Savannah. Os fortes braos de
cor caf desta ltima pareciam ser quo nico impedia que a alta e loira companheira de raa
do Conlan se derrubasse pela dor.
         Savannah saudou Lucan, dado que a chorosa mulher a quem acompanhava era
incapaz de faz-lo.

       --Esto-lhe esperando dentro --lhe disse em tom amvel. Seus profundos olhos
marrons estavam midos pelas lgrimas.
      -- Vo necessitar sua fora e seu guia.
       Lucan respondeu a mulher do Gideon com um srio assentimento de cabea e logo deu
os poucos passos que lhe faltavam para entrar na enfermaria.
       Entrou em silncio, pois no queria perturbar a solenidade desse fugaz tempo de que
dispunham, ele e seus irmos, para estar com o Conlan. O guerreiro tinha suportado de uma
forma surpreendente vrias feridas; incluso do outro extremo da habitao Lucan percebia o
aroma de uma terrvel perda de sangue. As fossas nasais lhe encheram com a nauseabunda
mescla do aroma da plvora, a eletricidade, e a carne queimada.
       Tinha havido uma exploso, e Conlan ficou apanhado em meio dela.
       Os restos do Conlan se encontravam em uma maca de exame aberta de retalhos de
tecido. Seu corpo estava nu exceto pela larga parte de seda bordada que cobria sua entreperna.
Durante o pouco tempo desde que tinha voltado para o complexo, a pele do Conlan tinha sido
limpa e lubrificada com um fragrante azeite, em preparao dos ritos funerrios que foram ter
lugar a prxima sada do sol, para a qual faltavam poucas horas.
       Outros se reuniram ao redor da maca onde se encontrava Conlan: Dante, rgido e
observando estoicamente a morte; Rio, com a cabea encurvada, sujeitava entre os dedos um
rosrio enquanto movia os lbios pronunciando em silncio as palavras da religio de sua me
humana; Gideon, com um tecido na mo, limpava com cuidado uma das selvagens feridas que
tinham esmigalhado quase por completo a pele do Conlan; Nikolai, que tinha estado
patrulhando com o Conlan essa noite, tinha o rosto mais plido do que Lucan tinha visto
nunca: seus olhos frios tinham uma expresso austera e sua pele estava coberta de fuligem,
cinzas e pequenas feridas que ainda sangravam.




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       Inclusive Tegan se encontrava ali para mostrar seu respeito, embora o vampiro se
encontrava em p justo fora do crculo que formavam outros e mantinha os olhos ocultos,
fundo em sua solido.
       Lucan caminhou at a maca para ocupar seu lugar entre seus irmos. Fechou os olhos e
rezou pelo Conlan em um comprido silencio. Ao cabo de um momento, Nikolai rompeu o
silncio da habitao.
       --Salvou-me a vida a fora esta noite. Acabvamos de terminar com um par de idiotas
fora da estao Green Line e nos dirigamos de volta para aqui no momento em que vimos
esse tipo subir ao trem. No sei o que me incitou a lhe olhar, mas ele nos dirigiu um amplo e
provocador sorriso que nos fez lhe seguir. Estava-se colocando um pouco parecido a plvora
ao redor do corpo. Fedia isso a alguma outra merda que no tive tempo de identificar.
       --TATP --disse Lucan, que cheirava a acidez do explosivo nas roupas do Niko incluso
nesse momento.
       --Resultou que o bastardo levava um cinturo de explosivos ao redor de seu corpo.
Saltou do trem justo antes de que ns comessemos a nos pr em marcha e comeou a correr
ao longo de uma das velhas vias. Perseguimo-lhe e Conlan lhe abandonou. Ento foi quando
vimos as bombas. Estavam conectadas a um temporizador de sessenta segundos, e a conta j
era menor de dez. Ouvi que Conlan me gritava que voltasse atrs, e ento se atirou em cima
do tipo.
       --Merda --exclamou D, passando uma mo pelo cabelo escuro.
       --Um servente tem feito isto? --perguntou Lucan, pensando que era uma hiptese
acertada. Os renegados no tinham escrpulos em utilizar vidas humanas para levar a cabo
suas mesquinhas guerras internas ou para resolver assuntos de vinganas pessoais. Durante
muito tempo, os fanticos religiosos no tinham sido os nicos em utilizar aos fracos de mente
como trocas e descartveis, embora altamente efetivas, ferramentas de terror.
        Mas isso no fazia que a horrvel verdade do que lhe tinha acontecido a Conlan fosse
mais fcil de aceitar.

     --No era um servente --respondeu Niko, negando com a cabea.
       --Era um renegado, e estava conectado a uma quantidade do TATP suficiente para voar
meia quadra da cidade, a julgar pelo aspecto e o aroma que despedia.
     Lucan no foi o nico nessa habitao que pronunciou um selvagem juramento para
ouvir essas preocupantes notcias.
       --Assim, que j no esto satisfeitos sacrificando somente seus escravizados sditos? --
comentou Rio--. Agora os renegados esto movendo peas mais importantes no tabuleiro?
       --Continuam sendo pees --disse Gideon.
       Lucan olhou ao inteligente vampiro e compreendeu a que se referia.
       --As peas no trocaram. Mas as regras sim o tm feito. Este  um tipo de guerra nova,
j no se trata do pequeno fogo cruzado com que nos enfrentamos no passado. Algum de
entre as filas dos renegados est gerando um grau novo de ordem nessa anarquia. Estamos
sendo assediados.
       Ele voltou a dirigir a ateno a Conlan, a primeira vtima do que comeava a temer que
ia ser uma nova era escura. Sentia, em seus velhos ossos, a violncia de um tempo muito
longnquo que voltava a aparecer para repetir-se. A guerra se estava gerando de novo, e se os


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Renegados se estavam movendo para organizar-se, para iniciar uma ofensiva, ento a nao
inteira dos vampiros se encontraria no fronte. E os humanos tambm.
        --Podemos discutir isto mais longamente, mas no agora. Este momento  do Conlan.
Vamos honrar lhe.
        --Eu j me despedi --murmurou Tegan--. Conlan sabe que eu lhe respeitei em vida,
igual a na morte. Nada vai trocar para nesse aspecto.
        Uma densa ansiedade alagou a habitao, dado que todo mundo esperava a que Lucan
reagisse ante a abrupta partida do Tegan. Mas Lucan no pensava lhe dar a satisfao ao
vampiro de pensar que lhe tinha zangado, embora sim que o tinha feito. Esperou a que o som
das botas do Tegan se apagasse ao fundo do corredor e dirigiu um assentimento de cabea aos
outros para que continuassem com o ritual.

        Um por um, Lucan e cada um dos quatro guerreiros ficaram de joelhos no cho para
oferecer seus respeitos. Recitaram uma nica orao e logo se levantaram juntos para retirar-se
e esperar a cerimnia final com a que deixariam descansar a seu companheiro defunto.
        --Eu serei quem o leve --anunciou Lucan aos vampiros, quando estes partiam.
        Lucan percebeu o intercmbio de olhares que se deu entre eles e soube o que
significavam. Aos Antigos da estirpe dos vampiros --e especialmente aos da primeira
gerao-- nunca lhes pedia que translevassem o peso dos mortos. Essa obrigao recaa na
ltima generao da raa, que estava mais afastada dos Antigos e que, por tanto, podiam
suportar melhor os perigosos raios do sol quando comeava a amanhecer durante o tempo
necessrio para oferecer o descanso adequado ao corpo de um vampiro.
     Para um membro da primeira gerao como Luzem, o rito funerario representava uma
tortuosa exposio ao sol de oito minutos.
        Lucan observou o corpo sem vida que se encontrava em cima da maca, sem poder
apartar a vista do dano que lhe tinham causado.
        Um dano que lhe tinham infligido em lugar dele, pensou Lucan, que se sentiu doente
ao pensar que poderia ter sido ele quem patrulhasse com o Niko, e no Conlan. Se no tivesse
enviado ao escocs em seu lugar no ltimo minuto, Lucan se encontraria agora tendido nessa
fria maca com as pernas, o rosto e o torso queimado pelo fogo e o ventre aberto pela
metralhadora.
        A necessidade que Lucan tinha de ver Gabrielle essa noite havia preponderado por
cima de seu dever com a raa, e agora Conlan --seu triste companheiro-- tinha pago o preo.

       --Vou levar lhe acima --repetiu em tom severo. Olhou a Gideon com o cenho franzido
e uma expresso funesta.
     _ Me chame quando os preparativos estejam preparados.
       O vampiro inclinou a cabea em um gesto que mostrava um respeito a Lucan maior de
que era devido nesse momento.
       -- obvio. No demoraremos muito.
        Lucan passou as duas horas seguintes em suas habitaes, sozinho, ajoelhado no
centro do espao, com a cabea encurvada, rezando e reflexionando com um porte sombrio no
rosto. Gideon se apresentou na porta e, com um assentimento de cabea, indicou-lhe que tinha
chegado o momento de tirar Conlan do complexo e de oferec-lo aos mortos.
        --Est grvida --disse Gideon com expresso sombria assim que Lucan se levantou.

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       -- Danika est de trs meses. Savannah acaba de me dizer. Conlan estava tentando
reunir o valor suficiente para te dizer que ia abandonar a Ordem quando o menino tivesse
nascido. Ele e Danika planejavam retirar-se a um dos Refgios Escuros para formar sua
famlia.
       --Merda! --exclamou Lucan em um vaio. Sentiu-se ainda pior ao conhecer o futuro
feliz que lhes tinha sido roubado a Conlan e a Danika, e ao pensar nesse filho que alguma vez
conheceria o homem de valor e de honra que tinha sido seu pai.
       -- Est tudo preparado para o ritual?
       Gideon assentiu com a cabea.
       --Ento, vamos fazer- o.
      Lucan caminhou encabeando a cerimnia. Seus ps e sua cabea estavam nus, igual ao
estava seu corpo debaixo da larga tnica negra. Gideon tambm levava uma tnica, mas a
levava com o cinturo das cerimnias da Ordem, igual a outros vampiros que lhes esperavam
na cmara colocados a um lado, como faziam em todos os rituais da raa, desde matrimnios e
nascimentos at funerais como este. As trs fmeas do complexo se encontravam presente
tambm: Savannah e Eva vestiam as tnicas cerimoniosas com capuz, e Danika ia vestida da
mesma forma mas levava a profunda cor vermelha escarlate que indicava o sagrado vnculo
de sangue que lhe unia com o defunto.

        frente de todos eles, o corpo do Conlan estava convexo sobre um altar decorado e
agasalhado em um grosso tecido de seda.
       --Comecemos --anunciou Gideon, simplesmente.
       Lucan sentiu um grande pesar no corao enquanto escutava o servios e os smbolos
de infinitude de todos os rituais.
       Oito medidas de azeite perfumado para lubrificar a pele.
     Oito capas de seda branca para envolver o corpo dos mortos.
       Oito minutos de ateno silenciosa  alvorada por parte de um membro da raa, antes
de que o guerreiro morto fosse exposto aos raios do sol para que estes lhe incinerassem.
Deixado ali sozinho, seu corpo e sua alma se pulverizariam Aos quatro ventos em forma de
cinzas e formaria parte dos elementos para sempre.
       A voz do Gideon se apagou com suavidade e Danika deu um passo  frente.
       Olhou aos congregados e, levantando a cabea, falou em voz grave mas orgulhosa.
       --Este macho era meu, e eu era dele. Seu sangue me sustentava. Sua fora me protegia.
Seu amor me enchia em todos os sentidos. Ele era meu amado, meu nico amado, e ele
permanecer em meu corao durante toda a eternidade.
       --Honra-lhe bem --lhe responderam ao unssono em voz baixa Lucan e outros.
       Ento Danika se deu a volta para ficar de cara a Gideon, com as mos estendidas e as
palmas dirigidas para cima. O desencapou uma magra adaga de ouro e a depositou sobre
suas mos. Danika baixou a cabea coberta com o capuz em um gesto de aceitao e logo se
deu a volta para colocar-se diante do corpo envolto do Conlan. Murmurou umas palavras em
voz baixa dirigidas somente a eles dois. Levou-se ambas as mos at o rosto. Lucan sabia que
agora a viva da raa se realizava um corte no lbio inferior com o fio da adaga para que
sangrasse e para dar um ltimo beijo a Conlan por cima da mortalha.
       Danika se inclinou sobre seu amante e ficou assim durante um comprido momento.
Todo seu corpo tremia por causa da potncia da dor que sentia. Logo se separou dele,

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soluando, com a mo sobre a boca. O beijo escarlate brilhava ferozmente,  altura de seus
lbios, em meio da brancura que cobria a Conlan. Savannah e Eva a receberam e a abraaram,
apartando-a do altar para que Lucan pudesse continuar com a tarefa que ainda ficava por
realizar.
      Aproximou-se de Gideon,  frente dos congregados, e se comprometeu a ver Conlan
partir com toda a honra que lhe era devido, igual que fazia o resto de membros da raa que
caminhavam pelo mesmo caminho que Lucan aguardava nesse momento.
        Gideon se apartou a um lado para permitir que Lucan se aproximasse do corpo. Lucan
tomou ao enorme guerreiro entre os braos e se voltou para encarar aos outros, tal e como se
requeria.
        --Honra-lhe bem --murmurou em voz baixa um coro de vozes.
        Lucan avanou com solenidade e com lentido pela cmara cerimoniosa at a escada
que conduzia acima e ao exterior do recinto. Cada um dos lances da escada, cada um das
centenas de degraus que subiu com o peso de seu irmo cansado, infligiu-lhe uma dor que ele
aceitou sem nenhuma queixa.
        Essa era a parte mais fcil da tarefa, depois de tudo.
        Se tinha que desfalecer, faria-o ao cabo de uns quantos minutos, ao outro lado da porta
exterior que se levantava diante dele a uns quantos passos.
        Lucan abriu com um empurro do ombro o painel de ao e inalou o ar fresco da manh
enquanto se dirigia at o lugar onde ia deixar o corpo de seu companheiro. Ficou de joelhos
em cima da grama e baixou os braos lentamente para depositar o corpo do Conlan em terra
firme diante dele. Sussurrou as oraes do rito funerrio, umas palavras que somente tinha
ouvido umas quantas vezes durante os sculos que tinham acontecido mas que sabia de cor.

       Enquanto as pronunciava, o cu comeou a iluminar-se com a chegada do amanhecer.
       Suportou essa luz com um silncio reverente e concentrou todos seus pensamentos no
Conlan e na honra que tinha sido caracterstica de sua larga vida. O sol continuava
levantando-se no horizonte, e ainda no tinha chegado na metade do ritual. Lucan baixou a
cabea e absorveu a dor ao igual que tivesse feito Conlan por qualquer membro da raa que
tivesse lutado a seu lado. Um calor lacerante banhou a Lucan enquanto o amanhecer se
levantava, cada vez com mais fora.
       Tinha os ouvidos cheios com as antigas palavras das velhas oraes e, ao cabo de pouco
tempo, tambm com o suave vaio e rangido de sua prpria carne ao queimar-se.



     Captulo treze



     A polcia e os agentes do transporte ainda no esto seguros do que provocou a
exploso da passada noite. De todas formas, depois da conversao mantida com um
representante da ferrovia faz uns momentos, assegurou-nos que o incidente se produziu de
forma isolada em uma das velhas vias mortas e que no teve feridos. Continuem escutando o
canal cinco para conhecer mais notcias sobre esta historia...
       O poeirento e velho modelo de televisor que se encontrava montado sobre uma
prateleira de parede se apagou repentinamente, silenciado abruptamente enquanto o forte

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rugido cheio de irritao do vampiro sacudia a sala. detrs dele, ao outro lado da sombria e
destroada habitao que uma vez fora a cafeteria, no poro do psiquitrico, dois dos tenentes
renegados permaneciam em p, inquietos e grunhindo, enquanto esperavam suas seguintes
ordens.
        Esse par tinha pouca pacincia; os renegados, por sua natureza aditiva, tinham uma
dbil capacidade de ateno dado que tinham abandonado o intelecto a favor de satisfazer os
caprichos mais imediatos de sua sede de sangue. Eram meninos grandes e necessitavam
castigos regulares e premios escassos para que continuassem sendo obedientes. E para que re-
cordassem a quem se encontravam servindo nesse momento.
        --No teve feridos --se burlou um dos renegados.
        --Possivelmente no humanos --acrescentou o outro--, mas a raa se levou um bom
golpe. Ouvi dizer que no ficou grande coisa do morto para que o sol se encarregasse dele.
        Mais risadas do primeiro dos idiotas, s que seguiu uma exploso de flego e sangue ao
imitar a detonao de quo explosivos tinham sido colocados no tnel pelo renegado a quem
tinham atribudo para essa tarefa.
        -- uma pena que o outro guerreiro que estava com ele se pudesse marchar por seu
prprio p. --Os renegados ficaram em silencio no momemoro em que seu lder se deu a
volta, finalmente, para encarar-se com eles.
       -- A prxima vez lhes porei a vocs dois nessa tarefa, dado que o fracasso lhes parece
to divertido.

        Eles franziram o cenho e grunhiram, como bestas que eram, com uma expresso
selvagem nas pupilas rasgadas e afundadas no mar amarelo e dourado de sua ris impvidas.
Baixaram a vista quando ele comeou a caminar em direo a eles com passos lentos e
medidos. A ira que sentia estava s parcialmente aplacada pelo fato de que a raa, pelo menos,
tinha sofrido uma perda importante.
        Esse guerreiro que tinha caido por causa da bomba no tinha sido o alvo real da misso
da passada noite; Apesar disso, a morte de qualquer membro da Ordem era uma boa notcia
para sua causa. J haveria tempo de eliminar ao que chamavam Lucan. Possivelmente o
fizesse ele mesmo, rosto a rosto, vampiro contra vampiro, sem a vantagem das armas.
        Sim, pensou, resultaria mais que um prazer acabar com esse em concreto.
        Podia-se chamar justia potica.
        --Me mostrem o que me trouxestes --ordenou aos renegados que se encontravam
frente a ele.
        Ambos saram ao mesmo tempo. Empurraram uma porta para entrar os vultos que
tinham deixado no corredor de fora. Voltaram ao cabo de um instante arrastando atrs deles a
uns quantos humanos entorpecidos e quase sem sangue. Esses homens e mulheres, seis em
total, estavam atados pelos pulso e ligeiramente sujeitos pelos tornozelos, embora nenhum
deles parecia o bastante forte para nem sequer pensar em tentar fugir.
        Os olhos, em estado catatnico, lhes cravavam em um nada. Os lbios, inertes,
incapazes de pronunciar nem de emitir nenhum som, estavam emtreabertos em meio de seus
rostos plidos. Em suas gargantas se viam os sinais das dentadas que seus captores lhes
tinham feito para subjug-los.
        --Para voc, senhor. Uns serventes novos para a causa.


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       Fizeram entrar os seis seres humanos como se fossem gado, dado que isso era o que
eram: ferramentas de carne e osso cujo destino ia trabalhar, ou morrer, o que fosse mais til
segundo seu critrio.
       Ele jogou uma olhada a caa dessa noite sem mostrar grande interesse, calculando
rapidamente o potencial que esses dois homens e quatro mulheres tinham para resultar de
utilidade. Sentiu-se impaciente enquanto se aproximava a eles e observava que algumas de
quo feridas tinham no pescoo ainda supuravam uns lentos fios de sangue fresco.
       Estava faminto, decidiu enquanto cravava seu olhar calculador em uma pequena fmea
morena de lbios cheios e peitos cheios e amadurecidos que empurravam uma inspida bata
verde de hospital que parecia um saco e que lhe sentava muito mal. A cabea lhe caa para
frente, como se pesasse muito para mant-la erguida apesar de que era evidente que estava
lutando contra o torpor que j tinha vencido aos outros. As mordidas que tinha eram
incontveis e se perdiam para o crnio, e apesar disso ela lutava contra a catatonia, piscando
com expresso sonolenta em um esforo por manter-se consciente.
       Tinha que reconhecer que seu valor era admirvel.
       --K. Delaney, R.N --disse para si, lendo a etiqueta de plstico que lhe pendurava por
cima do redondo peito esquerdo.
       Tomou o queixo dela entre o dedo polegar e o ndice e lhe fez levantar a cabea para lhe
observar o rosto. Era bonita, jovem e sua pele, cheia de sardas, tinha um aroma doce. A boca
lhe encheu de saliva, de glotonera, e os olhos lhe esgotaram, ocultos depois dos culos
escuros.
       --Esta fica. Levem o resto abaixo, as jaulas.
       Ao princpio, Lucan pensou que a dolorosa vibrao que sentia formava parte da
agonia pela que tinha passado durante as ltimas horas. Sentia todo o corpo abrasado,
esfolado, sem vida. Em algum momento a cabea tinha deixado de martelar e agora lhe
acossava com um comprido zumbido doloroso.

       Encontrava-se em suas habitaes privadas do complexo, em sua cama; isso sabia.
Recordava haver-se arrastado at ali com suas ltimas foras, depois de ter estado ao lado do
corpo do Conlan os oito minutos que se requeriam.
       Ficou-se inclusive um pouco mais de oito minutos, havia aguentado uns agudos
minutos mais at que os raios do amanhecer houvesem aceso a mortalha do guerreiro morto e
a tinham feito explodir em umas incrveis chama e luzes. S ento ficou ele ao coberto dos
muros subterrneos do recinto.
       Esse tempo extra de exposio tinha significado sua desculpa pessoal a Conlan. A dor
que estava suportando nesses momentos era para que no esquecesse nunca o que de verdade
importava: seu dever para a raa e para a Ordem de honorveis machos que tinham jurado
igual a ele realizar esse servio. No cabia nada mais.
     A outra noite tinha permitido saltar-se esse juramento, e agora um de seus melhores
guerreiros se foi.
       Outro agudo timbre explorou em algum lugar da habitao e tomou por surpresa, em
algum lugar muito perto de onde se encontrava descansando. Esse som de algo que se
rompia, que se rasgava, lhe cravou na cabea.
       Com uma maldio que quase resultou inaudvel e que quase no pde arrancar da
dolorida garganta, Lucan abriu os olhos com dificuldade e observou a escurido de seu

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dormitrio privado. Viu que uma pequena luz piscava do interior do bolso de sua jaqueta de
pele e nesse momento o telefone celular voltou a soar.
       Cambaleando-se, sem o habitual controle e coordenao de atleta que tinha nas pernas,
deixou-se cair na cama e se dirigiu com estupidez at o molesto aparelho. Somente teve que
realizar trs intentos para conseguir dar com a tecla para silenciar o timbre. Furioso pelo es-
foro que esses pequenos movimentos lhe estavam custando, Lucan levantou a tela iluminada
ante seus olhos e se esforou por ler o nmero da tela.
        Era um nmero de Boston... O telefone celular de Gabrielle.

        Fantstico.
       Justo o que necessitava.
        Enquanto subia o corpo do Conlan por essas centenas de degraus at o exterior, tinha
decidido que, fora o que fosse o que estava fazendo com Gabrielle Maxwell, isso tinha que
terminar. De todas formas, no estava de todo seguro do que era o que tinha estado fazendo
com ela, aparte de aproveitar toda oportunidade que lhe ps diante de p-la de costas e
debaixo dele.
       Sim, tinha sido brilhante nessa ttica.
       Era no resto de seus objetivos que estava comeando a falhar, sempre que Gabrielle
entrava em cena.
       Tinha-o planejado tudo mentalmente, tinha pensado como ia enfrentar a situao.
Faria que Gideon fosse ao apartamento dela essa noite e que lhe contasse, de forma lgica e
compreensvel, tudo a respeito da raa e sobre o destino dela, de onde procedia verdadeira-
mente, dentro da nao dos vampiros. Gideon tinha muita experiencia no trato com mulheres
e era um diplomtico consumado. Ele se mostraria amvel, e seguro que sabia dirigir as
palavras melhor que Lucan. Ele conseguiria fazer que tudo cobrasse sentido para ela,
inclusive a necessidade de que ela procurasse acolhida --e, depois, a um macho adequado--
em um dos Refgios Escuros.
       Quanto a si mesmo, faria todo o necessrio para que seu corpo sara-se. Depois de umas
quantas horas mais de descanso e de um alimento que necessitava muitssimo --assim que
fosse capaz de ficar em p o tempo suficiente para caar-- Voltaria mais forte e seria um
guerreiro melhor.
     Ia esquecer para sempre que tinha conhecido a Gabrielle Maxwell. Por seu bem, e pelo
bem conjunto da raa.
     Exceto...

       Exceto a noite passada lhe havia dito que podia lhe localizar em seu nmero de celular
em qualquer momento que lhe necessitasse. Havia-lhe prometido que sempre responderia
sua chamada.
       E se resultava que ela estava tentando contatar com ele porque os renegados, ou os
mortos andantes de seus serventes, estavam rodeando a seu redor, pensou.
       Escancarado no cho em posio supina, apertou o boto responder a chamada.
       --Ol.
       Jesus, tinha um tom de voz de merda, como se tivesse os pulmes feitos mingau e seu
flego expulsasse cinzas. Tossiu e sentiu como se a cabea lhe estalasse.


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       No outro lado da linha houve um silncio de uns segundos e logo, a voz de Gabrielle,
dbia e ansiosa:
       --Lucan?  voc?
       --Sim. --esforou-se em emitir o som apesar da secura que tinha na garganta--. O que
acontece? Est bem?
       --Sim, estou bem. Espero que no te incomode que tenha chamado. S... Bom, depois
de que te partisse dessa maneira a noite passada , estive um pouco preocupada. Suponho que
somente precisava saber que no te tinha ocorrido nada mau.
       Ele no tinha energia suficiente para falar, assim que ficou convexo, fechou os olhos e,
simplesmente, escutou o som de sua voz. Seu tom de voz, claro e sonoro, parecia-lhe um
blsamo. A preocupao que ela demostrava era como um elixir, como algo que ele nunca
tinha provado antes: saber que algum se preocupava com ele. Esse afeto lhe resultava pouco
familiar e quente.
       Tranqilizava-lhe, apesar de sua raivosa necessidade de neg-lo.

        --O que...? --disse com voz rouca, mas o tentou de novo -- Que horas so?
        --Ainda no  meio-dia. Queria te chamar assim que me levantei esta manh, mas
como normalmente trabalha durante o turno de noite, esperei tudo o que pude. Parece
cansado. Despertei-te?
        --No.
        Tentou rodar sobre um flanco do corpo. Sentia-se mais forte depois desses poucos
minutos ao telefone falando com ela. Alm disso, necessitava tirar o traseiro da cama e voltar
para a rua essa mesma noite. O assassinato do Conlan tinha que ser vingado, e tinha inteno
de ser ele quem fizesse justia.
      Quanto mais brutal fosse essa justia, melhor.
      --Bom --estava dizendo ela nesses momentos--, ento tudo est bem?
      --Sim, bem.
          --Bem. Alivia-me sab-lo, verdade. --Sua voz adquiriu um tom mais ligero e um
tanto provocador.
       -- Te escapou de meu apartamento to depressa a noite passada que acreditei que teria
deixado marca no cho.
        --Surgiu um imprevisto e tive que partir.
        --Certo --disse ela depois de um silncio que indicou que ele no tinha nenhuma
inteno de entrar em detalhes--. Um assunto secreto de detetives?
        --Pode-se dizer que sim.
        Esforou-se por ficar em p e franziu o cenho, tanto pela dor que lhe atravessou todo o
corpo como pelo fato de no poder contar a Gabrielle o porqu tinha tido que sair to
rapidamente de sua cama. A guerra que esperava a ele e ao resto dos seus era uma crua
realidade que logo ela tambm teria em seu prato. De fato, seria essa mesma noite, assim que
Gideon fosse visit-la.

        --Escuta, esta noite tenho uma aula de ioga com um amigo meu que termina por volta
das nove. Se no estiver de servio, por que no passa por aqui? Posso preparar algo para
jantar. Toma-o como uma compensao pelos manicotti que no pde comer o outro dia.
Possivelmente esta vez consigamos jantar.

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        O divertido flerte de Gabrielle lhe arrancou um sorriso que lhe fez sentir dor em todos
os msculos do rosto. A indireta a respeito da paixo que tinham compartilhado despertava
algo em seu interior tambm, e a ereo que notou em meio de todas as demais sensaes
fsicas de agonia no foi to dolorosa como tivesse desejado.
        --No posso ir verte, Gabrielle. Tenho... que fazer umas coisas.
        A principal de todas elas era meter-se algo de sangue no corpo e isso significava que
tinha que manter-se afastado dela tanto como fosse possvel. No era boa coisa que lhe
tentasse com a promessa de seu corpo; no estado em que se encontrava nesse momento, ele
era um perigo para qualquer ser humano que fosse o suficientemente tolo como para
aproximar-se dele.
        --No sabe o que dizem a respeito de trabalhar muito e no jogar nada? --perguntou-
lhe, em um ronrono de convite.
        --Sou uma espcie de ave noturna, assim se terminar logo de trabalhar e decide que
quer um pouco de companhia...
        --Sinto muito. Possivelmente em outro momento --lhe disse ele, sabendo
perfeitamente que no haveria nenhum outro momento. Nesses instantes se encontrava em p
e comeava a dar uns passos torpes e pouco fludos em direo a porta. Gideon devia estar no
laboratrio, e o laboratrio se encontrava ao final do corredor. Era infernal tentar fazer esse
percurso em suas condies, mas Lucan estava completamente decidido faz-lo.
        --Vou mandar a algum a ver-te esta noite.  um... meu scio.
      --Para que?

       Tinha que expulsar o flego com dificuldade e pela boca, mas estava caminhando.
Alargou a mo e apanhou a maaneta da porta.
       --As coisas se puseram muito perigosas --disse ele de forma precipitada e com
esforo--. Depois do que te aconteceu ontem no centro da cidade...
       --Deus, no podemos esquec-lo? Estou segura de que exagerei.
       --No --a interrompeu ele--. Me sentirei melhor se souber que no est sozinha... que
h algum que te protege.
     --Lucan, de verdade, no  necessrio. Sou uma garota adulta. Estou bem.
       Ele no fez caso de seus protestos.
       --Chama-se Gideon. Te agradar. Os dois podero... falar. Ele lhe ajudar, Gabrielle.
Melhor do que o posso fazer eu.
       --Me ajudar? O que quer dizer? Passou algo com respeito ao caso? E quem  esse
Gideon?  um detetive, tambm?
       --Ele lhe explicar isso tudo. --Lucan saiu ao corredor, onde uma tnue luz iluminava
as polidos ladrilhos e os brilhantes acabados de cromo e cristal. Do outro lado de uma das
portas de um apartamento privado se ouvia ressonar com fora a msica metal de Dante.
Desde um dos muitos corredores que foram dar a esse corredor principal chegava certo aroma
de azeite e a disparos de arma recentes, das instalaes de treinamento.
       Lucan se cambaleou sobre os ps, inseguro em meio dessa mescla de estmulos
sensoriais.
       --Estar a salvo, Gabrielle, juro-lhe isso. Agora tenho que te deixar.

       --Lucan, espera um momento! No desligue. O que  o que no me est dizendo?

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       --Vais estar bem, prometo-lhe isso. Adeus, Gabrielle.



     Captulo quatorze

      A chamada que tinha feito a Lucan, e seu estranho comportamento ao outro extremo do
telefone, tinham-na estado preocupando todo o dia. Todavia o estava enquanto saa com
Megan da classe de ioga essa tarde.
        --Parecia to estranho ao telefone. No sei se estava em um estado de extrema dor
fsica ou se estava tentando encontrar a maneira de me dizer que no queria voltar para ver-
me.
        Megan suspirou e fez um gesto de negao com a mo.
        --Provavelmente est tirando muitas concluses. Se de verdade quer sab-lo, por que
no vai a delegacia de polcia e sacas a cabea para ver-lhe?
        --Acredito que no. Quero dizer, o que lhe diria?
        --Diria-lhe: Ol, bonito. Parecia to desanimado esta tarde que pensei que iria bem
que passasse te recolher, assim aqui estou. Possivelmente possa lhe levar um caf e um po-
doce no caso de.
        --No sei...
        --Gabby, voc mesma h dito que esse menino sempre foi doce e cuidadoso quando
esteve contigo. Pelo que me contaste a respeito da conversao que tivestes hoje por telefone,
ele parece muito preocupado por ti. Tanto que vai mandar a um de seus colegas para que te
vigie enquanto ele est de servio e no pode estar ali em pessoa.
        --Ele fez insistncia no perigoso que se estava pondo acima... e o que acha que significa
acima ? No parece jargo de polcia, verdade? O que , algum tipo de terminologia
militar?
      --Negou com a cabea--. No sei. H muitas coisas de Lucan Thorne que no sei.

        --Pois pregunta. Venha, Gabrielle. Pelo menos lhe d ao menino o benefcio da dvida.
        Gabrielle observou as calas de ioga negras e a jaqueta com cremalheira que levava.
Logo se levou a mo ao cabelo para comprovar at que ponto lhe tinha desfeito a rabo-de-
cavalo durante esses quarenta e cinco minutos de exerccios.
        --Teria que ir primeiro a casa, me dar pelo menos uma ducha, trocar de roupa.
        --N! Quero dizer, de verdade, mas o que te passa? --Megan abriu muito os olhos, que
lhe brilhavam, divertida.
     -- Tem medo de ir, verdade? OH, quer ir, mas j tem certamente um milho de
desculpas passando para explicar por que no pode faz-lo. Admito-o, este menino voc gosta
de verdade.
        Gabrielle no podia neg-lo, no teria podido inclusive embora o imediato sorriso que
lhe desenhou no rosto no a tivesse delatado. Gabrielle lhe devolveu o olhar a sua amiga e se
encolheu de ombros.
        --Sim,  verdade. Eu gosto. Muito.
        --Ento, o que est esperando? A delegacia de polcia est a trs quadras, e tem um
aspecto fantstico, como sempre. Alm disso, no  que ele no te tenha visto suar um pouco
antes de agora.  possvel que prefira ver-te assim.

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        Gabrielle riu com Megan, mas sentia retorcer o estmago. A verdade era que sim
desejava ver Lucan, de fato no queria esperar nem um minuto mais, mas e se ele tinha estado
tentando deix-la enquanto falavam por telefone essa tarde? Que ridcula pareceria ento, se
entrava na delegacia de polcia sentindo-se como se fosse sua noiva. Sentiria-se como uma
idiota.
        No mais do que se sentiria se recebia a notcia de segunda mo, pela boca de seu
amigo Gideon, a quem ele teria enviado nessa compassiva misso.

       --De acordo. Vou faz - lo.

        --Bom pra ti! --Megan se ajustou a bolsa do colchonete de ioga no ombro e sorriu
ampliamente.
      -- Esta noite verei Ray em meu apartamemoro depois de que ele termine seu turno, mas
me chame  primeira hora da manh e me conte como foi. De acordo?
        --De acordo. Uma saudao para o Ray
        Enquanto Megan se afastava apressadamente para pegar o trem das nove e quinze,
Gabrielle se dirigiu para a delegacia de polcia . Durante o caminho recordou o conselho de
Megan e se deteve um momento para comprar um po-doce e um caf: puro e carregado,
posto que no acreditava que Lucan fosse o tipo de homem que toma com leite, com acar
nem descafeinado.
        Com ambas as coisas nas mos, chegou a porta da delegacia de polcia, respirou com
fora para reunir coragem, atravessou a porta de entrada e entrou com atitude desenvolvida.
        As queimaduras piores tinham comeado a curar-se ao cair da noite. A pele nova lhe
cresceu, s, por debaixo das bolhas da pele velha e as feridas comearam a fechar-se. Embora
ainda tinha os olhos muito sensveis inclusive a luz artificial, no sentia dor na fria escurido
da rua. O qual era bom, porque precisava estar por a para saciar a sede de seu corpo
convalescente.
        Dante lhe olhou. Os dois saam ao exterior do recinto e se preparavam para
compartilhar essa noite de reconhecimento e de vingana contra os renegados.
        --No tem muito bom aspecto, cara. Se quiser, sairei a caar para ti e te trarei algo
jovem e forte. Necessita-o, isso est claro. E ningum tem por que saber que no te procuraste
o sustento voc mesmo.

        Lucan olhou de soslaio e com expresso sria ao macho e lhe mostrou os dentes em um
sorriso de brincadeira.
        --Que lhe fodam.
        Dante-se riu
      .
      .
        --Tinha a suspeita de que me diria isso. Quer que leve as armas por ti, pelo menos?
        O gesto de negar devagar com a cabea lhe provocou uma navalhada de dor na cabea.
        --Estou bem. Estarei melhor quando me tiver alimentado.
        --Sem dvida. --O vampiro ficou em silncio durante um comprido momento e lhe
olhou, simplesmente. Sabe o que  que foi extraordinariamente impressionante do que fez
hoje pelo Conlan? Eu no tivesse podido nem imagin-lo em toda sua vida, mas, porra, eu

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gostaria que tivesse sabido que seria voc quem subiria esses ltimos degraus com ele. Foi
uma grande maneira de lhe honrar, cara. De verdade.
       Lucan recebeu a adulao sem deixar que lhe impregnasse. Ele tinha tido seus prprios
motivos para levar a cabo esse rito funerrio, e ganhar a admirao do resto dos guerreiros
no formava parte deles.
       --D-me uma hora para caar algo e logo nos encontraremos aqui outra vez para
provocar algumas baixas entre as filas de nossos inimigos, esta noite. Pela memria do
Conlan.
       Dante assentiu com a cabea e chocou os ndulos contra o punho fechado de Lucan.
       --De acordo.
       Lucan esperou enquanto Dante desaparecia na escurido. Suas passadas largas e fortes
delatavam a vontade com que esperava as batalhas que ia encontrar nas ruas. Tirou as armas
gmeas das capas e elevou as Malebranches curvadas por cima de sua cabea. O brilho dessas
folhas de ao gentil e de titnio, assassinas de renegados, cintilou a dbil luz da lua no cu. O
vampiro emitiu um grito de guerra calado e desapareceu nas sombras da noite.

         Lucan lhe seguiu no muito depois, seguindo um caminho no muito distinto que
entrava nas escuras artrias da cidade. Seu gesto furtivo era menos fanfarro, mas mais
decidido, menos arrogante e ansioso, mais determinado e frio. Sua sede era pior do que nunca
tinha sido, e o rugido que elevou at a abbada de estrelas no cu estava cheio de uma ira
feroz.
         --Pode soletrar o sobrenome outra vez, por favor?
         --T-h-ou-r-n-e --repetiu Gabrielle a recepcionista de delegacia de polcia, que no tinha
conseguido nenhum resultado no diretrio--. Detetive Lucan Thorne. No sei em que
departamento trabalha. Veio a minha casa depois de que eu estivesse aqui para denunciar
uma agresso que presenciei a semana passada... um assassinato.
         --Ah. Ento, voc quer falar com os de Homicdios? --As unhas largas e pintadas da
jovem repicavam em cima do teclado com rapidez--. Certo... No. Sinto muito. Tampouco
aparece nesse departamento.
         --Isso no  possvel. Pode voltar a comprov-lo, por favor?  que este sistema no lhe
permite procurar somente um nome?
         --Sim o permite, mas no aparece nenhum detetive que se chame Lucan Thorne. Est
segura de que trabalha neste edifcio?
     --Estou segura, sim. A informao de seu computador no deve estar atualizada...
         --N, um momento! A h uma pessoa que pode ajudar, a interrompeu a recepcionista
enquanto fazia um gesto em direo  porta de entrada da Central.
       --Agente Carrigan! Voc tem um segundo?

       O agente Carrigan, recordou Gabrielle, desolada. O velho poli que lhe tinha feito passar
um momento to desagradvel a semana passada, chamando-a mentirosa e cabea oca sem
querer acreditar a declarao de Gabrielle acerca do assassinato da discoteca. Pelo menos,
agora que Lucan tinha contrastado as fotos de seu celular no laboratrio da polcia, sentia o
consolo de saber que, fosse qual fosse a opinio desse homem, o caso seguia adiante de algum
jeito.


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       Gabrielle teve que reprimir um grunhido de fria ao ver que o homem se tomava um
tempo antes de aproximar-se dela. Quando ele a viu ali em p, a expresso de arrogncia que
parecia to natural nesse rosto carnudo adotou um gesto decididamente depreciativo.
       --OH, Por Deus. Outra vez voc? Justo o que necessito em meu ltimo dia de trabalho.
Retiro-me dentro de umas quantas horas, querida. Esta vez vai ter que contar-lhe a outra
pessoa.
     Gabrielle franziu o cenho.
       --Perdo?
       --Esta jovem est procurando um de nossos detetives                 --disse a recepcionista
enquanto intercambiava um olhar de cumplicidade com Gabrielle, como resposta ao
comportamento displicente do agente. No lhe encontro no diretrio, mas ela acredita que 
um dos nossos.
     Conhece voc ao detetive Thorne?
       --Nunca ouvi falar dele. --O agente Carrigan comeou a afastar-se.
       --Lucan Thorne --disse Gabrielle com deciso enquanto deixava o caf de Lucan e a
bolsa com a massa em cima da mesa de recepo. Automaticamente deu um passo em direo
ao policial e esteve a ponto de sujeita-lo pelo brao ao ver que ele ia deixa-la ali plantada.
      -- O detetive Lucan Thorne, voc deve conhecer. Vocs enviaram ao meu apartamento
no incio desta semana para ver se conseguia alguma informao adicional a minha
declarao. Levou meu telefone celular ao laboratrio para que analisassem...

        Carrigan comeou a rir agora; deteve-se e a olhava enquanto lhe oferecia os detalhes a
respeito da chegada de Lucan a sua casa. Gabrielle no tinha pacincia para dirigir a
agressividade desse agente. E menos agora que o plo da nuca comeava a arrepiar-se o a
causa do repentino pressentimento de que as coisas comeavam a ser estranhas.
        --Est-me dizendo que o detetive Thorne no lhe contou nada disto?
        --Senhorita. Estou-lhe dizendo que no tenho nem remota idia do que est voc
falando. Trabalhei nesta delegacia de polcia durante trinta e cinco anos, e nunca ouvi falar de
nenhum detetive Lucan Thorne, por no falar de que no mandei a sua casa.
        Gabrielle sentiu que lhe formava um n no estmago, frio e apertado, mas se negou a
aceitar o medo que comeava a cobrar forma detrs de toda essa confuso.
        --Isso no  possvel. Ele sabia do assassinato que eu havia presenciado. Sabia que eu
tinha estado aqui, na delegacia de polcia, fazendo uma declarao a respeito disso. Vi sua
placa de identificao quando chegou  casa. Acabo de falar com ele hoje, e me disse que esta
noite trabalhava. Tenho seu nmero de celular...
        --Bom, vou dizer- lhe uma coisa. Se isso for fazer que me deixe em paz , vamos fazer
uma chamada a seu detetive Thorne --disse Carrigan.Isso esclarecer as coisas, verdade?
        --Sim. Vou chamar- lhe agora.
        A Gabrielle tremiam um pouco os dedos enquanto tirava o telefone celular do bolso e
marcava o nmero de Lucan. O telefone chamou, mas ningum respondeu. Gabrielle voltou a
tent-lo e esperou durante a agonia de uma eternidade enquanto o timbre soava e soava e
soava e enquanto a expresso do agente Carrigan se mudava de uma impacincia
questionvel a uma compaixo que ela tinha percebido nos rostros dos trabalhadores sociais
quando era uma menina.


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        --No responde --murmurou ela, apartando o telefone do ouvido. Sentia-se torpe e
confusa, e a expresso atenta no rosto do Carrigan o piorava tudo--. Estou convencida de que
est ocupado com algo. Vou voltar a tent-lo dentro de um minuto.
        --Senhorita Maxwell. Podemos chamar a algum mais? A algum familiar,
possivelmente? A algum que possa nos ajudar a encontrar sentido a tudo o que lhe est
passando?
        --No me est acontecendo nada.
        --Me parece que sim. Acredito que voc est confusa. Sabe? s vezes a gente inventa
coisas para que lhes ajudem a suportar outros problemas.
      Gabrielle se burlou.
        --Eu no estou confundida. Lucan Thorne no  um produto de minha imaginao. 
real. Essas coisas que me aconteceram so reais. O assassinato que presenciei o fim de semana
passado, esses... homens... com seus rostos ensangentados e seus afiados dentes, inclusive
esse menino que me esteve vigiando o outro dia no parque... ele trabalha aqui na Central. O
que  o que tm feito vocs? Enviaram-lhe para que me olha-se?
       --De acordo, senhorita Maxwell. Vamos ver se conseguimos resolver isto juntos. --Era
bvio que o agente Carrigan tinha encontrado finalmente um resto de diplomacia sob a
armadura de seu carter grosseiro. Apesar de tudo, a forma em que pegou pelo brao para
tentar conduzi-la at um dos bancos do vestbulo para que se sentasse mostrava uma grande
condescendncia--. Vamos ver se respirarmos profundamente. Podemos procurar a algum
para que a ajude.
         Deu uma sacudida no brao para soltar-se.
       --Voc acredita que estou louca. Eu sei o que vi... tudo! No me estou inventando isto,
e no necessito ajuda. Somente preciso saber a verdade.

       --Sheryl, querida -- disse Carrigan a recepcionista, que olhava ambos com
apreenso--. Pode me fazer o favor de chamar em um momemoro  Rudy Duncan? Diga que
lhe necessito aqui embaixo.
       --Um mdico? --perguntou Gabrielle, que j havia tornado a colocar o telefone entre a
orelha e o ombro.
       --No --reps Carrigan, devolvendo o olhar a Gabrielle--. No ter que alarmar-se
ainda. Pea que baixe ao vestbulo, tranqilamente, e que converse um momento com a
senhorita Maxwell e comigo.
       --Esquea-o --respondeu Gabrielle, levantando do banco.
       --Olhe, seja o que seja o que lhe esteja passando, h pessoas que podem ajud-la.
       Ela no esperou que terminasse de falar, limitou-se a recompor-se com dignidade, a
caminhar at a mesa de recepo para recuperar a taa e a bolsa, a atir-los ao lixo e dirigir-se
a porta de sada.
       Sentiu o ar da noite fresco nas bochechas, acesas, o qual a tranqilizou de algum jeito.
Mas a cabea ainda lhe estava dando voltas. O corao lhe pulsava com fora por causa da
confuso e de que no podia acreditar o que lhe tinha acontecido.
        que todo mundo ao seu redor se estava voltando louco? Que diabos estava
acontecendo? Lucan lhe tinha mentido a respeito de que era um policial, isso era bastante
evidente. Mas que parte do que lhe tinha contado, que parte do que tinham feito juntos,
formava parte desse engano?

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       E por que?
       Gabrielle se deteve no final dos degraus de cimento que se afastavam da delegacia de
polcia e respirou profundamente vrias vezes. Deixou sair o ar devagar. Logo baixou a vista e
viu que ainda tinha o telefone celular na mo.

      --Merda.

      Tinha que averigu-lo.
      Essa estranha histria em que se colocou tinha que acabar nesse momento.
      O boto de rechamada voltou a marcar o nmero de Lucan. Ela esperou,
      Insegura do que ia dizer lhe.
      O telefone soou seis vezes.
      Sete.
       Oito...



     Captulo quinze



     Lucan tirou o celular do bolso de sua jaqueta de couro enquanto pronunciava uma forte
maldio.
     Gabrielle... outra vez.
      Tinha-lhe chamado antes tambm, mas ele no tinha querido responder a chamada.
Estava perseguindo um traficante de drogas ao que tinha visto vender crack a um adolescente
que passava pela rua, fora de um srdido botequim. Tinha estado conduzindo mentalmente a
sua presa para um beco escuro e estava justo a ponto de lanar-se ao ataque quando a primeira
chamada de Gabrielle tinha divulgado como um alarme de carro desde seu bolso. Tinha posto
o aparelho no modo de silncio, amaldioando-se a si mesmo pelo estpido costume de levar
o maldito traste quando saa a caar.
       A sede e as feridas lhe tinham feito comportar-se descuidadamente. Mas esse repentino
estrondo na rua escura tinha resultado a seu favor ao final.
       Ele tinha as foras debilitadas, e o cauteloso traficante tinha cheirado o perigo no
ambiente, inclusive apesar de que Lucan se manteve escondido entre as sombras enquanto lhe
perseguia. Tinha tirado uma arma a metade do beco e apesar de que raramente as feridas de
bala resultavam fatais para a estirpe de Lucan --a no ser que se tratasse de um tiro na cabea
a queima roupa--, no estava seguro de que seu corpo convalescente pudesse resistir um
impacto como esse nesses momentos.
       Por no mencionar o fato de que isso lhe tiraria de gonzo, e j estava com um humor de
co.
       Assim, quando a segunda chamada do celular fez que o traficante se voltasse
freneticamente para um lado e a outro em busca da origem do rudo que ouvia detrs dele,
Lucan lhe saltou em cima. Derrubou ao tipo rpidamente, e lhe cravou as presas na veia do
pescoo, torcida pelo terror um momento antes de que o homem reunisse a fora suficiente
para arrancar um grito dos pulmes.


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       O sangue lhe alagou a boca, desagradvel pelo sabor a droga e a enfermidade. Lucan a
tragou com dificuldade, uma vez atrs de outra, enquanto agarrava sem piedade a sua
convulsa presa. Ia matar- lhe, e no podia importar menos. Isso apagava a dor de seu corpo
dolorido.
       Lucan se alimentou depressa, bebeu tudo o que pde.
       Mais do que pde.
       Quase lhe tirou todo o sangue ao traficante e ainda se sentia faminto. Mas tivesse sido
abusar muito se alimentava mais essa noite. Era melhor esperar a que o sangue lhe nutrisse e
lhe tranquilizasse em lugar de arriscar-se a ser ansioso e a tomar um caminho rpido para a
sede insaciavel de sangue.
       Lucan olhou com ironia o telefone que soava na palma de sua mo e sabia que quo
nico tinha que fazer era no responder.
       Mas continuou soando, com insistncia, e justo no ltimo instante, respondeu. No
disse nada ao princpio, simplesmente escutou o som do suspiro de Gabrielle ao outro lado.
Notou que tinha a respirao tremente, mas sua voz soou forte, apesar de que era evidente
que estava bastante desgostada.
       --Mentiste-me -- disse, a modo de saudao--. Durante quanto tempo, Lucan?
Quantas mentiras? Tudo foi uma mentira?
       Lucan observou o corpo sem vida de sua presa com expresso satisfeita. Agachou-se e
realizou um rpido registro desse miservel e gordurento tipo. Encontrou um mao de
bilhetes sujeitos por uma borracha, que ia deixar ali para que os abutres guias de ruas o
disputassem. A mercadoria do traficante --crack e herona por valor de um par de bilhetes
grandes-- Iriam parar em um dos esgotos da cidade.

       --Onde est? --perguntou-lhe quase em um latido, sem pensar em outra coisa que no
fosse no depredador que acabava de eliminar.
       -- Onde est Gideon?
       --Nem sequer vais tentar neg-lo? Por que faz isto?
       --Passe-me isso Gabrielle.
       Ela ignorou essa petio.
       --H outra coisa que eu gostaria de saber: como entrou em meu apartamemoro a outra
noite? Eu tinha fechado todos os fechos e tinha posto a correia. O que fez? Abriu-os? Roubou-
me as chaves enquanto eu no olhava e te fez uma cpia?
       --Podemos falar disso mais tarde, quando estiver a salvo no recinto.
       --De que recinto fala? --A repentina gargalhada lhe pegou por surpresa.
       -- E pode abandonar essa pose protetora e benevolente. No  um policial. Quo nico
quero  um pouco de sinceridade.  isso te pedir muito, Lucan? Deus.  esse pelo menos seu
verdadeiro nome? Algo do que me tenha contado se parece, pelo menos remotamente, a
verdade?
       De repente Lucan soube que essa raiva, essa dor, no era o resultado de que Gabrielle
tivesse conhecido pelo Gideon a verdade a respeito da raa e do papel que ela tinha destinado
na mesma. Um papel que no ia incluir a Lucan.
       No, ela no sabia nada disso ainda. Tratava-se de outra coisa. No era medo dos fatos.
Era medo ao desconhecido.
       --Onde est, Gabrielle?

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      --O que te importa?

        --Me... importa --admitiu, embora com relutncia.
        --Porra , no tenho a cabea para isto agora mesmo. Olhe, sei que no est em seu
apartamento, assim que onde est? Gabrielle, tem que me dizer onde est.
        --Estou na delegacia de polcia. Vim para ver-te esta noite e, sabe o que? Ningum
ouviu seu nome aqui.
        --OH, Deus. Perguntaste por mim a?
        -- obvio que o tenho feito. Como tivesse podido me inteirar de que tomava por uma
idiota, se no? --Outra vez o tom de brincadeira e irritao.
        -- Incluso havia te trazido caf e uma massa.
        --Gabrielle, estarei a em uns minutos... menos que isso. No te mova. Fique onde est.
Fique em algum ponto onde haja gente, em algum lugar interior. Vou para te buscar.
     --Esquece-o. Me deixe em paz.
        Essa breve ordem lhe fez levantar-se imediatamente do cho. Ao cabo de um instante
suas botas ressonavam na rua a um ritmo acelerado.
        --No vou ficar por aqui te esperando, Lucan. De fato, sabe o que? No te ocorra te
aproximar de mim.
        --Muito tarde --lhe respondeu.
        J tinha chegado  penltima esquina que lhe separava da rua onde se encontrava a
delegacia de polcia. Avanou por entre a multido de pedestres como um fantasma. Notava
que o sangue que acabava de ingerir lhe penetrava nas clulas, lhe aderia nos msculos e nos
ossos e lhe fortalecia at que se converteu somente em uma rajada fria nas costas dos que
passavam ao seu lado.
        Mas Gabrielle, com sua extraordinria percepo de companheira de raa, viu-lhe em
seguida.

       Lucan ouviu pelo telefone que Gabrielle agentava a respirao. Como em cmera
lenta, ela se apartou o aparelho do ouvido e lhe olhou com os olhos muito abertos e com
incredulidade enquanto ele lhe aproximava rapidamente.
       --Meu Deus --sussurrou, e essas palavras chegaram aos ouvidos de Lucan sozinhas
em um segundo antes de que se plantasse diante dela e alargasse a mo para sujeit-la pelo
brao.
       --Solte-me!
       --Temos que falar, Gabrielle. Mas no aqui. Levarei-te a um lugar...
       -- uma merda! --Deu um puxo, soltou-se da mo dele e se afastou pela calada.
       -- No vou a nenhuma parte contigo.
       --J no est segura aqui fora, Gabrielle. Viu muitas coisas. Agora forma parte disso,
tanto se quiser como se no.
       --Parte do qu?
       --Desta guerra.
       --Guerra --repetiu ela, com um tom de dvida.
       --Exato.  uma guerra. Antes ou depois vais ter que escolher um lado, Gabrielle. --
Pronunciou uma maldio--. No. A merda. Eu vou escolher seu lado agora mesmo.


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        -- uma espcie de piada? Quem  voc, um desses militares inadaptados que vai por
a representando suas fantasias de autoridade. Possivelmente seja pior que isso.
        --Isto no  uma piada. No  um fodido jogo. Estive em muitos combates e presenciei
muitas mortes em minha vida, Gabrielle. Nem sequer pode imaginar o que vi, nem tudo o que
tenho feito. No vou ficar quieto para ver que fica apanhada em um fogo cruzado. --
Ofereceu-lhe uma mo.
      -- Vais vir comigo. Agora.

     Lhe esquivou. Seus olhos escuros revelavam uma mescla de medo e de raiva.
       --Se voltar a me tocar, juro-te que chamo a polcia. J sabe, aos de verdade que esto na
delegacia de polcia. Esses levam placas de verdade. E armas de verdade.
       O humor de Lucan, que j estava quente, comeou a piorar.
       --No me ameace, Gabrielle. E no creia que a polcia te pode ofecer algum tipo de
amparo. E,  obvio, no ante o que te est ameaando. Pelo que sabemos, a metade da
delegacia de polcia poderia estar cheia de servidores.
     Ela meneou a cabea e adotou uma atitude mais tranqila.
       --De acordo. Esta conversao est deixando de ser realmente extranha e comea a ser
profundamente inquietante. Terminei com isto, compreendido? --Falava-lhe devagar e em
voz baixa, como se estivesse tentando tranqilizar a um co raivoso que estivesse ante ela
agachado e a ponto de atacar.
     -- Agora vou, Lucan. Por favor... no me siga.
       Quando ela deu o primeiro passo para afastar-se dele, a pouca capacidade de controle
que ficava a Lucan se quebrou. Cravou-lhe os olhos nos dela com dureza e lhe enviou uma
feroz ordem mental para que deixasse de resistir a ele.
       Me d a mo.
       Agora.
       Por um segundo, as pernas ficaram imveis, paralizadas. Os dedos das mos se
moveram, como intranqilos, a um doslados do corpo. Logo, devagar, seu brao comeou a
levantar-se para ele.
       E, de repente, o controle que ele tinha sobre ela se rompeu.

       Ele sentiu que lhe expulsava de sua mente, desconectava dele. O corredor de sua
vontade era como uma porta de ferro que se fechava entre ambos, uma porta que lhe houvesse
custado muito penetrar embora se encontrasse em condies timas.
       --Que diabos? --exclamou ela em voz baixa, reconhecendo perfeitamente qual era o
truque--. Te ouvi, agora, em minha cabea. Meu Deus. Tem-me feito isto antes, verdade?
       --No me est deixando muitas escolhas, Gabrielle.
       Ele tentou outra vez. E sentiu que lhe empurrava fora, esta vez com maior desespero.
Com mais medo.
       Ela se levou o dorso da mo at a boca, mas no pde afogar de todo o grito quebrado
que lhe saa pela garganta.
       Retrocedeu cambaleando-se pela esquina.
       E logo se deu a volta na escurido da rua para escapar dele.
       --Voc, menino. Agarra a porta em meu lugar, de acordo?


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        O servente demorou um segundo em dar-se conta de que lhe estavam falando a ele, de
to distrado como estava olhando a mulher Maxwell em meio da rua, diante da delegacia de
polcia. Inclusive agora, enquanto sujeitava a porta aberta para que um mensageiro entrasse
com quatro caixas de pizza fumegantes, sua ateno permanecia cravada na mulher enquanto
esta se afastava da esquina e corria rua abaixo.
        Como se tentasse deixar a algum detrs.
        O servente olhou a uma enorme figura vestida de negro que estava em p e que
observava como ela escapava. Esse macho era imenso, facilmente media dois metros de altura,
os ombros, sob a jaqueta de pele, eram largos como os de um defesa. Dele emanava um ar de
ameaa que se percebia do outro lado da rua onde agora se encontrava o servente, em p,
estupefato, sujeitando ainda a porta da delegacia apesar de que as pizzas se encontravam
amontoadas j em cima do balco de recepo.

     Embora ele nunca tinha visto nenhum dos vampiros a quem seu senhor desprezava to
abertamente, o servente soube sem dvida nenhuma que nesse momento estava vendo um
deles.
       Seguro que essa era uma oportunidade de ganhar a apreciao se avisasse a seu senhor
da presena tanto da mulher como do vampiro a quem ela parecia conhecer, alm de temer.
       O servente voltou a entrar na delegacia de polcia. Tinha as mos midas de suor por
causa da excitao ante a glria que lhe esperava. Com a cabea abaixada, seguro de sua
habilidade de mover-se por toda parte e de passar desapercebido, comeou a cruzar o
vestbulo a um passo apressado.
       Nem sequer viu que o menino da pizza se cruzava em seu caminho at que se chocou
com ele, com a cabea. Uma caixa de carto foi chocar-se contra o peito, da qual emanou um
aroma de queijo quente, e a caixa caiu no sujo linleo do cho pulverizando o contedo aos
ps do servente.
       --N, cara. Est pisando em minha seguinte entrega.  que no olha por onde vai?
     Ele no se desculpou, nem se deteve para tirar o gordurento queijo e o pepperoni do
sapato. Introduziu a mo no bolso da cala e foi procurar um lugar tranqilo de onde fazer
sua importante chamada.
       --Espera um segundo, amigo.
       Era o velho e calvo agente, em p no vestbulo, quem gritava agora. Embutido em sua
uniforme durante suas ltimas horas de trabalho, Carrigan tinha estado perdendo o tempo
incomodando a recepcionista do vestbulo.

        O servente no fez caso da voz ensurdecedora do policial que lhe chamava a suas
costas e continuou caminhando, com a cabea agachada, em linha reta em direo a porta da
escada que estava perto do lavabo, justo fora do vestbulo.
        Carrigan soltou um bufido com todas suas foras e ficou boquiabierto, com expresso
de evidente incredulidade ao ver que sua autoridade era completamente ignorada.
        --N, chupatintas! Estou falando contigo. Hei-te dito que volte e que limpe esta
porcaria. E quero dizer que o faa agora, cabea oca!
        --Limpa-o voc mesmo, porco arrogante --disse em voz baixa e quase sem alento.
Logo abriu a porta de metal que dava as escadas e comeou a baixar a passo rpido.


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      Nesse momento e por cima dele, ouviu que a porta se abria com um estrondo ao golpear
o outro lado da parede e que os degraus vibravam como sob o efeito de uma exploso snica.
         --O que  o que acaba de dizer? Que merda acaba de me chamar,idiota?
         --J me ouviste. E agora me deixe em paz, Carrigan. Tenho coisas mais importantes
que fazer.
         O servente tirou o telefone celular para tentar contatar o nico que de verdade lhe
podia dar ordens. Mas antes de que tivesse tempo de apertar o boto de marcao rpida para
ficar em comunicao com seu senhor, o corpulento polcia j se lanou escada abaixo. Uma
mo enorme deu um golpe ao servente na cabea. Os ouvidos apitaram, a vista lhe nublou a
causa do impacto, o celular saiu despedido da mo e caiu ao cho com um som seco, vrios
degraus mais abaixo.
         --Obrigado por me oferecer uma anedota de risada para meu ltimo dia de trabalho
--lhe disse em tom provocador. Passou-se um gordinho dedo pelo pescoo da camisa, muito
apertada, e logo, com gesto despreocupado, levantou uma mo para voltar a colocar a ltima
mecha de cabelo que tinha em seu lugar.
       -- E agora, te leve esse rabo esqueltico escada acima antes de que lhe d uma boa
patada. Ouviste-me?

        Houve um tempo, antes de que conhecesse quem chamava seu Professor, em que um
desafio como esse, e em especial por parte de um fanfarro como Carrigan, no tivesse
passado como nada.
        Mas esse policial suarento e salivoso que agora lhe olhava de acima das escadas lhe
resultava insignificante  luz dos deveres que lhes eram confiados aos escolhidos como ele. O
servente se limitou a piscar umas quantas vezes e logo se deu a volta para recolher o telefone
mvel e continuar a tarefa que tinha entre mos.
       Somente conseguiu baixar dois degraus antes de que Carrigan casse sobre ele outra
vez. Notou que uns dedos fortes lhe sujeitavam pelos ombros e lhe obrigavam a dar a volta.
Os olhos do servente caram soubre uma elegante caneta que Carrigan levava no bolso do
uniforme. Reconheceu o emblema comemorativo dos servios emprestados mas
imediatamente recebeu outro golpe seco no crnio.
       --O que te passa,  que est surdo e mudo? Te aparte de minha vista ou vou a...
       Nesse momento, o policial se engasgou e soltou o ar de repente e o servente recuperou
a conscincia. Viu a si mesmo com a caneta do agente na mo cravando-lhe profundamente
pela segunda vez, com uma investida brutal, na carne do pescoo do Carrigan.
       O servente lhe cravou uma e outra vez a arma improvisada at que o policial se
desabou no cho e ficou ali tendido como um vulto destroado e sem vida.
       Ele abriu a mo e a caneta caiu no atoleiro de sangue que se havia formado nas escadas.
Imediatamente e esquecendo-o tudo, se agachou e voltou a tomar o telefone celular. Tinha
inteno de fazer essa crucial chamada imediatamente, mas no podia deixar de olhar o
desastre que acabava de provocar, um desastre que no ia ser to fcil de limpar como os
restos de pizza no vestbulo.

    Isso tinha sido um engano, e qualquer aprovao que pudesse receber ao informar ao seu
senhor sobre o paradeiro da mulher Maxwell lhe seria retirada quando contasse que se


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comportou de maneira to impulsiva na delegacia de polcia. Matar sem autorizao
invalidava qualquer outra coisa.
        Mas possivelmente houvesse um caminho ainda mais seguro para conseguir o favor de
seu senhor, e esse caminho consistia em capturar e entregar essa mulher a seu senhor em
pessoa.
     Sim --pensou o servente.
      -- Esse era um prmio para impressionar.
        Colocou o telefone celular no bolso e voltou at o corpo de Carrigan para lhe tirar a
arma do arns. Logo passou por cima do corpo e se apressou para uma entrada traseira que
comunicava com o estacionaminto.



     Captulo dezesseis



       Tinha que deix-la partir.
        Havia fodido as coisas tanto que no acreditava que houvesse maneira de fazer entrar
em razo a Gabrielle essa noite. Possivelmente nunca.
        Da esquina de frente a observou enquanto ela percorria o outro lado da rua com
passos largos, dirigindo-se para Deus sabia onde. A via plida e aniquilada, como se
acabassem de lhe dar um golpe no peito.
        Que era exatamente o que lhe tinha acontecido, admitiu ele com tristeza.
        Possivelmente fosse o melhor que ela partisse lhe acreditando um mentiroso e um
luntico perigoso. Essa hiptese tampouco se afastava tanto da realidade, depois de tudo. Mas
a opinio que ela tivesse dele tampouco era o importante, de todas formas. Conseguir pr a
salvo a uma companheira de raa sim o era.
        Podia deix-la voltar para casa, lhe dar uns quantos dias para que se tranquilizasse e
para que comeasse a aceitar que a tinham enganado. Logo podia enviar a Gideon para que
suavizasse as coisas e para que a pusesse sob o amparo da raa, que era onde ela devia estar.
Gabrielle podia escolher uma vida nova em qualquer dos Refgios Escuros que havia ocultos
por todo mundo. Podia viver feliz e segura e encontrar a um macho que fosse um verdadeiro
companheiro para ela.
       Nem sequer teria que voltar a lhe ver nunca mais.
       Sim, pensou ele, esse era o melhor curso que podia tomar a ao a partir desse
momento.
       Mas, sem ter em conta nada disso, deu-se conta de que se estava afastando da esquina
e que caminhava pela rua seguindo a Gabrielle, incapaz de permitir que ela se afastasse agora
inclusive apesar de que isso era o que ela mais necessitava.

       Atravessou uns sulcos com pouco trfico noturno e um chiado de pneumticos lhe
chamou a ateno. Um velho e oxidado carro apareceu desde um dos becos prximos a
delegacia de polcia a toda velocidade em meio da rua. O motor rugiu, acelerado, e os
pneumticos chiaram no asfalto enquanto o carro se dirigia como uma besta para sua frente
que se encontrava ao final da rua.
     Gabrielle.

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     Maldito desgraado.
         Lucan se precipitou em uma amalucada carreira. Seus ps comiam o pavimento,
movendo-se com toda a velocidade que podia lhes dar.
        O carro se deteve na esquina, a uns metros diante de Gabrielle, lhe fechando o passo.
Ela se deteve em seco. Do guich aberto do carro lhe dirigiram uma ordem em voz baixa. Ela
negou com a cabea violentamente e logo gritou; seu rosto adquiriu uma expresso severa
assim que a porta do carro se abriu e um macho humano saiu dele.
        --Por Deus, Gabrielle! --gritou Lucan, tentando deter mentalmente ao assaltante sem
conseguir outra coisa que um vazio de desconexo imperturbavel.
        Um servente, deu-se conta com um sentimento de desdm. Somente seu senhor, o
renegado que possusse a esse humano, era capaz de dirigir sua mente. E o esforo mental que
Lucan tinha realizado para tent-lo tinha feito avanar mais devagar. Somente eram uns
poucos segundos os que tinha perdido, mas eram muitos.
     Gabrielle girou rapidamente para a esquerda e entrou correndo em um parque infantil
com seu perseguidor lhe pisando nos calcanhares.
        Lucan a ouviu gritar com fora, viu que o ser humano que a perseguia alargava uma
mo e a sujeitava pela rabo-de-cavalo em que se recolheu o cabelo.

         O bastardo a atirou ao cho e tirou uma pistola da parte de atrs do cinturo da cala.
         Colocou o canho da pistola no rosto do Gabrielle.
         --No! --rugiu Lucan no momento em que lhes dava alcance. De uma forte patada
apartou ao ser humano de cima de Gabrielle.
         Enquanto o tipo rodava pelo cho, a arma se disparou e uma bala atravessou as
rvores. Lucan cheirou sangue. Esse aroma metlico provinha tanto de Gabrielle como de seu
atacante. No era dela, determinou imediatamente e com alvio assim que se deu conta de que
no tinha o caracterstico aroma de jasmim de Gabrielle.
        O sangue era fresco e empapava o peito da camisa do servente. Esse aroma despertou a
parte mortfera de Lucan que sempre se sentia faminta e que desejava saciar-se. Sentiu que as
gengivas lhe vibravam em resposta a esse instinto, mas maior que todo isso era a raiva que
sentia ao pensar na possibilidade de que essa escria tivesse podido fazer mal a Gabrielle.
Com um olhar mortfero cravado no servente, Lucan ofereceu a mo a Gabrielle para ajud-la
a levantar do cho.
     --Tem-te feito mal?
       Ela negou com a cabea, mas teve que reprimir um soluo, quase um gemido de
histeria, que ficou apanhado na garganta.
      -- ele, Lucan,  o que me estava vigiando no parque o outro dia.
      -- um servente --lhe disse Lucan, pronunciando essa palavra com as mandbulas
apertadas. No lhe importava quem fora esse ser humano. Ao cabo de uns minutos, j
formaria parte da histria de toda maneira.
     -- Gabrielle, tem que partir daqui, querida.
     --O que? Refere-te a que te deixe aqui com ele? Lucan, tem uma arma.
       --Vai agora, menina. Volta por onde vieste e vai a casa. Me assegurarei de que esteja a
salvo ali.



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        O servente estava no cho, dobrado sobre si mesmo, ainda com a arma na mo, e tossia
enquanto se esforava por recuperar o flego depois da patada de Lucan. Cuspiu sangue e o
olhar de Lucan se cravou na mancha escarlate que ficou no cho. As gengivas lhe doam: as
presas lhe estavam alargando.
      --Lucan...
      --Merda, Gabrielle! Vai!
        Pronunciou essa ordem com um grunhido de fria, mas no podia fazer nada para
dominar a besta que tinha dentro. Ia matar outra vez, sua raiva estava to fora de controle que
precisava faz-lo, e no queria deixar que ela o visse.
      --Corre, Gabrielle. Vai agora!
      Ela correu.
        A cabea lhe dava voltas e o corao parecia a ponto de lhe estalar. Gabrielle saiu
correndo a ordem que Lucan lhe tinha gritado.
        Mas no estava disposta a ir a casa tal e como lhe havia dito e a deixar a ele ali sozinho.
Saiu da zona do parque infantil e rezou para que a rua e a delegacia de polcia, que estava
cheia de policiais armados, no estivessem longe. Por uma parte odiava ter que deixar a Lucan
sozinho, mas por outro lado, desesperada por fazer tudo o que pudesse para lhe ajudar, a
fazia voar rua acima.
        Apesar de zangada que estava por sua mentira, e apesar do medo que tinha por tudo
aquilo que no conseguia compreender a respeito dele, necesitava que ele estivesse bem.
        Se lhe acontecia algo...
        Essas idias desapareceram de sua cabea de repente para ouvir um estrondo de
disparos detrs dela, na escurido.

      Ficou imovel, os pulmes vazios de ar.       Ouviu um rugido estranho, como de um
animal.
        Soaram outros dois disparos em uma rpida seqncia e logo... nada.
        Somente um silncio pesado e dilacerador.
        OH, Deus.
        --Lucan? --gemeu. Sentiu que o pnico lhe atendia a garganta--. Lucan!
        Voltou a correr, agora de volta de onde vinha. De volta aonde o corao lhe estalaria
em mil pedaos se no encontrava ali a Lucan, em p, so e salvo, quando chegasse.
        Teve uma vaga sensao de preocupao se por acaso o menino da delegacia --o
servente, dessa maneira estranha lhe tinha chamado Lucan-- pudesse estar esperando-a, ou se
por acaso se lanou em sua perseguio para terminar com ela tambm. Mas a preocupao
por si mesma ficou a um lado assim que chegou a esquina iluminada pela luz da lua.
        Quo nico precisava era saber que Lucan estava bem.
        Por cima de qualquer outra coisa, nesse momento precisava estar com ele.
        Viu a silhueta de uma figura negra sobre a grama: Lucan, em p, com as pernas abertas
e os braos a ambos os lados do corpo em um gesto ameaador. Encontrava-se em p diante
de seu agressor quem, era evidente, tinha caido ao cho de costas em frente dele e tentava por
-se fora do alcance de Lucan.
        --Graas A Deus --sussurrou Gabrielle quase sem flego, sentindo-se aliviada
imediatamente.


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        Lucan estava bem, e agora as autoridades poderiam encarregar do ocorrido que tinha
estado a ponto de matar a ambos.
     Gabrielle se aproximou um pouco mais.
     --Lucan --chamou, mas ele no pareceu ouvi-la.
        Em p ante o homem que se encontrava convexo a seus ps, dobrou-se pela cintura e
alargou uma mo para lhe sujeitar. Os ouvidos de Gabrielle registraram um estranho som
estrangulado, e se deu conta, comocionada, de que Lucan estava sujeitando ao homem pela
garganta.
       De que lhe estava levantando do cho com uma s mo.
       Diminuiu o passo, mas no pde se deter enquanto se esforava por fazer uma idia do
que era o que estava passando.
       Observou com estranho distanciamento a Lucan levantar o homem mais acima
enquanto este se retorcia e lutava contra a mo que lhe segurava e que lhe deixava lentamente
sem ar. Um rugido terrfico lhe encheu os ouvidos, foi crescendo lentamente at que todo o
resto se desvaneciou,  luz da lua viu a boca de Lucan. Tinha-a aberta e mostrava os dentes.
Era sua boca o que emitia esse som terrvel e de outro mundou.
       --Detenha --murmurou, com os olhos cravados nele agora, sentindo-se
repentinamente doente de medo--. Por favor, Lucan, detenha.
       E ento, o agudo uivo se apagou e foi substitudo pelo horror da viso de Lucan
levantando esse corpo percorrido por espasmos e lhe cravando os dentes na carne de debaixo
da mandbula. Da ferida emanou um jorro de sangue cuja cor escarlate se fez negro na escura
rede da noite em que se envolvia essa terrvel cena. Lucan permaneceu imovel, com a ferida
aberta contra a boca.
        Alimentava-se da ferida.

        --OH, Meu deus --gemeu Gabrielle, levando-as mos trementes at a boca para
apagar um grito--. No, no, no... OH, Lucan... no.
        Ele levantou a cabea abruptamente, como se tivesse percebido o silencioso sofrimento
dela. Ou possivelmente tinha notado sua presena de repente, nem sequer a cem metros dele,
selvagem e terrorfico como nada que ela tivesse visto antes.
        No pode ser verdade, disse-lhe sua mente, contradizendo o que via.
        Ela tinha presenciado essa brutalidade outra vez, anteriormente, e se o sentido comum
lhe tinha impedido de lhe dar um nome nesses momentos, esse nome lhe fez claro como um
vento frio e funesto.
        --Um vampiro --sussurrou, observando o rosto de Lucan manchado de sangue e seus
olhos brilhantes e ferozes.



     Captulo dezessete

     O aroma de sangue lhe envolvia, metlico e penetrante. O olfato invadido com essa
acidez adocicada e como de cobre. Uma parte dela provinha dele, deu-se conta com certa
curiosidade surda. Baixou o olhar e viu a marca da bala no ombro esquerdo.
       No sentia nenhuma dor, somente notava a energia que lhe invadia sempre depois de
haver-se alimentado.

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        Mas queria mais.
        Necessitava mais, respondeu o grito da besta que havia dentro dele.
        Essa voz soava mais forte. Era exigente. Empurrava-lhe para o limite.
        Mas no tinha estado ele precipitando-se por volta desse limite durante muito tempo,
de todas formas?
        Lucan apertou as mandbulas com tanta fora que quase se rompeu os dentes. Tinha
que controlar-se, tinha que partir dali e voltar para o recinto, onde poderia recuperar-se de
toda essa merda.
        Tinha estado caminhando pelas ruas escuras durante duas horas e todavia sentia o
pulso lhe pulsando nas tmporas com fora. Ainda notava a fome e a raiva que lhe
dominavam a mente quase por completo. Nessa condio, ele era um perigo para todo
mundo, mas no podia dominar a inquietao que sentia no corpo.
        Caminhou pela cidade como um espectro  espreita, movendo-se sem ter consciencia
de que seus ps lhe encaminhavam em linha reta para a Gabrielle.
        Ela no para casa. Lucan no esteve seguro de aonde se escapou ela, at que o fio
invisvel de aroma e de percepo que os unia lhe conduziu at a fachada de um edifcio de
apartamentos no extremo norte da cidade. Um amigo dela, sem dvida.
        Em uma das janelas superiores havia uma luz acesa. Essa parte de cristal e de tijolo era
o nico que lhe separava dela.
        Mas no tinha inteno de tentar encontrar-se com ela, e no somente por causa do
Mustang vermelho que se encontrava estacionado diante do edificio com a luz da polcia acesa
no parabrisa. Lucan no necessitava olhar-se no cristal do pra-brisa para saber que ainda
tinha as pupilas esgotadas em meio da amplitude da ris, nem que as presas lhe marcavam
detrs da rigidez dos lbios.
      Tinha o aspecto exato do monstro que era.
        O monstro que Gabrielle tinha visto em direto essa noite.
        Lucan soltou um grunhido ao recordar a expresso de horror de Gabrielle desde que
ele tinha matado ao servente.
        Ainda tinha a imagem dela na cabea, quando ela tinha dado um passo para trs com
os olhos muito abertos a causa do terror e o asco. Lhe tinha visto tal e como ele era de verdade:
inclusive tinha pronunciado essa palavra como uma acusao um instante antes de sair
fugindo.
      Ele no tinha tentado det-la, nem com palavras nem com a fora.
        Quo nico contava nesses momentos era a fria mais pura quando lhe tirava todo o
sangue de sua presa. Logo tinha deixado cair o corpo como lixo, como o lixo que era, e sentiu
outro ataque de fria ao pensar no que teria podido acontecer a Gabrielle se tivesse caido em
mos dos renegados. Lucan tinha desejado rasgar o corpo desse ser humano e tinha estado a
ponto de faz-lo, reconheceu nesse momento ao recordar vividamente o ato selvagem que
tinha cometido.
       Ele, o tipo frio, to controlado.
       V uma piada.

        Essa mscara que levava sempre tinha comeado a desaparecer no momento em que
tinha conhecido a Gabrielle Maxwell. Fazia que mostrasse suas faltas.
        Fazia que ele desejasse coisas que no poderia ter nunca.

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        Olhou para essa janela do segundo piso. Respirava agitadamente enquanto lutava
contra a urgncia de subir ali acima, entrar pela fora e levar a Gabrielle a algum lugar onde
pudesse t-la somente para ele.
        Permitir que lhe temesse. Permitir que lhe desprezasse pelo que era, sempre e quando
ele pudesse sentir a calidez de seu corpo debaixo do dele, sentir como lhe acalmava a dor de
uma forma que somente ela podia faz-lo.
        Sim, grunhiu a besta dentro dele, conhecendo somente desejo e necessidade.
     Antes de que o impulso de possui-la ganhasse, Lucan fechou a mo em um punho e deu
um forte golpe contra o cap do carro da polcia. O alarme do veculo se disparou, e enquanto
detrs de todas as vendanas as cortinas se abriam por causa dessa sbita molstia, Lucan
desapareceu pela esquina e penetrou nas sombras plidas da noite.
        --Tudo est bem --disse o noivo da Megan ao voltar para o apartamento, depois de
que tivesse sado a investigar por que se disparou o alarme de seu carro de repente.
      -- Essa maldita coisa sempre se h disparado por nada. Sinto muito. No  que
necessitemos precisamente tenso acrescentada esta noite, verdade?
        --Certamente foram uns meninos que andam por a incomodando -- acrescentou
Megan, que se encontrava ao lado do Gabrielle no sof.
     Gabrielle assentiu com a cabea com gesto ausente, respondendo ao esforo que seus
amigos realizavam para tranqiliz-la, mas no acreditou nem por um segundo.

      Tinha sido Lucan.
        Tinha-lhe percebido ali fora com algum sentido interno que nem sequer podia comear
a descrever. No era medo nem temor, simplesmente uma profunda certeza de que ele se
encontrava perto.
        De que ele a necessitava.
        Desejava-a.
        Que Deus a ajudasse, mas a verdade era que tinha desejado que ele se dirigisse at a
porta e que a tirasse dali, que a ajudasse a encontrar um sentido a esse horror que acabava de
presenciar fazia uns momentos.
       Mas ele se partiu. Notava sua ausncia com tanta fora como tinha notado que ele a
tinha seguido at o apartamento de Megan.
       --Tem frio, Gabby? Quer um pouco mais de ch?
       --No, obrigado.
       Gabrielle agentava a taa morna de camomila com as duas mos. Sentia um frio
interno que nem as mantas nem a gua quente podiam lhe fazer passar. O corao ainda lhe
pulsava acelerado, e a cabea ainda lhe dava voltas por causa da confuso e a absoluta
incredulidade.
       Lucan tinha aberto o pescoo a esse tipo.
       Com os dentes.
       Tinha colocado os lbios sobre a ferida e tinha bebido o sangue que emanava dela e que
lhe tinha manchado o rosto.
       Era um monstro, parecia sado de um pesadelo. Igual a esses espectros que tinham
atacado e assassinado ao punki fora do salo. Parecia que tinha passado tanto tempo desde
que aconteceu isso que agora quase no podia acredit-lo.


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       Mas tinha acontecido, igual a sim tinha ocorrido o assassinato dessa noite, e esta vez
tinha sido Lucan o que tinha estado no centro do mesmo.
       Gabrielle tinha ido casa de Megan por puro desespero porque precisava estar em
algum lugar que lhe resultasse acolhedor e familiar. Todavia tinha muito medo de ir a seu
prprio apartamento se por acaso o amigo de Lucan a estava esperando ali. Tinha-lhes
contado a Megan e a seu noivo que o psicopata da delegacia de polcia a tinha atacado na rua.
Contou-lhes que ele a tinha estado espiando fazia uns quantos dias e que esta noite, quando a
tinha atacado, tinha-o feito com uma arma na mo.
       No estava segura de por que tinha deixado a Lucan fora da histria, apesar do
importante que sua presena tinha sido em tudo isso. Soube que se devia a que, sem ter em
conta seus mtodos, ele tinha matado essa noite para proteg-la, e ela sentia a necessidade de
lhe oferecer parte dessa mesma considerao a ele.
        Inclusive embora ele fosse um vampiro.
       Deus, resultava ridculo incluso pens-lo.
       --Gab, querida. Tem que denunciar o que aconteceu. Esse tipo parece seriamente
transtornado. A polcia tem que inteirar-se disto, tem que lhe apartar da rua. Ray e eu
podemos te levar. Iremos ao centro da cidade e encontraremos a seu amigo o detetive.
       --No. --Gabrielle negou com a cabea e depositou a taa de ch na mesita de diante
do sof com uma mo ligeiramente tremente.
     --Esta noite no quero ir a nenhuma parte. Por favor, Megan. Somente necessito
descansar um momento. Estou to cansada.
       Megan tomou a Gabrielle da mo e a apertou com suavidade.
       --De acordo. Vou para te buscar um travesseiro e outra manta. No tem por que ir a
nenhuma parte at que se sinta com foras, querida. Estou contente de que te encontre bem.

       --Teve sorte de escapar --interveio Ray enquanto Megan se levava a taa de Gabrielle
 cozinha antes de ir ao armrio que tinha ao outro lado da sala. Possivelmente outra pessoa
no tenha tanta sorte. Agora estou livre e voc  a amiga do Meg, assim no vou forar o tema,
mas tem a responsabilidade de no permitir que esse tipo saia ileso depois do que te tem feito
esta noite.
       --No vai fazer mal a ningum mais --sussurrou Gabrielle. E apesar de que estavam
falando do tipo que a tinha apontado com uma pistola, no pde evitar pensar que tivessem
podido estar dizendo o mesmo do Lucan.
       Lucan no podia recordar como tinha chegado ao recinto, nem quanto tempo ocorreu
levava ali. Mas tendo em conta a quantidade de suor que tinha deixado na habitao de
treinamento, sups que devia fazer umas quantas horas que tinha chegado.
       Lucan no se incomodou em acender as luzes. Os olhos j lhe doiam bastante apesar de
que estava as escuras. O que precisava era sentir a dor dos msculos enquanto os obrigava a
trabalhar para recuperar o controle de seu corpo depois dessa noite em que to perto tinha
estado de cair presa da sede de sangue.
       Lucan alargou uma mo at uma das adagas que se encontravam em uma mesa que
tinha ao seu lado. Passou os dedos pelo fio para comprovar quo afiado estava e logo se
voltou em direo ao corredor da prctica de tiro. Notava, mais que via, o alvo ao final do
mesmo, e quando lanou a faca na escurido, soube que tinha dado no mesmo.


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       --Diabos, sim --murmurou com a voz ainda rouca. As presas ainda no tinham
voltado para seu tamanho normal.
       Tinha melhorado muito a pontaria. As ltimas vezes que o haviam intentado seu tiro
sempre tinha sido mortal. No pensava ir-se dali at que se tirou de cima todos os efeitos da
ingesto de sangue. Isso ainda demoraria certo tempo: ainda se sentia doente depois da
overdose de sangue que tinha ingerido.

       Lucan percorreu a longitude da zona de prticas para tirar a arma do alvo. Extraiu a
adaga e observou com satisfao a profundidade da ferida que teria infligido se o alvo tivesse
sido um renegado ou um de seu serventes e no um boneco de prticas.
       Ao d-se a volta para comear outra ronda, ouviu um suave clique em algum lugar de
diante dele da zona de prticas e, imediatamente, uma violenta luz alagou as instalaes em
toda sua longitude e amplitude.
       Lucan retrocedeu e a cabea lhe explorou a causa do violento ataque. Piscou vrias
vezes para tentar dissipar o atordoamento que sentia e entrecerrou os olhos ante o feixe de luz
que se refletia nos espelhos de parede que se alinhavam na rea de treinamento de defesa e de
armas, adjacente a zona de prticas. Foi ali onde viu a enorme forma de outro vampiro que
apoiava um largo ombro contra a parede.
       Um dos guerreiros lhe tinha estado observando das sombras.
       Tegan.
        Merda. Quanto tempo levava ali em p?
       --Encontra-te bem? --perguntou-lhe com sua atitude indiferente de sempre, vestido
com sua camiseta escura e seu vaqueiro folgado--. Se a luz  excessiva para ti...
        --Est bem --grunhiu Lucan. Umas estrelas lhe cegaram enquanto tentava acostumar-
se a crua luz. Levantou a cabea e obrigou a si mesmo a olhar aos olhos de Tegan, ao outro
lado da habitao.
     -- De toda forma, estava a ponto de partir.
       Os olhos de Tegan permaneceram cravados nele e sua expresso, enquanto Lucan, era
de muita cumplicidade. As fossas nasais do Tegan se dilataram levemente e o gesto seco de
seus lbios adotou um ar de surpresa.
       --Estiveste caando esta noite. E est sangrando.



      -E?

       --Porque no  prprio de ti aceitar um golpe.  muito rpido para isso, normalmente.
       Lucan pronunciou um juramento.
       --Importaria-te no farejar ao meu redor agora mesmo? No estou de humor para ter
companhia.
       --V-se. Estamos um pouco tensos, n? --Tegan avanou com passo arrogante para
examinar umas armas que se encontravam alinhadas para o treinamento. Nesse momento no
estava olhando a Lucan, mas viu sua tortura como se este se encontrasse exposto diante dele,
em cima da mesa, ao lado da coleo de adagas, facas e outras armas brancas.



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      -- Tem muita agressividade que precisa tirar? Suponho que resulta difcil concentrar-se
com esse zumbido na cabea. O sangue corre to depressa que  quo nico pode ouvir. No
nico em que pode pensar  na sede. A que te d conta, dominou-te.
        Lucan calculou o peso de outra arma com a mo enquanto tentava calcular o equilbrio
dessa adaga feita a mo. No podia manter os olhos fixos mais de um segundo. Os dedos lhe
doam pelo desejo de utilizar essa arma para outra coisa que no fosse um alvo de prticas.
Com um grunhido, baixou o brao e lanou a adaga voando at o outro extremo da zona de
tiro. Esta se cravou com fora no boneco, justo no peito, atravessamdo o corao.
        --Te largue daqui, Tegan. No necessito os comentrios. Nem o pblico.
        --No, no quer que ningum te veja desde muito perto. Comeo a compreender por
que.
        --No tem nem idia.
        --No? --Tegan lhe olhou um comprido momento, logo negou devagar com a cabea e
pronunciou uma maldio em voz baixa--. Tome cuidado, Lucan.

       --O que acontece? --exclamou Lucan com dureza, voltando-se para o vampiro com
uma raiva negra.
       --  que me est dando conselhos, T?
       --D igual. --O macho se encolheu de ombros com um gesto de indiferencia--.
Possivelmente  uma advertncia.
       --Uma advertncia. --A gargalhada de Lucan ressonou no espao cavernoso 
fodidamente gracioso, vindo de ti.
       --Est ao limite, cara. Lhe vejo nos olhos. --Meneou a cabea e o cabelo avermelhado
lhe caiu no rosto.
       -- O poo  profundo, Lucan. E odeio ver-te cair nele.
       --Te economize a preocupao. Voc  a ltima pessoa de quem espero receb-lo.
       --Claro, tem tudo controlado, verdade?
       --Exato.
       --Pois continua te dizendo isso, Lucan. Possivelmente lhe acreditar isso. Porque eu,
que te estou vendo agora, asseguro-te que no acredito.
       Essa acusao disparou a fria de Lucan. Em um ataque de precipitao e de raiva,
equilibrou-se sobre o outro vampiro com as presas nuas e soltando um assobio viperino. Nem
sequer se deu conta de que tinha a faca na mo at que viu o fio prateado que apertava a
garganta do Tegan.
     --Te tire de diante de mim. Entende-me com claridade agora?
     --Quer me rachar, Lucan? Precisa me fazer sangrar? Faz-o. Faz- o de uma puta vez, cara.
Importa-me uma merda.
       Lucan atirou a adaga ao cho e rugiu enquanto sujeitava a Tegan pela camisa. Com as
armas era muito fcil. Precisava sentir a carne e os ossos nas mos, sentir como se rasgava a
carne e como rangiam os ossos, para satisfazer a besta que to perto estava de lhe reger a
mente.
       --Merda. --Tegan se engasgou; tinha os olhos fixos na desenfreada fria que brilhava
nos de Lucan.
       -- J tem um p no fossa, v?


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        --Que lhe fodam--lhe disse Lucan com um grunhido ao vampiro que, muito tempo
atrs, tinha sido um amigo de confiana.
       -- Deveria te matar. Deveria te haver matado ento.
        Tegan nem se alterou ante essa ameaa.
        --Est procurando um inimigo, Lucan? Ento te olhe ao espelho. Esse  o nico bode
que te vai sacudir sempre.
        Lucan arrastou a Tegan para um lado e lhe estampou contra a parede do outro lado da
habitao de treinamento. O espelho se rompeu a causa do impacto e os fragmentos estalaram
ao redor dos ombros e o torso do Tegan como um halo de estrelas.
        Apesar de seus esforos para negar a verdade do que acabava de ouvir, Lucan viu seu
prprio reflexo selvagem repetido cem vezes na rede de fragmentos quebrados. Viu suas
pupilas esgotadas, sua ris brilhantes --os olhos de um renegado-- que lhe devolviam o olhar.
Suas enormes presas se desdobraram detrs dos lbios abertos e seu rosto contrado se
converteu em uma mscara horrorosa.
        Viu todo aquilo que odiava, tudo o que tinha sido uma praga destruidora em sua vida,
tal e como Tegan lhe acabava de dizer.
        Nesse momento, refletidos na multido de espelhos que lhe tinham mostrado sua
prpria transfigurao, viu que Nikolai e Dante entravam pelas portas que se encontravam
detrs dele com uma expresso cautelosa nos rostos.

       --Ningum nos h dito que havia uma festa --disse D, arrastando as slabas, apesar
de que o olhar que dirigiu aos dois combatentes no era absolutamente despreocupado.
       -- O que acontece? Tudo vai bem por aqui?
       Um comprido e tenso silncio encheu a habitao.
       Lucan soltou a Tegan e se apartou lentamente dele. Baixou o olhar em um intento por
ocultar sua selvageria ante os outros guerreiros. A vergonha que sentia era nova para ele.
No gostou do sabor amargo que tinha; no podia nem pensar por causa da blis que lhe
amontoava na garganta.
       Finalmente, Tegan rompeu o silncio.
       --Sim --disse, sem apartar o olhar do rosto de Lucan--. Tudo bem.
         Lucan se separou do Tegan e de outros. Enquanto se dirigia para a sada deu um
murro contra a mesa das armas e esta tremeu com violncia.
       --Foder, esta noite est de subida --murmurou Niko--. Cheira a mulher recente, alm
disso.
       Lucan, enquanto atravessava as portas da zona de treinamento e saa ao vestbulo
exterior, ouviu a resposta de Dante.
       --No, cara. Cheira a overdose.



      Captulo dezoito
      --Mais --gemeu a mulher humana que, sentada sobre seu regao, rodeava com o corpo
e lhe oferecia o pescoo sob seus lbios. Atirou dele com gesto ansioso e baixou os olhos como
se estivesse drogada.
      -- Por favor, beba mais de mim. Quero que a bebes toda!


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       --Possivelmente --lhe prometeu ele com expresso despreocupada. J se estava
cansando desse bonito brinquedo.
      K. Delaney, R.N, tinha-lhe proporcionado um jogo bastante entretido durante as
primeiras horas que fazia que a tinha levado a seus aposentosse privados, mas ao igual que
todos os seres humanos apanhados pelo poder do beijo do vampiro, ao final tinha deixado de
lutar e agora ansiava pr fim a sua tortura. Nua, retorcia-se contra ele como um felino em
zelo, esfregava sua pele nua contra seus lbios e choramingou assim que ele se negou a lhe
oferecer as presas.
       --Por favor --repetiu ela, agora em um tom queichoso que comeava a lhe ser
incomodo.
       No podia negar o prazer que tinha recebido dela, tanto de seu corpo ofegante como da
plenitude deliciosa e profunda que seu sangue lhe tinha proporcionado enquanto lhe oferecia
sua garganta, doce e suculenta. Mas agora j tinha terminado com isso. Tinha terminado com
ela a no ser que tivesse inteno de sorver o resto da humanidade dessa mulher para
convert-la em uma de seus serventes.
       Ainda no. Possivelmente decidisse jogar outra vez.
       Mas se no se afastava dessa sujeio ansiosa dela, possivelmente se sentisse tentado a
beber da enfermeira K. Delaney at alm desse ponto crucial que conduzia diretamente a
morte.

       Jogou-a e a empurrando de seu regao sem contemplaes e ficou em p.
        --No --se queixou ela--. No v.
        Ele j estava cruzando a habitao. As suntuosas dobras da bata de seda se deslizavam
entre seus tornozelos enquanto caminhava fora do dormitrio e se dirigia a seu estudo, ao
outro lado do vestbulo. Essa habitao, seu santurio secreto, estava cheio de todos os luxos
que desejava: mveis deliciosos, peas de arte e antiguidades muito valiosos, almofadas
tecidas por mos persas durante as cruzadas religiosas do mundo. Todas as lembranas de seu
prprio passado, objetos colecionados durante inumerveis pocas pelo puro prazer que lhe
ofereciam e que tinham sido gastos at aqui recentemente,  sede de seu exrcito na Nova In-
glaterra.
        Mas havia outra recente aquisio artstica, tambm.
        Esta --uma srie de fotografias contemporneas-- no lhe agradava absolutamente.
Observou as imagens em branco e negro de vrios renegados da cidade e no pde conter
uma careta de fria.
     --N... estes no so...?
        Dirigiu um olhar de irritao para onde nesse momento se encontrava a fmea sentada.
Arrastou-se atrs dele da outra habitao. Deixou-se cair em cima de uma das palacianas
almofadas e seu rosto se contraa formando uma careta infantil. Quase no podia manter
erguida a cabea e piscava com insistncia como se fosse incapaz de enfocar a vista, mas
estava observando a coleo de fotografias.
        --OH? --exclamou ele, no muito interessado em jogar a nenhum jogo, mas bastante
curioso por saber o que era o que, dessas imagens, havia pnetrado em sua cabea aturdida.
     -- A quem cr que pertencem?
      --Minha amiga... so delas.


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        Ele arqueou as sobrancelhas como resposta a essa inocente revelao.
        --Conhece a artista, verdade?
        A jovem mulher assentiu com a cabea lentamente.
      --Minha amiga... Gabby.
        --Gabrielle Maxwell --disse ele, voltando-se, com a ateno verdadeiramente desviada
dela agora.
      -- Me fale de seu amiga. Que interesse tem em fotografar estes lugares?
        Esteve-se fazendo essa pergunta mentalmente do primeiro momento em que soube que
Gabrielle como testemunha indesejada de uma matana perpetrada de forma descuidada por
uns novos recrutas. Havia-se sentido irritado, embora no alarmado, ao saber que a mulher
Maxwell tinha estado na delegacia de polcia. Ver seu rosto inquisitivo na tela do circuito
fechado de segurana das instalaes tampouco lhe tinha agradado, exatamente. Mas o que
despertava um escuro interesse nela era a inteno que ela parecia ter por documentar
localizaes de vampiros.
        Ele, at esse momento, tinha estado ocupado com outro tipo de coisas que requeriam
sua ateno. Tinha estado concentrado em outro ponto, e se tinha contentado jogando um olho
de vez em quando ao tema de Gabrielle Maxwell. Mas possivelmente o interesse que ela
mostrava e suas atividades merecieram uma observao mais atenta. De fato, possivelmente
merecessem um duro interrogatrio. A tortura, ele gostava.
      --Falemos de sua amiga.
        Sua pesada companheira de jogos jogou a cabea para trs e se atirou de costas no
tapete com os braos levantados, como um menino mimado a quem lhe nega algo que deseja.
        --No, no quero falar dela --murmurou, levantando os quadris do cho.
      -- Vem aqui... me beije primeiro... fala de mim... de ns.

       Ele deu um passo em direo a fmea, mas sua inteno no era satisfazer-la. O
extreitamento das pupilas tivesse podido lhe dar a entender a ela que a desejava, mas se
tratava da raiva que lhe invadia o corpo. Com um gesto de desdm, agarrou-a com fora,
levantou-a e a ps em p diante dele.
       --Sim --suspirou ela, j disposta a submeter-se a suas ordens.
       Com a palma da mo, lhe empurrou a cabea a um lado para deixar ao descoberto a
palidez do pescoo que ainda estava ferido e sangrava do ltimo bocado que lhe tinha dado.
Lambeu a ferida sem contemplaes e as presas lhe desdobraram pela ira.
       --Vais dizer-me tudo o que desejo saber --lhe sussurrou, com um domnio letal e
olhando-a aos olhos.
     --  partir deste momento, voc, enfermeira K. Delaney, vais fazer tudo o que eu te
ordene.
       Descobriu as presas e os cravou com a ferocidade de uma vespa. Extraiu-lhe at a
ltima gota de conscincia e a desapropriou de seu fraco eu humano com uma nica e
selvagem dentada.
       Gabrielle realizou um registro por todo seu apartamento, verificando que todos os
ferrolhos das portas e das janelas estivessem fechados. Partiu-se de casa de Megan pela
manh, depois de que seu amiga foi trabalhar, e tinha chegado a casa na metade da tarde.
Meg a tinha convidado a ficar todo o tempo que quisesse, mas Gabrielle no podia estar
escondida para sempre, e no gostava da idia de que possivelmente estivesse envolvendo a

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sua amiga em uma situao que se estava fazendo mais terrorfica e inexplicvel a cada
minuto.
       Ao princpio no tinha querido ir ao seu apartamento e tinha estado dando voltas pela
cidade em um atordoamento paranico, quase cedendo a um estado de histeria. Seu instinto
lhe advertia de que se preparasse para a luta.
       Uma luta que, estava segura, apresentaria-se em um momento ou outro.
       Tinha medo de encontrar-se com Lucan, ou a um de seus amigos chupa-sangue, ou a
algum inclusive pior, esperando-a ao chegar em casa. Por ser de dia, voltou ao fim, ao seu
apartamento. Encontrou-o vazio e no havia nada fora de seu lugar.

       Agora, enquanto a escurido caa na rua, sua ansiedade voltou multiplicada por dez.
     Envolta como um casulo em um suter enorme e branco, voltou para a cozinha porque a
secretria eletrnica estava dando o sinal de que havia duas mensagens novas. Os dois eram
de Megan. Tinha-a chamado durante a ltima hora, desde que escutou a primeira mensagem
sobre o corpo que tinham encontrado na rea de jogos onde Gabrielle tinha sido agredida a
noite anterior.
       Megan estava frentica enquanto contava a Gabrielle o que Ray lhe tinha contado da
polcia. Disse-lhe que o atacante parecia que havia sido destroado por uns animais no muito
tempo depois de que intentara ferir Gabrielle. Mas havia mais. Um agente da polcia tinha
sido assassinado na delegacia de polcia; e foi sua arma a que se encontrou no corpo
destroado que encontraram no parque infantil.
       Gabby, por favor, me chame assim que oua isto. Sei que est assustada, querida, mas
a polcia necessita sua declarao. Ray est a ponto de sair de servio. Diz que, se o preferir,
pode ir para te buscar...
      Gabrielle apertou o boto de apagar.
       E sentiu que lhe arrepiava o plo da nuca.
       J no estava sozinha na cozinha.
       Com o corao galopando a carreira se voltou para encarar-se com o intruso: no se
surpreendeu absolutamente ao ver que se tratava de Lucan. Este estava em p na porta que
dava ao vestbulo e a olhava em uma atitude pensativa e em silncio.
     Ou possivelmente somente estava apreciando o prato que ia comer.

       Curiosamente, Gabrielle se deu conta de que no tinha tanto medo dele, mas bem
estava zangada. Inclusive nesses momentos, ele parecia to normal, coberto com um casaco
escuro, umas calas negras confeccionadas  medida, uma camisa que parecia rosto e de uma
cor que era um tom mais escuro que seus impressionantes olhos azuis.
       No havia rastro do monstro que tinha visto a noite anterior. Era somente um homem.
O escuro amante que acreditava conhecer.
       Gabrielle se deu conta de que desejava que ele tivesse aparecido com as presas ao
descoberto e com um olhar de fria nesses olhos que se transformavam de forma to
estranha, que tivesse aparecido como o monstro em que se delatou ser a outra noite. Isso teria
sido mais honesto que esse aspecto de normalidade que lhe provocava o desejo de fingir que
tudo estava bem. Que ele era realmente o detetive Lucan Thorne da Polcia de Boston, um
homem que se comprometeu a proteger aos inocentes e a fazer cumprir a lei.


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       Um homem de quem ela tivesse podido apaixonar-se, de quem possivelmente j se
apaixonou.
       Mas todo o referente a ele tinha que ser uma mentira.
       --Disse-me mesmo que no ia vir esta noite.
     Gabrielle tragou saliva com dificuldade.
       --Sabia que viria. Sei que me seguiu a outra noite, depois de que eu fugi de voc.
       Seu olhar penetrante delatou um brilho; seus olhos a olhavam com demasiada
intensidade. De uma forma que se parecia muito a uma carcia.
       --No te teria feito mal. No quero te fazer mal, agora.

      --Ento, vai.
      Ele negou com a cabea e deu um passo para frente.

       --No at que tenhamos falado.
       --Quer dizer at que te tenha assegurado de que eu no vou falar --reps ela, tentando
no deixar-se arrastar pela complacncia, pelo mero feito de que ele tinha o aspecto do homem
em quem confiava.
       Ou pelo mero feito de que seu corpo, e inclusive seu idiota corao, reagiam ao lhe ver.
     --H umas coisas que tem que saber, Gabrielle.
     --OH, j sei --disse ela, assombrada de que sua voz no soasse temoerosa. Levou-se uma
mo at o pescoo procurando o pendente com a cruz que no se tornou a pr desde a
primeira comunho. Esse delicado talism parecia uma fina e ridicula armadura agora que se
encontrava frente a Lucan e que no havia nada que lhes separasse se ele decidia dar ou no
os poucos passos com suas pernas largas e musculosas.
       -- No tem que me explicar nada. Demorei bastante tempo, seguro, mas acredito que
por fim o compreendo tudo.
       --No. No o compreende. --aproximou-se dela e se deteve ao ver uns bulbos alvos
que penduravam por cima de sua cabea na porta da cozinha.
       -- Certo --disse ele, e soltou uma risada divertida.
         Gabrielle retrocedeu um passo, apartando-se dele. Suas sapatilhas de borracha chiaram
sobre os ladrilhos do cho.
     --J te hei dito que te esperava.
         E tinha realizado outros preparativos antes de que ele chegasse. Se olhava ao seu
redor, daria-se conta de que todas as habitaes do apartamemoro, includa a porta de
entrada, tinham a mesma decorao em cada uma de suas portas. Mas no parecia que lhe
importasse.
       Os mltiplos ferrolhos no lhe tinham detido e tampouco lhe haviam detido esse
intento de medida de segurana. Passou por debaixo do repelente de vampiros que Gabrielle
tinha preparado com seus olhos escuros cravados nela com intensidade.
       Ele se aproximou um pouco mais e ela deu outro passo para trs at que se tropeou
com o mrmore da cozinha. Em cima dele havia uma garrafa de enxge bocal que j no
tinha o lquido original a no ser outra coisa que ela tinha conseguido de caminho a casa essa
manh, ao deter-se na igreja de Saint Mary para confessar-se. Gabrielle tomou a garrafa de
plstico de cima do mrmore e a aproximou do corao.
       --gua benta? --perguntou Lucan, olhando-a aos olhos com frieza.

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      -- O que vais fazer com isso, me vais jogar i em cima?
      --Se tiver que faz-lo, sim.
        Ele se moveu to depressa que ela somente viu uma mancha imprecisa que apareceu
diante dela. Lhe tirou a garrafa e a esvaziou sobre as mos. Logo se passou as mos
empapadas pelo rosto e pelo brilhante cabelo negro.
        No aconteceu nada.
        Atirou a garrafa vazia ao cho e deu outro passo para ela.
        --No sou o que cr, Gabrielle.
        Disse-o em um tom to sensato que ela esteve a ponto de lhe acreditar.
        --Vi o que tem feito. Assassinaste a um homem, Lucan.
        Ele negou com a cabea com calma.
        --Matei a um ser humano que j no era um homem, que quase nem era humano, de
fato. O que dele tinha sido uma vez humano foi roubado pelo vampiro que lhe converteu em
um escravo servente. J quase estava morto. Eu simplesmente terminei o trabalho. Sinto que
tivesse que ver, mas no posso me desculpar. E no o vou fazer. Mas mataria a qualquer,
humano ou no, que queria te fazer mal.

       --O qual converte seu amparo em algo perigoso, por no dizer que  um psicopata. E
no falamos que rasgou a garganta desse menino com os dentes e bebeu seu sangue.
       Ela esperou ouvir outra resposta calculada. Alguma explicao racional que lhe fizesse
pensar que uma coisa to incrvel como o vampirismo podia ter sentido --que podia ter
sentido-- no mundo real.
       Mas Lucan no lhe ofereceu esse tipo de resposta.
       --No era assim como eu queria que fossem as coisas entre ns, Gabrielle. Deus sabe
que voc merece algo melhor.
       --Disse algo mais em voz muito baixa e em um idioma que ela no pde compreender.
       -- Voc merece que te introduza nisto com suavidade, e que o faa um macho adequado
que saiba pronunciar as palavras adequadas e fazer as coisas bem.  por isso que eu queria
mandar a Gideon. --passou-se as mos pelo cabelo em um gesto de frustrao.
     -- Eu no sou porta-voz de minha raa. Sou um guerreiro. s vezes, um ignorante. Eu
trato com a morte, Gabrielle, e no estou acostumado a oferecer desculpas em nenhum de
meus atos.
       --No te estou pedindo desculpas.
       --O que, ento, a verdade? --Dirigiu-lhe um olhar irnico.
     -- Esteve ante a verdade a outra noite enquanto eu matava a esse servente e lhe extraa o
sangue. Essa  a verdade, Gabrielle. Esse sou eu.
       Segundo as supersties humanas, sim. Segundo essas histrias, um luta contra os de
minha classe com alho ou com gua benta: todo isso  falso, Como viu com seus prprios
olhos. De fato, nossas raas se encontra intimamente ligadas. No somos to distintos um do
outro.
       --De verdade? --burlou-se ela. A histeria a invadiu assim que ele deu um passo para
diante, obrigando-a a apartar-se outra vez.
       -- A ltima vez que o olhei, o canibalismo no se encontrava em minha lista de
deveres. Mas ento tampouco estava incomodando aos no mortos, mas parece que
ultimamente o estive fazendo com bastante regularidade.

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       Ele riu sem vontades.



        --Asseguro-lhe isso, eu no sou um no morto.Sou uma pessoa igual a voc. Sangro
igual a voc. Podem-me matar, embora no  fcil, e faz muito, muito tempo que estou vivo,
Gabrielle. --aproximou-se dela, percorrendo a pouca distncia que lhes separava na cozinha.
      -- Estou vivo como est voc.
        Como se queria demonstr-lo, entrelaou seus quentes dedos com os dela. Levantou as
mos dela entre os corpos de ambos e as apertou contra seu prprio peito. Sob o suave tecido
da camisa, Gabrielle notou que o corao lhe pulsava com fora e a ritmo regular. Notou que o
ar lhe entrava e lhe saa dos pulmes, sentiu o calor de seu corpo na ponta dos dedos e foi
como se um blsamo lhe suavizasse seus esgotados sentidos.
        --Sou real, e estou em p aqui... igual a me viu a outra noite.
        --Ento, demonstre-me isso mostre a esse outro voc em lugar deste de agora. Quero
saber com o que me enfrento de verdade.  o justo.
        Ele franziu o cenho, como se a desconfiana lhe doesse.
      --Essa mudana no se pode forar.  uma mudana psicolgica que se d com a sede,
ou em momentos de emoo intensa.
        --Ento, com que vantagem posso contar quando voc ditas me abrir a jugular? Um
par de minutos? Uns segundos?
        Os olhos dele cintilaram ante essa provocao, mas seu tom de voz continuou sendo
tranqilo.
       --No te vou fazer mal, Gabrielle.
       --Ento, por que est aqui? Para transamos outra vez, antes de que me converta em
algum horrvel como voc?
       --Porra, Gabrielle --pronunciou com voz rouca--. No  isso o que...



       --Ou  que vais converter-me em seu vampira esposa pessoal, como o que matou a
outra noite?
       --Gabrielle. --Lucan apertou a mandbula, com tanta fora como se se fosse partir o
ao--. Vim para te proteger,porra! Porque preciso saber que est bem. Possivelmente estou
aqui porque cometi erros contigo, e quero arrum-lo de algum jeito.
       Ela permaneceu imovel, absorvendo essa inesperada sinceridade e observando como
suas emoes brigavam na expresso de seu rosto. Raiva, frustrao, desejo, incerteza... viu
tudo isso em seu olhar penetrante. Que Deus a ajudasse, mas ela tambm sentia tudo isso
como uma tempestade em seu interior.
       --Quero que parta, Lucan.
       --No, no quer.
       --No quero voltar a ver-te nunca mais! --gritou ela, desesperada para que ele
acreditasse. Levantou uma mo para lhe esbofetear, mas ele a impediu com facilidade antes
de que pudesse faz-lo.
      -- Por favor. Vai daqui agora mesmo!
       Ignorando-a por completo, Lucan se levou a mo com que ela tinha querido lhe
esbofetear at os lbios. Entreabriu-os e apertou a palma de sua mo contra eles para beijar-lhe

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com sensualidade. Ela no sentiu o roce das presas, somente o flego quente de sua boca e a
mida carcia da lngua dele que brincava, provocadora, entre seus dedos.
       A cabea lhe dava voltas ao sentir o delicioso contato dos lbios dele sobre sua pele.
       Sentiu que lhe falhavam as pernas, que sua resistncia cedia e que cimeava a desfazer-
se do mesmo centro de seu ser.
       --No -- exclamou ela contra ele, apartando a mo e lhe empurrando.
       -- No, no posso deixar que me faa isto, no agora.

      -Entre ns tudo trocou! Agora tudo  distinto.

      --O nico distinto, Gabrielle,  que agora me v com os olhos abertos.
      --Sim. --obrigou-se a si mesmo a lhe olhar.
      -- E o que vejo eu no gosto.

     Lhe sorriu sem nenhuma piedade.
       --Mas desejaria poder dizer o mesmo a respeito de como te fao sentir.

        Ela no estava segura de como o fez, de como era possvel que ele se movesse com
tanta rapidez, mas nesse mesmo instante sentiu o flego de Lucan detrs da orelha e sua
profunda voz vibrou contra a pele de seu cabelo enquanto ele apertava seu corpo contra o
dela.
        Era muito para assumi-lo de repente: essa apavorante e nova realidade, as perguntas
que nem sequer sabia como formular. E logo estava a desorientao que lhe provocava o
delicioso tato de Lucan, sua voz, seus lbios lhe roando com suavidade a pele.
        --Detenha! --Tentou lhe empurrar, mas ele era como um muro de msculo e de
determinao escura e decidida. Ele resistiu sua raiva, e os inteis golpes que lhe deu contra o
enorme peito no pareceram lhe fazer absolutamente nada. Sua expresso tranqila no
trocou, igual a seu corpo permaneceu imovel.
       Ela se separou dele com expresso frustrada e angustiada.
        --Deus, o que est tentando demonstrar, Lucan?
        --S que no sou o monstro que voc quer acreditar que sou. Seu corpo me conhece.
Seus sentidos lhe dizem que est a salvo comigo. Somente tem que escut-los, Gabrielle. E
escutar a mim quando digo que no vim para te assustar.

       Nunca te vou fazer mal, tampouco vou beber seu sangue. Por minha honra, nunca te
farei mal.
        Ela soltou uma gargalhada afogada ante a idia de que um vampiro pudesse ter nada
parecido  honra, por no dizer que o estava prometendo a ela nesses momentos. Mas Lucan
no duvidava, permanecia em atitude solene. Possivelmente estivesse louca, porque quanto
mais olhava esses olhos chapeados, mais fraca era a dvida sobre ele a que se queria agarrar.
        --No sou seu inimigo, Gabrielle. Durante sculos,os meus e os teus se necessitaram
mutuamente para sobreviver.
        --Se alimentam de ns --sussurrou ela com voz rota--, como parasitas.
        O rosto lhe escureceu um momento, mas no reagiu ante o desprezo que havia nessa
acusao.

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       --Tambm temos que lhes proteger. Alguns de meus inclusive cuidaram os seus,
levaram uma vida juntos como casais com vnculos de sangue.  a nica forma em que a
estirpe de vampiros pode continuar. Sem as fmeas humanas que do a luz aos jovens, ao final
nos extinguiramos. Assim  como eu nasci, e como todos os que so como eu nasceram
tambm.
       --No o compreendo. Por que no podem... lhes mesclar com fmeas de sua prpria
espcie?
       --Porque no existem. Por causa de um engano gentico, a prole da raa somente pode
ser masculina, desde o primeiro da estirpe, disso faz centenas de geraes.
       Esta ltima revelao, somada a todo o resto que acabava de ouvir, obrigou-a a fazer
uma pausa.
       --Ento, isso significa que sua me  humana?
      Lucan assentiu levemente com a cabea.

      --Era-o.

       --E seu pai? Ele era...
       Antes de que pudesse pronunciar a palavra vampiro, Lucan respondeu.
       --Meu pai, e os sete outros Antigos como ele, no eram deste mundo. Foram os
primeiros de minha estirpe, seres de outro lugar, muito distinto a este planeta.
       Ela demorou um segundo em assimilar o que acabava de ouvir, acrescentado a todo o
resto que estava comeando a compreender nesse momento.
       --O que est dizendo... que eram extraterrestres?
       --Eram exploradores. Uns conquistadores,guerreiros e selvagens de fato, que caram
aqui faz muitssimo tempo.
     Gabrielle ficou olhando um momento.
       --Seu pai no era somente um vampiro a no ser um extraterrestre, ademais? Tem idia
do louco que isto sonha?
       -- a verdade. Os que eram como meu pai no se chamavam a sim mesmos vampiros
mas, segundo a definio dos humanos, isso  o que eram. Seu sistema digestivo estava muito
avanado para a protena crua da Terra. No podiam processar nem as plantas nem animais
como faziam os seres humanos, assim aprenderam a tirar o alimento do sangue. Alimentaram-
se sem freio e acabaram com populaes inteiras nesse processo. Sem dvida ouviste falar de
alguns deles: a Atlntida. O reino dos maias. E outras incontveis civilizaes desconhecidas
que se desvaneceram na noite dos tempos. Muitas das mortes macias que historicamente se
atriburam as infestaes e a fome no foram isso absolutamente.
       Deus santo.



       --Aceitando que tudo isto se possa tomar a srio, est falando de milhares de anos de
aougue. --Ao ver que ele no o negava, um calafro lhe percorreu as pernas.
      -- Eles... voc... Deus, no me posso acreditar que esteja dizendo isto. Os vampiros se
alimentam de algo vivo, como uns dos outros possivelmente, ou so os humanos a nica
fonte de alimento?
       A expresso de Lucan era sria.

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        --Somente o sangue humano contm a combinao de nutrientes especfica que
necessitamos para sobreviver.
        --Com que freqncia?
        --Temos que nos alimentar uma vez cada trs ou quatro dias, algumas semanas s
vezes. Necessitamos mais se estamos feridos e necessitamos mais fora para sanar as feridas.
        --E vocs... matam quando lhes alimentam?
        --No sempre. De fato, poucas vezes. A maioria da raa se alimenta de humanos
voluntrios, anfitries.
        --De verdade que a gente se oferece voluntria para que lhes torturem? --perguntou
ela, incrdula.
        --No h nenhuma tortura nisso, a no ser que o desejemos. Quando um ser humano
est depravado, a dentada de um vampiro pode ser muito prazeirosa. Quando terminou, o
anfitrio no recorda nada porque no lhe deixamos nenhum lembrana.
        --Mas as vezes matam --disse ela, e lhe fez difcil no faz-lo em um tom acusatrio.
        --s vezes  necessrio levar uma vida. A raa fez o juramento de no depredar nunca
aos inocentes ou aos fracos.

     Ela se burlou:

      --Que nobres so.
      -- nobre, Gabrielle. Se quisssemos, se cedssemos a essa parte que h em ns que
continua sendo como esses conquistadores guerreiros que eram nossos antepassados,
poderamos escravizar a toda a raa humana. Seramos reis e todos os seres humanos
existiriam somente para nos servir de alimento e de diverso. Essa idia  o motivo de uma
antiga guerra de morte entre meus e nossos irmos inimigos, os renegados. Voc lhes viu com
seus prprios olhos, essa noite fora da discoteca.
        --Voc estava ali?
        Assim que o houve dito, deu-se conta de que ele estava ali. Recordou esse rosto lhe
impactante e os olhos ocultos atrs dos culos escuros que a tinham estado observando entre
a multido. Inclusive ento ela havia sentido uma conexo com ele, nesse breve olhar que
pareceu toc-la A pesar da fumaa e da escurido da sala.
        --Eu tinha estado perseguindo a esse grupo de renegados durante uma hora --disse
Lucan--, esperando a oportunidade de saltar e acabar com eles.
        --Eram seis --recordou ela vividamente, que ainda via mentalmente essas seis caras
terrveis, esses olhos ferozes e brilhantes e essas presas.
        -- Foste enfrentar a eles voc sozinho?
        Ele se encolheu de ombros como indicando que no era algo pouco frequente que ele se
enfrentasse sozinho com muitos.
        --Essa noite tive um pouco de ajuda: voc e a cmera de seu telefone mvel. O flash
lhes surpreendeu e me deu a oportunidade de atacar.
      --Matou-lhes?



      --A todos menos a um. Mas lhe apanharei, tambm.


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         Ao ver a ferocidade de sua expresso, Gabrielle no ficou nenhuma dvida de que o
faria.
       --A polcia mandou um carro patrulha Aos subrbios da sala de festas quando lhes
informei do assassinato. No encontraram nada. Nenhuma prova.
       --Assegurei-me de que no o fizessem.
       --Fez-me ficar como uma idiota. A polcia insistia em que eu estava inventando isso
tudo.
       --Melhor assim, lhes dar pistas sobre as batalhas reais que tiveram lugar nas ruas dos
seres humanos durante sculos. Pode imaginar o pnico a grande escala que haveria pelo
mundo se comeassem a haver notcias de ataques de vampiros?
       -- isso o que est acontecendo? Este tipo de assassinatos esto sucedendo todo o
momento em todas partes?
       --Ultimamente cada vez mais. Os renegados so um grupo de viciados que somente se
preocupam da prxima dose. Pelo menos, essa foi sua maneira de atuar at recentemente. Mas
agora est acontecendo algo. Esto-se preparando. Esto-se organizando. Nunca foram to p-
erigosos como agora.
       --E graas as fotos que fiz fora da discoteca, esses vampiros renegados me esto
perseguindo.
       --O incidente que presenciou atraiu sua ateno para ti, sem dvida, e qualquer ser
humano significa uma boa diverso para eles. Mas o mais provvel  que sejam as outras fotos
que tem feito as que lhe puseram em maior perigo.
       -- Que outras fotos?

        --Essa, por exemplo.
        Assinalou uma fotografia emoldurada que estava pendurada na parede da sala de
estar. Era uma tomada exterior de um velho armazm de uma das zonas mais desoladas da
cidade.
        --O que te levou a fazer a fotografia desse edifcio?
        --No sei, exatamente --disse ela, que nem sequer estava segura de por que tinha
emoldurado essa foto. Somente olhando-a nesses momentos o fazia sentir um calafrio nas
costas.
       -- Nunca tinha ido a essa parte da cidade, mas me lembro que essa noite fui por um
lugar equivocado e acabei me perdendo. Algo atraiu minha ateno para esse armazem, mas
no posso explic-lo realmente. Estava terrivelmente nervosa de estar ali, mas no podia ir
sem fazer umas quantas fotos desse lugar.
        O tom de voz de Lucan foi de uma extrema gravidade.
        --Eu, junto com vrios guerreiros da raa que trabalham comigo, estivemos nesse
lugar faz um ms e meio. Era uma guarida dos Renegados que albergava a quinze de nossos
inimigos.
      Gabrielle ficou olhando boquiaberta.
      --H vampiros vivendo nesse edifcio?
      --Agora j no. --Ele passou por seu lado e foi at a mesa da cozinha, onde havia umas
quantas fotos mais e entre as quais se encontravam algumas das que tinha feito no
psiquitrico abandonado, fazia to somente um par de dias. Levantou uma das fotos e a
mostrou.

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        -- Estivemos vigiando esta localizao durante semanas. Temos motivos para acreditar
que se trata de uma das colnias de renegados maiores de Nova a Inglaterra.
        --OH, Meu Deus. --Gabrielle olhou a foto do psiquitrico e quando a voltou a deixar
em cima da mesa, os dedos lhe tremiam um pouco.
      -- Quando fiz essas fotografias, a outra manh, um homem me encontrou al. Perseguiu-
me at que sa da propriedade. No acreditar que era...?
        Lucan negou com a cabea.
        --Um servente, no um vampiro, se lhe viu depois da sada de sol. A luz do sol  um
veneno para ns. Essa parte da superstio  verdade. A pele nos queima rapidamente, como a
tua se a expuser debaixo de um poderoso cristal de aumento ao meio-dia.
        --E por isso sempre te vi de noite --murmurou ela, pensando nas visitas que lhe tinha
feito Lucan desde a primeira, quando ele tinha comeado a lhe mentir.
        -- Como pude estar to cega quando tinha todas as pistas diante de mim?
        --Possivelmente no queria as ver, mas sabia, Gabrielle. Suspeitava que a matana que
tinha presenciado era algo que estava alm do que podia explicar a partir de sua experincia
como ser humano. Esteve a ponto de me dizer isso a primeira vez que nos encontramos. Em
algum nvel de sua conscincia, sabia que se tratava de um ataque de vampiros.
        Ela sabia, inclusive ento. Mas no tinha suspeitado que Lucan formava parte disso.
Uma parte dela ainda queria negar essa idia.
        --Como  possvel que isto seja real? --gemeu ela, deixando cair na cadeira que tinha
mais perto. Olhou as fotos que estavam espalhadas na mesa que tinha diante e logo olhou o
rosto srio de Lucan. Estava a ponto de comear a chorar, sentia que os olhos lhe ardiam e
que no pescoo lhe formava um n, como se queria negar desesperadamente tudo isso.
        -- Isto no pode ser real. Deus, por favor, me diga que isto no est acontecendo de
verdade.



     Captulo dezenove

      Ele tinha dado muita informao essa noite para que a digerisse. No toda, mas mais que
suficiente para uma noite.
        Lucan tinha que confiar em Gabrielle. A parte dessa pequena amostra de
irracionalidade com o alho e a gua benta, ela tinha mantido uma incrvel serenidade durante
uma conversao que era, sem lugar a duvida, bastante difcil de assimilar.
      Vampiros, a chegada de extraterrestres, a guerra iminente com os renegados que, por
certo, estavam perseguindo a ela tambm.
        Ela tinha escutado tudo com uma fortaleza que muitos homens humanos no tinham.
        Lucan a observou enquanto ela se esforava em processar a informaes, sentada na
mesa e com a cabea apoiada nas mos. Uma lagrimas tinham comeado a deslizar-se por suas
bochechas. Ele desejou que houvesse uma maneira de lhe fazer esse caminho mais fcil. Mas
no havia. E as coisas iam piorar para ela quando conhecesse toda a verdade do que lhe
esperava.
        Por sua prpria segurana, e pela segurana da raa, ela ia ter que abandonar seu
apartamento, a seus amigos, sua carreira. Teria que deixar atrs tudo o que tinha sido parte de
sua vida at esse momento.

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      E teria que faz-lo essa noite.
      --Se tiver outras fotografias como estas, Gabrielle, tenho que as ver.
      Ela levantou a cabea e assentiu.
      --Tenho-o tudo no computador --disse, apartando o cabelo do rosto.

        --E o que me diz das que tem na habitao escura?
        --Esto no computador tambm, igual a todas as imagens que vendi atravs da galeria.
        --Bem. --O fato de que ela tivesse mencionado essas vendas lhe dpertou um alarme.
        -- Quando estive aqui faz umas quantas noites, mencionaste que tinha vendido uma
coleo inteira a algum. Quem era?
        --No sei. Era um comprador annimo. O comprador contratou uma amostra privada
em um apartamento de cobertura alugado do centro da cidade. Viram umas quantas imagens
e logo pagaram em dinheiro por todas elas.
        Ele soltou um juramento, e a expresso tensa de Gabrielle se transformou em uma de
terror.
        --OH, Meu deus. Acredita que foram os renegados quem as compraram?
        O que Lucan estava pensando era que se fosse ele quem se encontrasse  frente da
direo atual dos renegados, estaria extremamente interesado em adquirir uma arma que
pudesse dar com as localizaes de seus oponentes. Por no dizer que tentaria frustrar a
capacidade de seus inimigos de utilizar essa arma em seu prprio benefcio.
        Ter a Gabrielle seria um bem extraordinrio para os renegados, por muitas razes. E
quando a tivessem em sua posse, no demorariam muito tempo em descobrir sua marca de
companheira de raa. Abusariam dela como se fosse uma vulgar gua de cria, obrigariam-na a
ingerir seu sangue e a levar sua semente at que seu corpo sucumbisse e morre-se. Isso
demoraria anos, dcadas, sculos.
        --Lucan, meu melhor amigo levou as fotos a mostra essa noite, ele sozinho. Tivesse-me
morrido se lhe tivesse passado algo. Jamie se meteu ali sem saber nada sobre o perigo com que
se enfrentava.
        --Te alegre disso, porque essa , provavelmente, a razo pela que saiu com vida.

       Ela retrocedeu como se lhe tivesse dado um bofeto.

       --No quero que meus amigos sofram nenhum dano por causa do que me est
acontecendo .
       --Voc est em um perigo maior que ningum, agora mesmo. E temos que nos mover.
Vamos tirar essas fotos de seu computador. Quero as levar todas ao laboratrio do recinto.
        Gabrielle lhe levou at uma ordenada mesa que tinha em uma esquina da sala de estar.
Ligou o computador de mesa e enquanto este se carregava, Gabrielle tirou um par de cartes
de cor e colocou uma delas na entrada da USB.
        --Sabe? Disseram que estava louca. Chamaram-na delirante, esquizofrnica paranica.
Encerraram-na por acreditar que tinha sido atacada por alguns vampiros.
     --Gabrielle riu em voz baixa, mas foi uma risada triste e vazia.
     -- Possivelmente no estava louca, depois de tudo.
        A suas costas, Lucan se aproximou.
     --De quem falas?

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     --De minha me. --depois de iniciar o processo de cpia, Gabrielle se girou na cadeira
para olhar a Lucan.
      -- A encontraram uma noite em Boston, ferida, ensangentada e desorientada. No
tinha nem o moedeiro nem a bolsa, nem levava nenhum tipo de documentao em cima, e
durante os breves perodos de tempo em que estava lcida, no foi capaz de dizer a ningum
quem era, assim que a ficharam como annima. Era s uma adolescente.
     --Diz que estava sangrando?
      --Vrias feridas no pescoo: aparentemente se havia autolesionado, conforme os
informe oficiais. O tribunal a julgou incapaz de agentar um julgamento e a encerraram em
uma instituio mental quando saiu do hospital.

     --Porra, merda.
         Ela negou com a cabea, devagar.
      --Mas e se tudo o que disse foi verdade? E se no estava louca em absoluto? OH, Deus,
Lucan... todos estes anos a estive culpando. Acredito que inclusive a odiei, e agora no posso
evitar pensar...
       --H dito que a polcia e o tribunal a julgaram. Refere-te a que cometeu algum tipo de
crime?
     O computador apitou indicando que o carto de cor estava cheio. Gabrielle se voltou
para continuar com a funo de copiado, e ficou nessa posio, lhe dando as costas. Lucan lhe
ps as mos nos ombros com suavidade e lhe fez voltar a d-la volta com a cadeira.
       --Do que acusaram a sua me?
       Por um comprido momento, Gabrielle no disse nada. Lucan viu que tragava saliva.
Seus olhos expressavam uma grande dor.
       --Acusaram-na de abandonar a um beb.
       --Quantos anos tinha voc?
       Ela se encolheu de ombros e logo negou com a cabea.
       --Nada. Um beb. Meteu-me em um cesto de papis, fora do edifcio de seu
apartamento. Era s a uma quadra de onde a polcia a deteve. Por sorte para mim, um dos
policiais decidiu registrar os arredores. Ouviu-me chorar, suponho, e me tirou dali.
       Deus Santo.
       Enquanto ela falava, na mente de Lucan cintilou uma lembrana. Viu uma rua escura, o
pavimento mido que brilhava sob a luz da lua, uma mulher com os olhos muito abertos e o
rosto transfigurado pelo horror, em p, enquanto um vampiro renegado lhe chupava o
pescoo. Ouviu o tnue pranto de um beb que a mulher levava nos braos.
       --E isso quando aconteceu?
       --Faz muito tempo. Vinte e sete anos, este vero, para ser exatos.
       Para algum da idade de Lucan, vinte e sete anos era um suspiro. Recordava
claramente ter interrompido esse ataque na estao de nibus . Recordava haver-se interposto
entre o renegado e sua presa, havia jogado dali a mulher com uma potente ordem mental. Ela
sangrava profusamente, e parte do sangue tinha caido em cima do beb.
       Depois de ter dado morte ao renegado e de ter limpo a estao, tinha ido em busca da
mulher com o beb. No lhes havia encontrado. Muitas vezes se perguntou o que lhes teria
passado aos dois, e se tinha amaldioado a si mesmo por no ter sido capaz de ter apagado
essas terrveis lembranas da memria da vtima.

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       --Ela se suicidou na instituio mental no muito tempo depois -- disse Gabrielle.
       -- J me tinha adotado a administrao.
         Ele no pde evitar toc-la. Apartou-lhe o comprido cabelo do rosto com suavidade,
acariciou-lhe a delicada linha que formava a mandbula e a orgullosa forma do queixo. Tinha
os olhos midos, mas no as derrubou. Era uma mulher dura, de acordo. Dura e bonita e
incrivelmente especial.
         Nesse momento, ele no queria outra coisa que no fosse tom-la entre os braos e
dizer-lhe
         --Sinto-o --lhe disse, com absoluta sinceridade. E com tristeza, algo que no estava
acostumado a sentir. Mas, desde que a conhecia, Gabrielle o fazia sentir muitas coisas que
eram completamente novas para ele.
     -- Eu sinto pelas duas.
     O computador voltou a apitar.

        --J esto todas --disse ela, levantando a mo como se fosse acaricia-lo; mas no foi
capaz de faz-lo, ainda.
        Ele deixou que se tornasse atrs e sentiu uma ligeira espetada de remorso quando ela
se apartou em silncio.
       Se apartando dele como o estranho que agora era para ela.
        Observou-a enquanto ela tirava o ltimo carto de cor e a colocava ao lado da outra.
Quando comeou a fechar o programa, Lucan disse:
        --Ainda no. Tem que apagar os arquivos de imagens do computador e das cpias de
segurana que tenha. As cpias que nos levemos daqui tm que ser quo nicas fiquem.
        --E o que fazemos com as cpia impressas? As que h aqui em cima da mesa, as que
tenho abaixo, na sala escura.
       --Voc fique aqui. Eu vou procurar as impresses.
       --De acordo.
        Ela ficou a trabalhar imediatamente e Lucan fez uma rpida inspeo no resto do
apartamento. Reuniu todas as fotos soltas que encontrou, includas as fotos emolduradas
tambm: no queria deixar nada que pudesse ser de utilidade para os renegados. Encontrou
uma bolsa grande no armrio do dormitrio de Gabrielle e a baixou para ench-la.
        Enquanto terminava de colocar as fotos e fechava a bolsa, ouviu o grave rugido de um
carro potente que estacionava fora da casa. Abriram-se duas portas, logo se fecharam com um
golpe, e uns passos potentes se acercaram ao apartamento.
       --H algum --disse Gabrielle, olhando com seriedade a Lucan enquanto desligava o
computador.

       Lucan j tinha introduzido a mo debaixo do casaco e havia a levado a suas costas,
onde tinha uma Beretta de nove milmetros metida no cinturo da cala. A arma estava
carregada com a munio mais potente que podia disparar, umas balas de titnio especiais
para aniquilar aos renegados, uma das ltimas inovaes do Niko. Se ao outro lado da porta
havia um deles, esse filho da puta sedento de sangue iam sofrer um grande dano.
       Mas imediatamente se deu conta de que no se tratava dos Renegados. Nem sequer dos
serventes, o qual teria dado certa satisfao a Lucan.
       Eram humanos os que se encontravam na entrada. Um homem e uma mulher.

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          --Gabrielle? --O timbre da porta soou vrias vezes em uma rpida sucesso--. Ol?
Gabby? Est a?
       --OH, no.  minha amiga Megan.
       --A da casa onde esteve a noite passada.
        --Sim. Esteve-me chamando durante todo o dia, e me deixou recados. Est preocupada
comigo.
         --O que lhe contaste?
         --Sabe o da agresso no parque. Disse-lhe que me atacaram, mas no lhe disse nada de
ti... pelo que fez.
         --Por que no?
       Gabrielle se encolheu de ombros.
         --No queria coloc-la nisto. No quero que se meta em nenhum perigo por minha
culpa. Por culpa de tudo isto. --Suspirou e meneou a cabea.
       --Possivelmente no queria dizer nada de ti at que no tivesse eu mesma algumas
respostas.
         O timbre da porta soou outra vez.
         --Gabby, abre! Ray e eu temos que falar contigo. Precisamos saber se estiver bem.
         --Seu noivo  policial --disse Gabrielle em voz baixa--. Querem que faa uma
declarao sobre o que aconteceu a outra noite.
       --H uma sada traseira do apartamento.
          Ela assentiu com a cabea, mas logo pareceu trocar de idia e fez um gesto negativo.
          D a um ptio compartilhado, mas h uma cerca muito alta...
          --No h tempo --disse Lucan, descartando essa opo.
          -- V a porta. Deixa entrar seus amigos.
          --O que vais fazer? --Viu que ele acabava de tirar a mo do casaco e que escondia a
arma a suas costas. A expresso de Gabrielle se encheu de pnico.
       --Tem uma arma a detrs? Lucan, no lhe vo fazer nada. E me assegurarei de que no
contem nada.
         --No vou utilizar a arma com eles.
         --Ento, o que vais fazer? --depois de ter evitado de forma to deliberada lhe tocar,
por fim o fez. Sujeitou-lhe o brao com as pequenas mos.
        -- Deus, por favor, me diga que no lhes vais fazer mal.
         --Abre a porta, Gabrielle.
         Suas pernas se moviam com lentido em direo a porta de entrada.
       Abriu o ferrolho e ouviu a voz de Megan ao outro lado da porta.

        --Est a dentro, Ray. Est na porta. Gabby, abre, querida. Est bem?
        Gabrielle soltou a correia sem dizer nada. Sem saber se devia tranqilizar a sua amiga
lhe dizendo que estava bem ou se devia gritar a Megan e a Ray que partissem correndo dali.
        Olhou para trs, a Lucan, mas isso no lhe deu nenhuma pista. Seus rasgos agudos no
mostravam nenhuma emoo nem se moveram. Tinha os olhos chapeados fixos na porta,
frios, sem piscar. Suas mos, poderosas, estavam vazias e as tinha baixado a ambos os lados
do corpo, mas Gabrielle sabia que podiam entrar em movimento sem nenhum tipo de aviso.
        Se ele queria matar a seus amigos, inclusive a ela, por certo, faria-o antes de que
nenhum deles se desse conta.

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      --Deixe-lhes entrar --lhe disse com um grunhido grave.
      Gabrielle girou o trinco devagar.
      Somente tinha aberto a porta um pouco quando Megan a empurrou e a abriu por
completo para entrar com seu noivo, vestido de uniforme, detrs.
      --Por todos os Santos, Gabrielle! Tem idia de quo preocupada estive? Por que no
me h devolvido as chamadas? --Deu-lhe um forte abrao e logo a soltou e a olhou com o
cenho franzido, como uma me zangada--. Parece cansada. Estiveste chorando? Onde h... ?
      Megan se interrompeu repentinamente; seus olhos, e os do Ray, perceberam de repente
a imagem de Lucan em meio da sala de estar, detrs do Gabrielle.
      --OH, no me tinha dado conta de que estava com algum...
      --Tudo est bem aqui? --perguntou Ray, dando um passo alm das duas mulheres
enquanto levava uma mo sobre a arma embainhada.

       --Bem. Tudo est bem --reps rapidamente Gabrielle. Levantou uma mo para
assinalar  Lucan-- , isto... um amigo.
       --Vai a alguma parte? --O noivo de Megan deu um passo para diante e fez um gesto
em direo  bolsa que se encontrava no cho aos ps de Lucan.
       --Isto, sim --interveio Gabrielle enquanto se colocava rapidamente entre o Ray e
Lucan--. Estava um pouco nervosa esta noite. Pensei em ir a um hotel e me tranqilizar um
pouco. Lucan veio para me levar.
       --Certo. --Ray tentava olhar para detrs de Gabrielle, em direo a Lucan, que
permanecia com uma arruda atitude silenciosa. A custica atitude de Lucan indicava que j se
formou uma opinio desse jovem policial e de que lhe desprezava.
       --Oxal no tivessem vindo, meninos --disse Gabrielle. E era verdade.
       -- De verdade, no tm por que ficar.
       Megan avanou e tomou a mo de Gabrielle entre as suas com um gesto protetor.
       --Ray e eu estvamos pensando que possivelmente o tivesse reconsiderado e queria vir
a delegacia de polcia, querida.  importante. Estou segura de que seu amigo est de acordo
conosco. Voc  o detetive de quem Gabby me falou, verdade? Sou Meg.
       Lucan deu um passo. Com esse pequeno movimento se colocou justo diante de Megan
e do Ray. Foi uma flexo to rpida dos msculos que o tempo pareceu deter-se ao seu redor.
Gabrielle lhe viu dar uma srie de passos seguidos, mas seus amigos ficaram assombrados ao
encontrar a Lucan justo diante deles, imponente em sua altura e com um ar ameaador que
vibrava ao seu redor.
        Sem advertncia prvia, levantou a mo direita e sujeitou a Megan pela frente.
     --Lucan, no!



       Meg gritou, um som que se afogou em sua garganta imediatamente assim que olhou a
Lucan aos olhos. Com uma velocidade inverossmil, Lucan levantou a mo esquerda e sujeitou
 Ray da mesma maneira. O agente se debateu um segundo, mas imediatamente caiu em um
estupor como de transe. Os fortes dedos de Lucan pareciam ser o nico que os mantinha em
p a ambos.
     --Lucan, por favor! Suplico-lhe isso!
     --Recolhe os cartes de cor e a bolsa --lhe disse com calma. Era uma ordem fria.

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      -- Tenho um carro esperando fora. Entra e me espere a. Saio em seguida.
        --No vou deixar te aqui para que chupe o sangue de meus amigos.
        --Se essa tivesse sido minha inteno, agora j estariam atirados no cho e mortos.
      Tinha razo. Deus, mas no tinha nenhuma dvida de que este homem, este ser obscuro
a quem j tinha aceito em sua vida, era o bastante perigoso para faz-lo.
        Mas no o tinha feito. E no o ia fazer; nisso confiava nele.
        --As fotos, Gabrielle. Agora.
        Ela ficou em movimento. Recolheu a avultada bolsa, a pendurou do ombro e se meteu
os dois cartes de cor no bolso de diante da cala. Ao sair se deteve um momento para olhar o
rosto plido de Megan. Agora tinha os olhos fechados, igual a Ray. Lucan lhes estava dizendo
algo em um murmrio que ela no pde ouvir.
        O tom de sua voz no parecia ameaador, a no ser extranhamente tranquilizador,
persuasivo. Quase como uma cano de ninar.

     Gabrielle jogou uma ltima olhada a estranha cena que tinha lugar na sala de estar e saiu
pela porta  rua. Na esquina havia um elegante Sedam, estacionado em paralelo diante do
Mustang vermelho do Ray. Era um veculo caro, incrivelmente caro pelo aspecto que tinha, e o
nico outro carro que havia ali.
       Enquanto se aproximava dele, a porta do copiloto se abriu como se a tivessem acionado
automaticamente. Como se a tivesse acionado a fora mental de Lucan. Soube, e se perguntou
at que ponto chegavam esses poderes paranormais.
       Acomodou-se no amplo assento de pele e fechou a porta. Ainda no tinham acontecido
dois segundos quando Megan e Ray apareceram na entrada. Baixaram tranqilamente os
degraus e passaram por seu lado com o olhar fixo para diante. Nenhum dos dois disse
nenhuma palavra.
       Lucan estava justo detrs deles. Fechou a porta do apartamento e se dirigiu at o carro,
onde lhe estava esperando Gabrielle. Subiu, introduziu a chave no contato e ligou o motor.
       --No era uma boa idia lhes deixar ali--lhe disse enquanto deixava cair a bolsa dela e
a cmara em seu regao.
     Gabrielle lhe olhou.
       --Exerceste alguma classe de controle sobre eles, igual a tentou faz-lo comigo antes.
       --Sugestionei-lhes para que acreditem que no estiveram em seu apartamemoro esta
noite.
     --Apagaste-lhes a memria?
     Inclinou a cabea em um vago gesto de assentimento.
       --No recordaro nada desta noite, nem de que foi ao apartamento de Megan a outra
noite depois de que o servente te agredisse. Suas mentes j no recordaro nada disso.

       --Sabe? Justo agora isto sonha muito bem. O que me diz, Lucan? Eu vou ser a seguinte?
Poderia apagar minha mente a partir do momento em que decidi ir aquela discoteca, faz um
par de semanas.
       Ele a olhou nos olhos, mas a Gabrielle no pareceu que tentasse introduzir-se em sua
mente.



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       --Voc no  como esses humanos, Gabrielle. Embora queria faz-lo, no poderia trocar
nada do que te aconteceu. Sua mente  mais forte que a da maioria das pessoas. Em muitos
aspectos, voc  diferente da maioria.
       --V, sinto-me muito afortunada.
       --O melhor lugar para ti agora  onde os da raa lhe possam proteger como a um dos
seus. Temos um recinto oculto na cidade. Pode ficar a, para comear.
     Ela franziu o cenho.
       --O que? Est-me oferecendo o equivalente vamprico ao Programa de Amparo de
Testemunhas?
       -- um pouco mais que isso. --Ele girou a cabea e olhou atravs do prabrisas.
     -- E  a nica maneira.
       Lucan apertou o acelerador e o elegante carro negro se precipitou pela estreita estrada
com um rugido grave e suave. Gabrielle se sujeitou com ambas as mos no assento de pele e
observou a escurido que lentamente se tragava seu edifcio do Willow Street.
       Ao afastar-se, viu as vagas silhuetas de Megan e do Ray que entravam no Mustang para
afastar-se de seu apartamento, sem recordar o que tinha passado. Gabrielle sentiu um
repentino pnico e desejou saltar do carro e correr para eles, de volta a sua vida anterior.

      Muito tarde.
       Sabia.
       Esta realidade nova a tinha apanhado, e no acreditava que houvesse maneira de
voltar atrs. Somente ficava continuar para frente. Apartou o olhar do cristal traseiro e se
afundou na suavidade do assento de pele com o olhar cravado para diante enquanto Lucan
girava uma esquina e conduzia no meio da noite.



     Captulo vinte

      Gabrielle no sabia quanto fazia que estavam viajando, nem sequer em que direo.
Ainda se encontravam na cidade, isso sabia, mas os mltiplos giros que tinham dado e os
muitos becos que haviam entrado tinham formado um labirinto na mente de Gabrielle. Olhou
fora do cristal preto do Sedam, vagamente consciente de que por fim se estavam detendo,
agora que se aproximavam do que parecia ser um amplo terreno de um velho imovel.
        Lucan se deteve diante de um muito alto porto de ferro negro. Dois facho de luz
caram sobre eles desde dois pequenos aparelhos que se encontravam pendurados A ambos os
lados da cerca de alta segurana. Gabrielle piscou, deslumbrada pela sbita luz que lhe caa no
rosto, e logo viu que as pesadas portas comeavam a abrir-se.
        --Isto  teu? --perguntou-lhe, girando a cabea para Lucan pela primera vez desde que
se foram do apartamento.
      -- Estive aqui antes. Fiz fotos desta porta.
        Atravessaram as portas e avanaram por um caminho sinuoso flanqueado por rvores
A ambas as lados.
        --Esta propriedade forma parte do complexo. Pertence  raa.
        Era evidente que ser um vampiro era uma atividade lucrativa. Inclusive apesar da
escurido, Gabrielle percebia a qualidade enriquecida desse terreno cuidado e da fachada

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ornamentada da manso a que se estavam aproximando. Duas rotas flanqueavam as portas
negras laqueadas e o impressionante prtico da entrada principal, em cima do qual se
levantavam quatro elegantes pisos.
       Em algumas das janelas se via uma luz de ambiente no interior, mas Gabrielle tinha
dvidas em qualificar esse ambiente de acolhedor. A manso se levantava ameaadora como
um sentinela em meio da noite, estico e srio, com todas essas grgulas que lhes olhavam do
telhado e os balces que davam ao caminho.

        Lucan passou por diante da porta de entrada e se dirigiu a uma garagem detrs.
Abriu-se uma porta e ele conduziu o carro para dentro e desligou o motor. Quando os dois
saram do carro, duas filas de luzes se acenderam automaticamente e iluminaram uma frota
de veculos de ltima gerao.
        Gabrielle ficou boquiaberta. Entre o Sedam, que custava quase tanto como seu modesto
apartamento no Beacon Hill, e a coleo do carros e motocicletas, devia encontrar-se ante um
conjunto de carros de um valor de milhes de dlares. Muitos milhes.
        --Por aqui --lhe disse Lucan. Levava a bolsa com as fotos em uma mo e a conduziu
por diante da impressionante coleo de carros at uma porta que se encontrava ao fundo da
garagem.
        --Quanto dinheiro tem sua gente? --perguntou ela, lhe seguindo com assombro.
        Lucan lhe fez um gesto para que entrasse assim que a porta se abriu. Logo entrou no
elevador detrs dela e apertou um boto.
        --Alguns membros da nao dos vampiros esto aqui a muito tempo. Aprendemos
umas quantas coisas a respeito de como manter o dinheiro de forma inteligente.
        --Certo --disse ela, sentindo que perdia um pouco o equilbrio enquanto o elevador
iniciava uma suave mas rpida descida, para baixo, abaixo, abaixo--. Como mantm isto
oculto ao pblico? O que acontece a administrao e os impostos? Ou suas operaes so em
negro?
        --A gente no pode atravessar nosso sistema de segurana, nem se queira embora o
tentem. Todo o permetro da propriedade est cercado e eletrizado. Quem for to estpido
para aproximar-se dela receberia uma descarga de quatorze mil volts. Pagamos os impostos
atraves de empresas coberta,  obvio. Nossas propriedades por todo mundo so propriedade
de fundaes privadas. Tudo o que a raa faz  legal e o faz de forma aberta.

      --Legal e transparente, exato. --Ela riu, um pouco nervosa.
      -- Sem ter em conta a ingesto de sangue e a linhagem extraterrestre.
      Lucan a olhou com expresso sria, mas Gabrielle sentiu certo alvio ao ver que uma
comissura dos lbios lhe levantava e desenhava algo parecido a um sorriso.
      --Agora eu levarei as cpias --lhe disse. Seus penetrantes olhos cinzas claros a
observaram enquanto ela se tirava os cartes de cor da cala e as depositava na mo.
      Ele fechou a mo ao redor da dela um segundo. Gabrielle sentiu o calor desse contato,
mas no quis reconhec-lo. No queria admitir que o mais ligeiro contato com sua pele lhe
provocava, nem sequer agora.
      Especialmente agora.
      Finalmente, o elevador se deteve e suas comporta se abriram ante uma antiga habitao
construda com paredes de cristal reforadas com brillantes marcos metlicos. O estou

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acostumado a era de mrmore branco, com uma srie de smbolos geomtricos e de desenhos
que se entrelaavam esculpidos nele. Gabrielle viu que alguns deles eram parecidos com os
que Lucan tinha em seu corpo: essas estranhas e bonitas tatuagens que lhe cobriam as costas e
o torso.
       No, no eram tatuagens, pensou nesse momento, a no ser outra coisa...
       Marcas de vampiro.
       Em sua pele, e ali, nesse buraco sob o cho onde vivia.
       Mais  frente do elevador, um corredor se afastava e serpenteava durante umas quantas
centenas de metros. Lucan avanou um pouco e fez uma pausa para olhar a Gabrielle, ao dar-
se conta de que ela duvidava em lhe seguir.
       --Est segura aqui --disse ele.

       Que Deus a ajudasse, mas lhe acreditou.
       Ela avanou pelo mrmore nveo com Lucan, e agentou a respirao enquanto ele
colocava a palma da mo sobre um leitor e as portas de cristal diante dele se abriam. Um ar
frio banhou a Gabrielle, e ouviu um rugido apagado de vozes masculinas que provinham de
algum ponto ao final da sala. Lucan a conduziu em direo a conversao com passos largos e
decididos.
       Deteve-se um momento diante de outra porta de cristal e, enquanto chegava ao seu
lado, Gabrielle viu o que parecia ser uma espcie de sala de controle. Havia computadores e
monitores alinhados em cima de um console em forma de Ou, e uns leitores digitais
emitiam uma srie de coordenada desde outro dispositivo cheio de equipamentos. No centro
de tudo isso, sentado em uma cadeira giratria como um diretor de orquestra, se encontrava
um jovem de aspecto estranho e de um cabelo loiro mal talhado e desordenado. Levantou o
olhar e seus brilhantes olhos azuis expressaram uma surpreendida bem-vinda assim que a
porta se abriu e Lucan entrou na sala com Gabrielle ao lado.
       --Gideon --disse Lucan, inclinando a cabea em sinal de saudao.
      Assim que este era o scio de quem lhe tinha falado, pensou Gabrielle, apreciando o
sorriso fcil e o comportamento amigvel do outro homem. Levantou-se da cadeira e saudou
Lucan com um gesto da cabea e, logo, a Gabrielle.
       Gideon era alto e magro, com um atrativo juvenil e um encanto evidente. No se
parecia com Lucan absolutamente. No se parecia como ela imaginava que seria um vampiro,
embora no tinha muita experincia nessa rea.
       --Ele ...?
       --Sim --respondeu Lucan, antes de que ela pudesse lhe sussurrar o resto da pergunta.
Deixou a bolsa em cima da mesa.
       --Gideon tambm  da raa. Igual a outros.
       Nesse momento Gabrielle se deu conta de que a conversao que tinha ouvido na outra
habitao enquanto se aproximavam tinha cessado.

      Sentiu outros olhos que a olhavam desde algum ponto de detrs dela, e ao voltar-se
para ver de onde provinha essa sensao, pareceu que os pulmes lhe esvaziaram por
completo. Trs homens enormes ocupavam o espao que havia a suas costas: a gente levava
umas calas confeccionadas sob medida, uma folgada camisa de seda e se encontrava
elegantemente acomodado em uma poltrona de pele; o outro ia vestido dos ps a cabea em

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couro negro, tinha os largos braos cruzados sobre o peito, e estava apoiado contra a parede
traseira; o ltimo, que levava jeans e uma camiseta branca, encontrava-se ante uma mesa na
qual havia estado limpando as partes de uma espcie de complicada arma de mo.
       Todos eles a estavam olhando.
       -- Dante --disse Lucan, dirigindo-se ao tipo todo vestido de couro, quem lhe dirigiu
uma ligeira inclinao de cabea a modo de saudao, ou possivelmente foi mas bem a modo
de reconhecimento de macho, a julgar pela maneira em que arqueou as sobrancelhas ao voltar
a olhar a Lucan.
       O irmo que est ali  Nikolai. --Assim que Lucan lhe houve presentado, o macho de
cabelo loiro dirigiu a Gabrielle um rpido sorriso. Tinha uns rasgos severos, umas mas do
rosto incrveis e uma mandbula decidida e forte. Inclusive enquanto a olhava, seus dedos
trabalham impecavelmente com a arma, como se conhecesse os componentes da pea de
forma instintiva.
       E este  Rio --disse Lucan, dirigindo a ateno para o macho sedutor e atrativo que
mostrava um imaculado sentido de estilo. Da poltrona em que se encontrava
despreocupadamente instalado, dirigiu- um deslumbrante sorriso a Gabrielle que mostrava
um atrativo inato e um perigo inequvoco oculto atrs desses olhos da cor do topzio.
       Essa ameaa emanava de todos eles: a constituio musculosa e as armas a vista
advertiam de forma inequvoca de que, apesar de seu specto depravado, esses homens
estavam acostumados a batalhar. Possivelmente inclusive desfrutavam com isso.
       Lucan colocou uma mo na base das costas de Gabrielle e ela se sobressaltou com esse
contato. Atraiu-a mais perto de si ante esses trs machos. Ela no estava totalmente segura de
se confiava nele, ainda, mas tal e como estavam as coisas, ele era o nico aliado que tinha
nessa habitao cheia de vampiros armados.

        --Apresento-lhes a Gabrielle Maxwell. A partir de agora vai ficar no complexo.
        Deixou essa afirmao no ar sem oferecer nenhuma explicao adicional, como se
desafiasse a que algum desses homens de aspecto letal o questiona-se. Nenhum o fez.
Gabrielle olhou a Lucan e, ao ver seu poder de mando em meio desse escuro poder e dessa
fora, Gabrielle se deu conta de que ele no era, meramente, um dos guerreiros.
        ele era seu lder.
        Gideon foi o primeiro em falar. Aproximou-se da zona de computadores e monitores e
ofereceu a mo a Gabrielle.
        --Me alegro de te conhecer --disse, com uma voz que tinha um ligeiro acento ingls.
      -- Foi uma reao rpida, a de tomar essas fotos durante o ataque que presenciou.
Ajudaram-nos muito.
      --Ok, nenhum problema.
        Lhe deu a mo brevemente e se surpreendeu de que ele resultasse to afvel, to
normal.
        Mas tambm Lucan lhe tinha parecido relativamente normal ao principio, e logo tudo
isso tinha trocado. Pelo menos, no lhe havia mentido ao lhe dizer que se levou as fotos ao
laboratrio para que as analisassem. Somente tinha esquecido lhe dizer que se tratava de um
laboratrio de vampiros, e no o da polcia de Boston.
        Um assobio agudo soou na mesa de computadores que havia ali ao lado e Gideon
voltou correndo ante os monitores.

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      --Sim! So um maravilhoso ramo de parafusos --gritou, sentando-se na cadeira e
girando sobre ela--. Meninos, devem ver isto.

     Especialmente voc, Niko.
     Lucan e outros se reuniram ao redor do monitor que banhava o rosto do Gideon com um
brilho azul plido. Gabrielle, que se sentiu um tanto incmoda em p, sozinha, em meio da
habitao, tambm se aproximou, devagar.
        --Consegui entrar e ver o material das cmeras de segurana da estao --disse
Gideon--. Agora vamos ver se podemos conseguir imagens da outra noite, e possivelmente
averiguar no que andava de verdade o bastardo que se levou a Conlan.
        Gabrielle observava em silencio da periferia enquanto vrias telas de computadores se
encheram de imagens de circuito fechado de plataformas de trem da cidade. As imagens
passavam uma atrs da outra a grande velocidade. Gideon arrastou a cadeira ao longo da
linha de computadoes , detendo-se ante cada um deles para teclar alguma instruo antes de
continuar at o seguinte e logo o seguinte. Finalmente, todo esse frentico desdobramento de
energia cessou.
        --De acordo, a est. Green Line em tela. --separou-se do monitor que tinha diante dele
para permitir que outros tivessem uma viso clara.
      -- Estas imagens da plataforma comeam trs minutos antes da confrontao.
     Lucan e outros se aproximaram enquanto as imagens mostravam um fluxo de gente
entrando e saindo de um trem. Gabrielle, que observava entre as enormes costas, viu o rosto
agora familiar do Nikolai na tela do monitor: ele e seu companheiro, um enorme e ameaador
macho vestido com couro negro, entravam em um trem. Justo acabavam de sentar-se quando
um dos passageiros atraiu a ateno do companheiro do Nikolai. Os dois guerreiros ficaram
em p, e justo antes de que as comporta se fechassem para arrancar, o menino a quem tinham
estado olhando saltou do trem. Nikolai e o outro homem ficaram em p, mas a ateno do
Gabrielle estava centrada na pessoa a quem queriam seguir.
        --OH, Meu deus --exclamou--. Conheo este tipo.

        Cinco pares de olhos de macho a olharam com expresso interrogadora.
        --Quero dizer, no lhe conheo pessoalmente, mas lhe vi antes. Sei como se chama.
Brent, pelo menos isso  o que disse a minha amiga Kendra. Conheceu-lhe na discoteca a
mesma noite em que eu presenciei o assassinato. Aps, viram-se cada noite, bastante a srio,
de fato.
        --Est segura? --perguntou-lhe Lucan.
        --Sim.  ele. Estou segura.
        O guerreiro que se chamava D soltou um violento juramento.
        -- um renegado --disse Lucan--. Ou melhor, era-o. Faz um par de noites, entrou no
trem do Green Line com um cinturo de explosivos. Fez-os estalar antes de que pudssemos
lhe tirar dali. Um de nossos melhores guerreiros morreu com ele.
        --OH, Deus. Refere a essa exploso da que falaram nas notcias ? --Olhou a Nikolai,
que tinha a mandbula apertada com fora.
        -- Eu sinto muito.
        --Se no fosse porque Conlan se jogou em cima desse chupo covarde, eu no estaria
aqui. Isso seguro.

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      Gabrielle se sentia realmente entristecida pela perda que Lucan e seus homens tinham
sofrido, mas um novo temor tinha aninhado em seu peito ao saber o perto que sua amiga tinha
estado do perigo do Brent.
       E se Kendra estava ferida? E se lhe tinha feito algo e ela necessitava ajuda?
       --Tenho que cham-la. --Gabrielle comeou a rebuscar em sua bolsa intentando
encontrar o telefone celular.
      -- Tenho que chamar Kendra agora mesmo e me assegurar de que est bem.

        Lucan lhe sujeitou o pulso com firmeza, embora sua atitude foi de splica:
        --Sinto muito, Gabrielle. No posso deixar que o faa.
        --Ela  minha amiga, Lucan. E o sinto, mas no pode me deter.
        Gabrielle abriu a tampa do telefone, mais decidida que nunca a fazer essa chamada.
Mas antes de que pudesse marcar o nmero da Kendra, o aparelho saiu voando das mos e
apareceu na mo de Lucan. Ele fechou a mo ao redor dele e o guardou no bolso da jaqueta.
     --Gideon --disse em tom de abrir conversao, apesar de que continuava olhando
fixamente a Gabrielle.
      -- Diga a Savannah que venha e que acompanhe a Gabrielle a uns aposentos mais
cmodos enquanto ns terminamos aqui. Que lhe traga algo para comer.
       --Devolva-me isso disse Gabrielle, sem fazer caso da surpresa dos outros ao ver que ela
desafiava o intento de Lucan de control-la.
     -- Preciso saber que se encontra bem, Lucan.
        Ele se aproximou dela e, por um segundo, ela teve medo do que pudesse lhe fazer ao
ver que ele alargava a mo para lhe tocar o rosto. Diante de outros, acariciou-lhe a bochecha
com ternura e com gesto possessivo. Falou com suavidade.
        --O bem-estar de seu amiga est fora de seu controle. Se esse renegado no lhe extraiu
antes o sangue, e me acredite,  o mais provvel, agora ele j no representa nenhum perigo
para ela.
        --Mas e se lhe fez algo? E se a converteu em um desses serventes?
        Lucan negou com a cabea.
        --Somente os mais capitalistas de nossa estirpe podem criar um servente. Esse merda
que se voou a si mesmo  incapaz de fazer algo assim. Somente era um peo.

        Gabrielle se separou de sua carcia apesar do consolo que seu contato lhe
proporcionava.
        --E se ele viu Kendra da mesma maneira? E se a entregou a algum que tem mais
poder que ele?
        A expresso de Lucan era grave, mas no mostrava nenhuma dvida. Seu tom foi mais
amvel do que nunca o tinha sido com ela, o qual s fazia que suas palavras resultassem mais
difceis de aceitar.
        --Ento tem que te esquecer dela por completo, porque  como se estivesse morta.



     Captulo vinte e um



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       -- Espero que o ch no esteja muito forte. Se quiser um pouco de leite, pode ir
procurar na cozinha.
       Gabrielle sorriu, sentindo-se verdadeiramente acolhida pela hospitalidade da
companheira do Gideon.
       --O ch est perfeito. Obrigado.
       Surpreendeu-se ao saber que havia outras mulheres no complexo e sentiu
imediatamente que entre a bonita Savannah e ela se estabelecia uma espcie de cumplicidade.
Do mesmo momento em que Savannah tinha ido, seguindo as ordens de Lucan, a procurar
Gabrielle, tomou-se muito aborrecida para assegurar-se de que ela se sentisse cmoda e
relaxada.
       To relaxada como era possvel, em qualquer caso, ao estar rodeada de vampiros
armados em um buraco de alta segurana a vrias centenas de metros clandestinamente.
Apesar de que nesse momento no o parecesse, sentada ali com a Savannah em uma larga
mesa de cerejeira, de uma elegante sala de estar, enquanto tomava um ch especiado e extico
servido em uma delicada taa de porcelana e uma suave msica soava de fundo.
       Essa habitao, ao igual que as espaosas sutes residenciais que a rodeavam,
pertenciam a Gideon e a Savannah. Pelo que parecia, viviam como um casal normal dentro do
complexo, em uns aposentos muito cmodos, rodeados por um suntuoso mobilirio, uma
quantidade inumervel de livros e de bonitos objetos de arte. Tudo era da melhor qualidade e
tudo estava impecavelmente cuidado, absolutamente distinto ao que algum poderia
encontrar em uma das caras manses do Back Bay. Se no fora pela ausncia de janelas, tivesse
sido quase perfeito. Mas inclusive essa falta estava compensada por uma impressionante
coleo de pinturas e fotografias que adornavam quase todas as paredes.
       --No tem fome?

        Savannah indicou com um gesto uma bandeja de prata repleta de massas e de bolachas
que se encontrava em cima da mesa, entre ambas. Ao lado da mesma havia outra brilhante
bandeja cheia de deliciosos canaps e molhos aromticos. Tudo tinha um aspecto e um aroma
maravilhoso, mas Gabrielle tinha perdido o apetite quase por completo da noite anterior,
quando tinha visto Lucan abrir a garganta desse servente com os dentes e, logo, beber seu
sangue.
        --No, obrigado --reps--. Isto  mais que suficiente agora mesmo.
        Surpreendia-lhe ser capaz de tragar-se inclusive o ch, mas este estava quente e era
relaxante, e esse calor lhe sentava bem to por dentro como por fora.
        Savannah a observou beber em silencio do outro lado da mesa. Seus olhos escuros
tinham uma expresso amistosa, e franzia o cenho com gesto cmplice. Tinha o cabelo
encaracolado, negro e curto e lhe cobria o bem formado crnio com um efeito mas bem
sofisticado por causa de seus impresionantes rasgos e de suas bonitas e femininas curvas.
Mostrava a mesma atitude aberta e fcil que Gideon, e esse era um rasgo que Gabrielle
apreciava muito depois de ter estado ante a atitude dominante de Lucan durante as ltimas
horas.
        --Bom, possivelmente voc sim seja capaz de resistir as tentaes --disse Sejavannah,
alargando a mo para tomar uma torrada--, mas eu no posso.



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       Lubrificou uma colherada de comestveis de nata em cima da torrada, rompeu um
pedao e o meteu na boca com um gemido de felicidade. Gabrielle se deu conta de que a tinha
ficado olhando, mas no pde evit-lo.
       --Come comida de verdade --disse, mais em tom de interrogao que de afirmao.
     Savannah assentiu com a cabea e se limpou as comissuras dos lbios com o guardanapo.
       --Sim,  obvio. Uma garota deve comer.

       --Mas eu pensei... Se voc e Gideon... Voc no  como ele?         Savannah franziu o
cenho e negou com a cabea.         --Sou humana, igual a voc.  que Lucan no te explicou
nada? --Algo. --Gabrielle se encolheu de ombros--. O suficiente como para que a cabea me
d voltas, mas ainda tenho muitas perguntas.
      -- obvio que as tem. Todo mundo as tem quando conhecem pela primeira vez este
mundo novo. --Alargou a mo e apertou a do Gabrielle com simpatia.
      -- Pode me perguntar algo. Sou uma das fmeas mais novas. Essa oferta fez que
Gabrielle se incorporasse no assento com renovado interesse.
     --Quanto faz que est aqui?         Savannah olhou para diante um momento, como se
contasse.
     --Abandonei minha antiga vida em 1974. Foi quando conheci Gideon e apaixonamo-nos
loucamente.
         --Faz mais de trinta anos --disse Gabrielle, maravilhada, observando os rasgos
juvenis, a pele escura e radiante e os olhos brilhantes da mulher do Gideon.
       -- Nem sequer me parece que tenha vinte anos. Savannah sorriu ampliamente.
     --Tinha dezoito anos quando Gideon me trouxe aqui como companheira.
     Ele me salvou a vida, na verdade. Tirou-me de uma situao difcil, e enquanto estejamos
unidos eu ficarei igual a estou. De verdade te pareo to jovem?
         --Sim.  muito bonita.

         Savannah soltou uma risadinha suave e deu outra dentada a torrada.
         --Como...? --perguntou Gabrielle, esperando que no resultasse de m educao o
insistir, mas se sentia to curiosa e estava to assombrada que no podia evitar fazer
perguntas.
       -- Se voc  humana e eles no pode nos converter em... o que eles so... ento, como 
possvel? Como  que no envelheceste?
         --Sou uma companheira de raa --reps Savannah, como se isso o explicasse tudo. Ao
ver que Gabrielle franzia o cenho, confundida, Savannah continuou.
       -- Gideon e eu temos um vnculo, emparelhamo-nos. Seu sangue me mantm jovem,
mas ainda sou humana aos cem por cem. Isso nunca troca, nem sequer quando nos unimos
com um deles como companheira. No nos saem presas e no ansiamos o sangue da maneira
em que eles o fazem para sobreviver.
        --Mas voc o deixou tudo para estar com ele, assim?
        --O que deixei? Passo minha vida com um homem a quem adoro completamente, e
que me quer da mesma forma. Os dois estamos ss, somos felizes e estamos rodeados de
outros que so como ns, que so nossa famlia. Alm da ameaa dos renegados, no temos
nenhuma preocupao aqui. Se tiver sacrificado alguma coisa, isso no  nada comparado com
o que tenho com o Gideon.

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       --E o que me diz da luz do sol? No a sente falta ao viver aqui?
       --Nenhuma de ns est obrigada a permanecer no complexo durante todo o tempo. Eu
passo muito tempo nos jardins da propiedade durante o dia, sempre que quero. O terreno 
muito seguro, ao igual que a manso, que  enorme. Quando cheguei aqui, ao princpio,
passei-me trs semanas explorando-o.
       Pela breve olhada que Gabrielle tinha jogado a esse lugar, se imaginava que demoraria
bastante tempo em familiarizar-se contudo.

       --Quanto a ir  cidade durante o dia, fazemo-lo as vezes, embora no muito
freqentemente. Tudo o que necessitamos o podemos pedir pela Internet e o entregam a
domiclio.
     --Sorriu e se encolheu de ombros--. No me interprete mal, eu adoro ir aos cafs e de
compras tanto como a qualquer, mas aventurar-se fora do complexo sem nossos companheiros
sempre implica certo risco. E eles se preocupam quando estamos em algum lugar onde no
podem nos proteger. Suponho que as fmeas que vivem nos Refgios Escuros tem um pouco
mais de liberdade durante o dia que as que estamos vinculadas com os membros desta classe
guerreira. Embora no ouvir nos queixar.
        --H mais companheiras de raa vivendo aqui?
        --H duas mais, alm de mim. Eva est vinculada a Rio. As duas lhe cairo bem... so
a alma das festas. E Danika  uma das pessoas mais doces que conheci nunca. Era a
companheira de raa do Conlan. Ele foi assassinado recentemente, em um enfrentamento com
um renegado.
        Gabrielle assentiu com gesto srio.
        --Sim, inteirei-me disso justo antes de que viesse para me trazer aqui. Sinto muito.
        --Tudo  distinto sem ele, mais silencioso. No sei como Danika vai levar , se te for
sincera. Estiveram juntos durante muitos, muitos anos. Conlan era um bom guerreiro, mas era
inclusive um melhor companheiro. Tambm era um dos membros mais antigos deste
complexo.
        --At que idade chegam?
        --OH, no sei. Muito avanada, para ns. Conlan nasceu da filha de um capito
escocs da poca do Colombo. Seu pai era um vampiro da raa daquela gerao, de faz
quinhentos anos.
        --Quer dizer que Conlan tinha quinhentos anos de idade?
        Savannah se encolheu de ombros.

        --Mais ou menos, sim. H alguns muito mais jovens, como Rio e Nikolai, que
nasceram neste sculo, mas nenhum deles viveu tanto tempo como Lucan. Ele pertence 
primeira gerao, filho dos Antigos, dos originrios e da primeira linha de companheiras de
raa que receberam suas sementes extraterrestres e deram a luz. Pelo que sei, esses primeiros
filhos da raa nasceram muito tempo depois de que os Antigos chegassem aqui, ao cabo de
vrios sculos, segundo a histria. Os membros da primeira gerao foram concebidos sem
desejo e completamente por sorte, cada vez que as violaes dos vampiros se faziam em
fmeas humanas cujo sangue tinha umas caractersticas nicas e cujo DNA era o bastante forte
para levar a cabo uma gravidez hbrida.


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        Gabrielle imaginou por um instante a brutalidade e a maldade que deveu ter tido lugar
nesses tempos.
      --Parece que eram animais, os Antigos.
      --Eram selvagens. Os renegados operam da mesma maneira e com a mesma falta de
considerao pela vida. Se no fosse por guerreiros como Lucan, Gideon e uns quantos mais
da Ordem que lhes do caa por todo mundo, nossas vidas, as vidas de todos os seres
humanos, estariam em perigo.
        --E o que me diz de Lucan? --perguntou Gabrielle com voz dbil--. Quo velho  ele?
        --Ah, ele  uma raridade, embora s seja por sua linhagem. Ficam muito poucos de sua
gerao.
        --A expresso de Savannah mostrava certa admirao e mais que respeito.
        -- Lucan ter uns novecentos anos, posivelmente mais.
        --OH, Meu deus. --Gabrielle se recostou na cadeira. Riu ante essa idia, mas ao mesmo
tempo se deu conta de que tinha sentido--. Sabe? A primeira vez que lhe vi, pensei que tinha
todo o aspecto de montar a cavalo brandindo uma espada e dirigindo a um exrcito de
cavalheiros a batalha. Tem esse tipo de porte. Como se fosse o proprietrio do mundo, e como
se tivesse visto tantas coisas que nada pode lhe surpreender. Agora sei por que.

        Savannah a olhou com expresso sbia e inclinou a cabea.
        --Acredito que voc foste uma surpresa para ele.
        --Eu? O que quer dizer?
        --Trouxe-te aqui, ao complexo. Nunca tem feito algo assim, no em todo o tempo que
faz que lhe conheo, nem tampouco antes pelo que me disse Gideon.
        --Lucan diz que me trouxe aqui para me proteger, porque agora os renegados vo
detrs de mim. Deus, eu no queria lhe acreditar, no queria acreditar nada de tudo isto, mas
 verdade, no?
        O sorriso do Savannah era clida e pormenorizada.
        --.
        --Vi-lhe matar a algum a outra noite, a um servente. Fez-o para proteger-me, sei, mas
foi to violento. Foi horrvel. --Sentiu que um calafrio lhe percorria as pernas ao recordar a
terrvel cena que teve lugar no parque dos meninos.
      -- Lucan mordeu a garganta do homem e se alimentou dele como uma espcie de...
        --Vampiro --reps Savannah em voz baixa, sem rastro de acusao nem de
condenao na voz  o que so, Gabrielle, desde que nasceram. No  nenhuma maldio nem
um desastre.  somente sua forma de viver, uma forma diferente de consumir ao que os
humanos tm aprendido que  normal. E os vampiros no sempre matam para alimentar-se.
De fato, isso no  habitual, pelo menos entre a populao geral da raa, includa a classe dos
guerreiros. E  algo completamente desconhecido entre os vampiros que tm vnculos de
sangue, como Gideon ou Rio, dado que seu alimento provm regularmente de suas
companheiras de raa.
        --Diz-o de uma forma que faz que parea normal --disse Gabrielle, franzindo o cenho
enquanto passava um dedo pelo bordo da taa. Sabia que o que Savannah lhe estava dizendo
tinha certa lgica, apesar de que era surrealista, mas aceitava que no ia ser fcil.
      -- Me aterroriza pensar no que ele , em como vive. Deveria lhe desprezar por isso.


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      --Mas no lhe despreza.
      --No --confessou ela em voz baixa.
      --Se preocupa por ele, verdade?
        Gabrielle assentiu com a cabea, resistindo a afirm-lo de palavra.
     --E tem uma relao ntima com ele.
     --Sim. --Gabrielle suspirou e meneou a cabea--. E de verdade, no  estpido? No sei
o que tem que me faz lhe desejar desta maneira. Quero dizer, mentiu-me e enganou a tantos
nveis que no posso nem enumer-los e, apesar de tudo isso, pensar nele faz que me tremam
as pernas. Nunca senti este tipo de necessidade com nenhum outro homem.
        Savannah sorria desde detrs da taa de ch.
        --So mais que homens, nossos guerreiros.
        Gabrielle deu um sorvo de ch, pensando que possivelmente no era sensato pensar
em Lucan como nada dela, a no ser que tivesse inteno de pr seu corao sob as botas dele
e ver como o pisoteava e o fazia p.
       --Estes machos so apaixonados por tudo o que fazem --acrescentou Savannah.
       -- E no h nada que possa comparar-se dando e recebendo quando h um vnculo de
sangue, especialmente enquanto se faz o amor.
     Gabrielle se encolheu de ombros.
       --Bom, o sexo  incrvel, no vou tentar neg-lo. Mas no tive esse tipo de vnculo de
sangue com Lucan.

      O sorriso do Savannah fraquejou um momento.

      --No te mordeu?

       --No. Deus, no. --Negou com a cabea, perguntando-se se podia sentir-se pior do
que se sentia.
       -- Nem sequer tentou provar meu sangue, pelo que sei. Esta mesma noite me jurou que
nunca o far.
       --OH. --Savannah deixou com cuidado a taa de ch na mesa.
       --Por que? Acha que o far?
       A companheira do Gideon pareceu pens-lo um momento e logo negou lentamente
com a cabea.
     --Lucan nunca faz uma promessa a ligeira, e no o faria com algo como isto. Estou
segura de que tem inteno de fazer exatamente o que te h dito.
       Gabrielle assentiu com a cabea, aliviada, Apesar de que a afirmao de Savannah lhe
soou quase como se acabasse de lhe dar os psames.
       --Vem --lhe disse, levantando-se da mesa e fazendo um sinal a Gabrielle para que a
seguisse.
      -- Vou mostrar-lhe o resto do complexo.
       --Algo novo a respeito desses glifos que vimos em nosso sujeito da Costa Oeste? --
perguntou Lucan enquanto atirava a jaqueta de pele nas cadeiras que se encontravam perto do
Gideon.
     Nesse momento estavam os dois ss no laboratrio: outros guerreiros se tinham ido
relaxar umas quantas horas antes de que Lucan desse as ordens para iniciar a limpeza noturna

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da cidade. Sentia-se contente de ter essa relativa intimidade. A cabea comeava a lhe pulsar,
ameaando com outra terrvel dor de cabea.

        --No consegui nada, sinto dizer. No apareceu nada na comprovao dos
antecedentes criminais, nem na busca no censo. Parece que nosso menino no est registrado,
mas isso no  pouco usual. Os registros da Base de dados de Identificao Internacional so
enormes, mas esto longe de ser perfeitos, especialmente no que tem que ver com vocs, os
membros da primeira gerao. S ficam uns quantos como voc por a e, por diferentes
raciocinio, nunca se ofereceram a ser processados nem catalogados, includo voc.
        --Merda --exclamou Lucan, apertando a ponte do nariz sem sentir nenhum alvio da
presso que cada vez sentia com mais fora na cabea.
        --Encontra-te bem, cara?
        --No  nada. --No olhou a Gideon, mas notava que o vampiro o olhava com
preocupao.
       --O superarei.
        --Eu, isto... Inteirei-me que o que aconteceu com voc e Tegan a outra noite. Os
meninos disseram que voc acabava de voltar de uma caada e que tinha mau aspecto. Seu
corpo ainda se est recuperando das queimaduras do sol, j sabe. Tem que tomar as coisas
com calma, te curar...
        --Hei-te dito que estou bem --lhe cortou Lucan, notando que lhe ardiam os olhos de
irritao e que seus lbios desenhavam uma careta e mostravam os dentes.
        Entre a presa que tinha caado na rua e o servente a quem tinha chupado o sangue no
parque, tinha ingerido sangue suficiente para todo o tempo de recuperao. A verdade era
que, apesar de que fsicamente estava satisfeito, ainda desejava mais.
        Encontrava-se em um terreno muito escorregadio, e sabia.
        A sede de sangue era, somente, permitir a queda.
        Controlar essa debilidade estava sendo cada vez mais difcil.

         --Tenho um presente para ti --disse Lucan, ansioso por trocar de tema. De um tapa,
deixou os dois cartes de cor em cima da mesa.
      --As carregue.
       --De verdade? Um presente para mim? Querido, no tinha que faz-lo -- disse Gideon,
voltando para sua habitual atitude jovial. J estava introduzindou uma delas na porta USB do
disco porttil da mquina que tinha mais perto. Na tela se abriu uma pasta que mostrou uma
larga lista de nomes no monitor. Gideon se deu a volta e olhou a Lucan com atitude pensativa.
      -- So arquivos de imagem. Um monto.
        Lucan assentiu com a cabea. Agora estava dando voltas pela habitao, cada vez mais
irritado e acalorado pelas brilhantes luz da habitao.
        --Necessito que observe cada uma delas e as compare com todas as localizaes de
quo renegados conhecemos da cidade, do passado, do presente assim como as suspeitas.
        Gideon abriu uma imagem aleatoriamente e soltou um suave assobio.
        --Esta  a guarida de renegados que tomamos o ms passado. --Abriu duas imagens
mais e as colocou uma ao lado da outra na tela do cimputador--. E o armazm que estivemos
vigiando durante duas semana... Jesus,  isto uma imagem do edifcio que est em frente do
Refgio Obscuro Quincy?

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     --H mais.
     --Filho da puta. A maioria destas imagens so de localizaes de vampiros, tanto de
renegados como da raa. --Gideon passou uma dzia de fotos mais.
       -- Ela as tem feito todas?
       --Sim. --Lucan fez uma pausa para olhar a tela. Assinalou uma srie de arquivos
datados da semana em curso.
     -- Abre este grupo.
       Gideon abriu as fotos com uns rpidos movimentos do mouse.



       --Deve estar tomando o cabelo. Ela tambm esteve nos arredores do psiquitrico?
Nesse lugar deve haver centenas de chupes.
       Lucan sentiu um aperto no estmago ante essa idia: o medo era como um cido na
boca do estmago. Sentia as vsceras revoltas, retorcidas por causa da necessidade de
alimentar-se. Mentalmente controlou a sede, mas lhe tremiam as mos e o suor comeava a lhe
aparecer na frente.
       --Um servente a encontrou e a perseguiu at que ela saiu da prpiedade --disse com a
voz rouca, como se tivesse terra na garganta, e no somente porque tinha o corpo
completamente decomposto.
       -- Teve muita sorte de poder escapar.
       --Pois sim. Como encontrou esse lugar? Quer dizer, como pde encontrar todos estes
lugares?
       --Diz que no sabe por que se sentiu atrada para eles.  uma especie de instinto
especial. Forma parte da habilidade que tem uma companheira de raa de resistir ao controle
mental de um vampiro e que lhe permite ver nossos movimentos apesar de que o resto de
seres humos no pode.
       --Chame-o como o chama, este tipo de habilidade nos pode resultar de grande ajuda.
       --Esquece-o. No vamos envolver a Gabrielle mais do que j se envolveu. Ela no
forma parte disto, e no a vou expor a mais perigos. De todas formas, no vai ficar aqui muito
tempo.
       --No cr que podemos proteg-la?
       --No vou permitir que fique em primeira linha de fogo quando uma guerra se est
gerando frente a nossas portas. Que tipo de vida seria esta?

       Gideon se encolheu de ombros.
       --Pois parece que a Savannah e Eva no vai mau.
       --Sim, e tambm foi uma festa para a Danika, ultimamente. --Lucan negou com a
cabea--. No quero que Gabrielle esteja perto desta violncia . Vai partir a um dos Refgios
Escuros logo que seja possvel. A algum lugar remoto que esteja o mais longe possvel, onde
os renegados no possam encontr-la nunca.
       E onde tambm estivesse a salvo dele. A salvo da besta que se retorcia dentro dele
inclusive nesses momentos. Se a sede de sangue finalmente lhe vencia --e ultimamente lhe
parecia que era somente uma questo de tempo--, queria que Gabrielle estivesse to longe
como fosse possvel.
     Gideon, muito quieto, olhava a Lucan.

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     --Se preocupa por ela.
       Lucan lhe devolveu o olhar e sentiu desejos de golpear algo, de destruir algo.
       --No seja ridculo.
       --Refiro-me a que  bonita, e  evidente que  valente e criativa, assim no  difcil
compreender que qualquer possa sentir-se atrado por ela. Mas... porra. Voc se preocupa por
ela de verdade, no? --Era evidente que esse vampiro no sabia quando devia calar-se.
       -- Nunca pensei que chegaria o dia em que uma fmea te colocasse sob a pele desta
maneira.
       -- que tenho pinta de querer me unir ao mesmo pattico clube do corao e flores ao
que voc e Rio pertencem? Ou Conlan, com seu cachorrinho em caminho que alguma vez
conhecer seu pai? De verdade, no tenho nenhuma inteno de me vincular com esta mulher
nem com nenhuma outra. --Pronunciou um violento juramento--. Sou um guerreiro. Meu
primeiro e nico dever sempre  para a raa. Nunca houve espao para nada mais. Assim que
encontre um lugar seguro para ela em um dos Refgios, Gabrielle Maxwell se ir. Esquecida.
Fim da histria.

       Gideon ficou em silncio um comprido momento, lhe observando dar voltas pela
habitao, frentico e mal-humorado, com uma falta de controle que no era prpria dele.
       O qual somente conseguia enervar o mau humor de Lucan at um nvel perigoso.
       --Tem algo mais que acrescentar ou podemos deixar este tema por agora?
       Os inteligentes olhos azuis do vampiro continuaram lhe olhando de forma
enloquecedora.
       --Simplesmente pergunto a quem precisa convencer: A mim ou a voc mesmo?



     Captulo vinte e dois

      A visita de Gabrielle pelo labirntico complexo dos guerreiros lhe mostrou dependncias
de residncia privadas, zonas comuns, uma sala de treinamento equipada com um incrvel
sortido de armas e de equipamentos de combate, uma sala para banquetes, uma espcie de
capelas e inumeraveis habitaes escondidas para vrias funes que se mesclavam em sua
mente.
        Tambm conheceu Eva, que era exatamente como Savannah lhe havia dito que era.
Vivaz, encantadora e bonita como uma supermodelo. A companheira de raa de Rio tinha
insistido em sab-lo tudo a respeito de Gabrielle e de sua vida. Eva era espanhola e falava de
voltar ali algum dia com Rio, onde ambos poderiam criar uma famlia com o tempo. Foi uma
agradvel apresentao que somente se viu interrompida pela chegada de Rio. Quando ele
chegou, Eva se dedicou por inteiro a seu companheiro e Savannah levou a Gabrielle a outras
zonas do complexo.
        Era impressionante o imensas e eficientes que eram as instalaes. Qualquer idia que
ela pudesse ter a respeito de que os vampiros viviam em velhas, cavernosas e midas
cavernas lhe tinha desaparecido da mente assim que ela e Savannah tiveram concludo esse
informal passeio.
        Esses guerreiros e suas companheiras viviam com um estilo de alta tecnologa e tinham
literalmente todos os luxos que pudessem desejar, embora nenhum atraiu tanto a Gabrielle

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como a habitao em que se encontravam ela e Savannah nesse momento. Umas estanteras de
polida madeira escura que foram do cho ao teto enchiam as altas paredes da hbitao e
continham milhares de volmes. Sem dvida, a maioria eram extranhos, dado a quantidade
de quo mesmos estavam encadernados em pele e cujos lombos gravados com ouro brilhavam
a suave luz da biblioteca.
       --Puxa --exclamou Gabrielle enquanto se dirigia ao centro da habitao e se dava a
volta para admirar a impressionante coleo do Livros.

        --Voc gosta? --perguntou-lhe Savannah, apoiando-se na porta aberta.
        Gabrielle assentiu, muito ocupada em olh-lo tudo para responder. Ao d-la volta viu
uma luxuosa tapearia que cobria a parede traseira. Era uma imagem noturna que
representava a um enorme cavalheiro vestido do Nnegro e com uma malha de prata, sentado
em cima de um escuro cavalo . O cavalheiro levava a cabea descoberta e seu comprido cabelo
de bano voava ao vento igual aos penachos que ondeavam da ponta de sua lana
ensangentada e no parapeito de um castelo que havia no topo de uma colina, ao fundo.
        O bordado era to intrincado e preciso que Gabrielle pde distinguir os penetrantes
olhos de um cinza plido desse homem e seus angulosos e marcados mas do rosto. Em seu
sorriso cnico e quase depreciativo havia algo que lhe resultava familiar.
      --OH, Meu Deus. supe-se que ...? --murmurou Gabrielle.
        Savannah respondeu com um encolhimento de ombros e uma risita divertda.
        --Quer ficar aqui um momento? Tenho que ir ver Danika, mas eu vou no significa que
tenha que ir, se preferir...
        --Claro. Sim. eu adorarei ficar um momento por aqui. Por favor, tome o tempo que
necessite e no se preocupe por mim.
        Savannah sorriu.
        --Voltarei logo e nos ocuparemos de te preparar uma habitao.
      --Obrigado --reps Gabrielle, que no tinha nenhuma pressa em que a levassem desse
paraso inesperado.
        Assim que a outra mulher teve sado, Gabrielle se deu conta de que no sabia por onde
comear A olhar: se pelo tesouro da literatura ou a pintura medieval que representava A
Lucan Thorne, que parecia ser de ao redor do sculo XIV.

        Decidiu fazer ambas as coisas. Tirou um incrvel volume de poesia francessa,
presumivelmente uma primeira edio, de uma das prateleiras e o levou a uma poltrona de
leitura colocado ante a tapearia. Deixou o livro em cima de uma delicada mesa antiga e,
durante um minuto, quo nico foi xapaz de fazer foi olhar a imagem de Lucan bordada de
forma to perita com fio de seda. Levantou uma mo, mas no se atreveu a tocar essa pea de
museu.
        Meu Deus, pensou, impressionada, ao captar a incrvel realidade desse outro
mundo.
        Durante todo esse tempo, eles tinham existido ao mesmo tempo que os seres humanos.
      Incrvel.
        E que pequeno lhe parecia seu prprio mundo  luz desse novo conhecimento. Todo
aquilo que acreditava saber sobre a vida tinha sido eclipsado em questo de horas pela larga
histria de Lucan e do resto dos seuseus.

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       De repente, o ar pareceu mover-se ao seu redor e Gabrielle sentiu um sbito alarme.
Voltou-se rapidamente e se sobressaltou ao encontrar-se com o Lucan real, em carne e osso,
em p, detrs dela, na entrada da habitao, apoiado com um de seus enormes ombros contra
o gonzo da porta. Levava o cabelo mais curto que o cavalheiro, seus olhos tinham
possivelmente uma expresso de maior obsesso e no se viam to ansiosos como os que tinha
representado o artista.
       Lucan era muito mais atrativo em pessoa: inclusive quando estava quieto irradiava um
poder inato. Inclusive quando a olhava com o cenho franzido e em silncio, como nesse
momento.
       O corao de Gabrielle se acelerou com uma mescla de medo e expectativa assim que
viu que ele se separava do gonzo da porta e entrava na habitao. Olhou-lhe, olhou-lhe de
verdade, e lhe viu tal e como era: uma fora que no tinha idade, uma beleza selvagem, um
poder incomensurvel.
       Um enigma escuro, que resultava to sedutor como perigoso.

        --O que est fazendo aqui? --Em sua voz havia uma nota acusatria.
       --Nada --respondeu ela rapidamente--. Bom, se te for sincera, no pude evitar
admirar algumas destas coisas to formosas. Savannah me esteve mostrando o complexo.
       Ele grunhiu e se apertou a ponte do nariz sem deixar de franzir o cenho.
       --tomamos o ch juntas e estivemos conversando um pouco --disse Gabrielle.
      -- Eva esteve conosco tambm. As duas so muito agradveis. E este lugar  realmente
impressionante. Quanto faz que voc e outros guerreiros vivem aqui?
       Ela se dava conta de que ele tinha pouco interesse em entrar em conversao, mas
respondeu, levantando um ombro em um encolhimento despreocupado.
     --Gideon e eu fundamos este lugar em 1898 como quartel geral para dar caa aos
renegados que se transladaram A esta regio. daqui recrutamos a um grupo dos melhores
guerreiros para que lutassem conosco. Dante e Conlan foram os primeiros. Nikolai e Rio se
unierum a ns mais tarde. E Tegan.
       Este ltimo nome lhe era completamente desconhecido a Gabrielle.
       --Tegan? --perguntou--. Savannah no lhe mencionou. Ele no estava quando
apresentou A outros.
       --No, no estava.
     Ao ver que ele no dava mais explicaes, a curiosidade a apanhou.
       -- um a quem perdestes, como Conlan?
       --No. No  isso. --Lucan falou com voz entrecortada ao referir-se a este ltimo
membro do grupo, como se o tema fora um tema doloroso que preferisse no tocar.

       Ele continuava olhando-a intensamente e estava to perto que ela perceba o
movimento de seu peito ao respirar, os msculos que se expandan sob a camisa negra de
impecvel queda, o calor que seu corpo preca irradiar para ela.
       Detrs dele, na parede, seu semelhante olhava da tapearia com uma expresso de
fervente determinao: o jovem cavalheiro decidido e grav, seguro de conquistar todo
prmio que encontrasse em seu caminho. Gabrielle distinguia uma sombra mais escura dessa
mesma determinao em Lucan agora, enquanto o olhar dele percorria todo seu corpo, de ps
a cabea.

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        --Esta tapearia  incrvel.
        -- muito velho --disse ele, olhando-a enquanto se aproximava dela.
        -- Mas suponho que isso j sabe agora.
        -- precioso. E te v to feroz, como se estivesse a ponto de conquistar o mundo.
        --Estava-o. --Olhou a tapearia da parede com uma ligeira expresso de brincadeira.
     -- Eu mandei fazer uns meses depois da morte de meus pais. Esse castelo que se queima,
ao fundo, pertencia ao meu pai. Fiz-o cnizas depois de lhe cortei a cabea por ter matado a
minha me em um ataque de sede de sangue.
        Gabrielle ficou sem fala. No tinha esperado nada como isso.
      --Meu Deus. Lucan...
        --Encontrei-a em um atoleiro de sangue em nosso vestbulo. Tinha a garganta
destroada. Ele nem sequer tentou defender-se. Sabia o que hvia feito. Amava-a, tanto como
podiam amar os de sua classe, mas sua sede era mais forte. No podia negar sua natureza. --
Lucan se encolheu de ombros.
      -- Lhe fiz um favor ao terminar com sua existncia.
     Gabrielle observou a expresso fria dele e se sentiu to impressionad pelo que acabava
de ouvir como pelo tom displicente com que o disse. Todo o romntico atrativo que tinha
projetado nessa tapearia fazia to somente um minuto, desapareceu sob o peso da tragdia
que verdaderamente representava.

       -- por que quis ter uma lembrana to bonita de uma coisa to Terrivel?
       --Terrvel? --Ele negou com a cabea--. Minha vida comeou essa noite. Eu nunca tive
nenhum lente at que me ergui sobre meus ps, sobre o sangue de minha famlia e me dava
conta de que tinha que trocar as coisas: para mim mesmo e para o resto de minha estirpe. Essa
noite declarei a guerra a quo antigos ficavam dos da classe de meu pai, e a todos os membros
da raa que lhes tinham servido como renegados.
       --Isso significa que estiveste lutando durante muito tempo.
       --Teria que ter comeado muitssimo antes. --Cravou-lhe uma olhad de ferro e lhe
dirigiu um sorriso arrepiante.
     -- No vou me deter nunca.  por isso pelo que vivo: manejo a morte.
       --Algum dia ganhar, Lucan. Ento toda a violncia terminar por fim.
       --Voc crie? --disse ele, arrastando as palavras com certa brincadeira no tom de voz.
     -- E sabe com segurana, te apoiando no que? Em seus poucos vinte e sete anos de vida?
       --Apio-o na esperana, para comear. Na f. Tenho que acreditar que o bem sempre
prevalecer. Voc no? No  por isso que voc e os demais fazem o que fazem? Porque tm a
esperana de que podem melhorar as coisas?
       Ele rio. Na verdade, olhou-a diretamente e rio.
       --Mato aos renegados porque o desfruto. Sou retorcidamente bom nisso. No vou falar
dos motivos de outros.

       --O que passa contigo, Lucan? Parece... cheio o saco? Desafiador? um pouco psictico?
Est atuando de forma diferente aqui de como atuou antes comigo.
       Lhe cravou um olhar mordaz.
       --Se por acaso no te deste conta, carinho, agora est em meus domnios. As coisas so
diferentes aqui.

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      A crueldade que via nele nesses momentos a desconcertou, mas foi seu estranho olhar
ardente o que de verdade a enervou. Seus olhos eram muito brilhantes, pareciam duros como
o cristal. Sua pele havia enrejecido e se via tensa em suas bochechas. E agora que lhe olhava de
perto, viu que tinha a frente perlada de suor.
        Uma raiva pura e fria emanava dele em feitas ondas. Como se desejasse destruir algo
com suas prprias mos.
        E resultava que quo nico tinha diante era a ela.
      Ele avanou e passou por seu lado em silncio, dirigindo-se para uma porta fechada que
se encontrava perto de uma das altas estanteras. A porta se abriu sem que ele a tocasse. Ao
outro lado todo estava to escuro que Gabrielle pensou que era um armrio. Mas ele entrou
nesse espao tenebroso e ela ouviu suas pegadas afastando-se sobre um cho de madeira do
que devia ser um passadio escondido do complexo.
         Gabrielle ficou ali em p, como se acabasse de livrar-se de que uma brutal tormenta a
apanhasse. Exalou com fora, aliviada. Possivelmente devia deixa-lo partir. Se ter por
afortunada por estar longe de seu caminho em esse momento. Estava claro que ele no parecia
desejar sua companhia, e ela no estava segura de querer a dele se estava dessa maneira.
        Mas algo lhe acontecia, algo estava realmente mal, e tinha que saber o que era.
        tragou-se o medo e lhe seguiu.

        --Lucan? --No espao de alm da porta no havia nenhuma luz. Somente havia
escurido, e se ouvia o som constante do barulho das botas de Lucan.
     -- Deus, est muito escuro aqui. Lucan, espera um segundo. me diga algo.
        O ritmo de seus passos no se alterou. Parecia mais que ansioso de livrar-se dela.
Como se estivesse desesperado por afastar-se dela.
        Gabrielle avanou pelo corredor escuro que tinha diante da melhor maneira que pde,
com os braos alargados para diante para ajudar-se A seguir as curvas do passadio.
     --Aonde vai?
      --Fora.
     --Para que?
      --J lhe hei isso dito. --ouviu-se um ferrolho no mesmo ponto de onde provinha sua
voz.
     --Tenho que fazer um trabalho. Ultimamente estive muito depravado.
     Por causa dela.
        No o disse, mas no havia maneira de interpretar mal o que queria dizer.
        --Tenho que sair daqui --lhe disse, cortante--.  hora de que acrescente uns quantos
chupes a minha lista.
        --A noite j quase passou. Possivelmente teria que descansar um pouco, em lugar
disso. No me parece que esteja bem, Lucan.
     --Preciso lutar.
        Gabrielle ouviu que seus passos se detinham, ouviu o sussurro do tecido em algum
ponto por diante dela, na escurido, como se ele se deteve e se estivesse tirando a roupa.
Gabrielle continuou avanando em direo a esses sons com as mos para diante, tentando
segurar nesse poo escuro interminvel. Agora se encontravam em outro espao; havia uma
parede a direita. Utilizou-a como guia, avanando ao longo dela com passos cuidadosos.


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       --Na outra habitao parecia ruborizado. E sua voz soa... estranha.
       --Preciso me alimentar. --Sua voz soou grave e letal, como uma amenaa inequvoca.
         Deu-se conta ele de que ela se deteve para lhe ouvir? Devia haver-se dado conta,
porque se rio com um humor amargo, como se a intranqilidade lhe divertisse.
        --Mas j te alimentaste --lhe recordou ela--. Justo a outra noite, de fato.  que no
tomou suficiente sangue quando matou a esse servente? Acreditei que disse que somente
precisava te alimentar uma vez durante vrios dias.
        --J  uma perita no tema, verdade? Estou impressionado.
        As botas caram ao cho com um descuidado golpe, primeiro uma e logo a outra.
        --Podemos acender algumas luz aqui? No posso verte...
        --Sem luzes --a cortou ele--. Eu vejo perfeitamente. Cheiro seu medo.
        Ela tinha medo, nem tanto por ela mas sim por ele. Ele estava mais que enervado. O ar
que lhe rodeava parecia pulsar de pura fria. Chegava at ela atravs da escurido, como uma
fora invisvel que a empurrava para trs.
        --Fiz algo mal, Lucan? No deveria estar aqui no complexo? Porque se tiver trocado
de opinio a respeito, tenho que te dizer que no estou muito segura de que fora uma boa
idia que eu viesse aqui.

        --Agora no h nenhum outro lugar para ti.
        --Quero voltar para meu apartamento.
        Gabrielle sentiu uma quebra de onda de calor que lhe subia pelos braos, como se ele
se deu a volta e a fulminasse com o olhar.
     --vieste aqui. E no pode voltar ali. Ficar at que eu dita o contrrio.
     --Isto se parece muito a uma ordem.
        --.
        De acordo, agora ele no era o nico que sentia raiva.
        --Quero meu telefone celular, Lucan. Tenho que chamar a meus amigos e Aasegurar-
me de que esto bem. Logo chamarei um txi e irei casa, onde tentarei lhe encontrar algum
sentido a esta confuso em que se h convertido minha vida.
        --Nem pensar. --Gabrielle ouviu um clique metlico de uma arma, e o roce de uma
gaveta que se abria.
      -- Agora est em meu mundo, Gabrielle. Aqui sou eu quem dita as leis. E voc est sob
meu amparo at que eu consider que  seguro te soltar.
        Ela se tragou a maldio que tinha na ponta da lngua. Quase.
        --Olhe, esta atitude benevolente de chefe te pode ter funcionado no passado, mas no
imagine que a pode utilizar comigo.
        O raivoso grunhido que saiu dele foi como uma chicotada que lhe arrepiou os cabelos
da nuca.
        --No sobreviveria uma noite a fora sem mim, compreende-o? Se no tivesse sido por
mim, no teria sobrevivido a seu primeiro maldito ano de vida.

      Em p, ali, na escurido, Gabrielle ficou totalmente icelular.

      --O que h dito?
      S obteve um comprido silencio como resposta.

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       --O que quer dizer com que no tivesse sobrevivido?
     Ele soltou um juramento entre os dentes apertados.
       --Eu estava ali, Gabrielle. Faz vinte e sete anos, quando uma indefesa me jovem foi
atacada por um vampiro renegado na estao de nibus de Boston, eu estava ali.
      --Minha me --murmurou ela com o corao quase detido. Alargou a mo para trs
em busca da parede e se apoiou nela.
       --J a tinha mordido. Estava-lhe chupando o sangue quando o cheirei e lhes encontrei
fora da estao. Ele a tivesse matado. Tivesse-te matado tambm .
       Gabrielle quase no podia acreditar o que estava ouvindo.
       --Voc nos salvou?
       --Dava a sua me a oportunidade de afastar-se. Mas estava muito mau por causa da
mordida. Nada podia salv-la. Mas ela queria salvarte a voc. Escapou contigo em braos.
       --No. Ela no se preocupava comigo. Abandonou-me. P-me em um cubo de lixo --
sussurrou Gabrielle, com a garganta atendida ao sentir a velha ferida do abandono.

       --A mordida a deixou em um estado de comoo.  provvel que estivesse
desorientada, e que acreditasse que te estava deixando em um lugar seguro. Que te estivesse
ocultando do perigo.
       Deus, durante quanto tempo se esteve interrogando a respeito da jovem mulher que
havia a trazido para o mundo? Quantos cenrios havia inventado para explicar, explicar-se a
si mesmo pelo menos, o que devia ter acontecido essa noite em que a encontraram na rua,
quando era um beb? Mas nunca tinha imaginado isto.
     --Como se chamava?
       --No sei. No me interessava. Ela era somente outra vtima dos renegados. Eu no
tinha pensado em nada disso at que voc mencionou a sua me em seu apartamento.
       --E eu? --perguntou ela, tentando p-lo tudo em ordem--. Quando veio para ver-me
pela primeira vez depois do assassinato, sabia que eu era o beb a quem tinha salvado?
      Ele emitiu uma gargalhada seca.
       --No tinha nem idia. Vim at ti porque notei seu aroma de jasmim fora da discoteca e
te desejava. Precisava saber se seu sangue seria to doce como o resto.
       Ouvir essas palavras lhe fez recordar todo o prazer que Lucan lhe tinha dado com seu
corpo. Agora se perguntava como seria que lhe chupasse do pescoo enquanto a penetrava.
Para sua surpresa, deu-se conta que era muito mais que curiosidade o que sentia.
       --Mas no o fez. Voc no...
       --E no o farei --respondeu ele, com voz entrecortada. Gabrielle ouviu outra maldio
onde se encontrava ele, esta vez de dor.
     -- Nunca te haveria tocadosse tivesse sabido...
       --Se tivesse sabido o que?

       --Nada, esquece-o. S que... Deus, a cabea me di muito para falar. Vai daqui. Me
deixe s agora.
        Gabrielle ficou justo onde estava. Ouviu-lhe mover-se outra vez, foi um surdo roce dos
ps. E outro grunhido grave e animalesco.
     --Lucan? Est bem?


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        --Estou bem --grunhiu, o qual parecia algo menos que estuvisse bem--. Necessito
n...porra. --Agora respirava com maior dificuldade, quase ofegava.
        -- Vai daqui, Gabrielle. Preciso estar... sozinho.
        Um pouco pesado caiu no tapete do cho com um golpe surdo. Ele inal com fora.
        --No acredito que precise ficar s agora mesmo, absolutamente. Acredito que
necessita ajuda. E no posso continuar falando contigo na escuro desta maneira. --Gabrielle
passou a mo pela parede procurando atenta a luz.
      -- No encontro nenhum...
        Seus dedos tropearam com um interruptor e o acendeu.
        --OH, Meu deus.
        Lucan estava dobrado sobre si mesmo no cho, ao lado de uma cama grande. Tirou-se a
camisa e as botas e se retorcia como presa de uma dor extrema.As marca do torso e das costas
tinham um cor lvido. Intrincada-las curvas e arcos trocavam do prpura profundou ao
vermelho e ao negro a cada espasmo enquanto ele se sujeitava o abdomen.
        Gabrielle correu ao seu lado e se ajoelhou. O corpo dele se contraiu grosseiramente e
lhe fez encolher-se em uma tensa bola.
        --Lucan! O que est acontecendo?

     --Vai --lhe grunhiu ele quando ela tentou lhe tocar ao tempo que se apartaba como um
animal ferido.
       --Vai! No ... coisa tua.
     --E uma merda no !
       --Vai... aaah! --Seu corpo voltou a sofrer uma convulso, pior que a anterior--. Te
aparte de mim.
       lhe ver com tanto dor fez que o pnico se apoderasse dela.
       --O que te est acontecendo? me diga o que tenho que fazer!
       Ele se tombou de costas como se umas mos invisveis houvessem lhe feito d-la volta.
Os tendes do pescoo lhe viam tensos como cabos. As veias e as artrias lhe sobressaam nos
bceps e os antebraos. Tinha uma careta nos lbios que deixava ao descoberta os afiados
presas brancas.
     --Gabrielle, te largue daqui!
       Ela se apartou para lhe ceder espao, mas no estava disposta a lhe deixar sofrendo
dessa maneira.
       --vou procurar a algum? Posso dizer-lhe A Gideon.
       --No! No... no o pode dizer. No... A ningum. --Ele levantou os olhos para ela e
Gabrielle viu que se esgotaram em duas magras raias negras rodeadas por uma brilhante cor
mbar. Esse olhar fera lhe atendeu a garganta e lhe fez acelerar o pulso. Lucan se estremeceu e
apertou os olhos com fora.
     --Passar. Sempre passa... ao final.
       Para demonstr-lo, depois de um comprido momento, comeou a arrastrar-se para ficar
em p. Resultou-lhe difcil; seus movimentos eram torpes, mas o grunhido que lhe dirigiu
quando ela tentou lhe ajudar a comnvnceu para lhe deixar que o fizesse sozinho. Por pura
fora de vontade, levantou-se e se apoiou com o estmago contra a cama. Continuava
ofegando e ainda tinha o corpo tenso e pesado.


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       --Posso fazer alguma coisa?
        --Vai. --Pronunciou essa palavra com angstia--. S... mantem longe.
        Ela permaneceu justo onde estava e se atreveu a lhe tocar ligeiramente o ombro.
        --Tem a pele acesa. Est ardendo de febre.
        Ele no disse nada. Gabrielle no estava segura de se ele era capaz de prnunciar
nenhuma palavra agora que toda sua energia estava dedicada em suportar a dor e em livrar-se
do que lhe tinha apanhado, fora o que fosse. Lhe havia dito que precisava alimentar-se essa
noite, mas isto parecia ser algo mais profundo que uma fome bsica. Era um sofrimento de
uma classe que ela nunca tinha visto.
      Sede de sangue.
        Esse era o vcio que ele havia dito que era o distintivo dos Renegados. Quo nico
distinguia a Raa de seus irmos selvagens. Ao lhe olhar nesses momentos, ela se exps quo
difcil devia ser satisfazer uma sede que tambm podia lhe destruir a um.
        E quando a sede de sangue tinha um apanhado, quanto tempo falta para que lhe
arrastasse por completo?
        --vais pr te bem --lhe disse com suavidade enquanto lhe acariciava o cabelo escuro.
      -- Te relaxe. Me deixe que te cuide, Lucan.



     Captulo vinte e trs

     Encontrava-se convexo em uma sombra fresca e uma suave brisa o acariciava o cabelo.
No queria despertar desse sono profundo e sem pesadelos. No encontrava essa paz
Freqentemente. Nunca dessa maneira. Queria ficar a e dormir cem anos.
       Mas o ligeiro aroma a jasmim que flutuava perto dele fez despertar. Inalou o doce
aroma com fora para ench-los pulmes, saboreando-o na parte traseira do paladar.
Desfrutando-o. Abriu os olhos, pesados, e viu uns bonitos olhos marrons que lhe devolviam o
olhar.
       --Encontra-te melhor?
       A verdade era que se encontrava melhor. A aguda dor de cabea tinha desaparecido. J
no tinha a sensao de que lhe estavam arrancamndou a pele. A dor no abdmen que lhe
tinha feito retorcer-se reduziu a um mal-estar profundo, intensamente incmodo, mas nada
que no pudesse suportar.
       Tentou lhe dizer que se encontrava melhor, mas a voz lhe saiu como um grasnido
agudo. esclareceu-se garganta e se esforou em pronunciar um sounido.
     --Estou bem.
     Gabrielle estava sentada na cama ao seu lado e tinha a cabea dele em seu regao. Estava-
lhe pondo um trapo fresco e mido na frente e nas bochechas. Com a outra mo lhe acariciava
o cabelo com seus dedos suaves e cuidadosos.
       Era agradvel. To incrivelmente agradvel.
       --Encontraste-te muito mal. Estava preocupada com voc.

      O grunhiu ao recordar o que tinha acontecido. O ataque de sede de sangue lhe tinha
convexo de costas. Tinha-lhe reduzido A uma dbil bola de dor. E ela o tinha presenciado


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tudo. Merda, desejava arrastar-se a um escuro buraco e morrer por ter permitido que algum
lhe visse nessas condies. Especialmente Gabrielle.
         A humilhao por sua prpria debilidade foi um duro golpe, mas foi um repentino
ataque de medo o que lhe obrigou a incorporar-se e a despertar por completo.
         --Deus, Gabrielle. Hei-te... tenho-te feito mal?
         --No. --Lhe tocou a mandbula. No havia nem rastro de medo em seu olhar nem em
sua carcia.
      _ Estou bem. No me fez nada, Lucan.
      Graas a Deus.
         --Leva posta minha camisa --lhe disse, dando-se conta de que o suter dela e sua cala
tinham desaparecido e que suas esbeltas curvas estavam envoltas em sua camiseta negra.
Quo nico ele levava era a cala,
         --Ah, sim --reps ela, tirando um fio solto da camiseta--. Me pus faz isso um
momento, quando Dante veio te buscando. Disse-lhe que estava na cama, dormindo. --
ruborizou-se um pouco.
       --Pensei que se sentiria menos inclinado a fazer perguntas se lhe abria a porta assim.
        Lucan apoiou as costas na cama e a olhou com o cenho franzido.
        --mentiste por mim.
        --Parecia ser muito importante para ti que ningum te visse... como estava.
        Ele a olhou: ali, sentada, to confiada com ele. sentiu-se admirado. Qualquer que lhe
tivesse visto nesse estado lhe tivesse usado uma folha de titnio no corao, e tivesse feito
bem. Mas ela no tinha tido medo. Ele acabava de enfrentar-se com um de seus piores ataques
at esse momento, e Gabrielle tinha estado com ele todo o momento. lhe cuidando.

     Lhe tinha protegido.
        Sentiu que o peito lhe enchia de respeito. De uma profunda gratido.
        Ele nunca tinha experiente como isso fazia lhe sentir um, o poder confiar em algum
dessa maneira. Sabia que qualquer de seus irmos lhe houvesse coberto as costas na batalha,
igual a ele tivesse feito com eles, mas isto era distinto. Algum lhe tinha cuidado. Havia-lhe
prtegido quando tinha estado mais vulnervel.
        Inclusive quando lhe tinha cuspido e lhe tinha grunhido, tentando apartar-la dele. lhe
permitindo lhe ver como a besta que verdadeiramente era.
        Ela se tinha ficado ao seu lado, Apesar de tudo isso.
        Ele no tinha as palavras adequadas para lhe dar as obrigado por algo to
profundamente generoso. Em lugar disso, inclinou-se e a beijou, com toda a suavidade que
pde, com toda a reverncia que nunca seria capaz de expressar adequadamente.
        --Deveria me vestir --disse, gemendo ao dar-se conta de que tinha que deix-la.
      -- Estou melhor agora. Tenho que ir.
     --Ir, onde?
        --Fora, a acabar com uns quantos renegados mais. No posso deixar que outros faam
todo meu trabalho.
        Gabrielle se aproximou dele, na cama, e lhe ps a mo no antebrao.
        --Lucan, so as dez da manh. A fora  de dia.

      Ele girou a cabea para olhar o relgio da mesinha de noite e viu que tinha razo.

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       --Merda. dormi toda a noite? Dante vai dar uma boa sova no traseiro por isso.
       Os lbios do Gabrielle desenharam um sorriso sensual.
       --A verdade  que ele tem a impresso de que voc me deste uma boa sova no meu
durante toda a noite, recorda?
        A excitao despertou em seu interior como uma chama prende na isca seca.
     Maldita seja.
      S pensando-o.
        Ela estava sentada sobre as pernas e a camiseta negra lhe caa justo sobre o incio das
coxas, o qual lhe oferecia uma viso de umas minsculas calcinhas brancas ao final dessa pele
branca. O cabelo lhe caa al redor do rosto e sobre os ombros em suntuosas ondas, e o fazia
desejar enterrar as mos nele e afundar-se em seu corpo.
        --Detesto que tenha tido que mentir por mim --lhe disse, com voz rouca. Passou-lhe
uma mo ao longo da sedosa curva de um dos msculos.
     -- Deveria fazer que fosse uma mulher honesta.
       Tomou os dedos da mo e os sujeitou.
       --De verdade crie que est preparado para isso?
       Ele rio com um humor negro.
       --OH, estou mais que preparado para isso.

       Embora lhe olhava com calidez e um olhar de interesse, tambm expresava certa
duvida.
       --passaste por um momento difcil. Possivelmente deveramos falar do que aconteceu.
Possivelmente fora uma idia melhor que descansasse um pouco mais.
       Quo ltimo ele queria fazer era falar de seus problemas, especialmente nesse
momento em que Gabrielle tinha um aspecto to tentador na cama. Ele sentia que seu corpo
se recuperou da batalha, e seu sexo tinha cobrado vida com facilidade. como sempre, quando
se encontrava perto dela. Quando pensava nela.
       --J me dir se preciso descansar mais.
       Tomou uma mo e a levou at a dura crista de sua ereo, que se apertava contra a
cremalheira da cala. Ela acariciou o dolorido vulto de seu membro e logo girou a mo para
tom-lo na palma da mo. Ele fechou os olhos, perdendo-se no contato dela e no quente
perfume de sua excitao enquanto ela se colocava entre seus braos.
     Beijou-a, larga e profundamente, em uma lenta unio de seus lbios. Lucan deslizou as
mos sob a camiseta e com os dedos subiu pela sedosa pele das costas dela, pelas costelas e
pela deliciosa curva dos peitos. Os mamilos lhe endureceram quando os acariciou, como
pequenos casulos que suplicassem ser lambidos.
       Ela arqueou as costas com o contato de suas mos e gemeu. Com os dedos abriu o
fechamento e a braguilha de sua cala. Baixou-lhe a cremalheira. Deslizou-os dentro e colocou
a palma da mo em cima de toda a longitude de seu membro.
       -- to perigosa --lhe sussurrou ele contra os lbios--. Eu gosto de verte aqui, em
meus domnios. No acreditei que aconteceria. Deus sabe que no deveria.
       Levou as mos at a prega da camiseta e a subiu pela cabea para tirar-lhe e poder
apreciar sem dificuldades o corpo desnudou dela. Apartou-lhe o cabelo e lhe acariciou com
ternura o pescoo com os ndulos.


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        --De verdade sou a primeira mulher a quem trouxeste aqui?
        O sorriu com ironia enquanto lhe acariciava a pele suave.
        --Quem lhe h isso dito? Savannah?
        -- verdade?
        Ele se inclinou para diante e tomou um dos mamilos rosados entre os lbios.
Empurrou-a com o peso de seu corpo para coloc-la debaixo dele enquanto se tirava
rapidamente a cala. As presas comearam a alargar-se o o desejo escapava a seu controle
rapidamente e lhe percorria todo o corpo como ondas ardentes.
        --Voc  a nica --lhe disse com voz densa, com honestidade pela comfiana que lhe
tinha devotado umas horas antes.
        Gabrielle seria a ltima mulher a quem levaria ali, tambm.
        No podia imaginar ter na cama a ningum mais. Nunca permitiria que ningum
voltasse a entrar em seu corao. Porque tinha que enfrentar a uma dura realidade: e isso tinha
feito. Depois de seu cuidadoso controle e de todos esses anos de solido auto imposta, tinha
baixado a guarda emocional e Gabrielle tinha enchido esse vazio como ningum o encheria
nunca.
        --Deus,  to suave --lhe disse, acariciando-a, percorrendo um flanco de seu corpo e o
abdmen com os dedos at que chegou a delicada curva do quadril. Deu-lhe um beijo nos
lbios.
        -- To doce.
        Sua mo avanou para baixo, entre as coxas, e lhe fez abrir as pernas para lhe permitir
continuar com a explorao.
        --To mida --murmurou, penetrando seus lbios com a lngua enquanto introduzia
um dedo por debaixo das calcinhas e lhe acariciava as midas dobras da vagina.

        Penetrou-a, s como um meio ao princpio, e logo com profundidade. Ela se sujeitou a
ele, arqueou as costas ao sentir que dois dedos mais penetravam em seu corpo mas no deixou
de acariciar a suave e dura ereo dele. Ele interrompeu o beijo e lhe tirou a pea de tecido que
lhe cobria o sexo. Logo foi descendo por seu corpo, empurrou-lhe as pernas, abrindo as, e se
inundou entre elas.
        --To formosa --disse, sem flego e fascinado pela rosada perfeio dela. Apertou o
rosto contra ela, abriu-a com os dedos e lhe acariciou o clitris e as midas dobras que o
rodeavam com a lngua. Conduziu-a at um rpido climax e saboreou os fortes tremores que
percorreram seu corpo enquanto lhe cravava os dedos nos ombros e gritava de prazer.
        --Deus, destroa-me, mulher. Nunca tenho bastante de ti.
        Sentia-se to enfebrecido por estar dentro dela que quase no ouviu a pequena
exclamao que Gabrielle soltou quando ele a cobriu com seu corpo. Sim percebeu a repentina
quietude em que tinha ficado ela, mas foi sua voz o que lhe fez ficar paralisado.
      --Lucan... seus olhos...
        Com uma reao instintiva, apartou o rosto dela. Muito tarde. Sabia que ela tinha visto
o resplendor sedento que seu olhar tinha adquirido. Era o mesmo olhar selvagem que ela
tinha visto nele a outra noite, ou lhe parecia o bastante como para que seus olhos de ser
humano no pudessem registrar a diferena entre a sede de sangue e a intensidade do desejo.
        --Por favor --disse ela com suavidade--. Deixa que te olhe.


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     Negligentemente, apoiou-se sobre os punhos para elevar-se por cima dela e a olhou Aos
olhos. Viu um brilho de alarme no olhar dela, mas no se separou dele. Olhou-lhe com
ateno, lhe estudando.
       --No vou fazer te danifico --disse ele, com voz spera e pastosa. Ao falar lhe
permitiu ver as presas: agora j no era capaz de lhe ocultar nenhuma das reaes de seu
corpo  necessidade, Gabrielle. Desejo.

     _ Voc me provoca isto. s vezes somente de pensar em ti... --Se interrompeu e soltou
um juramento em voz baixa.
       -- No quero te assustar, mas no posso deter esta mudana. No, porque te desejo
muito.
         --E as outras vezes que estivemos juntos? --perguntou ela em um sussurro e com o
cenho franzido.
     -- Me ocultaste isto? Sempre esconda o rosto e apartava o olhar quando fazamos o
amor?
       --No quero te assustar. No queria que visse o que sou.
     --Esboou um sorriso de brincadeira.-- Mas j o viu tudo.
       Ela meneou a cabea devagar e tomou o rosto com ambas as mos. Dirigiu-lhe um
olhar intenso, como assimilando tudo o que ele era. Tinha os olhos midos, reluzentes, com
um brilho incrvel, e uma expresso tenra e afetuosa que irradiava para ele.
       -- formoso para mim, Lucan. Sempre quererei te olhar. No h nada que tenha que
me esconder nunca.
       Essa sincera declarao lhe comoveu. Lhe devolvia o olhar de seus olhos selvagens
enquanto lhe acariciava a mandbula, rgida, e percorria com dedos brincalhes seus lbios
entreabertos. As presas lhe doam, se Aalargavam ainda mais, por causa desse suave contato
com que ela explorava seu rosto.
       Como se queria lhe demonstrar algo --ou, possivelmente, a ele-- deslizou um dedo por
entre seus lbios e o introduziu na boca. Lucan emitiu um profundo grunhido gutural.
Pressionou-lhe o dedo com a lngua, com fora, e sentiu o roce tenro de seus dentes contra a
pele dela. Fechou os lbios e succion para que seu dedo penetrasse mais em sua boca.
       Viu que Gabrielle tragava saliva. Cheirou a adrenalina que lhe percorreu o corpo e que
se mesclava com o aroma de seu desejo.
       Era to endiabradamente formosa, to suave e generosa, to valente em tudo aquilo
que fazia, que no podia evitar sentir-se impressionado por ela.

       --Confio em ti --lhe disse ela, e seus escuros olhos se escureceram pelo desejo. Lhe
soltou o dedo lentamente de entre seus afiados dentes.
       -- E te desejo. Desejo cada parte de ti.
       Isso era mais do que ele podia suportar.
       Com um grunhido animal de lascvia, desabou-se sobre ela, colocou a plvis entre suas
coxas e lhe fez abrir as pernas empurrando-lhe com os joelhos. Sentiu seu sexo mido e
quente na ponta do pnis, uma bem-vinda a que no pde resistir. Com uma forte investida, a
empal, deslizando-se para dentro tudo o que pde. Ela recebeu cada centmetro dele, seu
tenso tnel lhe envolveu como um punho e lhe banhou em um calor maravilhoso e molhado.
Lucan soltou o ar entre os dentes ao notar que as paredes do sexo dela tremeram ao notar que

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ele se retirava lentamente. Voltou a ench-la, esta vez lhe levantando os joelhos com os braos
para poder estar mais perto, para afundar-se mais nela.
        --Sim --lhe animou ela enquanto comeava a mover-se com ele a um ritmo que era
algo menos suave.
      -- Deus, Lucan, sim.
        Lucan sabia que o rosto dela se endureceu pela fora da lascvia dele; provavelmente,
ele nunca se mostrou to bestial como nesse momento: sentia o sangue como lava lquida que
chamasse a essa parte dele que era a maldio da brutal linhagem de seu pai. A fodeu com
fora e tentou ignorar essa necessidade vibrante que despertava em seu interior e que lhe
exigia algo mais que esse imenso prazer.
      Sua ateno ficou muito fixa na garganta de Gabrielle, onde uma delicada veia pulsava
debaixo de sua pele delicada. A boca lhe encheu de saliva, febrilmente, apesar da presso que
sentiu na base da coluna vertebral e que indicava que se aproximava do climax.
        --No te detenha --lhe disse ela sem o mais mnimo tremor na voz. Que Deus a
ajudasse, mas lhe atraiu mais para si e lhe agentou o olhar bestial enquanto lhe acariciava a
bochecha com os dedos quentes.
      -- Tira de mim tudo o que necessite. Mas... OH, Deus... no te detenha.
        O olfato de Lucan se encheu do ertico aroma dela e do penetrante aroma ligeiramente
metlico do sangue que lhe tingia os peitos e lhe coloria a plida pele do pescoo e o rosto.
Rugiu de agonia, lutando por negar-se a si mesmo --lhes negar a ambos-- o xtase que
somente se podia obter com o beijo de um vampiro.

       Arrancou o olhar de sua garganta e investiu contra seu corpo com um vigor renovado
que a levou a ela, e logo a ele, at um orgasmo demolidor.
       Mas esse desafogo somente mitigou uma parte de sua necessidade.
       A outra, mais profunda, persistia e piorava a cada pulsado do corao do Gabrielle.
       --Porra. --apartou-se a um lado, na cama, e sua voz soou rouca e fbril.
       --O que acontece? --Gabrielle lhe ps uma mo no ombro.
       Aproximou-se dele e ele notou o calor exuberante de seus peitos contra suas costas.
Levou as pernas para o bordo da cama, sentou-se e apoiou a cabea entre as mos. Passou-se
os dedos, trementes, pelo cabelo. A suas costas, Gabrielle estava calada; ele se deu a volta e a
olhou Aos olhos, interrogadores.
       --No tem feito nada mal.  muito para mim, e tenho que... No consigo ter bastante
de voc, agora mesmo.
       --No passa nada.
       --No. No deveria estar contigo desta maneira, quando necessito. .. -- A voc,
reps todo seu corpo--. Deus Santo, isto no  bom.
       Ele se deu a volta outra vez, preparado para levantar-se da cama.
       --Lucan, se estiver sedento... se necessitar sangue...
       Ela se aproximou dele por detrs. Passou-lhe um brao por cima do ombro e levou uma
mo at seu queixo.

       --Gabrielle, no me oferea isso. --Pensativo, separou-se dela, igual a se tivesse
afastado de um veneno. Levantou-se e colocou a cala. Comeou a dar voltas pela habitao.
     -- No vou beber de voc, Gabrielle.

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        --por que no? --Disse-o em tom dodo, confundida.
      --  evidente que o necessita. E sou o nico ser humano por aqui neste momento, assim
suponho que tem que ficar comigo.
        --No  isso. --Negou com a cabea e fechou os olhos, apertando-os para obrigar a essa
parte bestial nele a retirar-se.
      -- No posso faz-lo. No te vou atar para mim.
        --Do que est falando? No passa nada se me fode mas a idia de aceitar meu sangue
te revolve o estmago? --Soltou uma gargalhada mordaz.
      --Merda, Lucan. No me posso acreditar isso: sinto-me realmente insultada com isto.
        --Isto no vai funcionar --disse ele, furioso consigo mesmo por colocar a ambos em
um poo ainda mais profundo por causa de sua prpria falta de controle quando estava ao
lado dela.
      -- Isto no vai sair bem. Deveria ter deixado as coisas claras entre ns desde o comeo.
        --Se tiver que me dizer algo, espero que o faa. Sei que tem um problema, Lucan. 
bastante difcil no dar-se conta, depois de te haver visto ontem  noite.
        --No  isso. --Soltou uma maldio.
      -- Mas  parte disso. No quero te fazer danifico. E se beber seu sangue, farei-lhe isso.
Antes ou depois, se tiver um vnculo de sangue comigo, farei-te mal.
        --Ter um vnculo de sangue contigo --repetiu ela, devagar.
        -- Como?
        --Leva a marca das companheiras de raa, Gabrielle. --Fez-lhe um gesto assinalando
seu ombro esquerdo.
        -- Est a, justo debaixo de sua orelha.
        Ela franziu o cenho e levou a mo at o lugar exato de sua pele onde tinha as marca
com forma de lgrima e de lua crescente.

       --Isto?  uma marca de nascimento. Tenho-a desde que tenho uso de razo.
       --Todas as companheiras de raa tm esta marca em algum lugar do corpo. Savannah e
as demais fmeas a tm. Minha prpria me Tambem . Todas vocs a tm.
     Ela tinha ficado muito quieta, agora. Falou com voz muito dbil.
       --Quanto faz que sabe isto de mim?
       --Vi-a a primeira noite que fui ao seu apartamento.
       --Quando levou as fotos de meu celular?
       --Depois --disse ele.
     -- Quando voltei logo, e voc estava dormindo na cama.
       A compreenso se fez visvel na expresso do rosto do Gabrielle com uma mescla de
surpresa e de dor emocional.
       --Voc estava a. Acreditei que tinha sonhado contigo.
       --Nunca notaste este mundo em que est porque no  seu mundo, Gabrielle. Suas
fotografias, o fato de que se sentisse atrada pelos lugares que albergam aos vampiros, sua
confuso com seus sentimentos a respeito do sangue e a compulso por faz-la fluir: todas
estas so partes de quem voc  de verdade.
     Lucan se deu conta de que ela se estava esforando por aceitar o que estava ouvindo, e
detestou no ser capaz de lhe fazer as coisas mais fcil . Era melhor, pois, que o deixasse tudo
claro e acabasse com isso.

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        --Um dia encontrar a um macho adequado e tomar como companheiro. Ele somente
beber de voc, e voc dele. O sangue lhes unir em um sozinho ser.  um juramento sagrado
entre os nossos. Um juramento que eu no posso te fazer.
        A expresso ferida do rosto do Gabrielle era como se ele acabasse de lhe dar uma
bofetada.
        --No pode... ou no quer?
        --O que importa isso? Estou-te dizendo que isso no vai acontecer porque no o vou
permitir. Se tivermos um vnculo de sangue, estarei unido a voc enquanto fique um hlito de
vida em meu corpo e no teu. Voc nunca estar livre de mim porque esse vnculo me obrigar
para te buscar at qualquer lugar aonde possa fugir.
        --por que cr que eu fugiria de voc?
     Ele exalou com fora.
        --Porque, um dia, esta coisa contra a que estou lutando vai poder comigo e no posso
suportar a idia de que voc te encontre em meu camihno quando isso acontea.
        --Est falando da sede de sangue.
        --Sim --disse ele. Era a primeira vez que de verdade o reconhecia, inclusive ante si
mesmo. Durante todos estes anos tinha conseguido escond-lo. Mas no o tinha conseguido
ante ela.
      -- A sede de sangue  a maior debilidade dos de minha classe.  um vcio, uma
condenada praga. Uma vez te tem em seu poder, muito poucos vampiros tm a fora
necessria
     para escapar dela. Convertem-se em renegados e logo esto perdidos.
        --Como acontece?
        --Para cada um  diferente. s vezes, a enfermidade se instala pouco a pouco. A sede
vai crescendo e algum vai satisfazendo. Algum a satisfaz sempre que o exige, e uma noite
um se d conta de que essa necessidade nunca fica satisfeita. Para outros, um momento de
descuido e indulgencia pode conduzir a passar ao outro lado.

      --E como  para voc?

       Seu sorriso se fez tenso, foi como se descobrisse os dentes e as presas.
     --Tenho a duvidosa honra de levar o sangue de meu pai nas veias. Se os renegado forem
umas bestas, no so nada comparados com o aoite que iniciou nossa estirpe. Para os da
primeira gerao, a tentao sempre est presente, tem mais fora em ns que em outros. Se
quer saber a verdade, estive enganando a sede de sangue desde que a provei pela primeira
vez.
       --Assim tem um problema, mas o superou a outra noite.
       --Consegui control-lo, obrigado em grande medida a voc, mas cada vez  pior.
     --Pode super-lo outra vez. Superaremo-lo juntos.
       --Voc no conhece minha histria. J perdi meus dois irmos a causa desta
enfermidade.
       --Quando?
       --Faz muito tempo. --Franziu o cenho, recordando um passado que no gostava de
desenterrar. Mas as palavras acudiam rapidamente agora, queria as pronunciar ou no--.
Evran, o do meio dos trs, converteu-se em renegado justo quando se fez adulto. Morreu em

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combate, lutando no bando equivocado durante uma das antigas guerras entre a raa e os
renegados. Marek era o maior, e quem tinha menos medo. Ele, Tegan e eu formvamos parte
do primeiro grupo de guerreiros da raa que se levantou contra o ltimo dos Antigos e seus
exrcitos de renegados. Fundamos a Ordem mais ou menos na poca da grande praga que os
humanos sofreram na Europa. Ao cabo de quase cem anos, a sede de sangue se levou a Marek;
foi em busca do sol para terminar com sua desgraa. Inclusive Tegan teve um roce com o vcio
faz muito tempo.

         --Sinto-o --disse ela com suavidade.
        -- Perdeste muito por causa disto. E por causa deste conflito com os renegados. Dou-me
conta de que te aterroriza.
         Ele teve uma resposta frivola imediata na ponta da lngua, uma tolice que no
duvidaria em responder a qualquer de outros guerreros que mostrassem a presuno
suficiente para acreditar que lhe tinha medo a algo. Mas essa resposta ficou presa em sua
garganta ao olhar a Gabrielle porque sabia que lhe compreendia melhor do que ningum lhe
tinha compreendido em sua larga existncia.
         Conhecia-lhe em um plano no qual ningum mais lhe tinha conhecido, e uma parte
dele ia jogar isso de menos quando chegasse o momento de mand-la longe, ao futuro que lhe
esperava em um dos Refgios Oscuros.
          --No sabia que voc e Tegan tinham estado juntos desde tanto tempo -- disse
Gabrielle.
          --Ele e eu estivemos juntos sempre, desde o comeo. Os dois somos da primeira
gerao, e ambos juramos que nosso dever consiste em defender A nossa estirpe.
          --Mas no so amigos.
       --Amigos? --Lucan rio ao pensar nos sculos de antagonismo entre eles.
      _ egan no tem amigos. E se os tivesse, seguro que no me contaria entre eles.
          --Ento, por que lhe permite estar aqui?
      -- um dos melhores guerreiros que conheci. Seu compromiso com a Ordem  muito
mais profundo que qualquer dio que possa sentir porim. Compartilhamos a crena de que
no h nada mais importante que proteger o futuro da raa.
        --Nem sequer o amor?

       Ele no pde falar durante um segundo: sentiu-se apanhado com a guarda baixa
quando franca pergunta e no desejava pensar aonde lhes podia conduzir isso. No tinha
experincia nessa emoo em particular. E por causa da maneira em que transcorria sua vida
nesses momentos, no queria nem pensar em nada que lhe parecesse.
       --O amor  para quo machos escolhem levar uma vida branda em um Refgio Escuro.
No para os guerreiros.
       --Alguns de outros que vivem neste complexo lhe discutiriam isto.
       Ele a olhou com serenidade.
       --Eu no sou como eles.
       Ela baixou a cabea imediatamente e olhou para baixo para ocultar seus olhos ante ele.
       --Ento, no que me converte tudo isto? Represento somente uma maneira de passar o
tempo enquanto continua matando renegados e fingindo que tem tudo sobrecontrole? --
Levantou o olhar e tinha os olhos alagados de lgrimas.

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     -- Sou um brinquedo que tomadas somente quando precisa gozar?
       --No te queixaste.
       Gabrielle ficou sem respirao e uma ligeira exclamao ficou apanhada na garganta.
Olhou-lhe, evidentemente consternada e com todo o direito de est-lo. Sua expresso foi
primeiro de abatimento e logo se endureceu adotando um aspecto duro como o cristal.
       --Que lhe fodam.
       O desprezo que sentia para ele nesse momento era compreensvel, mas isso no o fazia
mais fcil de aceitar. Ele nunca tivesse aceito esse insulto verbal de ningum. Antes desse
momento, nunca ningum tinha tido o valor de lhe desafiar. Lucan, o distante, o assassino frio
e duro que no tolerava nenhum tipo de debilidade, e muito menos em si mesmo.

         Apesar de todos os limites e a disciplina que tinha conseguido implantar durante esses
sculos de vida, ali estava, destroado por uma mulher a quem tinha sido o suficientemente
louco para deixar que se o cerca-se. E se preocupava com ela, alm disso, muito mais do que
deveria. O qual fazia que o fato de lhe fazer machuco nesse momento lhe parecesse muito
mais repugnante, apesar do fato de que a noite passada lhe fez claro que era necessrio que a
apartasse. Era inevitvel, e se fingia que ela algum dia poderia adequar-se a sua forma de
vida, era ainda pior.
         --No quero te fazer danifico, Gabrielle, e sei que lhe farei isso.
         --E o que crie que est fazendo agora mesmo? --sussurrou ela, com um n na
garganta.
       --Sabe? Acreditei-te. Merda, de verdade acreditei todas as mentiras que me disse.
Inclusive essa tolice de que queria ajudar-me a encontrar meu verdadeiro destino. De verdade
acreditei que se preocupava comigo.
        Lucan se sentiu impotente, o mais frio dos bodes por deixar que as coisas lhe
escapassem das mos at tal ponto com ela. Dirigiu-se a uma cmoda, tirou uma camisa limpa
e a ps. Logo foi at a porta que conduzia ao vestbulo de fora de seus apartamentos privados
e se deteve para olhar a Gabrielle.
         Desejava tanto alargar os braos para ela, tentar melhorar as coisas de algum jeito.
Mas sabia que seria um engano. Se a tocava, voltaria a t-la outra vez entre os braos.
       Ento possivelmente no seria capaz de deix-la partir.
      Abriu a porta, preparado para sair.
       -- Encontraste seu destino, Gabrielle. Tal e como te disse que aconteceria. Eu nunca te
disse que seria comigo.



     Captulo vinte e quatro

     As palavras de Lucan --e todas as coisas incrveis que lhe havia dito-- ainda lhe
ressonavam nos ouvidos enquanto saa debaixo da gua da ducha do banho. Fechou o grifo e
se secou com a toalha, esperando que a gua quente lhe tivesse aliviado parte da dor e a
confuso que sentia. Havia muitas coisas com as que devia enfrentar-se, e a menor delas no
era o fato de que Lucan no tivesse nenhuma inteno de estar com ela.



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       Tentou dizer-se a si mesmo que no lhe tinha feito nenhuma promessa, mas isso
somente o fazia sentir-se mais tola. Ele nunca lhe tinha pedido que pusesse seu corao aos
seus ps; tinha-o feito ela sozinha.
       Aproximou-se do espelho que ocupava todo o largo da parede do lavabo e se apartou o
cabelo para olhar com ateno a marca de nascimento carmesim que tinha debaixo da orelha
esquerda. Melhor dizendo, a marca de companheira de raa, corrigiu-se a si mesmo, enquanto
observava a pequena lgrima que parecia cair na terrina da lua crescente.
       Por alguma retorcida ironia, essa pequena marca no pescoo a unia ao mundo de Lucan
e, apesar disso, era o mesmo que lhe impedia de estar com ele.
       Possivelmente ela representava uma complicao que ele no queria ou no necesitava,
mas o fato de haver-se encontrado com ele tampouco tinha feito que sua vida fora uma festa.
       Graas a Lucan, ela se tinha metido em uma sangrenta guerra que havia parecer com os
violadores em grupo uns fanfarres de ptio. Ela tinha abandonado um dos melhores
apartamentos do Beacon Hill, e ia perde-lo se no voltava e a trabalhar para pagar as faturas.
Seus Amigos no tinham nem idia de onde estava, e dizer-lhe nesse momento poria,
provavelmente, suas vidas em perigo.
       Para cmulo de tudo isso, havia-se meio apaixonado por mais escuro e mortfero deles,
o homem mais fechado emocionalmente que tinha conhecido.

        Que, alm disso, resultava ser um vampiro chupador de sangue.
        E, que diabos, j que estava sendo sincera consigo mesma, no estava meio apaixonada
por Lucan. Estava completa, inteira, perdidamente e sem poder super-lo na vida apaixonada
por ele.
        --Bem feito --disse a seu miservel reflexo.
       -- Malditamente brilhante.
        E Apesar de tudo o que lhe havia dito, no havia nada que desejasse mais que ir para
lhe buscar ali onde estivesse no complexo e envolver-se com seus braos, o nico lugar onde
tinha encontrado algum consolo.
        Sim, como se precisasse acrescentar a humilhao em pblico a humilhao ntima com
que tentava enfrentar-se nesse momento. Lucan o tinha deixado muito claro: o que pudessem
ter tido os dois --se  que houvesse tido verdadeiramente algo que estivesse alm do fsico--,
terminou-se.
       Gabrielle voltou para seu dormitrio, recuperou sua roupa e seus sapatos e se vestiu
depressa, desejosa de estar fora dos aposentos pessoais de Lucan antes de que ele voltasse e
ela fizesse alguma coisa verdadeiramente estpida. Bom, corrigiu-se ao ver os lenis
enrugados por haver feito amor, alguma coisa ainda mais estpida.
       Com a idia de ir procurar a Savannah e, possivelmente, tentar encontrar um telefone
fora do complexo --j que Lucan no o havia parecido adequado lhe devolver o celular--
Gabrielle se escapuliu do dormitrio. O pesseio resultava confuso, sem dvida por causa de
seu traado, assim fez uns quantos giros errneos at que finalmente reconheceu onde se
encontrava. Estava perto das instalaes de treinamento, a julgar pelo agudo som dos disparos
contra os alvos.
      afastou-se de uma esquina e se viu detida repentinamente por uma rgida parede
coberta de pele e armas que se encontrava em seu caminho.


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       Gabrielle olhou para cima, e um pouco mais para cima, e se encontrou com uns olhos
verdes e desconfiados que a olhavam com uma arrepiante expresso ameaadora. Esses olhos
frios e calculadores se cravaram nela desde detrs de uma cascata de cabelo avermelhado,
como um gato que aconchega e valora a sua presa. Gabrielle tragou saliva. Um perigo
evidente eemanava do corpo grande desse vampiro e da profundidade de seus olhos de
depredador.

     Tegan.
        O nome desse macho desconhecido lhe veio a cabea, o nico dos seis guerreiros do
complexo a quem ainda no tinha conhecido.
        O mesmo com quem Lucan parecia compartilhar um mtuo e mau dissimuladou
desprezo.
        O guerreiro vampiro no se separou de seu caminho. Nem sequer reagiu quando ela
teve se chocado contra ele, exceto pela ligeira careta que dava com os lbios quando seus olhos
encontraram os peitos dela Aplastados contra a superfcie de duro msculo justo debaixo do
peito. Levava umas doze armas e essa ameaa se via reforada por uns noventa quilogramas
de msculo.
        Ela deu um passo para trs e logo se fez a um lado para ficar em um lugar seguro.
        --Sinto muito. No me tinha dado conta de que estava aqui.
        Ele no disse nenhuma palavra, mas ela sentiu como se tudo o que lhe estava
acontecendo tivesse ficado exposto e visvel ante ele em um instante: no instantneo contato
do corpo dela contra o dele. Ele a olhou com uma expresso gelada e desprovida de emoo,
como se pudesse ver atravs dela. Embora no disse nada e no expressou nada, Gabrielle se
sentiu diseccionada.
        sentiu-se... invadida.
     --Perdo --sussurrou.
        No momento em que se moveu para passar de comprimento, a voz do Tegan a deteve.

        --N. --Sua voz era mais suave do que tivesse esperado; uma voz profunda, escura e
spera. Contrastava de forma peculiar com a desnudez do olhar, que no se moveu nem um
milmetro,
      -- Faa um favor a voc mesma e no te aproxime demasado de Lucan. H muitas posi-
bilidades de que esse vampiro no viva muito mais tempo.
        Disse-o sem rastro de emoo na voz, foi somente a plana constatao de um fato. O
guerreiro passou por seu lado e levantou uma brisa atrs dele impregnada de uma apatia fria
e perturbadora que lhe penetrou at os ossos.
        Gabrielle se deu a volta para lhe olhar, mas Tegan e sua inquietante predio tinham
desaparecido.
        Lucan comprovou o peso de uma brilhante nove milmetros com a mo e logo
levantou a arma e realizou uma srie de disparos contra o alvo que se encontrava ao outro
extremo da zona de tiro.
        Apesar de que era agradvel encontrar-se no terreno conhecido das ferramentas de seu
ofcio e sentir o sangue fervendo, a ponto para uma briga decente, uma parte dele continuava
divagando sobre o encontro com Gabrielle. Apesar de tudo o que havia dito para aparta-la
dele, tinha que admitir que se afeioou profundamente dela.

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        Quanto tempo acreditava ser capaz de continuar com ela sem render-se? Ou mais
exatamente, como acreditava que seria capaz de suportar a idia deixa-la partir? De mand-la
longe com a idia de que ela se emparelharia com outro?
       As coisas se estavam pondo indevidamente muito complicad.
       Deixou escapar uma maldio. Disparou outra srie de balas e desfrutou com o
estrondo do metal quente e com o aroma azedo no peito do alvo ao explodir por causa do
impacto.

        --O que pensa? --perguntou-lhe Nikolai, lhe olhando com seus olhos frios, limpos e
cintilante.
       _ Uma pea pequena e doce, no? Endiabradamente sensvel, alm disso.
        --Sim.  agradvel. Eu gosto. --Lucan ps o fecho de segurana e jogou outra olhada a
sua pistola.
        -- Uma Beretta 92FS convertida em automtica com carregador. Bom trabalho, tio.
Verdadeiramente bom.
      Niko sorriu.
        --No te falei que as balas que vo levar os meninos. Hei trocado as pontas ocas de
policarbonato das balas. tirei a plvora das pontas e a substitu por p de titnio.
        --Isso deve provocar um horrvel desastre no sistema sangneo desses chupes --
acrescentou D, que se encontrava sentado no bordo de uma vitrine de armas afiando umas
facas.
        Sem dvida, o vampiro tinha razo a respeito. Nos velhos tempos, a forma mais limpa
de matar a um renegado consistia em separar a cabea do corpo. Isso funcionava bem quando
as espadas eram a arma habitual, mas a tecnologia moderna tinha apresentado novos desafios
para ambos os bandos.
        No foi at princpios de 1900 quando a raa descobriu o efeito corrosivo do titnio no
sistema sangneo sobreactivo dos vampiros renegados. Devido a uma alergia que tinha
aumentado por causa de mudanas celulares no sangue, os renegados reagiam ao titnio como
um efervescente reage em contato com a gua.
          Niko tomou a arma de Lucan e lhe deu uns golpezinhos, como se fora um prmio.
          --O que tem aqui  um autntico destruidor de renegados.
          --Quando podemos prov-la?
          --Que tal esta noite? --Tegan tinha entrado sem fazer rudo, mas sua voz atravessou a
habitao como o rugido de uma tormenta.

        --Refere a esse lugar que encontrou perto do porto? --preguntu Dante.
      Tegan assentiu com a cabea.
        --Provavelmente seja uma guarida que albergue possivelmente a uma dzia de
indivduos, mais ou menos. Acredito que ainda esto verdes, acabam de comverter-se em
renegados. No ser muito difcil acabar com eles.
      --Faz bastante tempo que no fazemos uma batida para limpar uma casa --comentou
Rio, arrastando as palavras e com um amplo sorriso de satisfao.
      -- Me parece que ser uma festa.
        Lucan devolveu a arma a Nico e olhou ao outros com o cenho franzido.
        --por que diabos me acabo de inteirar disto agora?

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      Tegan lhe olhou com expresso categrica.
          --Tem que te pr um pouco ao dia, tio. Enquanto voc estava encerradou com sua
fmea durante toda a noite, ns estvamos acima fazendo nosso trabalho.
          --Isto foi um golpe baixo --disse Rio.
        -- Inclusive vindo de voc, Tegan.
          Lucan recebeu o golpe com um silncio calculado.
          --No, tem razo. Eu deveria ter estado a acima me ocupando do trabalho. Mas tinha
que me encarregar de algumas coisas aqui embaixo. E agora j terminei. J no vo ser um
problema nunca mais.
          Tegan lhe dirigiu um sorrizinho de suficincia.
      --De verdade? Porque tenho que te dizer que faz uns minutos hei visto a nova
companheira de raa na sala e a encontrei bastante inquieta. Parecia que algum tivesse
quebrado o corao dessa pobre garota. Deu-me a sensao de que necessitava que algum lhe
fizesse as coisas mais fceis.
          Lucan respondeu ao vampiro com um furioso e escuro rugido de raiva.
        --O que lhe disse? Tocou-a? Se lhe tiver feito algo...
        Tegan rio, verdadeiramente divertido.
        --Calma, tio. No faz falta que saia de suas casinhas desta maneira. Sua fmea no 
meu assunto.
        --Pois recordem isto --disse Lucan. deu-se a volta para enfrentar-se aos olhares de
curiosidade de outros vampiros.
      -- Ela no  assunto de nenhum de vocs, est claro? Gabrielle Maxwell se encontra sob
meu amparo pessoal enquanto esteja neste complexo. Quando tiver ido a um dos Refgios
Escuros, tampouco ser meu assunto.
        Necessitou um minuto para tranqilizar-se e no render-se ao impulso de enfrentar-se
diretamente com o Tegan. Um dia, provavelmente chegaria a faze-lo . E Lucan no podia
culpar por completo a esse macho por sentir rancor. Se Tegan era um bode desumano e
mesquinho, Lucan era quem lhe tinha ajudado a ser assim.
        --Podemos voltar para o trabalho agora? --disse com um grunhido, desafiando a que
ningum lhe desafiasse.
        -- Preciso ouvir dados a respeito desse refgio.
        Tegan se lanou a lhe oferecer uma descrio do que tinha observado nesse provvel
refgio de renegados e comunicou suas sugestes a respeito de como podiam fazer uma
batida nele. Apesar de que a fonte dessa informao chateava um pouco a Lucan, no podia
pensar em nenhuma forma melhor de obter que passasse o mau humor que realizando uma
ofensiva contra seus inimigos.
        Deus sabia que se se encontrava perto de Gabrielle outra vez, todas essas fanfarronadas
sobre o dever e de fazer o correto se converteriam em p. Fazia duas horas que a tinha
deixado em seu dormitrio e ela todavia era o principal em sua cabea. A necessidade dela
ainda o desgarrava cada vez que pensava em sua clida e suave pele.

       E pensar em como a tinha ferido-lhe fazia sentir um buraco no peito. Ela tinha
demonstrado ser uma verdadeira aliada quando lhe havia aberto frente aos demais guerreiros.
Lhe tinha acompanhado atravs desse inferno ntimo a outra noite, tinha estado a seu lado, to
tenra e amorosa como qualquer macho pudesse desejar de sua amada companheira.

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        Uma idia perigosa, olhasse-a por onde a olhasse.
        Deixou que a discusso a respeito dos renegados continuasse, e esteve de acordo em
que tinham que dar o golpe contra esses selvagens no lugar onde viviam em vez de ir para
lhes buscar um por um na rua.
        --Encontraremo-nos aqui ao pr-do-sol para nos preparar e sair.
        O grupo de guerreiros se dispersou e Tegan saiu a passo lento detrs dele.
        Lucan pensou nesse estico solitrio que se sentia to deploravelmente orgulhoso pelo
fato de no necessitar a ningum. Tegan se mantinha afastado e isolado por vontade prpria.
Mas nem sempre tinha sido assim. Uma vez tinha sido um menino brilhante, um lder nato.
Tivesse podido ser algum grande... tinha-o sido, na verdade. Mas todo isso trocou no curso
de uma noite terrvel. A partir desse momento, comeou a descer por uma espiral. Tegan
tocou fundo e nunca se recuperou.
        E apesar de que nunca o tinha admitido ante esse guerreiro Lucan nunca se perdoaria
a si mesmo o papel que ele tinha jogado nessa queda.
      --Tegan, espera.
        O vampiro se deteve com uma reticncia evidente. No se deu a volta, simplesmente
ficou em silencio com um gesto de arrogncia no corpo esperando a que outros guerreiros
sassem em fila das instalaes de treinamento para o corredor. Quando estiveram sozinhos,
Lucan se esclareceu garganta e falou com seu irmo de primeira gerao.
        --Voc e eu temos um problema, Tegan.



     Ele soltou ar pelo nariz.

          --vou avisar aos meios.
          --Este assunto entre ns no vai desaparecer. Faz muito tempo, choveu muito aps. Se
tiver que saldar contas
       comigo...
      --Esquece-o.  histria passada.
          --No  se no podermos enterr-la.
          Tegan soltou uma risada zombadora e, por fim, deu-se a volta para lhe olhar.
          --Quer me dizer algo, Lucan?
          --S quero te dizer que comeo a compreender o que te custou. O custo que eu te
supus. --Lucan meneou a cabea devagar e se passou uma mo pela cabea.
        -- Tegan, tem que saber que se tivesse havido alguma outra forma... Acredito que tudo
teria sido distinto.
          --Lucan, est tentando te desculpar comigo? --Os olhos verdes do Tegan tinham um
olhar to duro que tivesse podido cortar um cristal.
        -- Me Evite isto, tio. Chega uns quinhentos anos tarde. E senti-lo no muda uma merda
as coisas, no  verdade?
          Lucan apertou as mandbulas com fora, assombrado de no tar um verdadeiro zango
nesse macho grande em lugar de sua habitual e fria apatia.
        Tegan no lhe tinha perdoado. Nem sequer o tinha considerado.
        Depois de todo esse tempo, no acreditava provvel que o fizesse nunca.
        --No, Tegan. Tem razo. Senti-lo no troca as coisas.

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       Tegan lhe olhou durante um comprido         momento, logo se deu a volta e saiu da
habitao.

       A msica em direto soava desde uns alto-falantes do tamanho de um frigorfico diante
do subterrneo clube privado noturno. .. embora a plavra msica era um qualificativo
generoso para descrever os patticos e discordantes acordes de violo. Os membros do grupo
se moviam como autmatos no cenrio, arrastavam as palavras e perdiam o compasso mais
vezes das que o seguiam. Em uma palavra, eram horrveis.
       Mas como se podia esperar que uns seres humanos atuassem com alguma competncia
ao encontrar-se diante de uma multido de sedentos vampiros?
       Protegido por uns culos escuros, o lder dos renegados entrecerr os olhos e franziu o
cenho. J tinha uma horrorosa dor de cabea ao chegar, fazia muito pouco momento, mas
agora sentia as tmporas como se estivessem a ponto de lhe estalar. Recostou-se contra as
almofadas em seu reservado, aburrido dessas festas sangrentas. Com um leve gesto da mo
fez que uns de seus guardas se aproximasse dele. Logo fez um gesto de desprezo em direo
ao cenrio.
     --Que algum lhes alivie de seu sofrimento. Por no falar do meu.
     O vigilante assentiu com a cabea e respondeu com um vaio. Fez uma careta que
descobriu umas presas enormes que se sobressaam de seu boca, que j salivava ante a
possibilidade de outra massacre. O renegado saiu a passo rpido para cumprir as ordens.
       --Bom co --murmurou seu poderoso amo.
       Nesse momento soou seu telefone celular e se alegrou de ter a oportunidad de sair a
respirar um pouco o ar. No cenrio havia comeado um novo barulho e a banda de msica
calou sob o repentino ataque de um grupo de renegados frenticos.

        Enquanto a completa anarquia estalava no clube, o lder se dirigiu a sua habitao
privada de atrs do cenrio e tirou o telefone celular do bolso interior de seu casaco. Tinha
acreditado que se encontraria com o nmero ilocalizavel de um de seus muitos serventes, a
maioria dos quais tinham sido enviados a procurar informao sobre Gabrielle Maxwell e
sobre sua relao com a raa.
       Mas no era um deles.
       Deu-se conta disso assim que abriu o aparelho e viu o nmero oculto piscando na tela.
       Intrigado, respondeu a chamada. A voz que ouviu o outro extremo da linha no lhe era
desconhecida. Fazia alguns trabalhos ilegais com esse indivduo fazia muito pouco tempo e
ainda tinham umas quantas coisas por discutir. A seu requerimento, o tipo lhe ofereceu uma
srie de detalhes a respeito de uma batida que ia se realizar essa mesma noite em um dos
locais mais pequenos que os renegados tinham na cidade.
      Em questo de segundos soube tudo o que necessitava para conseguir que essa batida se
girasse a seu favor: a localizao, os presuntos mtodos dos guerreiros e a rota, e seu plano de
ataque bsico. Tudo com a condio de que um membro da raa se salvasse da vingana. Mas
este nico guerreiro no ficaria completamente a salvo, simplesmente receberia as suficientes
feridas para que no pudesse voltar a lutar nunca mais. O destino do resto de guerreiros,
incluindo ao quase imparavel Lucan Thorne, era deciso dos renegados.

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       A morte de Lucan j tinha formado parte de seu acordo uma vez, anteriormente, mas a
execuo da tarefa no tinha sido como tinham planejado. Esta vez, seu interlocutor queria ter
a segurana de que essa ao sim se levaria a cabo. Inclusive chegou to longe que lhe
recordou que j lhe tinham dado uma remunerao considervel por realizar essa tarefa que
ainda tinha que cumprir.
       --Estou bem informado de nosso acordo --reps, com fria.
     -- No me tente a te pedir um pagamento maior. Prometo-te que no o vais lamentar.

       Apagou o aparelho com uma maldio, cortando a resposta diplomtica que o outro
iniciou atrs de sua ameaa.
       Os dermoglifos que tinha na boneca brilhavam com um profundo tom que delatava sua
fria. As cores trocavam entre o desenho de outras marca que se fez ao tatuar na pele para
dissimular estes. No gostava de ter tido que ocultar sua linhagem --seu direito de
nascimento-- com tinta e secretismo. Detestava ter que levar uma existncia oculta, quase
tanto como detestava a todos aqueles que se interpunham no camino de conseguir seus
objetivos.
       Voltou para a zona principal do clube, ainda zangado. Na escurido, seu olhar tropeou
com seu tenente, o nico renegado da histria recente que tinha olhado a Lucan Thorne aos
olhos e que tinha podido cont-lo. Fez um sinal a esse macho enorme para que se aproximasse
e logo lhe deu as ordens para que se encarregasse da diverso e os jogos dessa noite.
       Sem ter em conta suas negociaes secretas, queria que essa noite, quando toda a
fumaa se dissolvesse, Lucan e todos quo guerreiros estavam com ele estivessem mortos.



     Captulo vinte e cinco

     Ele a evitou durante o resto do dia, o qual a Gabrielle pareceu que dava igual. Agora,
justo depois do anoitecer, Lucan e os outros cinco guerreros saam das instalaes de
treinamento como uma unidade militar, todos eles a viva imagem de uma ameaa, vestidos
com couro negro e carregados de armas letais. Inclusive Gideon se uniu a batida dessa noite e
tinha tomado o lugar do Conlan.
        Savannah e Eva tinham esperado no corredor para lhes ver sair e se acercaram a seus
companheiros para lhes dar um comprido abrao. Intercambiaram umas palavras ntimas em
voz baixa e em tom amoroso, uns tenros beijos que denotavam o temor das mulheres e a
atitude tranqilizadora dos homens para lhes assegurar de que voltariam para elas ss e
salvos.
        Gabrielle se encontrava a certa distancia, no vestbulo, e se sentia uma estranha
enquanto observava a Lucan dizendo algo a Savannah. A companheira de raa assentiu com a
cabea e lhe depositou um pequeno objeto na mo enquanto levantava a vista por cima do
ombro dela e a dirigia para o Gabrielle. No disse nada, no fez nenhum movimento para
aproximar-se dela, mas seu olhar se atrasou um pouco nela, observando-a do outro lado do
amplo espao que lhes separava nesses momentosse.
        E ento se foi.



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       Lucan, que caminhava diante de outros, girou a esquina ao final do corredor e
desapareceu. O resto do grupo lhe seguiu, e a seu passo somente ficou o seco ressonar dos
saltos das botas e o rudo metlico dos aos.
       --Est bem? --perguntou-lhe Savannah, aproximando-se de Gabrielle e passando um
brao pelos ombros com amabilidade.
     --Sim. Me passar.



       --Queria que te desse isto. --Ofereceu-lhe o telefone celular do Gabrielle.
      -- uma espcie de oferta de paz?
       Gabrielle tomou e assentiu com a cabea.
       --As coisas no vo bem entre ns agora mesmo.
       --Sinto muito. Lucan h dito que confia em que entenda que no pode ir do complexo
nem lhes dizer a seus amigos onde est. Mas se quer lhes chamar...
       --Obrigado. --Olhou  companheira do Gideon e conseguiu sorrir levemente.
       --Se quer ter um pouco de intimidade, ponha cmoda onde queira. --Savannah lhe
deu um breve abrao e logo olhou a Eva, que acabava de unir-se a elas.
       --No sei vocs --disse Eva, seu bonito rosto gasto pela preocupao--, mas iria bem
uma taa. Ou trs.
       --Possivelmente as trs venha bem um pouco de vinho e de companhia -- respondeu
Savannah.-- Gabrielle, vem te unir conosco quando termine. Estaremos em minhas
habitaes.
       --De acordo. Obrigado.
        As duas mulheres saram juntas, falando em voz baixa, com os braos entrelaados
enquanto percorriam o sinuoso corredor em direo aos Aposentos do Savannah e do Gideon.
Gabrielle partiu na direo contrria, sem saber onde desejava estar.
        Isso no era de tudo certo. Desejava estar com Lucan, em seus braos, mas era melhor
que superasse esse desejo desesperado, e logo. No tinha inteno de lhe suplicar que
estivesse com ela, e caso que consiguisse voltar inteiro depois da batida dessa noite, era
melhor que se preparasse para tirar-lhe completamente da cabea.

       Dirigiu-se para uma porta aberta que havia em um ponto tranqilo e pouco iluminado
do vestbulo. Uma vela brilhava dentro da habitao vazia: a nica luz nesse lugar. A solido
e o aroma de incenso e a madera velha a atraram. Era a capela do complexo; recordava ter
passado por ali durante a visita com o Savannah.
       Gabrielle caminhou entre duas filas de bancos em direo a um pedestal que se
levantava no outro extremo da habitao Era ali onde se encontrava a vela: sua chama estava
profundamente aninhada no centro e irradiava um suave resplendor carmesim. Sentou-se em
um dos bancos de diante e ficou uns momentos simplesmente respirando, deixando que a paz
do santurio a envolvesse.
       Conectou o telefone celular. O smbolo de mensagens estava piscando. Gabrielle
apertou a tecla da secretaria de voz e escutou a primeira chamada. Era de Megan, de fazia dois
dias, mais ou menos a mesma hora em que tinha chamado ao apartamento do Gabrielle
depois do ataque do sirviente no parque.


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       Gaby, sou eu outra vez. Deixei-te um monto de mensagens em casa, mas no me
chamaste. Onde est? Estou-me preocupando de verdade! No acredito que deva estar
sozinha depois do que aconteceu. Chama-me assim que oua esta mensagem: e quero dizer no
mesmo momento em que o receba, de acordo?
       Gabrielle apagou a mensagem e passou ao seguinte, que era da noite anterior, s onze.
Ouviu a voz da Kendra, que parecia um pouco cansada.
       N. Est em casa? Responde, se estiver. Merda, suponho que  um pouco tarde: sinto
muito. Provavelmente esteja dormindo. Bom, queria chamar os meninos, para ver se amos de
taas ou algo, possivelmente a outra sala? Que tal manh de noite? Me chame.
       Bom, pelo menos Kendra estava bem fazia umas quantas horas. Isso aliviou parte da
preocupao que sentia. Mas ainda ficava o asunto do menino com quem tinha estado saindo.
O renegado, corrigiu-se Gabrielle, com um estremecimento de medo ao pensar na
proximidade de sua amiga ao mesmo perigo que lhe estava pisando nos ps a ela.
       Passou ao ltima mensagem. Megan outra vez, fazia somente duas horas.

        Ol, carinho. Era uma chamada de comprovao. vais chamar me alguma vez e me
dir como foi na delegacia de polcia a outra noite? Estou segura de que seu detetive se
alegrou de verte, mas sabe que morro por saber todos os detalhes de como foi de intensa sua
alegria.
        O tom de voz do Megan era tranqilo e brincalho, perfeitamente normal.
Completamente distinto ao pnico das primeiras mensagens que hba deixado no telefone de
casa do Gabrielle e em seu telefone celular.
        Deus, isso estava bem.
        Porque no havia nenhum motivo de alarme por ela, nem por seu amigo policial, dado
que Lucan lhes tinha apagado a memria.
        Bom, fiquei com o Jamie para jantar esta noite no Ciao Bela... seu favorito. Se pode
arrum-lo, vem. Estaremos ali s sete.Para voc guardaremos um assento.
       Gabrielle marcou o boto de pendurar e olhou a hora no telefone: as sete e vinte.
       Devia a seus amigos, pelo menos, chamar e lhes fazer saber que se encontrava bem. E
uma parte dela desejava ouvir suas vozes, j que eram a nica conexo com a vida que tinha
antes. Lucan Thorne tinha dado a volta a sua vida por completo. Apertou o boto de marcao
rpida do celular do Megan e esperou com nsia enquanto o telefone soava. No mesmo
momento em que seu amiga respondeu, Gabrielle ouviu uma conversao apagada.
     --Ol, Meg.
     --N... por fim! Jamie,  Gabby!
     --Onde est essa garota? vai vir ou o que?
      --Ainda no sei. Gabby, vais vir?



         Para ouvir a familiar desordem do bate-papo de seus amigos, Gabrielle desejou estar
ali. Desejou que as coisas pudessem voltar a ser como eram antes de...
      --N... No posso. surgiu um assunto e...
         --Est ocupada --disse Megan a Jamie.
       --Mas, onde est? Kendra me chamou hoje, estava-te procurando. H-me dito que tinha
ido a seu apartamento mas que no parecia que estivesse em casa.

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       --Kendra apareceu por a? Viu-a?
       --No, mas quer reunir-se com todos ns. Parece que h terminado com esse menino
que conheceu na discoteca.
       --Brent --acrescentou Jamie em voz alta

     --Tm quebrado?
         --No sei --respondeu Megan--. Lhe perguntei como ia com ele e ela somente me
disse que j no se estavam vendo.
        --Bem --reps Gabrielle, muito aliviada--. So muito boas notcias.
        --Bom, e voc? Quem  to importante como para que no jante esta noite?
        Gabrielle franziu o cenho e olhou ao seu redor. Na sala havia levantado um pouco a
brisa e a chama vermelha da vela tremeu. Ouviu uns ps suaves e uma afogada exclamao de
surpresa de algum que tinha entrado e se deu conta de que a sala estava ocupada. Gabrielle
se deu a volta e viu uma loira alta na porta de entrada. A mulher olhou a Gabrielle com
expresso de desculpa e logo se disps a sair.

         --Estou... isto... fora da cidade, agora mesmo --disse a seus amigos em voz baixa.
       -- Certamente estarei fora uns quantos dias. Possivelmente mais.
     --Fazendo o que?
         --N, estou fazendo um trabalho por encargo --mentiu Gabrielle, diando ter que faz-
lo, mas sem encontrar outra alternativa.
      -- Chamarei assim que possa. Se cuidem. Quero-lhes.
         --Gabrielle...
         Pendurou antes de que a obrigassem a dizer nada mais.
        --Sinto-o --lhe disse a mulher loira enquanto Gabrielle se aproximava dela.
      -- No me tinha dado conta de que a habitao estava ocupada.
        --No o est. Por favor, fique. S estava... --Gabrielle soltou um suspiro.
     -- Acabo de mentir a meus amigos.
        --OH. --Uns amveis olhos de cor azul plida a olharam comprensivamente.
        Gabrielle fechou o telefone e passou um dedo por cima da carcasa chapeada e polida.
        --Deixei meu apartamento precipitadamente a outra noite para vir aqui com Lucan.
Nenhum de meus amigos sabe onde estou, nem por que tive que partir.
        --Compreendo. Possivelmente algum dia lhes possa dar alguma explicao.
        --Isso espero. No quero lhes pr em perigo lhes contando a verdade.
        A mulher assentiu com a cabea, pormenorizada, e seu halo de cabelo comprido e loiro
seguiu o movimento.

       --Voc deve ser Gabrielle. Savannah me h dito que Lucan havia trazido para uma
mulher que estava sob seu amparo. Sou Danika. Sou... era... a companheira do Conlan.
       Gabrielle aceitou a esbelta mo que Danika lhe ofereceu como saudao.
       --Sinto muito sua perda.
       Danika sorriu com uma expresso triste nos olhos. Soltou a mo do Gabrielle e, sem
dar-se conta, baixou a sua para acariciar o abdmen, imperceptivelmente inchado.
       --Queria ir para te buscar para te dar a bem-vinda, mas imagino que no sou a melhor
das companhias neste momento. No tive muita vontade de sair de minhas habitaes

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durante estes ltimos dias. Todava est sendo muito difcil para mim, tentar realizar este...
ajuste. Tudo  to distinto agora.
        -- obvio.
        --Lucan e outros guerreiros foram muito generosos comigo. Cada um deles me jurou
amparo quando a necessitar, esteja onde esteja. Para mim e para meu filho.
      --Est grvida?
        --Desde quatorze semanas. Desejava que este fora o primeiro de muitos filhos.
Estvamos to iludidos com nosso futuro. Tnhamos esperado muito tempo a fundar nossa
famlia.
        --por que esperaram? --Gabrielle franziu o cenho assim que se deu conta de que tinha
feito a pergunta.
      -- O sinto, no tento bisbilhotar. No  meu assunto.
        Danika estalou a lngua, lhe tirando importncia.
        --No h necessidade de desculpar-se. No me importa que me faa prerguntas, de
verdade. Para mim  bom falar de meu Conlan. Vem, vamos sentar nos um momento --lhe
disse, conduzindo a Gabrielle at uma das cadeiras bancos da capela.

        --Conheci Conlan quando era s uma menina. Meu povo da Dinamarca tinha sido
saqueado por uns invasores, ou isso acreditvamos. A verdade  que eram um grupo de
renegados. Mataram a quase todo mundo, as mulheres velhas e aos meninos, Aos velhos de
nossa aldeia. Ningum estava seguro. Um grupo de guerreiros da raa chegou a metade do
ataque. Conlan era um deles. Resgataram a tantos dos nossos como puderam. Quando
descubriram minha marca, levaram-me a Refgio Escuro mais prximo. Foi ali onde aprendi
tudo a respeito da nao dos vampiros e do lugar que eu ocupava nela. Mas no podia deixar
de pensar em meu salvador. Foi coisa do destino que, ao cabo de uns anos, Conlan fora outra
vez a essa zona. Eu estava to iludida de lhe ver. Imagine a comoo que senti ao saber que ele
tampouco se esqueceu de mim.
        --Quanto faz disso?
        Danika quase no teve que deter-se para calcular o tempo.
        --Conlan e eu compartilhamos quatrocentos e dois anos juntos.
        --Meu Deus --sussurrou Gabrielle--. Tanto tempo...
        --passou em um abrir e fechar de olhos, se te disser a verdade. No te mentirei te
dizendo que sempre foi fcil ser a mulher de um guerreiro, mas no trocaria nem um s
instante. Conlan acreditava por completo no que estava fazendo. Queria um mundo mais
seguro, para mim e para nossos filhos que estavam por chegar.
       --E por isso esperou todo este tempo para conceber um filho?
       --No queramos fundar nossa famlia enquanto Conlan sentisse que precisava
permanecer com a Ordem. Estar em primeira linha no  o melhor para os meninos, e esse  o
motivo pelo que no h famlias entre os membros da classe dos guerreiros. Os perigos so
muito grandes, e nossos companheiros precisam poder concentrar-se nicamente em sua
misso.

       --No se do acidentes?
       --Os embaraos acidentais so completamente desconhecidos na raa porque ns
necessitamos algo mais sagrado que o simples sexo para conceber. O momento de fertilidade

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das companheiras de raa  durante a lua crescente. Durante este momento crucial, se
desejamos conceber um filho, nossos corpos devem conter tanto a semente de nosso
companheiro como seu sangue.  um ritual sagrado que ninguem planeja realizar as pressas.
       A idia de poder compartilhar esse profundo e ntimo ato com Lucan fez que Gabrielle
sentisse que o centro de seu ser entrava em calor. A idia de unir-se dessa forma com outro, de
engordar com o filho de outro que no fora Lucan, era uma possibilidade que se negava a ter
em conta. Preferia estar sozinha, e provavelmente o estaria.
       --O que vais fazer agora? --perguntou-lhe, rompendo o silncio em que se ficou ao
imaginar sua prpria solido futura.
       --Ainda no sei --respondeu Danika.
       -- Sim sei que no vou unir-me com nenhum outro macho.
       --No necessita um companheiro para continuar jovem?
       --Conlan era meu companheiro. Agora que ele se foi, uma s vida j ser muito tempo.
Se me negar a ter um vnculo de sangue com outro macho, simplesmente envelhecerei de
forma natural daqui em diante, igual que antes de conhecer Conlan. Simplesmente serei...
mortal.
       --Morrer --disse Gabrielle.
       Danika sorriu com expresso decidida, mas no de tudo triste.
       --Ao final.
       --Aonde ir?

        --Conlan e eu tnhamos planejado nos retirar a um dos Refgios Escuros da
Dinamarca, onde eu nasci. Ele queria isso para mim, mas agora acredito que prefiro criar a
seu filho em Esccia para que tenha a oportunidade de conhecer algo de seu pai Atravs da
terra que ele tanto amava. Lucan j comeou a fazer os preparativos para que possa ir quando
dita que estou preparada.
        --Isso foi amvel por sua parte.
        --Muito amvel. Quando veio a me buscar para me dar a notcia, e para me prometer
que meu filho e eu sempre estaramos em comunicao direta com ele e com o resto da Ordem
se por acaso alguma vez necessitvamos algo, no me podia acreditar isso. Foi o dia do
funeral, s umas quantas horas depois do mesmo, e suas queimaduras ainda eram
extremamente grav. E apesar disso, ele estava mais preocupado por meu bem-estar.
        --Lucan sofreu queimaduras? --Gabrielle sentiu que um sentimento de alarme lhe
assaltava o corao.
      -- Quando? E como?
      --Faz s trs dias, quando realizamos o ritual funerrio do Conlan. --Danika arqueou as
finas sobrancelhas--. No sabia? No, claro que no o sabia. Lucan nunca mencionaria esse
ato de honra, nem o dano que sofreu para lev-lo a cabo. Olhe, a tradio funerria da raa
estabelece que um vampiro deve levar o corpo do morto fora para que os elementos da
natureza o recebam --disse, fazendo um gesto em direo a uma sombria esquina da capela
onde havia uma escura escada.
      --  um dever que mostra um grande respeito e exige um grande sacrifcio porque, uma
vez fora, o vampiro que atende a seu irmo deve ficar ao seu lado durante oito minutos
durante a sada do sol.
      Gabrielle franziu o cenho.

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       --Mas eu acreditava que a pele de um vampiro no suporta os raios do sol.
       --No, no os suporta. Sofre queimaduras graves e de forma muito rpida, mas
ningum sofre mais que um vampiro de primeira gerao. Os mais velhos da raa sofrem
mais, inclusive em um tempo de exposio muito breve.

        --Como Lucan --disse Gabrielle.
      Danika assentiu com expresso solene.
        --Para ele, estar exposto oito minutos a sada do sol deve haver sido insuportvel.
Mas o fez. Pelo Conlan, deixou que seu corpo se queimasse. Inclusive tivesse podido morrer
ali acima, mas no tivesse deixado que ningum mais assumisse o peso de oferecer repouso a
meu amado Conlan.
        Gabrielle recordou a urgente chamada Telefnica que tinha tirado Lucan fora da cama
em meio da noite. No lhe tinha contado do que se tratava. Tampouco tinha compartilhado
sua perda com ela.
        Sentiu que a dor lhe retorcia o estmago ao pensar no que tinha suportado, segundo a
descrio da Danika.
      --Falei com ele... esse mesmo dia, de fato. Por sua voz soube que algo ia mau, mas ele o
negou. Parecia to cansado, mais que exausto.  esta me dizendo que sofreu queimaduras pela
luz ultravioleta?
        --Sim. Savannah me contou que Gideon o encontrou no muito tempo depois. Lucan
tinha queimaduras da cabea aos ps. No podia abrir os olhos a causa da dor e a inflamao,
mas rechaou qualquer tipo de ajuda para voltar para suas habitaes para curar-se.
        --Meu Deus --sussurrou Gabrielle, estupefata--. Ele nunca me contou isso, no me
contou nada disto. Quando lhe vi mais tarde, essa noite... s ao cabo de umas horas, parecia
completamente normal. Bom, o que quero dizer  que parecia e atuava como se nada mau lhe
tivesse ocorrido.
        --A pureza de linha de sangue de Lucan lhe faz sofrer mais, mas tambm lhe ajuda a
curar-se mais depressa das queimaduras. Inclusive ento no foi fcil para ele; ele necessitaria
uma grande quantidade de sangue para repr seu corpo depois de um trauma to forte.
Quando esteve o bastante bem para abandonar o complexo e ir de caa, devia ter uma fome
voraz.
        Tinha-a tido. Gabrielle se dava conta agora. A lembrana de lhe ver alimentar do
servente a quem tinha matado lhe passou pela mente, mas agora tinha um significado
distinto, j no lhe parecia o ato monstruoso que lhe tinha parecido de forma superficial, a
no ser um meio de sobrevivemcia. Tudo adquiria um significado novo desde que conhecia
Lucan.

      Ao princpio, tinha-lhe parecido que a guerra entre os da raa e seus inimigos no era
mais que um mal enfrentado a outro, mas agora no podia evitar sentir que tambm era sua
guerra. Ela se jogava algo no desenlace, e no somente pelo fato de que seu futuro se
encontrava ligado a este estranho mundo. Para ela era importante que Lucan ganhasse no s
a guerra contra os renegados, mas tambm a devastadora guerra pessoal que liberava em
privado.



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        Estava preocupada com ele, e no podia ignorar a queimao de medo que tinha
comeado a sentir na base das costas desde que ele e os outros guerreiros tinham abandonado
o complexo para ir de batida.
        --Quer-lhe muito, verdade? --perguntou-lhe Danika. Entre elas se havia feito um
angustiante silncio.
        --Quero-lhe, sim. --Olhou a mulher aos olhos e no encontrou motivo para esconder
uma verdade que, provavelmente, se trasluca em seu rosto.
      -- Posso te dizer uma coisa, Danika? Tenho uma horrvel sensao a respeito do que est
fazendo esta noite. E para pior-lo, Tegan disse que no acreditava que Lucan fora a viver
muito mais. quanto mais momento levo aqui sentada, mais medo tenho de que Tegan possa
ter razo.
        Danika franziu o cenho.
      --Falaste com o Tegan?
        --Tropecei-me com ele --literalmente-- muito recentemente . Disse-me que no me
afeioasse muito de Lucan.
        --Porque acreditava que Lucan ia morrer? --Danika deixou escapar um comprido
suspiro e meneou a cabea--. Esse parece desfrutar pondo a outros no fio. Provavelmente o h
dito somente porque sabe que isso te inquietar.

       --Lucan disse que entre eles havia animosidade. Crie que Tegan  de confiar?
       Pareceu que a companheira de raa loira o pensava um momento.
       --Posso dizer que a lealdade  uma parte importante do cdigo dos guerreiros.  tudo
para esses machos, faz-os um. Nada deste mundo pode lhes fazer violar essa confiana
sagrada. --levantou-se e tomou a mo do Gabrielle.
     -- Vem. vamos procurar a Eva e a Savannah. E a espera ser menos larga para todas se
no a passarmos sozinhas.



     Captulo vinte e seis

     Do ponto de observao onde estavam apostados em um dos edifcios do porto, Lucan e
outros guerreiros observaram um pequeno caminho cujas rodas cromadas cuspiam cascalho,
dirigir-se a localizao que estavam vigiando. O condutor era um ser humano. Se seu aroma a
suor e a ansiedade no tivesse delatado, a msica country que saa estrondosamente pelo
guich aberto o tivesse feito. Saiu do veculo com uma bolsa de papel marrom repleta de algo
que cheirava a arroz frito e porco.
        --Parece que os meninos jantam dentro esta noite --disse D. O confiado mensageiro
comprovou o papel branco que tinha grampeado no pedido e olhou para o dique com cautela.
        O condutor se aproximou da porta de entrada do armazm, dirigiu outro olhar
nervoso ao seu redor, soltou um juramento em meio da escurido e apertou o timbre. No
havia nenhuma luz dentro do edifcio, somente havia o feixe de luz amarela que caa da
lmpada nua que pendurava em cima da porta. Lucan viu os olhos ferozes de um Renegado e
o mensageiro gaguejou umas palavras do pedido e alargou o papel para o buraco escuro que
se aberto diante dele.


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       --O que quer dizer trocando-o? --perguntou o cowboy urbano com um forte acento de
Boston.
     -- Que diabos...?
       Uma enorme mo lhe sujeitou pelo peito da camisa e lhe levantou do cho. ele chiou e
em seu ataque de pnico conseguiu largar-se da mo do renegado.
       --Uf! --exclamou Niko desde sua posio perto da cornija.
     -- Parece que acaba de dar-se conta de que no h comida a Chinesa no menu.
       O renegado voou at o ser humano como uma sombra, assaltou-lhe por detrs e lhe
abriu a garganta com uma eficincia selvagem. A morte foi sangrenta e foto instantnea. Logo
o renegado se levantou de um salto e se disps a carregr a presa ao ombro para lev-la
dentro, e Lucan ficou em p.
       --chegou o momento de nos pr em marcha. Vamos.
       Ao unssono, os guerreiros saltaram ao cho e se dirigiram a grande velocidade para o
armazm que servia de guarida aos renegados. Lucan, que lhes marcava o caminho, foi o
primeiro em alcanar ao vampiro com sua inerte carrega humana. Com uma mo, sujeitou ao
renegado pelo ombro e lhe obrigou A dr a volta ao tempo que tirava uma de suas folhas
mortferas da capa que levava no quadril. Golpeou com fora e uma pontara certeira, e
decapitou a essa besta com um corte limpo.
       As clulas do renegado comearam a fundir-se imediatamente e este caiu, empapado
de sangue, ao cho. O contato da folha de Lucan foi como um cido que atravessou o sistema
nervoso do vampiro. Ao cabo de uns segundos, quo nico ficava do renegado era um atoleiro
negro e putrefato que se dilua na sujeira do cho.
       Mais adiante, na porta, Dante, Tegan e os outros trs guerreiros se formavam em um
grupo fechado e armado, disposto a iniciar a ao ral.  ordem de Lucan, os seis se
introduziram no armazm com as armas A ponto.
       Os renegados que se encontravam dentro no tiveram nem idia do que era o que lhes
estava atacando at que Tegan lanou uma adaga que foi cravar se na garganta de um deles.
Enquanto o renegado chiava e se retorcia ao desintegrar-se, seus cinco companheiros,
enfurecidos, se dispersaram em busca de refgio ao tempo que tomavam as armas sob a chuva
de balas e folhas afiadas que Lucan e seus irmos lanavam a discrio.
       Dois dos renegados caram ao cabo de uns segundos de haver-se iniciado o
enfrentamento, mas os outros dois que ficavam haviam ocultado nas profundidades escuras
do armazm. Um deles disparou contra Lucan e Dante desde detrs de um velho monto de
gavetas. Os guerreiros esquivaram esse ataque e lhe responderam, o qual lhe fez sair ao
descoberto e lhe deu a oportunidade a Lucan de acabar com ele.

        Lucan percebeu na periferia de seu campo de viso que o ltimo deles tentava escapar
por entre um monto de barris derrubados e de tubos de metal que havia na parte traseira do
edifcio.
        A Tegan tampouco tinha passado desapercebido. O vampiro se precipitou para o
renegado como um trem de carga e desapareceu nas prfundidades do armazm em uma
mortal perseguio.
        --Tudo espaoso --gritou Gideon desde algum ponto da escurido fumegante e
poeirenta.


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       Mas assim que o houve dito, Lucan percebeu que um novo perigo se abatia sobre eles.
Seu ouvido distinguiu o discreto roce de um movimento sobre sua cabea. Os lgubres
abajures do teto que se encontravam em cima dos tubos do sistema de ventilao do armazm
estavam quase negras de sujeira, mas Lucan estava seguro de que algo avanava pelo telhado.
       --Vigiem acima! --gritou aos outros, e nesse momento o telhado caiu e sete renegados
mais se deixaram cair de acima disparando com suas armas.
       De onde tinham sado? A informao que tinham sobre essa guarida era de confiar: seis
indivduos, provavelmente convertidos em renegados recentemente, que operavam de forma
independente, sem nenhuma filiao. Ento, quem tinha dado aviso a essa cavalaria para que
lhes apiassem? Como se tinham informado de que havia uma batida?
       --Uma maldita emboscada --grunhiu Dante, pondo em voz alta o pensamento de
Lucan.
       No era possvel que esses novos problemas tivessem aparecido por acaso. Lucan se
fixou no mais volumoso dos renegados que se estavam precipitando contra eles nesses
momentos e sentiu que uma furia negra lhe fervia no ventre.
     Era o vampiro que lhe tinha escapado a noite do assassinato Aos subrbios da discoteca.
O bode da Costa Oeste. O canalha que havia podido matar a Gabrielle e que possivelmente
ainda pudesse faz-lo algum dia se Lucan no acabava com ele nesse preciso momento.

       Enquanto Dante e outros respondiam ao fogo do grupo de renegados, Lucan foi
unicamente por esse objetivo.
       Essa noite ia terminar com ele.
       O vampiro vaiou amenaadoramente ao lhe ver avanar e seu horrvel rostro se
deformou com um sorriso.
       --Encontramo-nos de novo, Lucan Thorne.
     Lucan assentiu com expresso lgubre.
       --Pela ltima vez.
       O dio mtuo fez que ambos os machos se desprendessem das armas para encetar-se
em um combate mais pessoal. Em um instante desenfunderam as facas, um em cada mo, e os
dois vampiros se prepararam para cercar um combate a morte. Lucan lanou a primeira
estocada, e recebeu um perigoso corte no ombro: o renegado lhe tinha esquivado com sigilosa
velocidade e se deslocou, em um abrir e fechar de olhos, ao outro lado dele. Tinha as
mandbulas abertas e uma expresso de triunfo ante o primeiro sangue derramado.
       Lucan se deu a volta com igual agilidade e suas facas assobiaram perigrosamente perto
da cabea do renegado. O chupo baixou a vista e viu sua orelha direita no cho, A seus ps.
       --comeou o jogo, imbecil --grunhiu Lucan.
       Com uma vingana.
       Lanaram-se um contra o outro em um torvelinho de fria com seus acertos frios e
mortais. Lucan tinha conscincia da batalha que se cercou ao seu redor, de que os guerreiros
se estavam enfrentando ao segundo ataque. Mas toda sua concentrao, todo seu dio,
centrava-se na afronta pessoal com o renegado que tinha em frente.

       Quo nico Lucan tinha que fazer para acender-se de fria era pensar em Gabrielle e no
que esta besta lhe tivesse feito.


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        E alimentou essa fria: fez retroceder ao renegado estocada atrs de cada, implacvel.
No sentiu os golpes que recebeu no corpo, embora foram muitos. Tombou a seu competidor
e se preparou a lanar a ltima e mortfera estocada.
        Com um rugido, realizou um profundo corte na garganta do renegado e separou sua
enorme cabea do corpo destroado. Uns espasmos sacudiram os braos e as pernas do
vampiro e este se desabou, retorcendo-se, ao cho. Lucan ainda sentia a fria martilando com
fora nas veias; deu a volta  faca que tinha na mo e o cravou com fora no peito do renegado
para acelerar o processo de desintegrao do corpo.
        --Santo inferno --exclamou Rio desde algum ponto perto dele com voz seca.
      -- Lucan, tio, em cima de ti! H outro nas vigas.
        Aconteceu em um instante.
        Lucan se deu a volta, sentindo a fria da batalha em todos os msculos do corpo. Jogou
uma olhada para cima, onde Rio havia lhe indicado. Muito acima por cima de sua cabea
outro vampiro renegado se pendurava pelos tubos do teto do armazm com uma coisa sob o
brao que parecia ser uma pequena bola de metal. Mas uma pequena luz vermelha parecia
rapidamente nesse aparelho e imediatamente ficou acendida.
        --Ao cho! --Nikolai levantou sua Beretta trucada e apontou.
      -- O tipo vai lanar uma maldita bomba!
        Lucan ouviu o repentino disparo da arma.

      Viu que o renegado recebia o disparo do Niko justo entre os brilhantes olhos amarelos.
      Mas a bomba j estava no ar.
     Ao cabo de segundo meio, estalou.



     Captulo vinte e sete

      Gabrielle se incorporou repentinamente, despertando sobressaltada de outra inquieta
cabeada que acabava de jogar no sof da sala de estar do Savannah. As mulheres tinham
ficado juntas as ltimas horas, consolndo-se na companhia mtua, exceto Eva, que se tinha
ido a capela para rezar. A companheira de raa estava mais nervosa que as demais e se tinha
passado grande parte da tarde caminhando acima e abaixo e mordendo o lbio inferior com
impacincia e ansiedade.
        Em algum lugar por cima do labirinto de corredores e habitaes se ouviram os
movimentos surdos e as vozes tensas dos machos. O barulho zumbido do elevador fez vibrar
o denso ar da sala e se deram conta de que a cabine estava baixando ao piso principal do
complexo.
        OH, Deus.
      Algo ia mau.
       Notava-o.
      Lucan.
       Jogou a um lado o xale de felpilla com que se cobria e ps os ps no cho. O corao
lhe tinha desbocado, e lhe encolhia com fora a cada pulsado.
       --Tampouco eu gosto desses sons --disse Savannah, jogando uma tensa olhada a
habitao.

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       Gabrielle, Savannah e Danika saram das habitaes para ir em busca dos guerreiros.
Nenhuma disse nenhuma palavra e com muita dificuldade respiravam enquanto se dirigiam
ao elevador.

       Inclusive antes de que as portas de ao se abrissem, por causa dos sons precipitados
que se ouviam dentro do elevador, fez-se evidente que foram receber ms notcias.
       Mas Gabrielle no estava preparada para quo ms foram ser.
       O fedor a fumaa e a sangue a assaltou com a fora de um murro. Fez uma careta ante o
nauseabundo aroma de guerra e morte mas se esforou por ver qual era a situao na cabine
do elevador. Nenhum dos guerreiros saa dela. Dois estavam tombados no cho da cabine e os
outros trs estavam agachados ao seu redor.
       --Traz umas quantas toalhas e lenis limpa! --gritou-lhe Gideon a Savannah.
     -- Traz todas as que possa, menina! --Assim que ela se disps a faz-lo, ele acrescentou:
     --Tambm vamos precisar mov-lo. H uma cama na enfermaria.
       --Eu me ocupo --reps Niko de dentro do elevador.
       Saltou por cima de um dos dois vultos informe que se encontrava tendido de barriga
para baixo no cho. Quando passou por seu lado, Gabrielle viu que tinha o rosto, o cabelo e as
mos enegrecidos de fuligem. As roupas estavam rasgadas e a pele salpicada com centenas de
arranhes sangrando. Gideon mostrava contuses similares. E Dante tambm.
       Mas suas feridas no eram nada comparadas com as dos dois guerreros da raa que
estavam inconscientes e a quem seus irmos haviam transportado pelas ruas.
       O peso que sentiu no corao lhe fez saber de Gabrielle que um deles era Lucan.
Aproximou-se um pouco mais e teve que reprimir uma exclamao ao ver confirmados seus
temores.
       O sangue se formava redemoinhos debaixo de seu corpo, um atoleiro da cor do vinho
escuro que se estendia at o mrmore branco do corredor. Tinha a vestimenta de couro e as
botas feita migalhas, igual  maior parte da pele dos braos e as pernas. O rosto estava cheio
de fuligem e de cortes de uma cor escarlate. Mas estava vivo. Gideon lhe moveu para lhe
aplicar um torniquete improvisado para parar o sangue de uma ferida que tinha no brao e
Lucan soltou um vaio de dor por entre as presas alargadas.

       --Porra... sinto muito, Lucan.  bastante profundo. Merda, isto no vai deixar de
sangrar.
       --Ajuda... ao Rio --pronunciou as palavras com um grunhido apagado. Foi uma ordem
direta apesar de que se encontrava convexo de costas--. Estou bem --acrescentou, gemendo
de dor.
     -- Porra... quero que... d-te... dele.
        Gabrielle se ajoelhou ao lado do Gideon. Levantou a mo para sujeitar o extremo da
atadura que ele tinha na mo.
        --Eu posso faz-lo.
        --Est segura?  uma ferida feia. Tem que colocar as mos justo a para apert-lo com
fora.
        --Tenho-o. --Fez um gesto com a cabea em direo a Rio, que se encontrava convexo
ao lado.
     -- Faz o que te h dito.

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        O guerreiro ferido que estava convexo no cho ao lado de Lucan estava sofrendo uma
agonia. Ele tambm sangrava profundamente por quo feridas tinha no torso e a causa do
terrvel dano que tinha sofrido no brao esquerdo. Levava uma perna envolta em um farrapo
empapado de sangue que devia ser uma camisa. Tinha o rosto e o peito queimados e rasgados
at tal ponto que era irreconhecvel. Comeou a emitir uns gemidos graves e guturais que lhe
encheram os olhos de lgrimas a Gabrielle.
        Piscou para reprimir as lgrimas e, ao abrir os olhos de novo, encontrou-se com os
plidos olhos cinzas de Lucan cravados nela.
        --Acabei... com o bode.
        --Shh. --Secou-lhe o suor da frente, maltratada.
      -- Lucan, te esteja quieto. No tente falar.

         Mas ele no fez conta. Tragou saliva com dificuldade e logo se esforou em pronunciar
as palavras.
         --o da discoteca... o filho de puta que estava ali essa noite.
     --que te escapou?
         --Esta vez no. --Piscou devagar. Seu olhar era to feroz como brilhante.
       -- Agora no poder nunca... te fazer danifico...
         --Sim--disse em tom irnico Gideon, que se estava ocupando de Rio.
      -- E tem muita sorte de estar vivo, heri.
         Gabrielle sentiu que a angstia lhe atendia a garganta ao olhar a Lucan. Apesar de que
tinha afirmado que seu dever era o primeiro e que alguma vez haveria um lugar para ela em
sua vida, Lucan tinha pensado nela essa noite? Estava ferido e sangrando a causa, em parte,
por algo que tinha feito por ela?
        Ela tomou uma de suas mos entre as suas e lhe acariciou no nico lugar do corpo em
que podia faz-lo enquanto a apertava contra o corao.
        --OH, Lucan...
        Savannah chegou correndo com o que lhe tinham pedido. Niko a seguiu
imediatamente, empurrando a maca de hospital diante dele.
        --Lucan primeiro --lhes disse Gideon.
     -- Levem a uma cama e logo voltarei por Rio.
        --No --grunhiu Lucan, com tom de maior determinao que de dor.
        -- Ajudem a me levantar.
        --No acredito que... --disse Gabrielle, mas ele j estava tentando levantar-se do cho.

        --Tranqilo, chiou.
        --Dante entrou no elevador e colocou sua mo forte sob o brao de Lucan. Tombaram-
lhe por que no toma um descanso e nos deixa que lhe levemos a enfermaria?
        --Hei dito que estou bem. --Lucan, apoiando-se em Gabrielle e em Dante, incorporou-
se e se sentou. Respirava com dificuldade, mas permaneceu incorporado.
      -- recebi uns quantos golpes, mas merda... vou andando at minha cama. No vou
deixar que me... arrastem at a.
        Dante olhou Gabrielle com expresso exasperada.
        --Sabe que tem a cabea to dura que o diz a srio?
      --Sim, sei.

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        Gabrielle sorriu, agradecida a essa obstinao que o fazia ser forte. Ela e Dante lhe
emprestaram o apoio de seus corpos: colocaram-se um a cada lado dele, com os ombros sob
cada um de seus braos, e lhe sujeitaram at que Lucan comeou a ficar em p, devagar.
        --Por aqui --disse Gideon a Niko, e este colocou a maca no lugar adequado para
levantar Rio enquanto Savannah e Danika faziam tudo o que podiam por conter o sangue de
suas feridas, por lhe tirar a roupa destroada e o desnecessrio peso das armas.
        --Rio? --A voz da Eva soou aguda. Correu at o grupo com o rosario ainda apertado
em uma das mos. Quando chegou ao elevador aberto se deteve imediatamente e agentou a
respirao.
     -- Rio! Onde est?
        --Est aqui dentro, Eva --disse Niko, apartando-se da maca, onde j tinham colocado
a Niko, para lhe impedir o passo. Apartou-a dali com mo firme para que no se aproximasse
muito ao aougue.
     -- Houve uma exploso esta noite. Ele se levou a pior parte.
        --No! --levou-se as mos ao rosto, horrorizada.
       -- No, est equivocado. Esse no  meu Rio! No  possvel!

          --Est vivo, Eva. Mas ter que ser forte por ele.
          --No! --Comeou a chiar grosseiramente, histrica, enquanto tentava abrir passo
com a fora para aproximar-se de seu companheiro.
        -- Meu Rio no! Deus, no!
          Savannah se aproximou e tomou a Eva do brao.
          --Vamos agora --lhe disse com suavidade.
        -- Eles sabem como lhe ajudar.
          Os soluos da Eva alagaram o corredor e encheram a Gabrielle de uma angstia ntima
que era uma mescla de alvio e de medo frio. Estava preocupada com Rio, e lhe rompia o
corao pensar no que Eva devia estar sentindo. Gabrielle sabia que isso lhe doa em parte
porque Lucan tivesse podido encontrar-se no lugar de Rio. Uns quantos milmetros, umas
fraes de segundo, podiam ter sido quo nico tinha determinado qual dos dois guerreiros
ia estar convexo em um crescente atoleiro de sangue lutando por manter-se vivo.
        --Onde est Tegan? --perguntou Gideon, sem apartar a ateno de seus prprios
dedos com os quais, e com movimentos rpidos, ocupava-se de curar ao guerreiro cansado.
      -- retornou j?
        Danika negou com a cabea, mas olhou a Gabrielle com olhos angustiados.
        --por que no est aqui? No estava com vocs?
        --Perdemo-lhe de vista muito pouco tempo depois de que entrssemos na guarida dos
renegados --lhe disse Dante.
      -- Quando estalou a bomba, nosso principal objetivo foi trazer Rio e a Lucan ao
complexo o mais breve possvel.
        --vamos mover isto --disse Gideon, colocando-se a cabea da cama de Rio.
        -- Niko, me ajude a mover isto.
        As perguntas a respeito do Tegan se apagaram enquanto todo mundo trabalhava em
excesso em fazer todo o possvel para ajudar a Rio. Todos percorreram o caminho at a
enfermaria. Gabrielle, Dante e Lucan eram os que se deslocavam com maior lentido pelo


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corredor: Lucan se cambaleava sobre os ps e se sujeitava a eles dois enquanto se esforava
por manter-se em p com firmeza.
       Gabrielle reuniu valor para lhe olhar. Desejava tanto lhe acariciar o rosto ferido e cheio
de sangue. Enquanto lhe olhava com o corao encolhido, ele levantou as plpebras e a olhou
aos olhos. Ela no sabia o que era o que se estabeleceu entre eles durante esse comprido
instante de quietude no meio do caos, mas sentiu que era algo quente e bom Apesar de tudo
quo terrveis tinham sido os sucessos dessa noite.
       Quando chegaram  habitao onde foram atender a Rio, Eva ficou a um lado da maca,
ante seu corpo quebrado. As lgrimas lhe caam pelas bochechas.
       --Isto no tinha que ter acontecido --gemeu--. No deveria ter sido meu Rio. No
desta maneira.
       --Faremos tudo o que possamos por ele --disse Lucan, respirando com dificuldade
por causa de suas prprias feridas--. Lhe prometo isso, Eva. No lhe deixaremos morrer.
       Ela negou com a cabea, com o olhar fixo em seu companheiro tendido na cama.
Acariciou-lhe o cabelo e Rio murmurou umas palavras incoerentes, semi inconsciente e com
uma clara expresso de dor.
       --Quero-lhe fora daqui imediatamente. Deveria ser transladado a um Refgio.
Necessita ateno mdica --disse Eva.
       --Seu estado no  o bastante estvel para que lhe translade --reps Gideon.
     -- Tenho os conhecimentos necessrios e a equipe adequada para lhe tratar aqui por
agora.
       --Quero-lhe fora daqui! --Levantou a cabea sbitamente e dirigiu o olhar brilhante
de um guerreiro a outro.
     -- No resulta de utilidade para nenhum de vocs agora, assim me deixem isso . J no
lhes pertence, a nenhum de vocs. Agora  completamente meu! Somente quero o melhor
para ele!

        Gabrielle notou que o brao de Lucan entrava em tenso por causa dessa reao
histrica.
        --Ento tem que te apartar de diante do Gideon e deixar que faa seu trabalho --lhe
disse, assumindo com facilidade o papel de lder apesar de sua m condio fsica.
      -- Agora mesmo, quo nico importa  manter com vida Rio.
        --Voc --disse Eva, em tom seco enquanto lhe dirigia um olhar severo. Seus olhos
mostraram um brilho mais selvagem e seu rosto se transformou em uma mscara de puro
dio.
      -- Deveria ser voc quem se estivesse morrendo agora mesmo, e no ele! Voc, Lucan.
Esse foi o trato que fiz! Sabiam que tinha que ser voc!
      Na enfermaria pareceu abrir um abismo que se tragasse todo                som exceto a
surpreendente verdade do que a companheira de Rio acabava de confessar.
      Dante e Nikolai se levaram as mos as armas, ambos os guerreiros dispostos a responder
a mais ligeira provocao. Lucan levantou uma mo para cont-los com o olhar fixo na Eva. A
verdade era que no lhe importava absolutamente que sua malevolncia se dirigisse
diretamente contra ele; se ele tinha sido uma espcie de alvo para sua fria, havia sobrevivido
a isso . Rio possivelmente no o fizesse. Qualquer dos irmos presente na batida dessa noite
tivesse podido no sobreviver a traio da Eva.

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    --Os renegados sabiam que amos estar ali --disse Lucan em um tom frio por causa de
uma profunda fria.
    -- Camos em uma emboscada no armazm. Voc o preparou.
      Outros guerreiros emitiram uns grunhidos guturais. Se a confisso a tivesse feito um
macho, Lucan tivesse podido fazer muito pouco para impedir a seus irmos que atacassem
com uma fora letal. Mas se tratava de uma companheira de raa, uma dos seus. Algum a
quem conheciam e em quem confiavam desde fazia mais de uma vida.

         Agora Lucan olhava a Eva e via uma desconhecida. Viu loucura. Um desespero mortal.
       --Rio tinha que salvar-se. --inclinou-se sobre ele e lhe passou o antebrao por debaixo
da cabea enfaixada. O emitiu um som descarnado e indecifrvel enquanto Eva lhe abraava.
       -- Eu no queria que ele tivesse que lutar mais. No, por vocs.
         --Assim preferiria lhe ver destroado, em lugar disso? --perguntou-lhe Lucan.
       -- Assim  como lhe quer?
         --Amo-lhe! --gritou ela.
       -- O que tenho feito, tudo o que tenho feito, foi por amor a ele! Rio ser mais feliz em
algum outro lugar, longe de toda esta violncia e morte. Ser mais feliz em um Refgio
Escuro, comigo longe de sua maldita guerra!
         Rio emitiu o mesmo som gutural, mas agora soou mais lastimero. No cabia dvida de
que era um som de agonia, embora se era devido  dor fsica ou a inquietao pelo que estava
acontecendo ao seu redor no estava claro.
         Lucan negou com a cabea lentamente.
         --Essa  uma afirmao que voc no pode fazer por ele, Eva. No tem direito. Esta  a
guerra de Rio, tanto como a de qualquer outro.  no que ele acreditava, no que sei que ainda
crie, inclusive depois do que lhe tem feito. Esta guerra concerne a toda a raa.
       Ela franziu o cenho com gesto azedo.
         --Resulta irnico que o cria, dado que voc mesmo estiveste a ponto de te converter em
um renegado.
         --Jesucristo --exclamou Dante de onde se encontrava, perto.
       -- Esta equivocada, Eva. Est terrivelmente equivocada.
         -- Ah, sim? --Ela continuou cravando o olhar em Lucan com expresso sdica.
       -- Te estive observando, Lucan. Vi-te lutar contra a sede quando acreditava que no
havia ningum perto. Sua aparncia de controle no me engana.

       --Eva --disse Gabrielle. Sua voz tranqila foi um blsamo para todos os que se
encontravam na habitao.
     -- Est alterada. No sabe o que est dizendo.
     Ela rio.
       --lhe pea que o negue. lhe pergunte por que se priva de sangue at que est quase a
ponto de morrer de sede!
       Lucan no disse nada em resposta a essa acusao pblica, porque sabia que era
verdade.
     Tambm sabia Gabrielle.
       Sentiu-se comovido de que lhe defendesse, mas nesses momentos no se tratava tanto
dele como de Rio e do engano que ia destroar a esse guerreiro. Possivelmente j o tinha feito,

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a julgar pelo crescente movimento de suas pernas e pelo esforo que realizava para falar
apesar das feridas.
         --Como fez esse trato, Eva? Como entrou em contato com os renegados, em uma de
suas excurses fora?
         Ela bufou com gesto de brincadeira.
         --No foi to difcil. H serventes passeando por toda a cidade. Somente tem que olhar
fora. Encontrei a um e lhe disse que me pusesse em contato com seu chefe.
         --Quem era? --perguntou Lucan--. Que aspecto tinha?
         --No sei. Somente nos encontramos uma vez e manteve o rosto oculto. Levava uns
culos escuros e teve as luzes da habitao do hotel apagadas. No me importava nem quem
era nem que aspecto tinha. O nico que me importava era que tivesse o poder suficiente para
fazer que as coisas ocorressem. Somente queria sua promessa.
         --Imagino que te fez pagar por isso.
         --Foram somente um par de horas com ele. Tivesse pago algo --disse, agora sem olhar
a Lucan nem aos outros, que a olhavam com expresso de desagrado, mas sim manteve a vista
fixa em Rio.
       -- Faria algo por ti, querido. Suportaria. .. algo.
         --Possivelmente vendeu seu corpo --disse Lucan--, mas foi a confiana de Rio o que
traiu.
         Dos lbios de Rio surgiu um som spero. Eva lhe arrulhava e o acariciou. Ele abriu as
plpebras e se ouviu sua respirao, oca e esforada, enquanto tentava pronunciar umas
palavras.
         --Eu... --Tossiu e seu corpo maltratado sofreu um espasmo--. Eva...
         --OH, meu amor... sim. Estou aqui! --gritou--. Me diga o que queira, carinho.
         --Eva... --De sua garganta no saiu nenhum som durante uns instantes, mas voltou a
tent-lo.
       -- Eu... lhe... acuso.
         --O que?
         --Morta... --Gemeu. Sem dvida a dor psicolgica era maior que a fisica, mas a
ferocidade de seus olhos brilhantes e injetados em sangue diziam que no ia se deter.
       -- J no existe... para mim... est... morta.
         --Rio,  que no o compreende? Tenho-o feito por ns!
         --Vai --disse ele com voz entrecortada.
         -- No te quero ver... nunca mais.
         --No o pode dizer a srio. --Levantou a cabea e seus olhos procuravam
freneticamente um ponto onde posar-se.
       -- No o diz a srio! No  possvel! Rio, me diga que no fala a srio!

       Alargou a mo para lhe tocar, mas ele emitiu um grunhido e utilizou a pouca fora que
ficava para rechaar seu contato. Eva soluou. O sangue das feridas dele cobria a parte
dianteira da roupa. Baixou a vista at as manchas e logo olhou a Rio, que agora a tinha
afastado dele por completo.
       O que aconteceu a seguir durou somente uns segundos como mximo, mas foi como se
o tempo se houvesse ralentizado a uma lentido implacvel.


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        O olhar aniquilado da Eva caiu sobre o cinturo das armas de Rio, que estava no cho
ao lado da cama.
        Uma expresso de determinao se formou em seu rosto e se lanou por volta de uma
das facas.
        Levantou a adaga brilhante por cima de seu rosto.
        Sussurrou a Rio que sempre lhe amaria.
        Ento girou a faca que tinha na mo e o cravou a si mesmo na garganta.
        --Eva, no! --gritou Gabrielle. Seu corpo reagiu automaticamente, como se acreditasse
que podia salvar  outra fmea.
      -- OH, Meu deus, no!
        Mas Lucan a sujeitou ao seu lado. Rapidamente tomou entre os braos e lhe fez girar
o rosto para seu peito para evitar que visse Eva cortar sua prprio jugular e cair, sangrando e
sem vida, ao cho.



     Captulo vinte e oito

     Recm tomada banho, nas habitaes de Lucan, Gabrielle se secou com uma toalha o
cabelo molhado e colocou em cima um suave penhoar. Estava exausta depois de ter
acontecido a maior parte do dia com o Savannah e Danika ajudando a Gideon a atender a Rio
e a Lucan. No complexo todo mundo se encontrava em um estado de surda incredulidade por
causa da traio de Eva e do trgico desenlace: Eva morta por sua prpria mo e Rio agarrado
precariamente a vida.
        Lucan se encontrava em mal estado fsico, alm disso, mais fiel a sua palavra a sua
obstinao, tinha abandonado a enfermaria por seus prprios ps pra ir descansar a suas
habitaes pessoais. Gabrielle estava assombrada de que ele tivesse aceito algum tipo de
cuidado, mas a verdade era que as outras mulheres e ela mesma no lhe tinham deixado
muitas posibilidades de recha-lo.
        Gabrielle se sentiu invadida pelo alvio ao abrir a porta do banho e lhe encontrar
sentado na enorme cama com as costas apoiada na cabecera, sobre um monto de almofadas.
Tinha uma bochecha e a frente cheias de pontos e as vendagens lhe cobriam a maior parte do
largo peito e das pernas, mas se estava recuperando. Estava inteiro e, com o tempo, curaria-se.
       Igual a ela, ele no levava nada em cima exceto um penhoar branco; isso era quo nico
as mulheres lhe tinham permitido ficar em cima, depois de ter acontecido horas limpando e
lhe curando as contuses e as feridas cheias de metralha que tinha em quase todo o corpo.
       --Sente-se melhor? --perguntou-lhe Lucan, olhando-a enquanto ela passava os dedos
pelo cabelo mido para apartar-lhe do rosto.
      -- pensei que teria fome ao sair do banho.
       --A verdade  que morro de fome.
       Ele assinalou uma robusta mesa de coquetel que se encontrava na salinha do
dormitrio, mas o olfato de Gabrielle j tinha detectado o impressionante buf. O aroma de
po francs, a alho e especiarias, a molho de tomate e a queijo alagava a habitao. Viu um
prato de verduras e um tigela cheio de fruta fresca, e inclusive uma coisa escura com aspecto
de chocolate em meio das outras tentaes. aproximou-se para jogar uma olhada mais de
perto e o estmago lhe retorceu de fome.

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        --Manicotti --disse, inalando o aromtico aroma da massa. Ao lado de uma taa de
cristal havia uma garrafa de vinho tinjo aberta.
        -- E Chianti?
        --Savannah queria saber se voc tinha algum alimento preferido. Isso foi o nico que
me ocorreu.
        Essa era a comida que ela preparou a noite em que ele tinha ido a seu apartamento
para lhe devolver o telefone celular. A comida que ficou fria, esquecida, em cima do mrmore
da cozinha enquanto ela e Lucan ficavam como coelhos.
        --recordou o que eu tinha cozinhado essa noite?
        Ele se encolheu de ombros ligeiramente.
        --Sente-se. Come.
        --Somente h um assento.
        --Est esperando uma visita?
      Ele olhou.
        --De verdade no pode comer nada disto? Nem sequer um mordisco?
        --Se o fizesse, somente poderia agentar uma pequena quantidade no estmago. --
Fez-lhe um gesto para que se sentasse.
      -- Comer os mantimentos dos humanos  somente algo que fazemos pelas aparncias.

        --De acordo. --Gabrielle se sentou no cho com as pernas cruzadas. Tirou o
guardanapo de linho debaixo dos talheres e a colocou em cima do regao.
      -- Mas no me parece justo me pr morada diante de ti.
        --No se preocupe por mim. J recebi muitas cuidados e cuidados femininos por hoje.
        --Como quer.
        Ela estava muito faminta para esperar um segundo mais e a comida tinha um aspecto
muito delicioso para resistir. Com o garfo, Gabrielle cortou uma parte de manicotti e o
degustou em um estado de absoluto xtase. Comeu a metade do prato em um tempo recorde e
somente fez uma pausa para encher a taa de vinho, que tambm bebeu com um prazer
voraz.
        Durante todo o tempo Lucan a esteve olhando da cama.
        --Est bom? --perguntou-lhe em um momento em que lhe olhava por cima do bordo
da taa de vinho enquanto tomava um sorvo.
        --Fantstico --murmurou ela e encheu a boca de verduras com vinagrete. Sentia o
estmago muito mais tranqilo agora. Comeu o resto da salada, serviu outro copo do Chianti
e se recostou com um suspiro.
      -- Obrigado por isso. Tenho que dar as graas a Savannah tambm. No tinha por que
haver-se incomodado tanto.
        --Agrada-lhe --disse Lucan com uma expresso atenta mas indescifravel.
      -- Foi de grande ajuda ontem de noite. Obrigado por cuidar de Rio e dos outros. De
mim, tambm.
        --No tem por que me dizer obrigado.
        --Sim, tenho que faz-lo. --Franziu o cenho e uma pequena ferida que tinha costurada,
na frente, inchou-se com o movimento.


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    -- Foi amavel e generosa durante todo o tempo e eu... --interrompeu-se e disse algo
inaudvel.
    -- Te agradeo o que tem feito. Isso  tudo.

       OH --pensou ela.
     -- Isso  tudo. Inclusive sua gratido aparecia depois de uma barreira emocional.
       De repente se sentiu como uma estranha com ele nesse momento, assim que lhe deu
vontade de trocar de tema.
     --ouvi que Tegan voltou de uma pea.
       --Sim. Mas Dante e Niko estiveram a ponto de destro-lo quando lhe viram por ter
desaparecido durante a batida.
       --O que lhe aconteceu a outra noite?
       --Quando as coisas ficaram feias, um dos renegados tentou sair por uma porta traseira
do armazm. Tegan lhe perseguiu at a rua. Ia acabar com esse chupo, mas decidiu lhe seguir
primeiro para ver aonde ia. Perseguiu-lhe at o velho psiquitrico que se encontra fora da
cidade. Esse lugar estava infestado de renegados. Se havia alguma duvida, agora j estamos
seguros de que  uma enorme colnia. Prvavelmente seja o quartel geral desta Costa.
       Gabrielle sentiu um calafrio ao pensar que tinha estado nesse psiquitrico, que tinha
estado dentro dele, sem saber que era um refgio de rnegados.
       --Tenho umas quantas fotos do interior. Ainda esto em minha cmara. No tive
tempo das descarregar, ainda.
       Lucan tinha ficado imovel e a olhava como se ela houvesse acabado de lhe dizer que
tinha estado jogando com amadurecidas. Seu rosto pareceu empalidecer um pouco mais
ainda.
       --No somente foi ali mas sim entrou nesse lugar?
       Ela se encolheu de ombros, sentindo-se culpado.



        --Jesus Cristo, Gabrielle. --Baixou as pernas da cama e ficou sentado ali um momento
comprido, simplesmente olhando-a. Demorou um momento em poder pronunciar as palavras.
      -- eles poderiam ter te matado. D-te conta disso?
        --Mas no o fizeram --respondeu; uma pobre observao, mas um feito.
        --No  esse o tema. --passou-se as duas mos pelo cabelo das tmporas.
     -- Merda. Onde est sua cmara? '
     --Deixei-a no laboratrio.
        Lucan tomou o telefone que tinha ao lado da cama e marcou o nmero do
intercomunicador. Gideon respondeu no outro extremo da linha.
        --N, o que h? Tudo vai bem?
        --Sim --disse Lucan, mas estava olhando a Gabrielle.
        -- Diga a Tegan que deixe o reconhecimento do psiquitrico de momento. Acabo-me
de me interar de que temos fotos do interior.
        --Srio? --fez-se uma pausa--. Ah, porra. Quer dizer que ela de verdade entrou nesse
maldito lugar?
        Lucan a olhou e arqueou uma sobrancelha com uma expresso como de lhe havia
dito.

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       --Descarrega as imagens da cmara e diga aos outros que nos reunirmos dentro de
uma hora para decidir a nova estratgia. Acredito que nos economizamos um tempo crucial
com isto.
    --Bem. Vemo-nos as quatro.
       A chamada terminou com um som do intercomunicador.
       --Tegan ia voltar para o psiquitrico?



         --Sim --respondeu Lucan.
      -- Provavelmente era uma misso suicida, j que ele foi to louco que insistiu em que se
infiltraria sozinho esta noite para conseguir informao sobre o lugar. Embora ningum ia
convencer lhe de que no o fizesse, e muito menos eu.
         Levantou-se da cama e comeou a inspecionar-se algumas das bandagem. Fez um
movimento que lhe abriu o penhoar, mostrando a maior parte do peito e o abdmen. As
marca que tinha no peito tinham um plido tom de henna, viam-se mais claras que a noite
anterior. Agora tinham quase a mesma cor que o resto de seu corpo. Torradas e quase sem cor.
      --Por que Tegan e voc tm to m relao? --perguntou-lhe sem mover a vista de cima
ao atrever-se a lhe fazer essa pergunta que tinha tido na cabea do momento em que Lucan
tinha pronunciado o nome do guerreiro.
      -- O que aconteceu entre vocs?
         Ao princpio pensou que ele no ia dizer nada. Ele continuou inspecionando as feridas,
flexionando os braos e as pernas em silncio. Ento, justo no momento em que ela ia desistir,
ele disse:
      --Tegan me culpa de lhe haver tirado algo que era dele. Algo que ele amava. --Olhou-a
diretamente agora:
      -- Sua companheira de raa morreu. Em minhas mos.
         --Deus santo --sussurrou ela.
      -- Lucan, como foi?
         Ele franziu o cenho e apartou o olhar outra vez.
        --As coisas eram diferentes quando Tegan e eu nos conhecemos ao principio. A
maioria dos guerreiros decidia no ter nenhuma companheira porque os perigos eram muito
grandes.
       Naquela poca, fomos muito poucos na Ordem, e proteger as nossas famlias era algo
muito difcil dado que o combate nos obrigava a estar quilmetros de distncia e,
freqentemente, durante muitos meses.

       --E os Refgios Escuros? No tivessem podido lhes oferecer amparo?
       --Havia menos refgios, tambm. E ainda eram menos os que ouvessem arriscado a
aceitar o risco de albergar a uma companheira de raa de um guerreiro. Ns e nossos seres
queridos fomos um branco constante da violncia dos renegados. Tegan sabia tudo isto, mas
de todas formas estabeleceu um vnculo com uma fmea. No muito tempo depois, ela foi
capturada pelos renegados. Torturaram-na. violaram-na. E antes de devolve-la ele, chuparam-
lhe quase todo o sangue. Ela se haviaba ficado vazia; pior que isso, converteu-se em uma
servente do renegado que a tinha destroado.
     --OH, Meu Deus --exclamou Gabrielle, horrorizada.

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     Lucan suspirou, como se o peso dessas lembranas fora muito para ele.
       --Tegan se voltou louco de fria. Comportou-se como um animal, assassinando tudo
aquilo que encontrava ao seu passo. Acostumava a estar to coberto de sangue que muitos
pensavam que se banhava nela. Se recriava em sua fria e, durante um ano, negou-se a aceitar
o fato de que sua companheira de raa tinha perdido a cabea para sempre. Continuou
alimentndo-a de suas veias, sem querer ver sua degradao. Alimentava-se para alimentar a
ela. No lhe importava o fato de que se estava precipitando para a sede de sangue. Durante
todo esse ano desafiou a lei da raa e no a tirou de seu sofrimento. Quanto a Tegan, estava-se
voltando pouco a pouco em um renegado. Terei que fazer algo...
       Gabrielle terminou a frase que ele tinha deixado incompleta.
       --E como lder, foi tua responsabilidade entrar em ao.
     Lucan assentiu com expresso triste.
       --Coloquei a Tegan em uma cela de grossos muros de pedra e utilizei a espada com
sua companheira de raa.
       Gabrielle fechou os olhos ao perceber seu arrependimento.

        --OH, Lucan...
        --Tegan no foi liberado at que seu corpo ficou limpo da sede de sangue. Fizeram
falta muitos meses de passar fome e de sofrer uma completa agonia para que pudesse sair da
cela por seu prprio p. Quando soube o que eu tinha feito, acreditei que tentaria me matar.
Mas no o fez. Tegan que eu conhecia no foi o que saiu dessa cela. Era algum muito mais
frio. Nunca o h dito, mas sei que me odeia desde esse momento.
       --No tanto como voc odeia a voc mesmo.
       Ele tinha as mandbulas apertadas com fora e uma expresso tensa no rosto.
       --Estou acostumado a tomar decises difceis. No tenho medo de assumir as tarefas
mais duras, nem de ser o objetivo da raiva, inclusive do dio, por causa das decises que tomo
para a melhora da raa. Importa-me um nada tudo isso.
       --No, no  verdade --disse ela com suavidade--. Mas teve que fazer mau a um
amigo, e isso foi um grande peso para ti durante muito, muito tempo.
       Ele a olhou com inteno de discutir, mas possivelmente no tinha a fora necessaria
para isso. Depois de tudo pelo que tinha passado se sentia cansado, destroado, embora
Gabrielle no acreditava que ele estivesse disposto a admiti-lo, nem sequer ante ela.
       --Voc  um homem bom, Lucan. Tem um corao muito nobre debaixo dessa dura
armadura.
       Ele emitiu um grunhido irnico.
       --Somente algum que me conhea desde umas poucas semanas atrs pode cometer o
engano de pensar isto.

       --De verdade? Pois eu conheo uns quantos aqui que lhe diriam o mesmo. Incluindo
Conlan, se estivesse vivo.
     Ele franziu o cenho com expresso atormentada.
       --O que sabe voc disso?
       --Danika me contou o que fez por ele. Que lhe levou acima durante a sada do sol.
Para lhe honrar, queimou-te.


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        --Jesucristo --exclamou ele em tom cortante, ficando imediatamente em p. Comeou a
caminhar acima e abaixo em um estado de grande excitao e ao final se deteve
repentinamente ao lado da cama. Falou com voz rouca, como um rugido quase incontrolvel.
      -- A honra no teve nada que ver com isso. Quer saber por que o fiz? Foi por um terrvel
sentimento de culpa. A noite da bomba na estao de trem eu tinha que ter estado cumprindo
com essa misso ao lado do Niko, e no Colan. Mas no te podia tirar de minha cabea. Pensei
que, possivelmente, se te tinha. .. se finalmente entrava dentro de voc... isso satisfaria minha
nsia e poderia continuar adiante, te esquecer. Assim que essa noite fiz que Conlan fora em
meu lugar. Tivesse tido que ser eu, e no Conlan. Tinha que ter sido eu.
        --Meu Deus, Lucan.  incrvel. Sabia? --Deixou cair as mos com fora em cima da
mesa e emitiu uma gargalhada furiosa.
      -- por que no pode te relaxar um pouco?
        Essa reao incontrolada lhe chamou a ateno como nenhuma outra coisa o tinha
feito. Deixou de caminhar de um lado a outro e a olhou.
        --Voc sabe por que --reps com tom tranqilo agora.
      -- Voc sabe melhor que ningum. --Meneou a cabea com uma expresso de desgosto
consigo mesmo nos lbios.
      -- Resulta que Eva tambm sabia algo  respeito.
      Gabrielle recordou a impactem cena da enfermaria. Todo mundo se tinha ficado
horrorizado ante os atos da Eva, e assombrado pelas loucas acusaes contra Lucan. Todos
menos ele.
      --Lucan, o que ela disse...

       --Tudo  certo, tal e como voc mesma viu. Mas voc ainda me defendeu. Foi a
segunda vez que ocultaste minha debilidade ante outros. --Franziu o cenho e girou a cara.
     -- No vou pedir te que o faa outra vez. Meus problemas so minha coisa.
       --E precisa solucion-los.
       --O que preciso  me vestir e jogar uma olhada a essas imagens que Gideon est
descarregando. Se nos oferecerem a informao suficiente sobre a distribuio do psiquitrico,
podemos atacar esse lugar esta noite.
       --O que quer dizer, atac-lo esta noite?
       --Acabar com ele. Fech-lo. Faz-lo voar pelos ares.
       --No  possvel que fale a srio. Voc mesmo h dito que possvelmente esteja cheio
de renegados. De verdade crie que voc e trs tipos mais vo sobreviver se lhes enfrentam a
um nmero desconhecido deles?
       --Temos feito antes. E seremos cinco --disse, como se isso o fosse distinto.
     -- Gideon h dito que quer participar do que faamos. Vai ocupar o lugar de Rio.
     Gabrielle se burlou, incrdula.
       --E o que me diz de voc? Quase no te tem em p.
       --Estou caminhando. Estou o bastante bem. Eles no esperam que contrataquemos to
logo, assim  o melhor momento para dar o golpe.
       --Deve ter perdido a cabea. Precisa descansar, Lucan. No est em condies de fazer
nada at que no recupere a fora. Precisa te curar. --Observou que ele apertava as
mandbulas: um tendo lhe marcou por debaixo de uma de suas esbeltas bochechas. A
expresso de seu rosto era mais dura do habitual, seus rasgos pareciam muito afilados.

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     -- No pode sair a fora tal como est.

      --Hei dito que estou bem.

        Pronunciou as palavras precipitadamente e em um tom rouco e gutural. Voltou a olh-
la e seus olhos chapeados se viam atravessados por umas brilhantes lnguas de cor mbar,
como se o fogo lambesse o gelo.
        --No o est. Nem muito menos. Precisa te alimentar. Seu corpo sofreu muito
ultimamente. Precisa te nutrir.
      Gabrielle sentiu que uma onda fria alagava a habitao e soube que prvinha dele.
Estava provocando sua fria. Lhe tinha visto em seus piores momentos e tinha vivido para
cont-lo, mas possivelmente agora estava pressioando muito. dava-se conta de que ele estava
inquieto e tenso e de que se controlava com fora desde que a tinha levado a complexo. Agora
ele estava no fio, perigosamente; de verdade queria ser ela quem lhe empurrasse ao outro
lado da linha de seu autocontrole?
        A merda. Possivelmente era isso o que fazia falta.
        --Tem o corpo destroado agora, Lucan, no somente por causa das feridas. Est dbil.
E tem medo.
        --Medo. --Dirigiu-lhe um olhar frio e depreciativo, com um sarcasmo gelado.
      -- Do que?
        --De voc mesmo, para comear. Mas acredito que inclusive tem mais medo de mim.
        Ela esperava uma refutao foto instantnea, fria e desagradvel, acorde com a sombria
raiva que emanava dele como a gelada. Mas ele no disse nada. Olhou-a durante um
comprido momento, logo se deu a volta e se alojo, um pouco tenso, em direo a um armrio
alto que havia ao outro extremo da habitao.
        Gabrielle permaneceu sentada no cho e lhe observou abrir abruptamente as gavetas,
tirar umas roupas e as lanar sobre a cama.

        --O que est fazendo?
        --No tenho tempo de discutir isto contigo. No tem sentido.
        Um armrio alto que continha armas se abriu antes de que ele o tocasse: suas comporta
se deslizaram ao redor das dobradias com uma violenta sacudida. ele se aproximou a passo
lento e estirou uma prateleira dobradia. Em cima da superfcie de veludo da prateleira havia
pelo menos uma dzia de adagas e outras armas brancas de aspecto letal ordenadas em filas.
Com um gesto descuidado, Lucan tomou duas grandes facas embainhadas em pele. Abriu
outro das prateleiras e escolheu uma pistola de ao inoxidvel gentil que parecia sada de um
terrvel filme de ao.
        -- Como voc no gosta do que estou dizendo vais sair fugindo? --ele nem a olhou
nem soltou nenhuma maldio como resposta. No, ignorou-a por completo, e isso a tirou de
gonzo completamente.
      -- Adiante, pois. Finge que  invencvel, que no est morto de medo de deixar que
alguem se preocupe de ti. Escapa de mim. Isso somente demonstra que tenho razo.
        Gabrielle sentiu uma absoluta desesperana enquanto Lucan tirava a munio do
armrio e a introduzia no carregador da pistola. Nada do que ela pudesse dizer ia deter lhe.
Sentia-se necessitada, como se intentasse rodear com os braos uma tormenta.

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       Apartou o olhar dele e dirigiu os olhos a mesa frente  qual estava sentada, Aos pratos
e aos talheres que tinha diante. Viu uma faca limpa em cima da mesa; polida a folha brilhava.
       No podia lhe reter com palavras, mas havia outra coisa...
       Subiu a manga larga da bata. Com muita tranqilidade, com a mesma determinao
atrevida de que se valeu centenas de vezes anteriormente, Gabrielle tomou a faca e apertou o
fio contra a parte mais carnuda de seu antebrao. Realizou pouca presso, um muito ligeiro
corte sobre sua pele.
       No soube qual dos sentidos de Lucan foi o que reagiu primeiro, mas levantou a cabea
imediatamente e soltou um rugido. Ela se deu conta de que o que tinha feito ressonava em
cada um dos mveis da habitao.

       --Maldita seja... Gabrielle!
       A folha saiu voando de sua mo, chegou ao outro extremo da habitao e foi cravar se
at o punho na parede mais afastada da mesma.
       Lucan se moveu com tanta rapidez que ela quase no pde perceber seus movimentos.
Um momento antes ele tinha estado em p a uns metros de distncia da cama e ao cabo de um
instante uma de suas enormes mos lhe sujeitava os dedos e atirava dela para que ficasse em
p. O sangue emanava pela fina linha do corte, suculenta, de uma profunda cor carmes, e
gotejava ao longo de seu brao. A mo de Lucan ainda sujeitava com fora a sua.
       Ele, ao seu lado, parecia uma muito alta torre escura e ardente de fria.
       O peito agitado, as fossas nasais dilatadas enquanto seu flego saa e entrava em seus
pulmes. Seu formoso rosto estava contrado por causa da angstia e a indignao, e seus
olhos ardiam com o inconfundvel calor da sede. No ficava nem rastro de sua cor cinza e
suas pupilas se esgotaram formando duas finas linhas negras. As presas lhe haviam alargado e
as pontas, afiadas e brancas, brilhavam por debaixo do depravaso sorriso de seus lbios.
       --Agora tenta dizer que no necessita o que te estou oferecendo --lhe sussurrou ela
com ferocidade.
       O suor aparecia a frente enquanto observava a ferida fresca e o sangue. Lambeu-se os
lbios e pronunciou uma palavra em outro idioma.
       No soou amistosa.
       --por que? --perguntou, em tom acusador.
       -- Por que me faz isto?

      --De verdade no sabe? --Lhe agentou o furioso olhar, acalmando sua raiva enquanto
umas gotas de sangue salpicavam com uma cor carmes a brancura da bata.
    -- Porque te amo, Lucan. E isto  quo nico posso te dar.



     Captulo vinte e nove
     Lucan acreditava que sabia o que era a sede. Acreditava que conhecia a fria e o
desespero --o desejo, tambm-- mas todas as mseras emoes que tinha sentido durante sua
eterna vida se desfizeram como o p quando olhou aos desafiantes olhos marrons de
Gabrielle.



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        Tinha os sentidos embargados, afogados no doce aroma de jasmim de seu sangue, essa
fonte perigosamente perto de seus lbios. De um brilhante cor vermelha, denso como o mel,
um fio carmesim brotava pela pequena ferida que ela se fez.
        --Amo-te, Lucan. --Sua suave voz se abriu passo Atravs do som dos batimentos do
corao de seu prprio corao e da imperiosa necessidade que agora lhe atendia.
      -- Com ou sem vnculo de sangue, amo-te.
        Ele no podia falar, nem sequer sabia o que houvesse dito se sua garganta seca tivesse
sido capaz de emitir alguma palavra. Com um grunhido selvagem, separou-a dele, muito
fraco para permanecer ao lado dela agora que sua parte escura lhe empurrava a faz-la sua
dessa forma firme e errevogavel.
        Gabrielle caiu sobre a cama; a bata com muita dificuldade cobria sua nudez. Umas
brilhantes mancha lhe salpicavam a manga branca e a lapela. Tinha outra mancha vermelha
sobre a coxa, de uma vivido cor escarlate que contrastava com o tom de sua pele.
        Deus, como desejava levar os lbios at essa sedosa ferida na carne, e por todo seu
corpo. Somente o seu.
      No.
        A ordem lhe saiu em um tom to seco como as cinzas. Sentia o ventre atendido pela
dor, retorcido e como cheio de ns. O fazia desfalecer. Os joelhos lhe falharam assim que
tentou dr a volta para apartar essa imagem tentadora dela, aberta e sangrando, como um
sacrificio devotado a ele.

       Deixou-se cair sobre o tapete do cho, uma massa inerte de msculo e ossos, lutando
contra uma necessidade que no tinha conhecido at esse momento. Lhe estava matando. Esta
nsia dela, como se sentia desgarrado ao pensar que ela podia estar com outro macho.
       E alm disso, a sede.
       Nunca tinha sido to intensa como quando Gabrielle estava perto. E agora que seus
pulmes se encheram com o perfume de seu sangue, sua sede era devoradora.
     --Lucan...
       Ele percebeu que ela se separava da cama. As suaves pisadas de seus ps soaram no
tapete e estes apareceram lentamente ante sua vista, as unhas pintadas como a fina laca de
umas conchas. Gabrielle se agachou ao seu lado. Ele sentiu a suavidade da mo dela em seu
cabelo, e logo a sentiu sob seu queixo, levantando a cabea para lhe olhar ao rosto.
       --Bebe de mim.
       Ele apertou os olhos com fora, mas foi um intento dbil de rechaar o que lhe oferecia.
No tinha a fora necessria para lutar contra a fora tenra e incessante dos braos dela, que
agora lhe atraam para si.
       Lucan cheirava o sangue no pulso dela: cheiraria to de perto lhe despertou uma
furiosa corrente de adrenalina que lhe atravessou. A boca lhe fez gua, as presas lhe alargaram
mais, esticando as gengivas. Provocou mais lhe levantando o torso do cho. Com uma mo se
apartou o cabelo a um lado tirando o chapu o pescoo para ele.
       Ele se removeu, mas lhe sujeitou com firmeza. Atraiu-lhe mais para ela.
       --Bebe, Lucan. Toma o que necessite.

       Inclinou-se para frente at que somente houve um sopro de ar entre os relaxados lbios
dele e o delicado pulso que pulsava debaixo a pele plida debaixo de sua orelha.

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      --Faz-o --sussurrou ela, e lhe atraiu para si.
        Pressionou os lbios com fora contra seu pescoo.
        Ele agentou nessa posio durante uma eternidade de angstia. Mas somente
demorou uma frao de segundo em pr a ceva. Lucan no estava seguro. Do nico que era
consciente era do quente contato da pele dela em sua lngua, do batimento do corao de seu
corao, da rapidez de sua respirao. Do nico que era consciente era do desejo que sentia
por ela.
        No ia rechaar o mais.
        Desejava-a, desejava-o tudo dela, e a besta se desatou e j era impossvel ter piedade.
        Abriu a boca... e cravou as presas na flexvel carne de seu pescoo.
        Ela afogou uma exclamao ao sentir a repentina penetrao de seus dentes, mas no
lhe soltou, nem sequer quando notou que ele tragava pela primeira vez o sangue de sua veia
aberta.
        O sangue se precipitou dentro da boca de Lucan, quente e com um sabor terroso,
delicioso. Era muito superior Ao que teria imaginado nunca.
        Depois de viver durante novecentos anos, finalmente sabia o que era o cu.
        Bebeu com urgncia, em quantidade, com uma sensao de necessidade que lhe
transbordava enquanto saciava do sangue da Gabrielle lhe descia pela garganta e penetrava
a carne, os ossos e as clulas. O pulso acelerou, sentiu-se renascer, o sangue voltou a correr
pelas pernas e lhe curou as feridas.

       O sexo tinha despertado com o primeiro sorvo; agora pulsava com fora entre as
pernas. Exigia inclusive uma maior posse.
       Gabrielle lhe acariciava o cabelo, sujeitava-lhe contra ela enquanto ele bebia. Gemeu
com cada uma das chupadas de seus lbios, sentia que lhe desfazia o corpo. Seu aroma se fez
mais escuro e mido A causa do desejo.
       --Lucan --disse quase sem flego, estremecendo-se.
       -- OH, Deus...
       Com um grunhido sem palavras, empurrou-a contra o cho, debaixo dele. Bebeu mais,
perdendo-se no ertico calor do momento com uma desesperada e frenezi que lhe aterrorizou.
     Minha, pensou, sentindo-se profundamente selvagem e egosta.
       Agora era muito tarde para deter-se.
       Esse beijo lhes tinha amaldioado aos dois.
       Enquanto que a primeira dentada lhe tinha provocado uma comoo, a aguda dor se
dissipou rapidamente para converter-se em uma sensao suntuosa e embriagadora. Sentiu o
corpo alagado pelo prazer, como se cada larga chupada dos lbios de Lucan lhe injetasse uma
corrente de calidez no corpo que lhe chegava at o mesmo centro e lhe acariciava a alma.
       ele a levou at o cho com ele, as batas se entreabriram e a cobriu com seu corpo nu.
Notou as mos dele, speras, que lhe sujeitavam a cabea para um lado enquanto bebia dela.
Sem fazer caso da dor que as feridas lhe pudessem estar fazendo, pressionou seu peito nu
contra seus peitos. Seus lbios no se separaram de seu pescoo nem um momento. Gabrielle
sentia a intensidade da necessidade dele a cada chupada.
       Mas sentia sua fora, tambm. Estava-a recuperando, pouco a pouco, graas a ela.



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       --No te detenha --murmurou ela, pronunciando com lentido por causa do xtase
que crescia em seu interior a cada movimento de seus lbios.
     -- No vais fazer me danifico, Lucan. Confio em ti.
       O som mido e voraz que provocava sua sede era o mais ertico que tinha conhecido
nunca. Adorava sentir o calor dos lbios dele em cima de sua pele. Os arranhes que lhe
provocavam as presas dele enquanto se enchia a boca com seu sangue lhe resultavam
perigosos e excitantes.
       Gabrielle j se deslizava para um orgasmo dilacerador no momento em que notou a
grosa cabea da ereo de Lucan lhe pressionando o sexo. Estava mida, desejando
dolorosamente. Ele a penetrou com uma investida que a encheu por completo com um calor
vulcnico e potente que detonou dentro dela ao cabo de um instante. Gabrielle gritou
enquanto ele a investia com fora e depressa, sentindo os braos dele que a aprisionavam,
apertando-a com fora. Investia a um ritmo amalucado, empurrado por uma fora de puro e
magnfico desejo.
       Mas permaneceu grudado em seu pescoo, empurrando-a para uma doce e feliz
escurido.
       Gabrielle fechou os olhos e se deixou flutuar envolta em uma formosa nuvem de cor
obsidiana.
       Como desde muito longe notou que Lucan se retorcia e investia em cima de seu corpo
com urgncia, que todo seu corpo vibrava pela potncia do climax. Emitiu um grito spero e
ficou completamente imovel.
       A deliciosa presso no pescoo se afrouxou de forma abrupta e logo depois
desapareceu, deixando uma grande frieza a seu passo.
       Gabrielle, que ainda se sentia alagada pela embriaguez de notar a Lucan dentro dela,
levantou as plpebras, pesados. Lucan estava colocado de joelhos em cima dela e a olhava
como se ficou gelado. Tinha os lbios de um vermelho brilhante e o cabelo revolto. Seus olhos
selvagens lanavam brilhos de cor mbar, de to brilhantes. A cor de sua pele parecia mais
saudvel e o labirinto de marcas que lhe cobriam os ombros e o torso tinha um brilho de um
tom carmesim escuro.

       --O que acontece? --perguntou-lhe, preocupada--. Est bem?

      Ele no falou durante um comprido momento.
       --Jesucristo. --Sua voz grave soou como um grunhido trmulo, de uma forma que no
lhe tinha ouvido antes. Tinha o peito agitado.
       -- Acreditei que estava... acreditei que te havia...
       --No --lhe disse ela, fazendo um gesto negativo com a cabea e com uma expresso
preguiosa e saciada.
       -- No, Lucan. Estou bem.
      Ela no compreendeu o que significava a expresso intensa dele, mas ele no a ajudou.
separou-se dela. Seus olhos, que se tinham transformado, mostravam uma expresso de dor.
       Gabrielle sentia o corpo frio e vazio sem o calor dele. sentou-se e se esfregou para fazer-
se passar um repentino calafrio.
       --Est bem --lhe tranqilizou--. Tudo est bem.
       --No. --O negou com a cabea e ficou em p--. No. Isto foi um equvoco.

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     --Lucan...
       --No devi ter permitido que isto acontecesse! --gritou.
       Emitiu um grunhido de fria e se dirigiu aos ps da cama para agarrar suas roupas.
Colocou uma cala de camuflagem negra e uma camiseta de algodo, logo tomou suas armas e
suas botas e abandonou a habitao com uma fria tempestuosa e ardente.
       Lucan quase no podia respirar por causa da fora com que o corao lhe pulsava no
peito.

       No momento em que sentiu que Gabrielle ficava inerte debaixo dele enquanto ele bebia
dela, atravessou-lhe um medo descarnado que o desgaro por completo.
       Enquanto ele bebia febrilmente de seu pescoo, lhe havia dito que confiava nele. Sentiu
que o incentivo da sede de sangue lhe aguilhoava o corpo enquanto o sangue de Gabrielle lhe
enchia. O som de sua voz tinha suavizado a dor, em parte. Ela se tinha mostrado tenra e
cuidadosa: seu tato, sua emoo nua, sua mesma presena, tinha-lhe dado foras no momento
em que sua parte animal tinha estado a ponto de tomar as rdeas.
       Ela confiava em que no lhe faria mal, e essa confiana lhe tinha dado foras.
       Mas ento tinha notado que ela se desvanecia e temeu... Deus, quanto medo tinha
sentido nesse instante.
       Esse medo ainda lhe apertava, um terror escuro e frio a lhe fazer mal, a que poderia
mat-la se permitia que as coisas chegassem mais longe do que o tinham feito.
       Porque, por muito que ele a tivesse afastado e por muito que houvesse negado, lhe
pertencia. Ele pertencia a Gabrielle, em corpo e alma, e no simplesmente pelo fato de que seu
sangue lhe estivesse nutrindo nesse momento, estivesse-lhe curando as feridas e fortalecendo
o corpo. Ele se tinha unido a ela muito antes desse momento. Mas a prova irrefutvel disso
tinha aparecido nesse funesto instante, fazia um momento, assim que temeu que podia hav-
la perdido.
        Amava-a.
       Da parte mais profunda e solitria de si mesmo, amava a Gabrielle.
       E queria t-la em sua vida. De forma egosta e perigosa, no havia nada que desejasse
mais que t-la ao seu lado para o resto de seus dias.

      Dar-se conta disso lhe fez cambalear, ali, no corredor, diante do laboratrio tcnico. Na
verdade, quase lhe fez cair de joelhos.
      --N, calma. --Dante se aproximou de Lucan quase sem avisar e lhe sujeitou por
debaixo dos braos.
      -- Porra. Tem um aspecto infernal.
      Lucan no podia falar. As palavras estavam alm dele.
      Mas Dante no necessitava nenhuma explicao. Jogou uma olhada ao seu rosto e a
suas presas alargadas. As fossas nasais dilataram ao sentir o aroma de sexo e a sangue.
Deixou escapar um assobio baixo e nos olhos desse guerreiro apareceu um brilho de ironia.
      --No pode ser certo... uma companheira de sangue, Lucan? -- riu, meneando a cabea
enquanto lhe dava umas palmadas a Lucan no ombro.
      -- Porra. Melhor que seja voc e no eu, irmo. Melhor voc que eu.



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     Captulo trinta

     Trs horas mais tarde, quando a noite era completa ao seu redor, Lucan e os outros
guerreiros se encontravam preparados e sentados em um veculo de vigilncia negro na rua, a
uns oitocentos metros do velho psiquitrico.
       As fotografias de Gabrielle tinham sido de grande utilidade para planejar o golpe
contra a guarita dos renegados. Alm de vrias fotografias exteriores do ponto de acesso da
planta baixa, fez fotos interiores da habitao das caldeiras, de vrios corredores, de escadas e
inclusive algumas que inadvertidamente mostravam umas cmeras de segurana a rede que
teriam que ser desativadas quando os guerreiros ganhassem acesso a esse lugar.
       --Entrar vai ser a parte fcil --disse Gideon, enquanto o grupo estava a revisar por
ltima vez a operao.
       -- Interromperei o sinal de segurana das cmeras da planta baixa mas, quando
estivermos dentro, colocar essas duas dzias de barras de C4 nos pontos crticos sem alertar a
toda a colnia de chupes vai ser um pouco mais difcil.
       --Por no mencionar o problema da publicidade no desejada dos humanos --disse
Dante.
       -- O que  o que est fazendo que Niko tarde tanto em localizar esses tubos de gs?
       --A vem --disse Lucan, ao ver a figura escura do vampiro que se acercava ao veculo
de vigilncia da fila de rvores da rua.
        Nikolai abriu a porta traseira e subiu depois de Tegan. tirou o capuz negro e seus
invernais olhos azuis faiscaram de excitao.
        -- um caramelo. A linha principal est em uma caixa do extremo leste do complexo.
Possivelmente esses chupes no necessitem calefao, mas o servio pblico lhes subministra
um monto de gs.
       Lucan olhou os olhos ansiosos do guerreiro.

       --Ento entramos, deixamos nossos presentes, limpamos o lugar...
       Niko assentiu com a cabea.
       --Me faam um sinal quando a merda esteja em seu lugar. Moverei o tubo principal e
logo farei detonar o C4 quando todos estejam aqui de volta. Aparentemente ser como se uma
fuga de gs tivesse causado a exploso. E se os corpos de segurana querem meter-se nisto,
estou seguro de que as fotos de Gabrielle dos grafites dos grupos faro que esses humanos
farejem em crculos durante um tempo.
       Enquanto, os guerreiros teriam mandado uma importante mensagem a seus inimigos,
especialmente ao vampiro de primeira gerao que Lucan suspeitava se encontrava ao mando
desta nova sublevao dos renegados. Fazer voar o quartel general seria um convite suficiente
para que esse bode sasse ao ar livre e comeasse a danar.
       Lucan estava ansioso por comear. Inclusive estava mais ansioso por terminar com a
misso dessa noite porque tinha um assunto por terminar quando voltasse para o complexo.
Odiava ter deixado a Gabrielle dessa maneira e sabia que ela devia sentir-se confusa e,
provavelmente, mais que inquieta.
       Ficaram coisas por dizer, seguro, coisas nas que ele no tinha estado preparado para
pensar muito e, muito menos, para as falar com ela nesse momento em que a surpreendente
realidade de seus sentimentos por ela assaltou.

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       Agora tinha a cabea cheia de planos.
       Planos imprudentes, estpidos e esperanosos, todos eles centrados nela.
       No interior do veculo, ao seu redor, outros guerreiros estavam comprovando seu
equipamento, carregando as barras de C4 dentro de bolsas com cremalheiras e realizando os
ajustes finais aos auriculares e os micros que lhes permitiriam estar em contato uns com os
outros quando chegassem ao permetro do psiquitrico e se separassem para colocar os
explosivos.

       --Esta noite vamos fazer isto por Rio --disse Dante_ enquanto fazia voltear suas facas
curvadas entre os dedos enluvados e os introduzia nas capas que levava no quadril.
       -- Chegou o momento da vingana.
       --Porra, sim --respondeu Niko, ao qual outros se ecoaram.
       Quando se dispunham a sair pelas portas, Lucan levantou uma mo.
       --Um momento. --A tristeza de seu tom de voz lhes fez deter-se.
     -- H uma coisa que tm que saber. Dado que estamos a ponto de entrar a e que 
provvel que nos dem uma boa surra, suponho que este  um momento to bom como
qualquer outro para ser claro com vocs a respeito de um par de coisas... e necessito que cada
um de vocs me faam uma promessa.
       Olhou os rostos de seus irmos, esses guerreiros que tinham estado lutando ao seu lado
durante tanto tempo que parecia uma eternidade. Eles sempre lhe tinham cuidadoso como 
um lder, tinham crdulo nele para que tomasse as decises mais difceis, sempre se tinham
sentido seguros de que ele saberia como decidir uma estratgia ou como tomar uma deciso.
       Agora duvidava, sem saber por onde comear. Esfregou-se a mandbula e deixou
escapar um forte suspiro.
       Gideon lhe olhou com o cenho franzido e expresso de preocupao.
       --Vai tudo bem, Lucan? Recebeu um bom golpe na emboscada da outra noite. Se no
quiser participar disto...
       --No. No  isso. Estou bem. Minhas feridas esto curadas... graas a Gabrielle --
disse.
       -- Faz um momento, hoje, ela e eu...
       --No me diga --respondeu Gideon ao ver que Lucan se interrompia. Foder com o
vampiro, mas estava .

       --Bebeste dela? --perguntou Niko.
       Tegan soltou um grunhido do assento traseiro.
       --Essa fmea  uma companheira de raa.
       --Sim --respondeu Lucan com calma e seriedade--. E se me permitir isso, lhe vou
pedir que me aceite como companheiro.
       Dante lhe olhou, zombador, com uma expresso de risonha exasperao.
       --Felicidades, cara. De verdade.
       Gideon e Niko responderam de maneira similar e lhe deram umas palmada nas costas.
       --Isso no  tudo.
       Quatro pares de olhos se cravaram nele: todo mundo lhe olhava na espera sria exceto
Tegan.


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        --A outra noite, Eva tinha umas quantas coisas que dizer de mim... --Imediatamente se
levantaram uns protestos por parte de Gideon, Niko e Dante. Lucan continuou falando apesar
dos grunhidos de irritao.
      -- A traio a Rio e a ns  indesculpvel, sim. Mas o que disse de mim... era a verdade.
      Dante lhe olhou com suspiccia.
      --Do que est falando?
      --Da sede de sangue --respondeu Lucan. A palavra soou com fora no silncio do
interior do veculo.
      -- ... bom,  um problema para mim.  a muito tempo tempo. Estou-o dirigindo, mas
algumas vezes... --Baixou a cabea e olhou ao cho do veculo.
      -- No sei se poderei venc-la. Possivelmente, com Gabrielle a meu lado, possivelmente
tenha uma oportunidade. Vou lutar como um demnio, mas se piorar...

         Gideon cuspiu uma obscenidade.
         --Isso no vai acontecer, Lucan. De todos os que estamos aqui sentados, voc  o mais
forte. Sempre o foste. Nada te pode tombar.
      Lucan negou com a cabea.
         --J no posso continuar fingindo que sou o que sempre controla. Estou cansado. No
sou invencvel. Depois de novecentos anos de viver com esta mentira, Gabrielle no demorou
nem duas semanas em desmascarar-me. Obrigou-me a ver como sou de verdade. Eu no
gosto muito o que vejo, mas quero ser melhor... por ela.
         Nico franziu o cenho.
       --Porra, Lucan. Est falando de amor?
       --Sim --disse ele com solenidade.
       -- Eu estou fazendo. A amo. E  por isso que tenho que lhes pedir uma coisa. A todos.
         Gideon assentiu.
         --Diga-o.
         --Se as coisas ficarem feias comigo... em algum momento, logo, ou na rua... tenho que
saber que conto com vocs, meninos, para que me apiem. Se virem que me perco na sede de
sangue, se creem que vou voltar me... Necessito sua palavra de que vo acabar comigo.
       --O que? --exclamou Dante.
       -- No pode nos pedir isso, cara.
       --Me escutem. --No estava acostumado a suplicar. Pronunciar essa petio era como
suportar cascalho na garganta, mas tinha que faze-lo. Estava cansado de suportar sozinho esse
peso. E o ltimo que desejava era ter medo de que em um momento de debilidade pudesse lhe
fazer algum mal a Gabrielle.
       -- Tenho que ouvir seus juramentos. O de cada um de vocs. Prometam-me isso .
       --Merda --disse Dante, lhe olhando boquiaberto. Mas ao final assentiu com a cabea e
com expresso grave.
       -- Sim. De acordo. Est fodidamente louco, mas de acordo.
         Gideon meneou a cabea, logo levantou o punho e fez chocar os nodulos contra os de
Lucan.
       --Se isso for o que quer, tem-no. Juro-lhe isso, Lucan.
            Niko pronunciou sua promessa tambm:


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         --Esse dia no chegar nunca, mas se o faz, sei que voc fara o mesmo por qualquer
de ns. Assim sim, tem minha palavra.
        O qual deixava somente a Tegan por faz-lo, que se encontrava sentado no assento
traseiro com atitude estica.
      --E voc, Tegan? --perguntou Lucan, dando-a volta para olhar aos olhos verdes e
impassveis.
      -- Posso contar contigo nisto?
        Tegan lhe olhou larga e silenciosamente com atitude pensativa.
      --Claro, cara. Porra, o que diga. Se te converter nisso, estarei em primera linha para
acabar contigo.
        Lucan assentiu com a cabea, satisfeito, e olhou os rostos srios de seus irmos.
      --Jesus --exclamou Dante quando o denso silncio do veculo lhe fez interminvel.
      --Todo este sentimentalismo me est pondo impaciente por matar. Que tal se deixarmos
de nos fazer palhas e vamos fazer voar o teto a esses chupes?
        Lucan sorriu em resposta ao sorriso arrogante do vampiro.
      --Vamos a isso .

       Os cinco guerreiros da raa, vestidos de negro da cabea aos ps, saram do veculo
como um s homem e comearam a aproximar-se sigilosamente ao psiquitrico, ao outro lado
das rvores, banhados pela luz da lua.



     Captulo trinta e um

      -- Vamos, vamos. Abra, porra!
        Gabrielle estava sentada ante o volante de um cup BMW negro e esperava com
impacincia a que a enorme porta de entrada do terreno do complexo se abrisse e a deixasse
sair. Desgostava-lhe que a tivessem obrigado a levar o carro sem permisso, mas depois do
que tinha acontecido com Lucan estava desesperada por partir. Dado que todo o terreno
estava rodeado por uma cerca eltrica de alta voltagem, somente ficava uma alternativa.
        J pensaria em alguma maneira de devolver o carro uma vez estivesse em casa.
        Uma vez que se encontrasse de volta ao lugar ao que verdadeiramente pertencia.
        Essa noite tinha dado a Lucan tudo o que tinha podido, mas no era suficiente.
Preparou-se a si mesmo para a eventualidade de que ele a apartasse e resistisse a seus intentos
de lhe amar, mas no havia nada que pudesse fazer se ele decidia recha-la. Como tinha feito
essa noite.
        Tinha-lhe dado seu sangue, seu corpo e seu corao, e ele a havia rechaado.
        Agora j no ficava energia.
        J no podia lutar.
        Se ele estava to decidido a permanecer sozinho, quem era ela para obriga-lo a trocar?
Se ele queria isolar-se, tinha muito claro que no ia ficar ali para esperar a v-lo.

       Iria  casa.
       Ao fim, as pesadas portas de ferro se abriram e permitiram lhe sair. Gabrielle acelerou
e saiu a toda velocidade para a rua silenciosa e escura. No tinha uma idia muito clara de

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onde se encontrava at que, depois de conduzir uns trs quilmetros, encontrou-se em um
cruzamento conhecido. Girou a esquerda pelo Charles Street em direo a Beacon Hill e se
deixou conduzir, aturdida, pelo piloto automtico.
        Quando estacionou o carro na esquina de fora de seu apartamento, seu edifcio lhe
pareceu muito mais pequeno. Seus vizinhos tinham as luzes acesas mas, apesar do resplendor
dourado no ambiente, esse edifcio de tijolo lhe pareceu sombrio.
        Gabrielle subiu as escadas da fachada e procurou as chaves no bolso. A mo tropeou
com uma pequena adaga que levou do armrio das armas de Lucan: a tinha levado como
defesa em caso de que se encontrasse com problemas em seu caminho a casa.
        Quando entrou e acendeu a luz do vestbulo, o telefone estava soando. Deixou que a
secretria eletrnica respondesse e se deu a volta pra fechar todos os ferrolhos e passadores da
porta.
        Da cozinha ouviu a voz entrecortada da Kendra que lhe deixava uma mensagem.
        -- de muito m educao por sua parte me ignorar desta maneira, Gabby. --A voz de
seu amiga soava extranhamente estridente. Estava zangada.
      -- Tenho que ver-te.  importante. Voc e eu temos que falar, de verdade.
        Gabrielle se dirigiu a sala de estar e notou todos os espaos vazios que tinham ficado
depois de que Lucan tivesse tirado as fotografias das paredes. Parecia que tinha passado um
ano da noite em que ele foi a seu apartamento e lhe contou a assombrosa verdade a respeito
de si mesmo e da batalha que estava fazendo estragos entre os de sua classe.
        Vampiros, pensou, surpreendida ao dar-se conta de que essa palavra j no a
surpreendia.

        Provavelmente havia muito poucas coisas que pudessem surpreend-la j nesses
momentos.
        E j no tinha medo de perder a cabea, como lhe tinha acontecido a sua me. Inclusive
essa trgica histria tinha cobrado um significado novo agora. Sua me no estava louca
absolutamente. Era uma moa aterrorizada que se viu apanhada em uma situao violenta
que muito poucos humanos seriam capazes de conceber.
        Gabrielle no tinha inteno de permitir que essa mesma situao violenta a destrura.
Pelo menos agora estava em casa e j pensaria em alguma maneira de recuperar sua antiga
vida.
        Deixou a bolsa em cima da mesa e foi at o contestador automtico. O indicador de
mensagens piscava e mostrava o nmero dezoito.
        --Deve ser uma brincadeira --murmurou, apertando o boto de reproduo.
        Enquanto a mquina ficava em funcionamento, Gabrielle se dirigiu ao banho para
inspecionar o pescoo. A mordida que Lucan havia lhe dado debaixo da orelha tinha um
brilho vermelho escuro e se encontrava ao lado da lgrima e da lua crescente que a
assinalavam como companheira de raa. Tocou-se as duas ferroadas e o hematoma que Lucan
lhe tinha deixado mas se deu conta de que no lhe doam absolutamente. A dor surda e vaziu
que sentia entre as pernas era o pior, mas inclusive este empalidecia comparado com a fria
crueldade que lhe instalava no peito cada vez que recordava como Lucan se apartou dela essa
noite, como se ela fosse um veneno. Como tinha sado da habitao, cambaleando-se, como se
no pudesse apartar-se dela com a rapidez suficiente.


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       Gabrielle abriu a gua e se lavou, vagamente consciente das mensagens que soavam na
cozinha. Para ouvir a quarta ou quinta mensagem, deu-se conta de que havia algo estranho.
       Todas as mensagens eram da Kendra, e os tinha deixado todos durante as ltimas vinte
e quatro horas. Uma depois da outra, e entre algumas delas no havia mais que cinco minutos
de diferena.

      Sua voz tinha adquirido um tom grandemente mais amargo da primeira mensagem em
que, em tom despreocupado e alegre, havia-lhe prposto sair e comer ou a tomar uma taa ou
algo que queria. Logo, o convite tinha adquirido um tom mais insistente: Kendra dizia que
tinha um problema e que necessitava que Gabrielle a aconselha-se.
       Nas duas ltimas mensagens lhe tinha exigido de forma spera que lhe respondesse
logo.
       Gabrielle correu at a bolsa e comprovou as mensagens da secretaria de voz do
telefone celular: encontrou-se com o mesmo.
       Com as repetidas chamadas da Kendra.
       Com seu estranho tom cido de voz.
       Um calafrio lhe percorreu as costas ao recordar a advertncia de Lucan a respeito da
Kendra: se ela tinha caido vtima dos renegados, j no era amiga dela. Era como se estivesse
morta.
      O telefone comeou a soar outra vez na cozinha.
       --OH, Meu deus --exclamou, atendida por um terror crescente.
      Tinha que sair dali.
       Um hotel, pensou. Algum lugar longnquo. Algum lugar onde pudesse ocultar-se
durante um tempo e decidir o que fazer.
       Gabrielle tomou a bolsa e as chaves do BMW virtualmente correndo para a porta. Abriu
as fechaduras e girou a maaneta. Assim que a porta se abriu se encontrou ante um rosto que
em outro momento tinha sido amistoso.
       Agora estava segura de que era o rosto de um servente.



       --Vai a algum lugar, Gabby? --Kendra se apartou o telefone celular do ouvido e o
desligou. O timbre do telefone da casa deixou de soar. Kendra sorriu fracamente com a cabea
inclinada em um estranho ngulo.
       -- Ultimamente,  terrivelmente difcil de localizar.
       Gabrielle se estremeceu de dor ao ver esses olhos vazios e perdidos que no piscavam.
       --Me deixe passar, Kendra. Por favor.
       A morena riu com uma gargalhada estridente que se apagou em um vaio surdo.
       --Sinto muito, carinho. No posso faz-lo.
       --Est com eles, verdade? --disse-lhe Gabrielle, adoecendo s de pensar.
       -- Est com os renegados. Meu Deus, Kendra, o que lhe tm feito?
       --Te cale --reps ela, com um dedo sobre os lbios e meneando a cabea.
       -- No falemos mais. Agora temos que ir.
         Assim que a servente alargou a mo para ela, Gabrielle se apartou. Recordou a adaga
que levava na bolsa e se perguntou se poderia tir-la sem que Kendra se desse conta. E se
conseguia faz-lo, seria capaz de utiliz-la contra sua amiga?

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        --No me toque --lhe disse, enquanto deslizava os dedos lentamente por debaixo da
lapela de pele da bolsa.
         -- No vou a nenhuma parte contigo.
        Kendra lhe mostrou os dentes em uma terrvel imitao de um sorriso.
        --OH, acredito que deveria faz-lo, Gabby. Depois, a vida do Jamie depende de ti.
        Um temor gelado lhe atendeu o corao.
        -O que?

      Kendra fez um gesto com a cabea em direo aos Sedam que estava esperando. O cristal
tinto de um dos guichs se abriu e al estava Jamie, sentado no assento traseiro ao lado de um
tipo enorme.
        --Gabrielle? --chamou Jamie com uma expresso de pnico nos olhos.
        --OH, no. Jamie no. Kendra, por favor, no permita que lhe faam mal.
        --Isso  algo que est completamente em suas mos --reps Kendra em tom educado e
lhe tirou a bolsa das mos.
        -- No vais necessitar nada do que leva aqui.
        Fez um sinal a Gabrielle para que caminhasse diante dela em direo ao carro.
        --Vamos?
        Lucan colocou duas barras de C4 debaixo dos enormes aquecedores de gua da
habitao das caldeiras do psiquitrico. Agachou-se ante o equipamento, desdobrou as
antenas do transmissor e conectou o micro para informar de seu progresso.
        --Habitao de caldeiras verificada --disse a Niko, que se encontrava ao outro
extremo da linha.
        -- Tenho que colocar trs unidades mais e logo sairei...
        Ficou imvel de repente, para ouvir uns passos ao outro lado da porta fechada.
        --Lucan?
        --Merda. Tenho companhia --murmurou em voz baixa enquanto se incorporava e se
aproximava com sigilo a porta para preparar-se a golpear.

        Levou-se a mo enluvada at o punho de uma perigosa faca com serra que tinha
embainhado em cima do peito. Tambm levava uma pistola, mas todos tinham concordado
que no utilizariam armas de fogo nessa misso. No fazia falta avisar aos renegados de sua
presena e alm disso, dado que Niko ia desviar o tubos de fora e encher de gases o edifcio,
um disparo podia acender os foguetes antes do tempo.
        O trinco da porta da habitao das caldeiras comeou a girar.
        Lucan cheirou o fedor de um renegado, e o inconfundvel aroma metlico do sangue
humano. Ouviu uns grunhidos animais afogados mesclados com uns golpes e com um dbil
lamento de uma vtima a quem lhe estavam chupando o sangue. A porta se abriu e um
fortssimo ar ptrido penetrou na habitao enquanto um renegado arrastava a seu brinquedo
moribundo dentro da sala escura.
        Lucan esperou a um lado da porta at que a enorme cabea do renegado esteve
plenamente ante sua vista. Esse chupo estava muito concentrado em sua presa para dar-se
conta da ameaa. Lucan levantou uma mo e cravou a faca na caixa torcica do renegado. Este
rugiu com as enormes mandbulas abertas e os olhos amarelos inchados ao sentir que o titnio
lhe penetrava no sistema circulatrio.

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       O humano caiu ao cho com um golpe seco como um boneco e seu corpo se contraiu
em uma srie de espasmos de agonia de morte depois do corpo do renegado que se alimentou
dele comeava a emitir uns assobios, a tremer e a mostrar umas feridas como se o houvessem
orvalhado com cido.
       Assim que o corpo do renegado teve terminado sua rpida descomposio, outro deles
se aproximou correndo pelo corredor. Lucan se precipitou para frente para voltar a atacar,
mas antes de que pudesse dar o primeiro golpe, o chupo se deteve em seco quando um brao
negro lhe obrigou a deter-se por detrs.

        Viu-se o brilho de um fio com a rapidez e a fora de um raio que atravessava a
garganta do renegado e separava a enorme cabea do corpo com um corte limpo.
        O enorme corpo ficou estendido no cho como um monto de lixo. Tegan se
encontrava ali em p, com sua espada gotejando sangue e seus olhos verdes, tranqilos. Tegan
era uma mquina assassina, e o gesto srio de seus lbios parecia reafirmar a promessa que lhe
tinha feito a Lucan de que se a sede de sangue podia com ele, Tegan se asseguraria de que
Lucan conhecesse a fria do titnio.
       Ao olhar agora a esse guerreiro, Lucan esteve seguro de que se alguma vez Tegan ia
por ele, ele morreria antes de dar-se conta de que o vampiro tinha aparecido ao seu lado.
       Lucan se enfrentou a esse olhar frio e letal e lhe saudou com um gesto de cabea.
       --Me diga algo --ouviu que lhe dizia Niko atravs do auricular--.Est bem?
       --Sim. Tudo tranquilo. --Limpou a adaga com a camisa do ser humano e a voltou a
embainhar. Quando voltou a levantar a vista, Tegan tinha desaparecido, desvaneceu-se como
o espectro da morte que era.
       --Agora dirijo aos pontos de entrada da zona norte para colocar o resto dos explosivos
--disse a Nikolai enquanto saa da habitao das caldeiras e percorria o corredor vazio.



     Captulo trinta e dois
     -- Gabrielle, o que acontece? O que acontece com Kendra? Veio a galeria e me h dito
que tinha tido um acidente e que tinha que ir com ela imediatamente. Por que me mentiu?
       Gabrielle no sabia o que responder as perguntas que Jamie, ansioso, sussurrava-lhe do
assento traseiro do Sedam. Afastavam-se a toda velocidade do Beacon Hill em direo ao
centro da cidade. Os arranha-cu do distrito financeiro se abatiam sobre eles na escurido e as
luzes dos escritrios piscavam como luzes natalinas. Kendra estava sentada no assento
dianteiro ao lado do condutor, um gorila de pescoo largo embelezado de negro como um
valento e com culos escuros.
        Gabrielle e Jamie tinham a um companheiro similar detrs que os encurralava a um
lado do brilhante assento de pele. Gabrielle no acreditava que fosse um renegado, no
parecia que escondessem umas presas enormes detrs desses lbios tensos, e pelo pouco que
sabia dos mortais inimigos da raa, no acreditava que nem ela nem Jamie tivessem demorado
nem um minuto em ter as gargantas abertas se esses dois homens tivessem sido de verdade
uns renegados viciados no sangue.
        Serventes ento, deduziu. Escravos humanos de um poderoso senhor vampiro.
      Igual a Kendra.
        --O que vo fazer conosco, Gabby?

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        --No estou segura. --Alargou o brao e lhe deu um carinhoso aperto na mo.
Tambm falava em voz baixa, mas estava segura de que seus captores estavam escutando cada
uma de suas palavras.
      -- Mas no vai passar nada. Prometo-lhe isso.
         O que sim sabia era que tinham que sair desse carro antes de que chegassem ao seu
destino. Era a regra de defesa prpria mais bsica: nunca deixe que lhe levem a uma segunda
localizao. Porque ento se encontrava em campo inimigo.

       As oportunidades de sobrevivncia passariam de ser escassas a nulas.
       Olhou o fechamento de segurana da porta que Jamie tinha a seu lado. Ele observou
seus olhos com o cenho franzido e expresso de interrogao. Olhou a ele e logo voltou a olhar
o fechamento. Ento ele o entendeu e lhe dirigiu um assentimento de cabea quase
imperceptvel.
       Mas quando se dispunha a colocar as mos na posio adequada para abrir o
fechamento, Kendra se deu a volta e lhes provocou:
     --Quase chegamos, meninos. Esto excitados? Eu sim que o estou. No posso esperar a
que meu senhor por fim te conhea em pessoa, Gabby. Mmm! Te vai comer imediatamente.
       Jamie se inclinou para diante e quase cuspiu veneno:
       --Te aparte, puta mentirosa!
       --Jamie, no! --Gabrielle tentou lhe reter, aterrada ante esse inocente instinto de
amparo. Ele no tinha nem idia do que estava fazendo ao irritar a Kendra ou aos outros dois
serventes que se encontravam no carro.
     Mas ele no ia deixar se controlar. Equilibrou-se para frente:
       --Se nos tocarem um cabelo a qualquer dos dois,vou arrancar seus os olhos!
       --Jamie, basta, no passa nada --disse Gabrielle, atirando dele para que voltasse a
recostar-se no assento.
       -- Se tranqilize, por favor! No vai passar nada.
       Kendra no se alterou. Olhou a ambos e deixou escapar uma risada repentina e
estremecedora:

       --Ah, Jamie. Sempre foste o pequeno e fiel terrier da Gabby. Au au! Au au!  pattico.
       Muito devagar e evidentemente satisfeita consigo mesma, Kendra se voltou a sentar de
forma correta no assento lhes dando as costas.
       --Detenha no semforo --lhe disse ao condutor.
       Gabrielle deixou escapar um tremente suspiro de alvio e se recostou outra vez no
respaldo de fria pele. Jamie estava esquecido contra a porta, zangado. Quando os olhares de
ambos se encontraram, ele se apartou um pouco a um lado e lhe permitiu ver que a porta
agora no estava fechada.
       O corao de Gabrielle deu um tombo ante essa ingenuidade e esse valor. Quase no
pde dissimular o sorriso enquanto o veculo reduzia a velocidade ante o semforo, a uns
metros diante deles. Estava em vermelho, a julgar pela fila de carros que se encontravam
detidos diante dele, ia trocar para verde em qualquer momento.
       Esta era a nica oportunidade que tinham.
     Gabrielle olhou a Jamie e se deu conta de que ele tinha compreendido o plano
perfeitamente.

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     Gabrielle esperou, observando o semforo; dez segundos que pareceram horas. A luz
vermelha piscou e ficou verde. Os carros comearam a avanar diante deles. Assim que o
Sedam comeou a acelerar, Jamie levou a mo ao ponteiro da porta e a abriu.
      O ar fresco da noite entrou no veculo e os dois se atiraram de cabea para a liberdade.
Jamie deu contra o pavimento e imediatamente alargou a mo para ajudar a Gabrielle a
escapar.
      --Detenham! --chiou Kendra.
      -- No deixem que escape!
      Uma pesada mo caiu sobre o ombro de Gabrielle e atirou dela para o interior do carro
fazendo que se estrelasse contra o enorme corpo do servente. Os braos deste a rodearam,
apanhando-a como barras de ferro.

       --Gabby! --chiou Jamie.
     Gabrielle emitiu um soluo desesperado.
       --Vai daqui! Vai, Jamie!
       --Acelera, idiota! --gritou-lhe Kendra ao condutor ao ver que Jamie se dispunha a
agarrar-se ao ponteiro da porta para voltar pela Gabrielle. O motor rugiu, os pneumticos
chiaram e o carro se uniu ao trfico.
        --O que fazemos com ele?
        --Deixe-lhe --ordenou Kendra em tom cortante. Dirigiu- um sorriso a Gabrielle, que
se debatia em vo no assento traseiro.
        -- J serviu ao nosso propsito.
        O servente sujeitou a Gabrielle com fora at que Kendra ordenou que o carro se
detivera diante de um elegante edifcio de escritrios. Desceram do carro e obrigaram a
Gabrielle a caminhar para a porta de entrada. Kendra falava com algum atravs do telefone
celular e parecia ronronar de satisfao.
        --Sim, temo-la. Agora vamos subir.
        Guardou-se o telefone no bolso e lhes conduziu atravs de um vestibulo de mrmore
vazio at a zona de elevadores. Quando entraram em um deles, apertou o boto do
apartamento de cobertura.
        Gabrielle recordou imediatamente a mostra privada de suas fotos. Ao fim o elevador se
deteve no piso superior e as portas de espelho se abriram; nesse momento Gabrielle teve a
horrvel certeza de que seu annimo comprador ia dar-se a conhecer.

       O servente que a tinha estado sujeitando a empurrou para que entrasse na sute,
fazendo-a tropear. Ao cabo de uns segundos, o medo de Gabrielle se fez maior.
      Diante da parede de cristais se encontrava em p uma alta figura de cabelo negro vestida
com um comprido abrigo negro e culos de sol. Era igual de corpulento que os guerreiros e
dele emanava o mesmo ar de confiana. A mesma ameaa fria.
       --Adiante --lhes disse em um tom grave que trovejou como uma tormenta.
       -- Gabrielle Maxwell,  um prazer conhec-la por fim. Ouvi falar muito de voc.
       Kendra se colocou a seu lado e lhe deu uns tapinhas com expresso de adorao.
       --Suponho que me trouxe aqui por alguma razo --disse Gabrielle, tentando no sentir
pena por ter perdido a Kendra nem ter medo desse perigoso ser que tinha convertido a
Kendra no que era.

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       --Converti-me em um grande admirador de seu trabalho. --Sorriu-lhe sem mostrar os
dentes e com uma mo apartou sem contemplaes a Kendra.
       -- Voc fez umas fotos interessantes, senhorita Maxwell. Por desgraa, tem que deixar
de fazer. No  bom para meus negcios.
     Gabrielle tentou agentar o olhar tranqilo e ameaador que, sabia, estava-lhe dirigindo
detrs dos culos.
       --Quais so seus negcios? Quero dizer, alm de exercer de sanguessuga chupador de
sangue.
       Ele riu.
       --Dominar o mundo,  obvio. Acredita que h algo mais pelo que valha a pena lutar?
       --Posso pensar em umas quantas coisas.

       Uma sobrancelha escura se arqueou por cima da arreios desses culos.
       --OH, senhorita Maxwell, se se referir ao amor ou a amizade, terei que dar por
terminado este agradvel e breve encontro agora mesmo.
       --Juntou os dedos das mos e os anis que levava brilharam sob a tnue luz da
habitao. A Gabrielle no gostava da maneira em que ele a estava olhando, como avaliando-
a. O vampiro se inclinou para frente com as fossas nasais dilatadas.
       -- Aproxime-se.
     Ao ver que ela no se movia, o corpulento servente que se encontrava a suas costas a
empurrou para frente. Gabrielle se deteve um metro de distncia do vampiro.
       --Tem voc um aroma delicioso --disse em um lento vaio.
     -- Cheira como uma flor, mas h algo... mais. Algum se alimentou de voc
recentemente. Um guerreiro? No se incomode em neg-lo, posso cheir-lo em seu corpo.
         Antes de que Gabrielle pudesse dar-se conta, ele a sujeitou pelo pulso e a atraiu para si
de um puxo. Com mos arrudas, fez-lhe inclinar a cabea e lhe apartou o cabelo que
escondia a mordida de Lucan e a marca que tinha debaixo da orelha esquerda.
     --Uma companheira de raa --grunhiu, lhe passando os dedos pela pele do pescoo.
     -- E recentemente reclamada como tal. Faz de voc mais inteiressante a cada segundo
que passa, Gabrielle.
         No gostou do tom ntimo que empregou ao pronunciar seu nome.
     --Quem a mordeu, companheira? A qual desses guerreiros o permitiu colocar-se entre
essas largas e formosas pernas?
     --V-se ao inferno --respondeu ela, apertando as mandbulas.
     --No me vai dizer isso? --Fez estalar a lngua e meneou a cabea.
     -- De acordo. Poderemo-lo averiguar muito em breve.

     Podemos fazer que venha. Finalmente, ele se separou dela e fez um sinal a um dos
serventes estavam vigiando.
     --Levem ao telhado.
       Gabrielle se debateu contra seu captor, que a aferrava com mpeto, mas no podia
vencer a fora desse bruto. Obrigaram-na a dirigir-se para uma porta sobre a qual havia o
pster vermelho de sada e uma placa em que se lia acesso ao heliporto.
     --Um momento! E eu? --queixou-se Kendra da sute.


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     --Ah, sim. Enfermeira K. Delaney --disse seu senhor escuro, como se acabasse de
lembrar-se dela--. Quando nos tivermos ido, quero que saia ao telhado. Sei que a vista dele te
parecer espetacular. Desfruta-a durante um momento... e logo salta ao vazio.
       Ela olhou, piscando aturdida. Logo baixou a cabea, mostrando que estava sob seu
domnio.
     --Kendra! --gritou Gabrielle, desesperada por chegar at sua amiga.
     -- Kendra, no o faa!
       O vampiro do casaco negro e os culos escuros passou ao seu lado sem mostrar
nenhuma preocupao.
     --Vamos. Terminei aqui.
       Uma vez colocado o ltimo cartucho de C4 em seu lugar ao extremo norte do
psiquitrico, Lucan se abriu passo por um condutor de ventilao que conduzia ao exterior.
Tirou o ralo e se iou at o exterior. Rodou por cima da grama, que rangeu sob seu corpo; logo
ficou em p e comeou a correr em direo a cerca que rodeava o terreno, sentindo o ar fresco
na boca.

      --Niko, Como vamos?
      --Vamos bem. Tegan est voltando e Gideon vem detrs de ti.
      --Excelente.
      --Tenho o dedo no detonador --disse Nikolai. Sua voz quase resultava inaudvel pelo
rudo de um helicptero que alagava a zona.
         -- D a ordem, Lucan. Morro por fazer voar a estes chupes.
         --Eu tambm --reps Lucan. Olhou o cu noturno com o cenho franzido,
procurando o helicptero.
      -- Temos visita, Niko. Parece que um helicptero se dirige diretamente ao psiquitrico.
        Assim que o houve dito, viu a escura silhueta do helicptero em cima da fileira de
rvores. Umas pequenas luzes piscaram no veculo enquanto este girava para o telhado do
recinto e iniciava a descida.
        O constante movimento da hlice levantou uma forte brisa e Lucan cheirou o aroma
dos pinheiros e do plen... e de outro perfume que lhe acelerou o pulso.
      --OH, Jesus --exclamou assim que reconheceu o aroma de jasmim.
      -- No toque o detonador, Niko! Por Deus, seja como for, no permita que este maldito
edifcio voe pelos ares!



     Captulo trinta e trs

      Uma mescla voltil de adrenalina e fria, alm de um medo que o cobria at os ossos, fez
saltar a Lucan ao telhado do velho psiquitrico. O helicptero acabava de posar-se nos trilhos
de aterrissagem e Lucan se precipitou para ele da beirada do edifcio. O corpo tremia por
causa de uma fria mais explosiva e instvel que um caminho carregado de C4. Tinha toda a
inteno de lhe arrancar as pernas a quem estivesse retendo Gabrielle.
        Com a arma na mo, Lucan se aproximou do helicptero por detrs, com cuidado de
que no lhe vissem, e deu a volta pela cauda para acercar-se ao lado dos passageiros da
cabine de mando.

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        Viu Gabrielle dentro do helicptero, no assento traseiro, ao lado de um enorme macho
que ia vestido de negro e que levava uns culos escuros. Parecia to pequena, a via to
aterrorizada. Seu aroma lhe banhou por inteiro. E seu medo lhe destroou o corao.
        Lucan abriu de um puxo a porta da cabine e colocou a arma diante do rosto do captor
do Gabrielle enquanto sujeitava a ela com a mo que ficava livre. Mas atiraram de Gabrielle
para trs antes de que ele pudesse sair com ela.
       --Lucan? --exclamou Gabrielle com os olhos exagerados por causa da surpresa.
       -- OH, Meu deus, Lucan!
        Ele realizou um rpido exame visual da situao e viu o servente que pilotava o avio e
a um humano escravo que se encontrava ao seu lado, diante. O servente do assento do co-
piloto se deu a volta com inteno de lhe dar um golpe no brao, mas recebeu uma bala na
cabea.
       No momento em que Lucan voltou a dirigir o olhar para a Gabrielle, ao cabo de um
instante, se encontrava com uma faca na garganta. Por debaixo da manga do comprido abrigo
lhe assomavam os dermoglifos que Lucan tinha visto nas fotos da Costa Oeste.

       -- Solte disse o lder de primeira gerao dos renegados.
       --V, v, foi uma resposta mais rpida do que houvesse imaginado, inclusive para um
guerreiro com vnculo de sangue. O que pretende? Por que est aqui?
       O arrogante tom de voz lhe desconcertou.
       Conhecia esse bode?
       --Solta-a --disse Lucan--, E te mostrarei por que estou aqui.
       --Parece-me que no. --O vampiro de primeira gerao lhe sorriu ampliamente, lhe
mostando os dentes.
       No tinha presas. Era um vampiro, mas no era um renegado.
       Que diabos?
       -- encantadora, Lucan. Esperava que fosse tua.
       Deus, conhecia essa voz. Ouvia-a como procedente de algum lugar muito profundo,
enterrado em sua memria.
       Do passado longnquo.
       Um nome lhe formou na mente, cortante como o fio de uma espada.
       No, no era possvel que fosse ele.
       Impossvel...
       Concentrou-se para sair dessa confuso momentnea, mas esse breve momento de
perda de concentrao lhe custou caro. Desde um dos lados, um par de renegados tinha
subido ao telhado do interior do psiquitrico lhe aproximava com sigilo. Com um gruido,
levantou a porta do helicptero e golpeou com o canto da mesma a Lucan na cabea.

     -- Lucan! -- chiou Gabrielle.
     -- No!
       Lucan estremeceu e uma das pernas lhe falhou. A arma caiu da mo e escorregou pelo
cho do telhado uns quantos metros, ficando fora de seu alcance.
       O renegado lhe deu um murro na mandbula com o enorme punho. Ao cabo de um
segundo, um golpe brutal lhe destroou as costelas. Lucan caiu ao cho, mas fez um giro e


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com o p embainhado na bota fez cair ao renegado ao cho. Precipitou-se sobre ele enquanto
tirava a faca que tinha embainhado no torso.
       A uns metros de ambos, a hlice do helicptero comeou a girar. O piloto se preparava
para levantar outra vez.
       No podia permiti-lo.
       Se permitia que Gabrielle se fosse desse coberto, no ficaria nenhuma esperana de
voltar a v-la viva nunca mais.
       --Nos tire daqui --ordenou o captor de Gabrielle ao piloto enquanto as hlices do
helicptero giravam cada vez mais depressa.
       Fora, arrastando-se pelo telhado, Lucan lutava contra o renegado que lhe tinha atacado.
Apesar da escurido, Gabrielle viu que outro mais se aproximava da porta de entrada ao
telhado.
     --OH, no --exclamou, quase sem respirao e sem poder mover-se por causa do
cortante fio de ao que lhe cravava na pele da garganta.

        O enorme macho se inclinou por diante dela para olhar o que estava acontecendo no
telhado. Lucan havia tornado a ficar em p e lhe abriu o ventre ao primeiro dos renegados que
lhe tinha atacado. O grito deste foi audvel inclusive apesar do forte rudo da hlice do
helicptero. Seu corpo comeou a convulsionar-se, a ter espasmos... A desintegrar-se.
        Lucan girou a cabea para o helicptero. Tinha os olhos cheios de furia, brilhavam-lhe
como duas pedras de mbar acesas com o fogo do inferno. Precipitou-se para diante, rugindo,
carregando com os ombros contra o veculo como um trem de carga.
        --Nos tire daqui agora mesmo! --gritou o macho que estava ao lado de Gabrielle, pela
primeira vez em tom preocupado.
        -- Agora mesmo, porra!
        O helicptero comeou a levantar-se.
        Gabrielle tentou apartar da faca apertando-se contra o respaldo do pequeno assento
traseiro. Se pudesse encontrar a maneira de lhe apartar o brao, possivelmente pudesse
alcanar a porta da cabine...
        O helicptero sofreu uma sacudida repentina, como se tivessem se chocado contra
alguma parte do edifcio. O motor pareceu gemer, esforado.
      O captor do Gabrielle estava furioso j.
      --Desapega, idiota!
      --Estou-o tentando, senhor! --disse o servente que se encontrava ante os mandos.
Levantou uma alavanca e o motor protestou com um terrvel grunhido.
        Houve outra sacudida, como se atirassem do aparelho para baixo, e todo o interior
tremeu. A cabine se inclinou por volta da frente e o captor do Gabrielle perdeu o equilbrio no
assento e deixou de lhe emprestar ateno durante um momento.

     A faca se separou de sua garganta.

       Com uma repentina deciso, Gabrielle se lanou para trs e lhe deu um pontap com as
duas pernas que lhe fez cair contra o respaldo do assento do piloto. O veculo se precipitou
para frente e Gabrielle trabalhou em excesso por alcanar a porta da cabine.


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       Esta se abriu de tudo e ficou aberta, pendurando das dobradias, depois do helicptero
tremia e se balanava. Seu captor se estava recompondo e estava a ponto de alcan-la outra
vez. Por causa do caos tinham caido os culos de sol. Olhou-a com um gelado olhos cinzas
cheios de malignidade.
       --Diga a Lucan que isto no terminou nem muito menos -- ordenou o lder dos
renegados, pronunciando as palavras em um assobio e olhando-a com um sorriso diablico.
       --Vai para o inferno --respondeu Gabrielle. Nesse mesmo instante, lanou-se para a
porta aberta e se deixou cair ao cho do telhado.
       Assim que a viu, Lucan soltou o trilho de aterrissagem do helicptero. O veiculo se
elevou repentinamente e comeou a dar voltas sobre si mesmo descontrolado enquanto o
piloto se esforava por domin-lo.
       Correu ao lado de Gabrielle e a ajudou a ficar em p. Passou-lhe as mos por todo o
corpo para assegurar-se de que estava inteira.
     --Est bem?
     Ela assentiu com a cabea.
     --Lucan, detrs de ti!
       No telhado, outro dos renegados se dirigia para eles. Lucan enfrentou a esse desafio
com agrado, agora que Gabrielle estava com ele; todos os msculos de seu corpo se
dispuseram a dar morte. Tirou outra faca e se aproximou da ameaa.

       A luta foi selvagem e rpida. Lucan e o renegado se enfrentaram em um mortal
combate corpo a corpo com os punhos e os fios das armas brancas. Lucan recebeu mais de um
golpe, mas era imparvel. O sangue de Gabrielle ainda tinha um efeito forte nele, e lhe dava
uma fria que lhe tivesse permitido enfrentar-se com dez competidores de uma vez. Lutou
com uma fora e uma eficincia letal, e acabou com o renegado com um corte vertical que lhe
atravessou o corpo.
       Lucan no esperou a ver o efeito do titnio. Deu-se a volta e correu para Gabrielle.
Assim que chegou, quo nico pde fazer foi toma-la entre os braos e abra-la com fora.
Pde ficar assim toda a noite, sentindo como lhe pulsava o corao e acariciando a pele suave.
       Levantou-lhe a cabea e lhe estampou um beijo forte e tenro nos lbios.
       --Temos que sair daqui, carinho. Agora mesmo.
       Sobre suas cabeas, o helicptero continuava subindo.
       O vampiro de primeira gerao que tinha capturado a Gabrielle olhou para baixo
desde atrs do cristal da cabine e dirigiu uma vaga saudao  Lucan, sorrindo enquanto o
veculo subia no cu noturno.
       --OH, Deus, Lucan! Estava to assustada. Se tivesse acontecido algo...
       O sussurro de Gabrielle lhe fez esquecer completamente a seu inimigo que escapava. A
nica coisa que lhe importava era que ela era capaz de lhe falar. Que respirava. Gabrielle
estava com ele, e esperava que pudesse continuar estando ao seu lado.
       --Como demnios lhe capturaram? --perguntou-lhe com voz tremente e tom urgente
a causa do medo que havia sentido.

       --Depois de que voc partiu do complexo esta noite, precisava ir e pensar. Fui para
casa. Kendra apareceu. Tinha a Jamie como refm em um carro que se encontrava fora. No


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podia deixar que lhe fizessem mal. Kendra , era, uma servente, Lucan. Mataram-na. Minha
amiga est morta.
      --Gabrielle soluou de repente.
      -- Mas pelo menos Jamie escapou. Agora est em algum lugar do centro da cidade,
provavelmente aterrorizado. Tenho que lhe encontrar e lhe dizer que tudo est bem.
        Lucan ouviu o som grave do helicptero que continuava subindo por cima de suas
cabeas. Alm disso, tinha que fazer a Niko o sinal de que voasse esse lugar antes de que os
renegados tivessem a oportunidade de escapar.
        --Vamos daqui, e logo me encarregarei do resto.
        Lucan tomou a Gabrielle pelos braos.
        --Segura em mim, carinho. Com toda a fora que possa.
        --De acordo. -- pendurou-se os braos ao redor do pescoo.
        Ele voltou a beij-la, aliviado de t-la entre os braos.
        --No te solte em nenhum momento -- disse-lhe, olhando os olhos brilhantes e
formosos de sua companheira de raa.
        Ento se colocou na beirada do edifcio e se deixou cair com ela em seus braos, com
toda a suavidade de que foi capaz, at o cho.
        --Lucan, me diga algo, cara! --chamou-lhe Nikolai pelo auricular.
        -- Onde est? Que merda est acontecendo a?
        --Tudo vai bem --respondeu ele, enquanto levava a Gabrielle pelo escuro terreno
coberto de grama da propriedade em direo ao ponto onde se encontrava o veculo de
vigilncia esperando.
      -- Agora tudo est bem. Apura o detonador e acabemos com isto.

     Gabrielle estava encolhida sob o forte brao de Lucan quando o veculo de vigilncia
subia pela rua que conduzia ao terreno do complexo. Ele a tinha obstinado ao seu lado desde
que escaparam da zona do psiquitrico e lhe havia coberto os olhos enquanto todo o
complexo de edificios voava pelos ares como uma infernal bola de fogo.
       Lucan e seus irmos tinham conseguido: tinham acabado com o quartel general dos
renegados com um incrvel golpe. O helicptero tinha conseguido escapar a exploso e se
desvaneceu no cu, envolto na fumaa negra e escondida no cu da noite.
       Lucan estava pensativo: olhava para fora dos cristais escuros dos guichs para cima,
para a abbada de estrelas. Gabrielle tinha visto sua expresso de surpresa, de incredulidade e
de atordoamento, quando se encontrava no telhado e abriu a porta da cabine de comando do
helicptero.
       Foi como se tivesse visto um fantasma.
       Inclusive nesse momento, Lucan continuava com esse estado de nimo, enquanto
entravam no terreno e Nikolai conduzia em direo  garagem. O guerreiro deteve o carro
uma vez que estiveram dentro da enorme garagem. Quando desligou o motor, Lucan falou
por fim.
       --Esta noite conseguimos uma importante vitria contra nossos inimigos.
       --Porra , sim --assentiu Nikolai.
       -- E vingamos a Conlan e a Rio. Teria-lhes encantado estar ali para ver voar esse lugar.
       Lucan assentiu na escurido do veculo.


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      --Mas no nos equivoquemos. Estamos entrando em uma nova fase do conflito com os
renegados. Agora  a guerra, mais que nunca. Esta noite agitamos o ninho de vespas. Mas ao
que necessitvamos capturar, seu lder, continua vivo.

        -- Deixemos que corra. J lhe apanharemos --disse Dante, com expresso de
confiana.
        Mas Lucan negou com gesto srio.
        --Este  distinto. No nos por isso fcil. Antecipar-se a nossos movimentos.
Compreende nossas tticas. A Ordem vai ter que fortalecer as estratgias e aumentar o
nmero de seus guerreiros. Temos que organizar alguns quadros mais que ainda esto
dispersados pelo mundo, conseguir mais guerreiros, quanto antes melhor.
        Gideon se deu a volta no assento dianteiro.
        --Cr que  o vampiro de primeira gerao da Costa Oeste quem est  frente dos
renegados?
      --Estou seguro --reps Lucan.
      Estava no helicptero, no telhado, esta noite, onde tinha a Gabrielle. --Acariciou-lhe o
brao com um afeto tenro, e fez uma pausa para olh-la, como se sua s viso lhe
tranqilizasse de algum jeito.
      -- E esse bode no  um renegado: no agora, se  que o foi em algum momento. Uma
vez foi um guerreiro, como ns. chama-se Marek.
        Gabrielle sentiu uma quebra de onda de frieza que procedia da terceira fila de assentos
do veculo de vigilncia e soube que Tegan estava olhando a Lucan.
        Lucan sabia tambm. Girou a cabea para olhar ao outro guerreiro aos olhos.
        --Marek  meu irmo.



     Captulo trinta e quatro

     A carga da revelao de Lucan ainda lhes pesava enquanto saam do veculo e subiam ao
elevador do hangar para baixar ao complexo. Seu amado, Gabrielle entrelaou os dedos da
mo com os dele enquanto baixavam. Sentia o corao comocionado e cheio de compaixo; ele
a olhou e ela soube que ele percebia a preocupao em seus olhos.
       Gabrielle observou que seus irmos guerreiros tambm tinham expresses de
preocupao similares nos olhos e que, silenciosamente, haviam dado conta do significado do
que tinham descoberto essa noite.
       Chegaria o momento em que Lucan teria que enfrentar-se com a necessidade de matar
a seu prprio irmo.
       Ou de que seu irmo matasse a ele.
       Gabrielle ainda no tinha conseguido aceitar a frieza desse fato no momento em que as
portas do elevador se abriram e se encontraram ante o Savannah e Danika, que tinham estado
esperando com ansiedade a volta dos guerreiros. Houve bem-vindas cheias de alvio, muitas
pergunta sobre o resultado da misso dessa noite, assim como de por que Gabrielle partiu do
complexo sem dizer nenhuma palavra a ningum. Gabrielle estava muito cansada para
responder, demasiado esgotada depois dessa terrvel experincia para tentar sequer expressar
o que sentia.

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        Mas sabia que logo teria que oferecer algumas respostas, a Lucan ao menos.
        Os guerreiros se afastaram em meio de uma discusso sobre tticas e novas estratgias
de batalha contra os renegados. Savannah e Danika empurraram imediatamente a Gabrielle
em direo contrria, que se mostraram preocupadas com seus vrios arranhes e contuses e
insistiram em que comesse e se desse um comprido banho quente.

       Gabrielle concordou a contra gosto, mas nem sequer as incrveis habilidades culinrias
de Savannah nem o fragrante vapor do banho que lhe prepararam logo conseguiram relax-la.
       A mente no parava de lhe dar voltas em relao a Lucan, Jamie e tudo o que tinha
acontecido essa noite. Devia a vida a Lucan. Amava-lhe mais que a nenhuma outra coisa e
sempre lhe estaria agradecida por hav-la resgatado, mas isso no trocava o que sentia a
respeito de como foram as coisas entre ambos. No podia permanecer no complexo dessa
forma. E no importava o que lhe dissesse, no tinha inteno de ir a nenhum dos Refgios
Escuros.
       Ento, que possibilidade ficava? Tampouco podia voltar para seu apartamento. Sua
velha vida j no era possvel. Voltar para ela significaria que teria que negar tudo o que tinha
experimentado com Lucan durante essas ltimas semanas e esforar-se por lhe esquecer. Teria
que negar tudo o que agora sabia sobre si mesmo, e sobre sua conexo com a raa.

       A verdade era que no sabia qual era seu lugar agora. No sabia por onde comear a
procurar, mas depois de dar voltas pelo labirinto de do complexo, Gabrielle se encontrou em
p ante a porta das habitaes privadas de Lucan.
       A porta que dava  habitao principal estava aberta e uma suave luz saa de dentro.
Gabrielle a empurrou e entrou.
       A luz de umas velas iluminava o dormitrio adjacente. dirigiu-se para essa luz
ambiental at que esteve na porta de entrada e parou ali, maravilhada do que viu. O austero
dormitrio de Lucan se havia convertido em um pouco sado de um sonho. Havia um castial
de intrincada prata em cada esquina. A cama estava coberta por um cobertor de seda
vermelho. No cho, diante da chamin, havia um monto de almofadas e sedas carmesins.
Era to romntico, to acolhedor.
       Era uma habitao pensada para fazer o amor.
       Deu um passo para o interior da habitao. A suas costas, a porta se fechou
brandamente sozinha.

      No, no de tudo sozinha. Lucan estava ali, em p, ao outro extremo da habitao e a
estava observando. Tinha o cabelo molhado pela ducha. Levava uma bata solta de cetim
vermelho que lhe caa at os tornozelos , e tinha um olhar quente nos olhos que se fundia no
Gabrielle.
       --Para voc --lhe disse, assinalando o romntico ambiente.
       -- Para ns, esta noite. Quero que as coisas sejam especiais para voc.
       Gabrielle se sentiu comovida, e imediatamente excitada ao lhe ver, porem no podia
suportar fazer amor depois de como tinham ficado as coisas entre eles.
       --Quando fui esta noite, no pensava voltar --lhe disse de uma distncia segura. Se
aproximava mais, no acreditava que tivesse a fora de lhe dizer o que tinha que dizer-lhe.


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       -- No posso voltar a fazer isto, Lucan. Necessito coisas de voc que voc no pode me
dar.
         --Me diga quais. --Foi uma ordem suave, mas uma ordem. Ele se aproximou dela com
passos cautelosos, como se notasse que ela podia lhe rechaar em qualquer momento.
         -- Me diga o que necessita.
         Ela negou com a cabea.
       --Do que serviria?
       Uns quantos passos lentos mais. Deteve-se um metro de distncia dela.
       --Eu gostaria de sab-lo. Tenho curiosidade do que me custaria convencer-te de que
fique comigo.
       --Para passar a noite? --perguntou ela em voz baixa, odiando a si mesmo por quanto
precisava sentir os braos dele ao redor de seu corpo depois de tudo o que lhe tinha
acontecido durante essas ltimas horas.
       --Quero-te, e estou disposto a te oferecer algo, Gabrielle. Assim me diga o que  o que
necessita.

        --Sua confiana --lhe disse ela, pedindo uma coisa que sabia que se encontrava fora de
seu alcance.
        -- No posso... fazer isto mais, se voc no confia em mim.
        --Eu confio em ti -- disse ele, com tanta solenidade que ela acreditou.
     -- Voc  a nica que me conheceu de verdade, Gabrielle. No te posso ocultar nada.
Viu-o tudo: o pior, certamente. Eu gostaria de ter a oportunidade de te mostrar a parte boa
que h em mim. --aproximou-se um pouco mais. Ela notava o calor que emanava de seu
corpo. Notava seu desejo.
     -- Quero que se sinta to segura comigo como eu me senti contigo. Assim que a
pergunta : pode confiar em mim, agora que sabe tudo a respeito de mim?
      --Sempre confiei em ti, Lucan. Sempre o farei. Mas no  isso...
      --Pois o que, ento? --perguntou ele, interrompendo sua rpida negativa.
      --Diga-me que mais posso te dar para fazer que fique.
      --Isto no vai funcionar --disse ela, retrocedendo um pouco.
      -- No posso ficar. No desta maneira. No agora que meu amigo Jamie...
      --Est a salvo. --Ao ver que lhe olhava com expresso de confuso, acrescentou--:
Mandei a Dante ao exterior assim que chegamos para que fosse lhe buscar. Faz uns minutos
que retornou e me informou que achou seu amigo em uma delegacia de polcia do centro da
cidade e o levou a casa.
        Gabrielle sentiu que o alvio a embargava, mas imediatamente a preocupao o
substituiu.
        --O que lhe disse Sante? Apagou-lhe a memria?
        Lucan negou com a cabea.
        --Pensei que no era justo que eu tomasse esta deciso por ti. Dante simplesmente
disse que voc tambm estava a salvo e que lhe poriam em contato com ele muito em breve
para lhe explicar tudo. O que ditas lhe contar ao seu amigo  tua coisa. V-o? Confiana,
Gabrielle.

       --Obrigado --murmurou ela, sentindo-se reconfortada pela considerao.

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       -- Obrigado por me haver ajudado esta noite. Salvaste-me a vida.
       --Ento, por que me tem medo agora?
       --No te tenho medo --reps, mas estava se separando dele, quase sem dar-se conta
disso, mas a cama, que tinha detrs, bloqueou-lhe a escapatria. Em um instante ele esteve
diante dela.
       --Que mais quer de mim, Gabrielle?
       --Nada --disse ela, quase em um sussurro.
       --Nada absolutamente? --perguntou ele em tom grave e exigente.
       --Por favor, no me faa desejar ficar esta noite quando amanh vais desejar que v.
Deixa que v agora, Lucan.
       --No posso fazer isso. --Tomou uma mo e a levou aos lbios. Gabrielle sentiu a
calidez e a suavidade de seus lbios nos dedos e sentiu que era presa de um encantamento que
somente ele podia lhe fazer. Ele levou a mo dela contra o peito, apertando a palma contra o
mesmo, sobre o batimento de seu corao contra as costelas.
       -- No poderei te deixar partir nunca, Gabrielle. Porque o queira ou no, tem meu
corao. Tem meu amor, tambm. Se o aceitar.
       Ela tragou saliva com dificuldade.
       --O qu?
       --Amo-te. --Pronunciou as palavras em voz baixa e com sinceridade, como uma carcia
que ela sentiu no mais profundo do corao:
       -- Gabrielle Maxwell, amo-te mais que a vida. Estive sozinho durante muito tempo, e
no soube me dar conta at que quase foi muito tarde. --Deixou de falar e a olhou aos olhos
com intensidade.
       -- No ... muito tarde, verdade?

     Ele a amava.

        Uma alegria, pura e brilhante, encheu-a para ouvir essas palavras do lbio de Lucan.
        --Volta a diz-lo --sussurrou ela, com a necessidade de saber que esse momento era
real, que isso ia durar.
        --Amo-te, Gabrielle. At o ltimo flego de vida que tenho. Amo-te.
        --Lucan. --Pronunciou seu nome com um suspiro, com lgrimas nos olhos que lhe
derramavam pelas bochechas.
        Ele a tomou entre os braos e lhe deu um beijo comprido, profundo e apaixonado que
fez que a cabea desse voltas e o corao queria levantar o vo. Sentia o sangue como fogo nas
veias.
        --Voc merece a algum muito melhor que eu --lhe disse com um tom de voz e
expresso reverente.
        -- Conhece meus demnios. Pode me amar... aceitar-me... Apesar de conhecer minhas
debilidades?
        Tomou o rosto com a mo e olhou, lhe expressando com os olhos todo o amor que
sentia.
        --Voc nunca foste dbil, Lucan. E te amarei seja como for. Juntos podemos superar
tudo.


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       --Voc me faz acreditar nisso. Deste-me esperana. --Com um gesto amoroso,
acariciou-lhe o brao, o ombro, a bochecha. Percorreu-lhe o rosto com o olhar enquanto o
acariciava com a mo.
       -- Meu Deus,  to deliciosa. Poderia ter a qualquer macho, da raa ou humano...
       --Voc  o nico a quem quero.
       Ele sorriu.



       --Que Deus te ajude, mas no o aceitaria se fosse de outra maneira. Nunca desejei de
forma to egosta como quero a voc neste momento. Seja minha, Gabrielle.
       --Sou-o.
       Ele tragou saliva e baixou os olhos como se de repente se sentisse inseguro.
       --Refiro-me para sempre. No posso aceitar menos que isso. Gabrielle, aceitaria-me
como companheiro?
       --Para sempre --sussurrou ela, tombando-se de costas na cama e trazendo-o para si.
       -- Sou tua, Lucan, para sempre.
       Voltaram a beijar-se, e esta vez, quando se separaram, Lucan alargou a mo at uma
magra adaga de ouro que estava na mesinha ao lado da cama. Aproximou-a de seu rosto.
Gabrielle se sobressaltou um pouco ao ver que ele
     Levava-se a folha at os lbios.
       --Lucan...
       Ele a olhava com ternura e seriedade aos olhos.
       --Voc me deste seu sangue para me curar. Voc me fortalece e me protege. Voc  a
nica que quero, e a nica que sempre necessitarei.
     Nunca lhe tinha ouvido falar com tanta solenidade. As ris de seus olhos comeavam a
brilhar, a plida cor cinza se misturava com a cor mbar e com a profundidade de sua
emoo.
       --Gabrielle, quer me fazer a honra de aceitar meu sangue para cerrar nosso vnculo?
       A voz de Gabrielle foi dbil.
     --Sim.

       Lucan baixou a cabea e levou a adaga at o lbio inferior. Logo a apartou e a olhou
outra vez: seus lbios brilhavam com o escuro sangue vermelho.
       --Vem aqui. Deixa que te ame --lhe disse, unindo seus lbios escarlates com os dela.
       Nada a teria podido preparar para o que sentiu ao provar pela primeira vez o doce
sangue de Lucan.
       Mais intenso que o vinho, instantaneamente embriagador, o sangue dele fluiu por sua
lngua com toda sua fora e seu poder. Sentiu que uma luz a alagava do mais profundo de seu
corpo e lhe oferecia uma pista do futuro que a esperava como companheira de Lucan. Encheu-
se de felicidade, ficou ruborizada desse calor, e sentiu uma alegria que nunca antes tinha
experimentado.
       Sentiu desejo, tambm.
       Mais intenso do que o havia sentido nunca.



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       Gabrielle emitiu um profundo gemido de desejo e empurrou a Lucan no peito para lhe
tombar de costas. Tirou a roupa em um instante, subiu em cima dele e lhe montou
escarranchada.
       O sexo dele se enervava diante dela, grosso e forte como a pedra. Os formosos
desenhos de sua pele tinham uma profunda cor prpura com uma tintura avermelhada e
adquiriam um tom mais profundo quando a olhava com desejo. Gabrielle se inclinou para
frente e passou a lngua pelas linhas sinuosas e intrincadas que lhe cobriam o corpo das coxas
at o umbigo e subiam at os msculos do peito e os ombros.
      Era dele.
      Esse pensamento foi ferozmente possessivo, primitivo. Nunca lhe tinha desejado tanto
como nesse momento. Ofegava e estava mida e desejava lhe montar com fora, lhe queimava
por dentro.

       Deus, era a isto ao que Savannah se referia quando dizia que um vnculo de sangue
intensificava o ato amoroso?
       Gabrielle olhava a Lucan com uma necessidade puramente carnal, quase sem saber por
onde comear com ele. Desejava lhe devorar, lhe adorar, lhe utilizar. Aplacar o incndio que
sentia dentro do corpo.
       --Deveria me haver avisado de que me tinha dado um afrodisaco.
       Lucan sorriu.
       --E arruinar a surpresa?
       --Ria, vampiro. --Gabrielle arqueou uma sobrancelha, tomou seu membro ereto e
deslizou a mo por ele at a base com um movimento comprido.
       -- Me prometeu a eternidade. Vais arrepender- te.
       --Ah, sim? --Mas foi mais um gemido estrangulado porque lhe montou e ele comeou
a mover-se com um rebolado de quadril desenfreado debaixo dela. Com olhos brilhantes,
olhou-a e mostrou as presas ao sorrir, uma amostra clara de que desfrutava dessa tortura.
        -- Companheira, acredito que me vai encantar que o tente.

     Fim



      Agradecimentos
        Toda minha gratido para minha agente, Karen Solem, por me ajudar a riscar a rota e
por sua navegao excepcional em todo tipo de condies.
        A minha maravilhosa editora, Shauna Summers, quem justamente merecia uma pgina
para ela como agradecimento por todo o apoio e o flego que me proporcionou, e por sua
esplndida viso editorial, com a que sempre encontra o corao de cada histria e ajuda a p-
lo em primeiro plano.
        Obrigado tambm a Dabbie Graves, por seus comentrios entusiastas, e a Jessica Bird,
cujo talento s se v superado por seu incrvel esprito.
      Finalmente, um agradecimento especial as que foram minhas musas auditivas durante
grande parte do processo de criao deste livro: Lacuna Coil, Evanescence e Collide, cujas
comovedoras letras e incriveis msicas nunca deixaram de me inspirar.


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